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domingo, 24 de abril de 2011

Claude Debussy (1862 - 1918)

É obviamente muito difícil senão impossível marcar a transição entre o romantismo e a música do século XX mas se o procurássemos fazer então certamente um dos capítulos mais interessantes e significativos dessa passagem seria desempenhado por Claude Debussy. Não nos apressemos no entanto e guardemos esta conversa para a conclusão.

Claude Debussy nasceu em Paris a 22 de Agosto de 1862 numa familia de pequena burguesia. O pai tinha uma loja de loiça e não vivia propriamente desafogado financeiramente. Debussy o mais velho de 5 irmãos começou a estudar piano no conservatório onde a sorte o fez encontrar Nadezhda von Meck (conhecida mecenas de Tchaikovsky) que o contratou como professor de piano dos seus filhos. Este facto proporcionou-lhe além da satisfação da óbvia necessidade material um contacto directo com músicos e intelectuais.

Em 1880 Debussy começa os seus estudos de composição com Ernest Guiraud tendo 4 anos mais tarde vencido o Prémio de Roma um reputado prémio que oferecia aos vencedores dois anos de estudos pagos em Roma. Apesar da reputação do prémio esses dois anos em Roma foram frustrantes para Debussy do ponto de vista criativo. A obra com que venceu o prémio, uma cantata chamada Enfant Prodigue não é também das mais representativas do talento ou do estilo de Debussy. dizem as más linguas que teve de ser suficientemente castrada para satisfazer os gostos tradicionais do júri. Ainda de 1880 é a composição Beau Soir (L6) uma das mais conhecidas dos primeiros anos. A primeira interpretação proposta é de Renne Flemming mas proponho igualmente uma outra de Barbra Streisand (de que gosto muito também, atenção é uma adaptação não pretende ser igual ... )

Lorsque au soleil couchant les rivières sont roses
Et qu'un tiède frisson court sur les champs de blé,
Un conseil d'être heureux semble sortir des choses
Et monter vers le coeur troublé.

Un conseil de goûter le charme d'être au monde
Cependant qu'on est jeune et que le soir est beau,
Car nous nous en allons, comme s'en va cette onde:
Elle à la mer, nous au tombeau.

Torna-se pianista acompanhador da classe de canto de Madame Moreau-Sainti onde conhece Marie Vasnier por quem se apaixona. É também na biblioteca dela que encontra obras de Verlaine que marcarão senão o inicio pelo menos o crescimento exponencial da influência da literatura na obra de Debussy. Aliás Paul Dukas diz que nada influenciou mais Debussy do que a literatura.

Em 1890 compõe Clair de Lune que faz parte da Suite Bergamasque (L75) para piano. Não resisto a mostrar-vos uma versão (uma transcrição excelente) para violino interpretada por David Oistrack.

Em 1894 é interpretada pela primeira vez "L´Aprés Midi d´un Faune" uma das suas obras mais significativas (nesta interpretação a Orquestra Sinfónica de Londres dirigida por Stokowski) - podem ouvir aqui a segunda parte desta fabulosa interpretação. Esta obra baseada num poema de Mallarmé descreve o acordar de um Fauno, ser mitológico meio humano e meio bode e as memórias voluptuosas dos seus encontros com as ninfas.

[...] ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux !
Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste :
Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison ? [...]

A propósito deste poema há quem o considere o expoente máximo da literatura francesa. Não conseguindo ser tão absoluto a forma e a melodia dos sons é na verdade perfeita, tão perfeita que qualquer tradução sofre bastante e por isso não ouso desta vez uma tradução.

Ainda em 1894 termina a composição da sua Ópera (a unica que escreveu) e que é também o seu primeiro trabalho sinfónico de grande dimensão Pelleas e Melisande . Esta obra apenas foi estreada em 1902 tendo tido uma recepção relativamente tumultuosa em grande parte pelo conflito com Maeterlink a quem Debussy tinha prometido que o papel de Melissande seria para a sua companheira Georgette Leblanc. Porém Debussy faltou à promessa entregando esse papel a Mary Garden.

O seu Quarteto de Cordas em Sol Menor data também  desta época (1893) sendo possivelmente o trabalho mais significativo de Debussy no que diz respeito à música de câmara.

Em 1899 rompe definitivamente com Gaby Dupont iniciando uma relação com Marie-Rosalie Texier com quem casa ainda nesse ano. Termina os seus Nocturnos para Orquestra que são interpretados em 1900 nos Concertos Lamoureux.

Em 1903 inicia a composição de La Mer que viria a terminar dois anos depois. Entretanto do ponto de vista pessoal apaixona-se por Emma Bardac dedicando-lhe Fêtes Galantes (L104 - Segunda série). Deixem-me aqui abrir um parenteses para vos falar de Léo Ferré que muito mais tarde haveria também de tentar musicar estes poemas de Verlaine. Se querem que vos diga sinceramente não consigo escolher qual a versão que prefiro. O exemplo que vos mostro é o Colloque Sentimental.

COLLOQUE SENTIMENTAL

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l’heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l’on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

- Te souvient-il de notre extase ancienne ?
- Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne ?

- Ton cœur bat-il toujours à mon seul nom ?
Toujours vois-tu mon âme en rêve ? - Non.

- Ah ! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches ! - C’est possible.

Qu’il était bleu, le ciel, et grand l’espoir !
- L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.

Apropriado exemplo porque a mulher de Debussy ao saber da traição  tenta o suicídio com um tiro no estômago e muitos dos amigos de Debussy afastam-se. Segue-se um doloroso processo de divórcio (Emma que também era casada também divorcia-se igualmente) findo o qual os dois casam (1908). Em 1905 nasce a única filha de Debussy que viria a falecer com 19 anos um ano após a morte do pai vitima de difteria. É também em 1905 que é finalmente completada La Mer e estreada também nos Concertos Lamoureux.

Em 1906 a vida do compositor francês cruza-se com Francisco de Lacerda (1869-1934) a quem confia a partitura "Festas de Polymnie" de Rameau que o editor Durand quer incluir na edição dos trabalhos completos do compositor. O maestro Ernst Ansermet defende que já antes os dois compositores teriam trocado correspondência sobre por exemplo o folclore espanhol e português e que este facto teria mesmo inspirado uma parte da obra Danças Sagradas e Profanas (1904).

Em 1908 Debussy pela primeira dirige uma obra sua precisamente La Mer uns dias antes de casar com Emma. Estreia-se nesse ano também Children´s Corner (aqui numa interpretação do próprio Debussy) dedicado à sua filha "chou-chou" começando também as dificuldades financeiras que o iriam atormentar nos últimos anos da sua vida. Contrariamente ao que o título pode dar a entender estas não são peças destinadas a ser executadas por crianças, são antes uma evocação das recordações de infância.

A sua saúde também não era a melhor e no ano seguinte começaram os primeiros sintomas do cancro no colon que lhe acabaria por ceifar a vida cerca de 9 anos mais tarde. Neste mesmo ano começa a composição  de uma obra baseada no conto de Edgar Allan Poe - A Queda da Casa de Uscher (traduzida para francês por Baudelaire). Como vos dizia há pouco a presença da literatura é uma constante na obra de Debussy. O compositor infelizmente faleceu demasiado jovem para nos mostrar tudo o que seria capaz.

Em 1910 assiste à estreia de Pássaro de Fogo de Stravinsky e os dois compositores encontram-se pela primeira vez. No ano seguinte a sua obra Ibéria é estreada em Nova Iorque por Mahler. Apesar do sucesso das suas obras as dificuldades financeiras acumulam-se e em 1912 Debussy é obrigado a pedir um empréstimo ao editor Durand. Apesar de uma actividade frenética ( Debussy volta à critica musical), continua a dirigir e a compor estas dificuldades não passam e em fins de 1913 com a doença da mulher Debussy chega a falar em suicídio.

Em 1915 avisa o seu editor que irá compor uma série de seis sonatas para vários instrumentos. Destas seis acabará apenas por compor três. Uma sonata para violoncelo e piano, uma sonata em trio (harpa, flauta e viola de arco) e mais tarde a de violino e piano. No fim de 1915 é ouvida pela primeira vez a Berceuse Heroïque (em homenagem ao rei Alberto I da Bélgica e seus soldados, não nos esqueçamos que entretanto se tinha iniciado a I Guerra Mundial) e ainda em Dezembro desse ano ouve-se pela primeira vez Noel des Enfants qui n´ont plus de maison (cujo enorme sucesso popular viria a irritar bastante Debussy).

O estado das finanças de Debussy pioram ainda mais em 1916 um tribunal decide contra ele e obriga-o a pagar a pensão devida a Lilly Texier (ex-esposa) que não pagava desde 1910. Talvez por isso a somar a todos os restantes trabalhos tinha aceite fazer a revisão da edição completa das obras de Chopin e das Sonatas de Bach para violino e piano que o editor Durand pretende publicar numa série de obras completas dos grandes compositores.

Em 1917 é interpretada pela primeira vez a sua sonata para Violino e Piano (Gaston Poulet ao violino e o próprio Debusssy ao piano). No final desse ano, em Setembro dá os seus dois últimos concertos em Biarritz. Debussy faleceu apenas alguns meses mais tarde a 25 de Março de 1918 no meio do bombardeamento de Paris na grande ofensiva alemã da primavera desse ano. Debussy faleceu portanto sem ver o fim da primeira guerra mundial que tanto o havia deprimido.

A obra de Debussy é impossível de definir. É provavelmente um dos mais originais compositores de sempre. O caminho que escolheu é ímpar na história da música. Existem muitos que o classificam com sendo o equivalente do impressionismo na música e é verdade que as suas obras têm títulos que deixam entender um significado concreto, real das suas composições. Porém não deixa também de ser um romântico como é fácil de entender pelos poemas que musicou de praticamente todos os grandes vultos do romantismo francês. Como já vos disse neste curto texto por duas vezes mais do que a pintura Debussy foi fortemente influenciado pela literatura. Seria assim justo defini-lo mais como um romântico do que como um impressionista. Aliás o seu estilo de vida pessoal não deixa nada a dever aos grandes românticos que o precederam. Mas seria uma injustiça procurar defini-lo apenas dessa forma porque nos arriscaríamos então a ver Debussy apenas como um neo-romântico um compositor desfasado do seu tempo quando na verdade ele foi possivelmente dos mais progressistas compositores da história da música compondo muito antes de Stravinsky ou Schoenberg musica atonal ou destruindo a hegemonia da forma de Sonata recriando-a.

Debussy era um homem complexo e de ideias por vezes aparentemente contraditórias. Tanto nos dizia que a música deveria ser tão hermética que deveria ser quase uma cabala como defendia a sua simplicidade com o o seu contemporâneo Satie. Uma coisa é certa nesse inicio do século XX criaram-se duas escolas de modernidade. A Vienense verdadeiramente hermética e sombria e a Parisiense aparentemente simples e luminosa ... pelo menos é isto que eu penso, como também deve ser claro para vós para que lado se inclina a minha simpatia ...

Para terminar melhor só com música e por isso deixo-vos com um dos meus poemas preferidos. Il pleut sur mon coeur de Verlaine que Debussy musicou em 1887 (aqui numa fantástica interpretação de Teresa Stich-Randall, duvido muito que encontrasse outra melhor ...)

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Alfredo Keil (1850-1907)

Alfredo Keil (1850-1907) Em comemoração do centésimo aniversário da Implantação da República e como tínhamos prometido ontem (antes que se levantem as vozes dos  meus amigos monárquicos digo-vos desde já que embora republicano sou em absoluto a favor de um referendo, afinal de contas a República foi implantada  através de um processo revolucionário e nunca foi sufragada) vamos hoje, como prometemos aqui, falar do compositor Alfredo Keil o autor do nosso hino (da melodia) o poema sendo de Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931).

Alfredo Keil nasceu em Lisboa a 3 de Julho de 1850 filho de dois cidadãos alemães radicados em Portugal. O pai alfaiate da corte rapidamente adquire fortuna graças ao seu talento quer na costura quer na condução de negócios imobiliários permitindo assim que Alfredo Keil beneficie de uma educação esmerada primeiro em Portugal onde estudou com António Soller e com o pianista Húngaro Oscar de la Cinna.

Alfredo Keil foi um artista verdadeiramente multi-facetado. Foi um pintor prolifico tendo deixado mais de 2000 obras. Muitas vezes (demasiadas em meu entender) acusado de ser um diletante e um simples amador muito possivelmente pela diversidade dos seus interesses, acreditamos que é demasiado simplista e injusta semelhante afirmação. Não só porque a sua educação superior na Academia de Belas Artes de Nuremberga e depois com Luppi quando  volta a Lisboa não o deixa supor mas sobretudo porque a sua obra embora parecendo um pouco deslocada no tempo na verdade tanto na pintura como na música mais do que simplesmente romântica é precursora do nacionalismo, facto que seria de todo injusto não reconhecer.

Enquanto compositor as suas obras mais conhecidas são as três óperas D. Branca (1883), Irene (1893) e Serrana (1899) a primeira ópera escrita em Português e considerada então a melhor ópera portuguesa. esta ultima ópera além do mais incluindo elementos estilizados de folclore português é, apesar da sua aparente configuração romântica, uma verdadeira obra "nacionalista" no sentido que marca o inicio de uma escrita clássica portuguesa. Também nesta dimensão seria completamente injusto não reconhecer este facto.

Tal como também é profundamente injusto reduzir este compositor ao hino e a estas três óperas. Alfredo Keil escreveu várias belíssimas obras para piano, na mais profunda tradição romântica é verdade. Proponho-vos que ouçam a nossa ministra da cultura Gabriela Canavilhas numa interpretação do Op. 9 Murmúrios nº 2. Nas obras para piano e voz proponho o Op. 101 Canção do Cego (também com Gabriela Canavilhas ao piano e com a Soprano Ana Ferraz). Aliás o disco da Numérica Keil - Canções e Obras para Piano recomenda-se. Isto claro além da conhecida Marcha Fúnebre ou da Marcha de Gualdim Pais que seria o argumento final para fixar definitivamente Alfredo Keil como o precursor do nacionalismo musical português como aliás é referido no dicionário de música Grove Music Online que creio dispensa apresentações (aqui falando da ópera Serrana - a propósito libretto de Henrique Lopes de Mendonça baseado em obra de Camilo Castelo Branco "Como ela Amava"):

"Serrana was also seen by critics as the most successful of his attempts, and the most successful attempt of any composer up to that time, to create a Portuguese musical idiom, and for these reasons he is usually granted the position of founder of Portuguese national opera."

Menos conhecida mas não menos notável e precisamente reveladora do espírito de recolha musical e da envergadura da sua visão foi a sua coleção de instrumentos antigos que infelizmente foi parcialmente dispersa após a sua morte. Uma parte desta coleção encontra-se em exibição no Museu da Música (para quem não sabe fica na Estação de Metro do Alto dos Moinhos em Lisboa) de que obviamente se recomenda a visita.

D. Branca uma das óperas que mencionamos depois de mais de um século voltará ao S. Carlos. A ultima recita será hoje 5 de Outubro às 16h. Será possivelmente tarde demais para a maioria de vós mas se puderem não deixem de ir ...

Alfredo Keil faleceu em Hamburgo a 4 de Outubro de 1907. Curiosamente antes da implantação da República e antes de ver a sua composição ser escolhida para Hino Nacional. Não sabemos se aprovaria a escolha ...

domingo, 31 de janeiro de 2010

Charles Valentin Alkan (1813 - 1888)

Charles-Valentin Alkan foi sem dúvida um compositor do período romântico. Não só por ter sido contemporâneo de Chopin ou Liszt mas também porque a sua vida foi vivida com grandeza, eloquência de sentimentos, paixões e mistérios.

Nasceu em Paris no seio de uma família judaica a 13 de Novembro de 1813. Começou por ser uma criança prodígio tendo entrado no Conservatório de Paris com 6 anos e aos 11 ganha o primeiro prémio de solfejo na classe de Zimmermann. Coleccionaria nesse mesmo conservatório mais uma meia-dúzia de primeiros prémios nas classes de piano, composição e órgão entre outros.

Alkan era considerado um dos pianistas mais virtuosos da sua geração sendo até comparado a Chopin e Liszt o que penso diz tudo quanto à sua capacidade enquanto instrumentista. A esse propósito poderemos por exemplo socorrer-nos da opinião de George Sand "plein d'idées fraîches et originales, musicien savant. Aliás a história entre Chopin, George Sand e Alkan e um suposto filho deste ultimo é um tópico que só por si mereceria um post ao estilo de uma novela.

Certo é que a vida de Alkan (que nunca se casou) é entre-cortada por longos períodos durante os quais desapareceu completamente da vida pública e artística. Talvez por isso a sua obra, também largamente composta para piano como a de Chopin se tenha mantido praticamente desconhecida. E não fosse o trabalho de alguns pianistas como por exemplo Ronald Smith (1922- 2004) presidente da Sociedade Alkan (site que aliás reomendamos se quiserem saber mais sobre este compositor) e muito menos seria conhecida.

Há pelo menos uma meia dúzia de obras que mereceriam mais reconhecimento, claro que o carácter extraordinariamente virtuosistico de quase todas elas não facilita a sua interpretação mais frequente em salas de concerto. Em primeiro lugar propomos que oiçam a Sonata : "Les Quatre Ages" (Op. 33) que procura descrever as quatro idades do homem, podem ouvir aqui a primeira parte. Depois fazendo parte do Op. 39 temos o Concerto para Piano Solo e a Sinfonia para Piano Solo . Este Op. 39 é muito curioso porque na realidade é intitulado 12 estudos em todos os modos maiores ... (alias os três andamentos do concerto seguem tal como os da sinfonia uma lógica de progressão de tonalidade coincidente com o objectivo).  Antes que me perguntem sim também publicou um conjunto de estudos para as tonalidades maiores precisamente o Op. 35 de que podem ouvir aqui o nº 3 em Sol Maior.

Alkan faleceu em paris a 29 de Março de 1888 mas contrariamente à lenda  não faleceu esmagado pela queda da sua biblioteca quando procurava o Talmud mas antes terá sucumbido vitima de uma indisposição que fez cair um pesado móvel em que teria procurado encontrar apoio.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Robert Schumann (1810-1856) - Quarta Parte

Os ultimos anos da vida de Robert Schumann não tendo sido propriamente felizes foram no entanto extraordinariamente criativos e sobretudo muito variados nas formas que assumiram.

Nesse período foi director musical em Dusseldorf cargo de que acabou por ser despedido em função da sua crescente demência (faltava aos concertos, dirigia depois da música ter terminado, ... )

No que diz respeito à composição dessa época data o Concerto para Violoncelo (Op. 129) em Lá Menor (1850) , o concerto para Violino (WOo 23) em Ré Menor (1853), a sonata para Violino nº1 (1851) e ainda partes de Fausto (WOo 3) cujos ultimos elementos datam de 1853.

Em 1854 foi internado num asilo a seu pedido, por receio de fazer mal à sua mulher Clara. Clara apenas o foi visitar uma vez ao asilo embora as razões para isso não estejam totalmente esclarecidas. Há quem pense que isso se deve ao facto dos amigos do casal terem escondido a verdadeira condição de Schumann a Clara, há quem pense por outro lado que isso resultou apenas da falta de vontade de Clara para o fazer.

Certo é que Clara o visitou no dia 27 de Julho de 1856 dois dias antes do seu falecimento a 28 de Julho de 1856. Para ilustrar esta parte da vida de Schumann propomos que oiçam uma parte de Fausto (WOo 3) pela Filarmónica de Berlim em 1994. A canção que propomos é adequadamente intitulada "Welch ein Morgenwölkchen schwebet" numa tradução que não garanto totalmente seria "Uma nuvem que paira sobre amanhã".

domingo, 23 de agosto de 2009

Robert Schumann (1810-1856) - Terceira Parte

Poderão ler a quarta e ultima parte desta biografia neste outro post.

Depois daquele primeiros anos do casamento os anos seguintes foram possivelmente os mais tranquilos e felizes para Schumann. Isso reflecte-se no trabalho realizado até 1850 data em que as perturbações psicológicas que o levariam à morte começaram a manifestar-se. Este é o terceiro de uma série de posts sobre o compositor. Pode ler sobre o Ano das Canções a segunda parte desta biografia.

Na realidade mesmo em 1845 durante e imediatamente após a tournée à Russia com a mulher Clara o compositor sofreu uma crise depressiva que prenunciava o que viria a acontecer mais tarde.

Em 1841 compõe a sua primeira sinfonia e em 1842 dá-se o primeiro de alguns problemas no seu casamento com Clara. Na verdade Schumann nunca conseguiu lidar bem com o sucesso da sua mulher sobretudo quando este era maior do que o seu. Aliás o episódio que relatamos na Rússia foi em grande parte motivado por esse tipo de "ciúme".

Os anos seguintes foram quase todos subordinados a um "tema" um pouco como se Schumann se concentrasse num tipo de composição de cada vez. Em 1842-1843 foi a música de camâra, depois o oratório e por fim a tal viagem á Russia e a depressão que se seguiu.

Nos anos seguintes esteve durante muito tempo concentrado na selecção de um libreto para uma ópera que acabou por concluír em 1848. Note-se que aqui como em muitas outras actividades Schumann era profundamente inovador tendo planeado suprimir os recitiativos que considerava destruirem a estética conjunta da música e do poema. A ópera acabou por ser um fracasso e Schumann desisitiu completamente do género.

Deste período tenho alguma dificuldade em seleccionar uma obra mas porque é tõa raramente ouvida seleccionei uma ária da referida ópera Genoveva por Lucia Popp que em meu entender demonstra o incrivel sentido para a melodia de Schumann que ao procurar misturar de forma perfeita e complementar música e poesia foi também desse ponto de vista inovador.

sábado, 22 de agosto de 2009

Robert Schumann (1810-1856) - Segunda Parte

Poderão ler a terceira parte desta biografia neste outro post.

Poderão ler a primeira parte desta biografia de Robert Schumann aqui. Chegamos então aos anos mais felizes da vida de Schumann aqueles em que após uma longa batalha legal com o pai de Clara, Wieck que inclusivamente não se coibiu de chamar bêbado ao compositor.

Devido às artes de protelação em que se tornou mestre Wieck conseguiu adiar qualquer decisão até 1841 altura em que o tribunal acabou por decidir a favor de Schumann tendo por essa altura Clara atingido a maioridade.

Esse ano 1840-1841 é chamado "Lieder yahr" ou o "ano das canções" numa tradução um tanto livre. O facto é que durante este período Schumann praticamente apenas criou este tipo de composição, num total de mais 150 obras. As razões para esta quase exclusividade não são totalmente claras sendo possivelmente uma mistura de vários factores. Em primeiro lugar uma razão financeira. Este era o género mais facilmente vendável e Schumann precisava de provar que podia ter uma vida estável. Em segundo lugar este também era o género em que Schumann estava mais próximo do papel de poeta.

Aliás é curiosos que Schumann considerava em termos estéticos que era indispensável um grande poema para uma grande canção e que a música desse ponto de vista era "apenas" um suporte uma espécie de catalisador das emoções do poema.

É difícil distinguir desse período algumas obras porém o Op. 24 LiederKreis (Textos de Hein), o Op. 39 Liederkreis (textos de Eichendorf), Frauenliebe Op. 42 (textos de Chamisso) ou DietcherLiebe op. 48 (textos de Heine) são algumas das composições de que falaremos mais tarde.

Por agora propomos que oiçam Seit ich ihn gesehen (Since I saw him) do Op. 42 pela interprete Lorraine Hunt Lieberson acompanhada por Julius Drake (piano).

Since I saw him
I believe myself to be blind,
where I but cast my gaze,
I see him alone.
as in waking dreams
his image floats before me,
dipped from deepest darkness,
brighter in ascent.

sábado, 8 de agosto de 2009

Robert Schumann (1810-1856) - Primeira Parte

Poderão ler a Segunda Parte desta biografia de Robert Schumann neste outro post.

Robert Schumann nasceu em Zwickau a 8 de Junho de 1810 tendo relativamente cedo demonstrado talento para o canto tendo começado a ter lições aos cinco anos. Uns anos mais tarde aos sete iniciou-se no piano. Apesar disso Schumann não foi incentivado (com excepção do pai que faleceria quando Schumann tinha 16 anos) a seguir a carreira musical antes tendo estudado literatura e direito.

Já em Leipzig para onde foi estudar Direito (mas onde se diz pouco frequentou as aulas) apaixonou-se pela música de Schubert que considerava equivalente à poesia. Por essa altura já tinha aulas de Piano com Wiener e também compunha inspirando-se na música de Schubert sempre. Estavamos agora em 1830 e Schumann pensava essencialmente vir a ser um pianista não um compositor. Quis no entanto o destino que contraísse uma lesão no quarto dedo da mão direita a razão da qual permanece um mistério (as várias teorias existentes só por si são um tema suficiente para um post).

Facto é que foi esse incidente que fez com que Schumann mudasse o seu foco para a composição de que Papillons (Op. 2) foi o primeiro exemplo. Porém este caminho não se iria revelar nada fácil. Alguns pequenos sucessos não chegavam para evitar alguma ansiedade que viria a ser potenciada pelo falecimento do seu irmão e cunhada em poucos meses durante o ano de 1833 levando Schumann a sua primeira crise de desespero.

Em 1834 Schumann, entretanto recuperado desse período iria iniciar no jornal Neue Leipziger Zeitschrift für Musik (um pouco mais tarde rebatisado por Schumann apenas Neue Zeitschrift für Musik quando este tomou controlo editorial do mesmo na sequência de desentendimentos entre os sócios), a outra faceta pela qual teve sem dúvida uma enorme influência na história da música: A actividade enquanto crítico e divulgador musical. Aliás já por algumas vezes neste blog citamos este jornal e os textos de Schumann.

Esta época foi também marcada pelo seu noivado com a jovem Ernestine von Vieken e consequente rompimento mas também pelo inicio da sua grande história de amor com Clara Wiek na altura com apenas 15 anos. A história seria interrompida pelo pai, ex-professor de Schumann durante uns anos.

Com tantas distrações não é para admirar que a produção de Schumann fosse relativamente escassa musicalmente falando. Facto é que conseguiu ainda assim compor a obra "Carnaval" (Op. 9) que será eventualmente uma das suas mais originais e geniais.

A impossibilidade de Schumann contactar a sua bem amada Clara viria a continuar até esta ser maior de idade em 1840 embora no entretanto se tenham correspondido dando origem a um conjunto de cartas aliás notável.

Em 1835, portanto no meio desta crise emocional, Schumann viria a conhecer Mendelssohn iniciando uma amizade que iria permanecer até à morte deste ultimo em 1847. Em 1837 compõe Fantasiestucke (Op. 12) que é tal como as duas obras que já mencionamos a "tradução" de uma história para música o que reflecte sem dúvida o gosto que Schumann tinha pela literatura e pela poesia.

Um ano depois em 1838 compõe Kinderszenen (Op. 15) (cenas da infância) que inclui a famosa Traumerei (Sonhando) com que vos deixo nesta primeira parte desta biografia de Schumann, nas mãos de Horowitz.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Kurt Atterberg (1887-1974) Actualizado com 1º Andamento da Sexta Sinfonia

Alguns dos compositores da nossa lista de sinfonias a votação são relativamente pouco conhecidos e por isso resolvemos falar um pouco deles e das obras que colocamos a votação. Começamos estas sessões de esclarecimento ou de tempo de antena precisamente por Kurt Atterberg que nasceu em Gotemburgo a 12 de Dezembro de 1887.

É um compositor cujo reconhecimento da obra foi muito prejudicado pelas multiplas e diversas actividades a que se dedicou. Caracterizado por um estilo fortemente influenciado pelo romantismo Atterberg dispunha de um forte sentido melódico e de um domínio bastante sofisticado das técnicas de orquestração o que, dizem as más línguas o levava por vezes a exagerar ...

A sinfonia que colocamos a votação, a sexta, é conhecida por ter ganho o prémio de composição atribuído por ocasião do 100º aniversário de Schubert em 1928 o que não deixa de ser um prémio adequado. Não encontramos no You Tube nenhuma performance desta sexta sinfonia mas prometemos que vos vamos encontrar uma. Por agora fiquem aqui com um extracto da Oitava sinfonia.

Como na verdade não havia nenhuma  interpretação da sexta sinfonia preparei-vos um vídeo com o primeiro andamento interpretado pela Orquestra Sinfónica de Norrkopping dirigida por Jun´ichi Hirokami. Podem ouvir este andamento aqui.

Atterberg faleceu em Estocolmo a 15 de Fevereiro de 1974.

sábado, 8 de novembro de 2008

Guilhermina Suggia (1885 - 1950) - Primeira Parte

Neste post vamos abordar a vida e discografia de Guilhermina Suggia a mais brilhante violoncelista portuguesa de sempre. Este post é a primeira parte deste especial dada a extensão do mesmo.

Guilhermina Suggia foi sem duvida uma das mais brilhantes violoncelistas da sua geração e provavelmente a primeira mulher a conseguir um estatuto de solista neste instrumento. Na época não era tarefa fácil, muito menos em Portugal onde o estatuto da mulher estava longe de ser um de igualdade. Nesse ponto o papel do pai de e de toda a família incluindo a irmã deve ser realçado dado que suportaram e tornaram possível o sonho de Guilhermina Suggia contra todas os estigmas da época que incluí o facto do Violoncelo ser considerado pouco adequado para as mulheres com argumentos que iam da suposta masculinidade do instrumento até à falta de decoro da posição em que se toca o instrumento. Na verdade no principio do século XX acreditem ou não as mulheres eram aconselhadas a colocar as pernas de forma diferente (um pouco como no montar a cavalo).

Porém o génio de Guilhermina Suggia supera em importância todos estes triunfos. Na verdade devemos celebrar muito para além da libertadora, a extraordinária música. É esse o sentido deste post.

Guilhermina Suggia nasceu a 27 de Junho de 1885 no Porto. O seu pai Augusto Jorge de Menim Suggia era Violoncelista profissional, no real Teatro São Carlos professor no conservatório de Lisboa e mais tarde no conservatório do Porto. Guilhermina tinha uma irmã três anos mais velha - Virgínia - notável pianista. O pai de Guilhermina foi naturalmente o seu primeiro professor sendo rapidamente notório o talento de Guilhermina que com a sua irmã rapidamente se tornaram conhecidas no ciclos culturais do Porto.

Em 1896 Guilhermina e a sua irmã estreiam-se no Teatro Gil Vicente no Porto num programa que incluía um andante de Haydn e variações. Depois disso vários outros concertos se seguiram impulsionados pela existência na cidade do Porto de uma forte promoção cultural liderada pelo violinista e maestro Bernardo Valentim Moreira de Sá.

É neste ambiente de efervescência cultural que com o Orfeão Portuense trás à Invicta cidade do Porto os maiores músicos de então que Pablo Casals (sim um dos outros nomes que estavam a votação) é contratado pelo casino de Espinho. O pai de Guilhermina arranja então maneira da menina prodígio então com 13 anos tocar para o já conceituado violoncelista então com 22 anos. Pablo Casals reconheceu de imediato o potencial da jovem tendo-lhe dado várias lições. Não se conhece exactamente o que Casals terá ensinado nessas aulas embora seja provável que tenha mostrado a Suggia as suites para Violoncelo de Bach e que a tenha confrontado com a forma francesa de tocar o Violoncelo mais "livre" do que a escola alemã com a qual Suggia estava habituada.

Em 1901 Guilhermina Suggia passa a fazer parte do Quarteto Moreira de Sá juntamente com o Violinista Bernardo Valentim Moreira de Sá o fundador do quarteto e impulsionador da vida cultural portuense e de quem já falamos, o violinista Henrique Carneira e o violetista Benjamin Gouveia. Este quarteto viria a dar mais de 50 concertos e esteve na base do sucesso de Guilhermina não só pelo que aprendeu mas também pelo facto de terem sido os sucessos destes concertos que levaram o grupo a ser convidado a tocar no Palácio das Necessidades para a Raínha Dona Amélia.

No fim desse concerto a Raínha terá perguntado à jovem Suggia qual o seu maior desejo ao que Guilhermina respondeu "estudar o violoncelo o melhor possível".

terça-feira, 4 de novembro de 2008

James Galway (1939-)

Uma grande parte deste post é baseado na autobiografia de James Galway.

James Galway nasceu em Belfast na Irlanda do Norte a 8 de Dezembro de 1939 numa família de recursos bastante modestos.

Os anos da sua infância e adolescência foram normais, bom tão normais quanto poderia ser uma infância em Belfast na segunda grande-guerra e imediatamente após. Tanto o pai como a mãe eram músicos embora não pudessem viver dessa actividade numa Belfast pobre e dividida (embora Galway negue que isso se tivesse repercutido no seu dia a dia). James era então um miúdo normal bastante irrequieto e audacioso (conta-nos como ia ficando sem um dedo numa experiência com munições) mas desde muito cedo fascinado pela música.

Esteve quase para aprender violino mas uma experiência pedagógica menos conseguida faz com que rapidamente se dedique à flauta. O pai embora sem uma educação musical formal foi instrumental no desenvolvimento musical do jovem Galway ao impor um ritmo de trabalho e de estudo e introduzindo-o a peças clássicas, embora de forma pouco ortodoxa.

Quando sentiu que tinha chegado o momento de um professor mais conhecedor soube encontra-lo por várias ocasiões. O primeiro foi Ardwell Dunning que o levou a ganhar o seu primeiro prémio o "Irish Flute Championship" que venceu com apenas 10 anos.

Este prémio fez perceber ao seu pai que o rapaz tinha um dom especial e por isso mais um vez o teimoso irlandês investigou tendo encontrado Muriel Dawn uma antiga cantora e vocalista e também professora de flauta que introduziu Galway ao método francês através do método de Marcel Moyse.

Foi Muriel Dawn que permitiu a James Galway tocar para Geoffrey Gilbert e para John Francis reputados professores em Londres e com quem James Galway iria estudar mais tarde. Na realidade isso aconteceu assim que Muriel conseguiu encontrar uma forma para que lhe fosse concedida uma bolsa de estudo.

Começou por estudar com John Francis no Royal College of Music e depois com Geoffrey Gilbert na Guilhall School of Music. James Galway não esconde que nos seus estudos musicais apreciou imenso a técnica mas muito pouco a teoria tendo tido problemas em qualquer uma destas escolas. Conta a autobiografia que todas as desculpas eram boas para faltar às aulas teóricas.

Mais tarde estudou também em Paris com os professores Gaston Crunelle e Jean Pierre Rampal tendo também tido lições privadas com Marcel Moyse (sim um dos outros flautistas que estavam na nossa votação). Galway não gostou muito de Paris embora reconhecesse que o conservatório funcionasse de uma forma diferente do ensino Inglês com muito maior enfase na competição entre os alunos. Galway achava que isso era bom porque permitia que cada um se esforçasse ao máximo.

Depois de terminados os estudos Galway embora sempre um pouco a contra-gosto começou uma carreira de em várias orquestras. Dizemos a contragosto porque este artista sempre exprimiu um desejo de fazer ouvir a sua própria voz, ou seja de abarcar uma carreira de solista. Foi no entanto aconselhado pelos seus amigos e professores a não o fazer. Note-se que nesta altura Rampal ainda mal tinha começado a recuperar a flauta como instrumento solista e efectivamente este tipo de carreira era um risco considerável.

Galway começou a sua carreira com a Philharmonia Orchestra tendo depois passado pela Sadler's Wells Opera (Covent Garden Opera) - que deixou pela necessidade de fazer música "a metro".

Tocou depois na London Symphony Orchestra e na Royal Philharmonic Orchestra tendo em 1969 decidido ir prestar provas para a Filarmónica de Berlim então dirigida por Karajan. As coisas estiveram quase para correr mal conforme podemos ler na sua autobiografia. Na verdade Galway inadvertidamente chegou atrasado (a hora da audição foi mudada sem que o tivessem avisado a tempo). Ora quando chega a Berlim dizem-lhe precisamente isso - que a audição já terminou e que já foi escolhido o primeiro flautista. Galway revolta-se e diz consegue na mesma a audição - tocando no auditório várias peças que lhe são pedidas sucessivamente.

No fim quando passado uns minutos lhe comunicam o resultado Galway diz que tendo sido maltratado não sabe se este é um sitio onde quer tocar. Acaba por voltar a Londres mas aceita o posto em Berlim onde acabaria por ficar até 1975.

A partir de 1975 após ter deixado a Filarmónica de Berlim James Galway dedicou-se então a uma carreira de solista que inclui várias gravações de vários géneros musicais. As suas participações na Rua Sésamo estão provavelmente na memória de muitos miúdos.

É "Sir" desde 2001 o que conhecendo o seu espírito rebelde não deixa de ser uma curiosa contradição. O que já não é uma contradição e está perfeitamente adequado a um homem que preza imenso as pessoas com quem aprendeu - os seus professores - é a sua luta para que melhore a educação musical na Inglaterra, e atreveria-me a dizer no mundo.

São famosas as suas Master Classes e o seu site oficial é um paraíso para quem está a aprender flauta pela quantidade de recursos presentes. É também notável o seu trabalho em várias fundações que procuram promover o ensino da música ou da flauta. É presidente da Flutewise desde 2003 (associação que empresta flautas a jovens com dificuldades financeiras) e membro fundador do Music Education Consortium que procura pressionar o governo britânico para melhorar a qualidade do ensino da música em Inglaterra.

Dos vários trabalhos e arranjos que publicou permito-me salientar,porque nos são culturalmente próximas, as Aria Bachianas Brasileiras No. 5 para Flauta e Piano de Heitor Villa-Lobos.

Para quem quiser ouvir o excelente som deste grande flautista nas suas gravações radiofónicas dos anos 60 o melhor é mesmo visitarem o site oficial e apontarem o vosso browser para aqui. Depois é só escolher entre Telemann, Prokofiev, Hindemith , ...

domingo, 2 de novembro de 2008

Brahms ( 1833 - 1897) - Uma Biografia (Primeira Parte)

Terminamos hoje a série de post sobre Brahms com uma biografia e uma recordação das suas obras principais. Como esta biografia é bastante extensa para tornar mais fácil a sua leitura vamos dividi-la em quatro partes. O que escrevemos nesta biografia é baseado nos trabalhos de John Lawrence Erb e H.C. Colles. Esta primeira parte descreve os primeiros anos de vida até ao encontro com os Schumann e o artigo que iria tornar Brahms famoso.

Brahms nasceu em Hamburgo a 7 de Maio de 1833. O pai Johann Brahms era um bom músico, tendo sido director musical na Orquestra Municipal (Stadt Theater). Segundo a biografia de o pai no inicio opôs-se a que Brahms seguisse a carreira de músico embora seja aparente que essa opinião se tenha modificado pouco a pouco. Nesses primeiros tempos, a mãe, dezassete anos mais velha que o pai foi o apoio que Brahms precisava.

Apesar do pai ser considerado como um dos melhores músicos de Hamburgo (estava entre os 40 melhores contrabaixo da Alemanha) a vida da família era dificil, vivendo em bairros pobres da cidade.

Brahms desde muito cedo demonstrou uma paixão pelo piano. Este facto é visível nas várias anedotas do quotidiano - diz-se por exemplo que tocava piano a quatro mãos com a sua mãe "apenas para se divertir" - mas também pelo facto do seu primeiro professor Otto Cossel logo aos dez anos ter-lhe recomendado um professor mais avançado Eduard Marxsen com quem iria estudar piano e composição durante largos anos.

Já nessa altura Brahms tinha também marcado o seu gosto pela composição. Na verdade mesmo ante de saber música Brahms inventou um sistema de notação próprio para fixar as melodias que inventava no piano ...

Em 1848, portanto com 15 anos apresenta-se pela primeira vez em público, aparentemente com a oposição inicial do seu professor. O programa incluía entre outras composições a sua Op. 1, uma sonata para piano baseada numa melodia popular, hábito que aliás Brahms manteria. Daria nessa altura mais dois concertos mas depois durante cinco anos não mais se apresentou em público utilizando o seu tempo para aperfeiçoar a sua técnica e arte de composição. Esta terá sido uma decisão imposta pelo seu professor Eduard Marxsen pelo que é justo dar a este homem uma parte do crédito de nos ter proporcionado tantos momentos de prazer com a música de Brahms.

Em 1953 Brahms inicia a sua primeira tournée acompanhando o violinista húngaro Edouard Remenyi. Até aí Brahms tinha passado alguns momentos difíceis tendo sido completamente ignorado enquanto compositor e conhecido um sucesso moderado enquanto pianista. Mas esta tour iria mudar tudo completamente.

A causa foi o famoso concerto em Gottingen onde deviam tocar a sonata para piano e violino Kreutzer de Beethoven. Acontece que o piano estava mal afinado (um meio tom acima) e que já não havia tempo para o afinar. Afinar o violino para o tom do piano arruinaria o efeito. Então Brahms propõe-se tocar a sonata meio tom acima transcrevendo de memória e em tempo real.

Quem dos nossos leitores for pianista saberá a dificuldade do que acabamos de descrever. Na prática, não é exactamente apenas isto mas permitam-me esta liberdade poética para conseguir explicar a natureza do virtuosismo, significa tocar a peça mentalmente lembrando-se da tecla a pressionar e mudando para a tecla imediatamente seguinte. As teclas pretas "contam" e por isso em vez de tocar numa branca Brahms teria que tocar na preta mais aguda imediatamente consecutiva - percebem? Isto tudo sem perder o sentido da musicalidade ...

Mas dizíamos este concerto iria mudar o destino de Brahms porque para sua fortuna o grande violinista Joseph Joachim estava entre a audiência e assim que o concerto acabou falou com os artistas, felicitando-os pelo concerto e propondo cartas de recomendação para a corte em Hannover e para Liszt. Em Hannover tudo parecia correr pelo melhor mas depois de um primeiro concerto que foi um sucesso a policia proibiu o segundo e expulsou os dois músicos para Weimar. Este facto segundo se veioa apurar mais tarde estava relacionado com Edouard Remenyi que sendo um nacionalista húngaro teria participado em actividades subversivas ...

Não restava outra hipótese que ir para Weimar onde de novo as coisas pareciam bem encaminhadas. No primeiro concerto Liszt estava entre a audiência e fica impressionado com o jovem pianista , tanto que o convida a visitar a sua residência no dia seguinte instigado por Remenyi.

Ao chegar à casa do mestre Brahms está de tal forma nervoso que se recusa a tocar mesmo depois Remenyi e o próprio Liszt insistirem. Liszt então pega no Shcerzo da Op. 4 de Brahms e interpreta-o de forma excepcional. Infelizmente um pouco depois a pedido dos presentes aceita tocar uma sonata que tinha acabado de compor recentemente e Brahms, fatigado de tanta viagem teria adormecido.

Embora Liszt nunca tenha cobrado essa falta de delicadeza a Brahms o facto é que os dois nunca cultivaram a partir daí grande ligação. Mais ainda é possível que tenha sido deste incidente que tenha resultado a grande animosidade dos Wagnerianos em relação a Brahms, embora nesse particular, sem nunca contarem com o apoio implicito ou explicito de Liszt.

No dia seguinte Brahms deixa Wiemar de novo para Gottingen onde espera obter a carta de recomendação que Joseph Joachim lhe havia prometido para Schumann. Terá de esperar até ao fim do verão aproveitando para assistir às aulas de Joachim. Em Setembro dirige-se então a pé de Gottingen a Dusseldorf a casa dos Schumann onde é recebido com o calor humano próprio da família Schumann.

Do ponto de vista artístico a primeira reacção de todos os que frequentavam a casa dos Schumann é em primeiro lugar de cepticismo. Porém assim que ouvem pela primeira vez Brahms interpretar uma peça de Schumann o sucesso é completo. O entusiasmo de Schumann materializa-se então num artigo que viria a ficar famoso não só pela polémica gerada mas porque iria lançar Brahms de forma definitiva ainda que atraindo ao mesmo tempo alguma má fé de alguns críticos. Nesse artigo Schumann dizia o seguinte (tradução minha a partir da versão em Inglês).

"Neue Bahnen" - Novos Caminhos

[...]
" e ele chegou, este jovem escolhido, ele sobre o qual as Graças e os Heróis parecem ter mantido a atenção. O seu nome é Johannes Brahms e vem de Hamburgo onde tem trabalhado em tranquilidade obscuridade com o seu excelente e dedicado professor nas partes mais delicadas da sua profissão. [...] Depois somos arrastados para um círculo encantado. Veio depois um momento de inspiração em que o piano se transformou numa orquestra cheia de vozes diferentes. Havia sonatas, ou antes sinfonias escondidas, canções cuja poesia se revela mesmo sem palavras enquanto em todas parece percorrer uma profunda melodia; melodias meio-demoníacas e formas mutantes; sonatas para violino e piano; quartetos de cordas e cada um destas criações tão diferente das restantes que pareciam provir de fontes diferentes. E depois como numa gigantesca cascata todas estas fontes unem-se e no vapor da queda formam-se arco-iris de paz onde rouxinois cantam as suas canções. [...]

domingo, 2 de dezembro de 2007

Biografia de Marc-Antoine Charpentier (1643-1704)

Para além de Couperin, Lully e Rameau o barroco francês conta com alguns outros compositores de relevo. Hoje vamos falar de Marc-Antoine Charpentier.

VIDA
Marc-Antoine Charpentier nasceu em Paris em 1643 tendo falecido em 1704.

OBRA

Marc-Antoine Charpentier foi ele também contemporâneo de Molière tendo também musicado algumas peças de teatro como por exemplo o Doente Imaginário transformando-as em óperas-ballet. Compôs também música incidental para peças de teatro quer comédias (por exemplo Medecin malgré lui de Molière) ou tragédias como por exemplo Andromède de Corneille.

Compôs 6 operas, várias pastorais e outras obras diversas. Porém é justo referir que terá sido na música sacra que mais soube exprimir o seu génio.

Há uma peça de Marc-Antoine Charpentier que ouvimos com frequência dado que é o Hino da eurovisão. Trata-se do prelúdio para o seu Te Deum. Proponho-vos aqui uma versão tocada por uma orquestra de alunos de instrumentos de sopro.



Como um outro exemplo das composições de música Sacra podem ouvir este Magnificat a quatro vozes verdadeiramente magnifico.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Biografia de Giovanni Baptista Pergolesi

Como viram o nosso blog mudou de aspecto este fim de semana ... agora temos três colunas o que nos permite ter mais alguns destaques e uma melhor navegação entre artigos, achamos nós.

Hoje depois das recomendações vamos falar ainda que de forma bastante resumida de Giovanni Baptista Pergolesi (iremos completando aos poucos estas curtas biografias sem nos esquecermos que o objectivo é mesmo que comecem a ouvir e a conhecer este género de música) ....

VIDA

Pergolesi nasceu a 4 de Janeiro de 1710. Viveu apenas 26 anos tendo falecido a 16 de Março de 1736 vítima de Tubercolose.

OBRA

Pergolesi escreveu na sua curta vida algumas óperas e outras peças laicas. Não obstante a sua Stabat Mater é sem duvida a obra mais conhecida e faz-nos pensar o que teria acontecido caso Pergolesi não tivesse falecido tão novo. Para ilustrar esta obra escolhi uma interpretação da Staatskapelle Dresden dirigida por Bertrand de Billy e gravada na Dresdner Frauenkirche . São solistas Anna Netrebko (Soprano) and Marianna Pizzolato (Mezzo Sopranno).



Comentário: Originalmente tinha escolhido esta outra interpretação que infelizmente foi removida do You Tube. Actualizei a entrada com um novo video. Claro que é uma boa questão se esta remoção ajudou algum músico, mas isso é conversa de um outro rosário.

Para ilustrar esta obra magnífica escolhemos uma interpretação de Emma Kirby com The Academy of Ancient Music/Cristopher Hogwood. Escusado será dizer que Emma Kirby mereceria só por si um post que ficará para amanhã ... Emma Kirby é sem duvida uma das grandes especialistas de música barroca (e mesmo renascentista penso).

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Biografia de Vivaldi

VIDA

Nascido em Veneza a 4 de Março de 1678.
Filho de um violinista (e barbeiro também, pasme-se) que lhe ensinou a tocar e que lhe apresentou Giovanni Legrenzi o maestro da Capela de São Marcos.
Foi ordenado Padre em 1704 embora nunca dissesse missa (conta a lenda que para isso inventou uma incapacidade física). Durante a maior parte da sua vida trabalhou no Ospedale della Pietà uma instituição para jovens (mulheres) sem pais ou simplesmente abandonadas pela sociedade. Foi para estas jovens que escreveu uma grande parte dos seus concertos e uma das razões principais pelas quais muitas das suas peças são efectivamente excelentes elementos de estudo.
Morreu em Viena a 28 de Julho de 1741.

A OBRA

Sendo sem dúvida mais conhecido pelas Quatro Estações de que pode ouvir aqui o primeiro andamento da Primavera (para uma descrição mais detalhada das quatro estações pode começar aqui e oiça pela ordem os 12 andamentos dos 4 concertos tocados por músicos e interpretações muito diversas), Vivaldi deixou uma extensa obra de mais de 400 concertos.

O conjunto de doze concertos intitulados "L´Estro Armonico" foram a obra que tornou Vivaldi conhecido no seu tempo (aliás deste conjunto de obras muitas iriam mais tarde ser transcritas por Johann Sebastian Bach - das dez transcrições que Bach fez de concertos de Vivaldi seis foram deste conjunto) . Pode ouvir aqui um dos andamentos destes concertos.

Sem duvida uma das vertentes menos conhecida da sua obra será a música sacra cantada. Poderá aqui ouvir Cecilia Bartoli e a Orquestra de Epoca "Il Giardino Armonico" a interpretarem Domine Deus (Gloria).

Vivaldi compôs também um sem número de óperas (os estudos divergem quanto ao seu número exacto. Na wikipédia diz-se que foram 46, outros autores falam em 19 obras completas). De todas a mais representativa será Orlando Furioso de que pode ouvir uma área aqui.

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