sábado, 30 de abril de 2011

Ravel (1875-1937) - Muito mais que um Bolero!

Ravel nasceu no País Basco francês a 7 de Março de 1875. A mãe era basca e dela ficou com o gosto pela cultura Basca e Castelhana. O pai era um engenheiro suiço, um inventor que chegou a notabilizar-se por algumas criações mecânicas relevantes. Do pai Ravel deverá ter possivelmente herdado o gosto pela precisão e pelo trabalho meticuloso. Aliá Stranvinsky dizia, um pouco maldosamente que não conhecia melhor relojoeiro Suiço, referindo-se ao cuidado que Ravel colocava na Orquestração das suas obras.

Apesar de ter nascido no País Basco perto de Biarritz a família mudou-se quase de seguida para Paris. Os pais sempre o encorajaram nos estudos musicais onde começou por estudar piano (era aliás um pianista dotado embora pouco consistente no trabalho).  Em 1893 o pai apresentou-o a Erik Satie tendo aí começado a revelar-se a grande paixão da sua vida: A Composição. Depois de ter tentado por 3 vezes vencer o Prémio de Roma é obrigado a deixar o Conservatório onde volta em 1898 para se inscrever nos cursos de Gabriel Fauré onde fica até 1900 para novamente voltar a ser expulso por não ter ganho nenhum dos prémios exigidos pelo regulamento. Mantém-se no entanto como aluno em regime livre dos cursos de Gabriel Fauré que foi na verdade o seu verdadeiro mestre enquanto compositor.

O primeiro trabalho publicado dedicado a Ricardo Viñes pianista virtuoso e grande amigo do compositor (também de Debussy) foi Menuet Antique (1895) primeiro para piano solo e que Ravel como aliás o fez para muitas obras viria a Orquestrar mais tarde (1929). Na interpretação que escolhi podem ouvir o pianista Samson François (1924-1970).

Embora num menor grau que o seu por vezes amigo por vezes rival Debussy, Ravel também musicou alguns poemas dos maiores poetas românticos franceses como por exemplo Sainte (1896) sobre um poema de Mallarmé ou Histoires Naturelles sobre textos de Jules Renard (Op. 50 - 1906)  ou Sur L´Herbe (1907) com poema de Paul Verlaine, Ma Mére L´Oie baseado em contos de Perrault.

No inicio do século Ravel faz parte da criação de um grupo de artistas que se viria a designar por Apaches caracterizados pela vontade de inovação e de que fazem parte alguns dos grandes vultos do século XX (Manuel de Falla, Stravinsky, Inghelbrecht, Tristan Klingsor por exemplo). É para eles que interpreta em primeira mão a sua primeira grande obra Jeux d´Eau (Op. 30 - 1901) e também a primeira obra que alcança alguma notoriedade Pavane pour une Infante Defunte (Op. 19 - 1899) - orquestrada em 1910 ambas estreadas pelo também "Apache" e já referido pianista Ricardo Viñes.

A participação neste grupo terá provavelmente conotado Ravel com uma linha demasiado progressista e está muito possivelmente na base do facto de nunca ter conseguido vencer o Prémio de Roma ao ponto deste facto ter sido causa da demissão do director do Conservatório de Paris substituído precisamente pelo professor de Ravel Gabriel Fauré.

Vingou-se Ravel fazendo música com uma obra que hoje faz parte do reportório de música de camara, Quarteto em Fá (Op. 35 - 1903). Esse período é aliás possivelmente o mais fértil de Ravel dado que datam dessa época também Sonatine  (Op. 40 - 1903) - nesta interpretação pela pianista Marcelle Meyer (1897-1958) e Scherezade (Op 41 - 1903) com textos do seu amigo também Apache, Tristan Klingsor.

Seguiu-se um período impressionista e em larga medida inspirado nas raízes espanholas e bascas da sua mãe. Este período começou com Miroirs (Op. 43 1905) - aqui numa interpretação de Sviatoslav Richter. Seguiram-se Rapsodie Espagnole e L´Heure Espagnole.

Ainda antes da primeira Guerra Mundial que haveria de colocar Ravel numa depressão profunda compôs para Diaghilev (dos bailados russos) um bailado que foi considerado por Stravinsky "a mais bela obra da música francesa". Trata-se do bailado Daphnis e Chloé a mais longa das obras do compositor e na opinião de muitos a sua obra prima. Como em muitas outras circunstâncias Ravel adaptou esta obra para ser executada apenas por Orquestra em duas suites Orquestrais. É uma destas que vos propomos ouvir numa interpretação da Sinfónica de Nova Iorque dirigida por Vladimir Ashkenazy.

Pelas razões expostas o período da Guerra não foi muito produtivo para Ravel. A única obra que podemos atribuir a esse período é o notável Tombeau de Couperin uma obra de homenagem às vitimas da guerra amigos de Ravel.

Logo após a guerra deu-se o corte de relações com Diaghilev que só não acabou em duelo porque amigos mútuos o impediram, tudo por causa duma encomenda de um ballet de que o empresário não julgou suficientemente bom. Trata-se da obra La Valse que acabou por se transformar num poema sinfónico aqui numa interpretação verdadeiramente fantástica da Orquestra Nacional de França sublimente dirigida por Leonard Bernstein.

Nos anos seguintes Ravel viu-se confrontado com o facto da sua música já não ser considerada "à la page" o que como foi o caso com muitos compositores entre o século XIX e XX lhe diminuiu muito a vontade de compor. Como veremos encontrou no Jazz inspiração para continuar mas antes disso ainda compôs duas obras notáveis: Tzigane uma rapsódia para violino e piano (ou Orquestra) e a Segunda Sonata para Violino e Piano.

Em 1928 após um planeamento detalhado Ravel parte para os Estados Unidos onde iria fazer um tour de mais de quatro meses tendo visitado cerca de 25 cidades e dirigido as maiores Orquestras Americanas. Do ponto de vista do público e dos críticos a tournée foi um sucesso. Musicalmente o encontro com Gershwin e com o Jazz viria a permitir-lhe manter-se actual num século onde Stravinsky, Schoenberg e mesmo Satié se arriscavam a tornar a sua música "antiga". Essa influência viria a notar-se imediatamente no Bolero mas também nas suas duas ultimas grandes obras para piano.

Na volta Ravel iria compor a obra que é sem dúvida a sua obra mais conhecida. Já se escreveu muito disparate sobre esta obra desde a considerar a obra de um doente estimando que a doença neurológica de que padecia o fez escrever uma obra essencialmente repetitiva e obsessiva até se considerar essa composição um ultrage e "não música", este ultimo comentário em grande parte derivado da própria explicação de Ravel da sua obra. Na verdade Ravel escreveu Bolero (intitulado originalmente Fandango) em grande parte como um exercício de Orquestração em que a ideia era através de simples mudanças de timbre e de volume compor uma obra sem desenvolvimento do tema musical. E na verdade o Bolero é exactamente isso uma repetição (18 repetições para ser preciso) de um mesmo tema por vários naipes e timbres num crescendo absolutamente genial. Não existe desenvolvimento do tema é verdade. São sempre as mesmas notas tocadas repetidamente que por artes mágicas se transformam em coisas sempre novas. Ravel não pensou nunca nesta obra como um trabalho puramente sinfónico, sempre o pensou como um acompanhamento de Ballet por exemplo porém facto é que embora também sirva magnificamente para esse fim (e até possam ser adicionados novos timbres como  a voz humana como neste exemplo sobejamente conhecido e sublime) estes não são indispensáveis. Mesmo sem "desenvolvimento" a obra exprime algo ... Esta obra  é a prova do absoluto controlo e domínio que Ravel tem da Orquestração. Ele é sem dúvida um dos grandes mestres de toda a história da música neste aspecto técnico.

Após esta obra e o seu enorme sucesso que não deixou de aborrecer um pouco Ravel sucederam-se rapidamente as suas duas ultimas grandes obras: O Concerto para Piano para a mão esquerda (Op. 82 1929-1930) e o seu Concerto para Piano em Sol (Op. 83 1929-1931).

Em 1932 Ravel sofre um acidente num carro e embora num primeiro tempo tenha parecido que nada de grave se tinha passado a verdade é que desde essa data embora tenha mantido a lucidez Ravel não mais conseguiu colocar no papel as ideias musicais que ainda lhe percorriam a mente. Na verdade parece hoje plausível que esse acidente apenas tenha servido como catalisador de um problema que já se vinha revelando há alguns anos.

Desde essa data não mais conseguiu compor tendo falecido a 28 de Dezembro de 1937 em Paris na sequência de uma operação experimental ao cérebro autorizada pelo seu irmão numa tentativa derradeira de lhe fazer recuperar as faculdades mentais (Ravel estava ciente dos riscos que corria mas preferia-os a continuar sem poder compor).

Moura Aveirense: Concerto hoje, na Igreja do Carmo

Para os nossos leitores de Aveiro uma recomendação em directo do Blog da Moura Aveirense, hoje Sábado às 21:00 na Igreja do Carmo. Mendelssohn, Mozart e Beethoven (a sétima). Melhor é possível mas difícil :-)

Moura Aveirense: Concerto hoje, na Igreja do Carmo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Hoje é dia da Liberdade

Dizia o Homem Aranha que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (bem não sei se é o Homem Aranha ou qualquer outro super-herói mas para o efeito este serve perfeitamente). Com a Liberdade temos efectivamente o maior poder de todos. O poder de escolher.

Com esse poder vêm associada a maior das responsabilidades: Escolher. Não só através do voto (mas também através deste) mas também no nosso dia a dia ao falar com amigos ou colegas. Não serve dizer que não nos interessa ou fingir que não é connosco. Abdicar desse dever é aceitar as trevas e aceitar que um determinado grupo de pessoas, maior ou mais pequeno pode decidir por nós para nós.

No que me diz respeito não me rendo. Nunca me cansarei de explicar que o estado das democracias ocidentais depende exclusivamente da nossa capacidade para pensarmos além dos nossos umbigos e interesses pessoais ou corporativos para pensar um pouco mais no interesse geral do país e do mundo, porque fatalmente haverá pontos de conflito. Momentos em que o nosso interesse pessoal tem de ser subjugado a um interesse maior e colectivo.

O 25 de Abril é isto mesmo. Nem mais nem menos. É não necessitar de heróis ou salvadores da pátria. É tomarmos nós próprios esse desígnio como o nosso e fazermos o que estiver ao nosso alcance por o atingir. Sem desculpas de que não vale a pena tentar. O cinismo ocidental está muito na moda mas não passa de uma boa desculpa para a preguiça.

Anda para aí uma péssima canção dos Deolinda (desculpem a franqueza mas todos os grupos têm direito a um lapso) completamente errada na mensagem que transmite. Também existem alguns grupos de pseudo-rebelião infelizmente mais concentrados em encontrar culpados "eles", "os outros", "a outra geração" do que propriamente em propor soluções, mais interessados em que o "governo" resolva os seus problemas do que utilizar as suas enormes capacidades para o fazer.

Felizmente o mesmo grupo tem uma outra canção bem melhor que ilustra na perfeição a nossa atitude ... Basta seguir a primeira das vozes a maioria do tempo que as coisas hão-de mudar ...

O 25 de Abril é isto ... através da intervenção e do trabalho mudar e melhorar o país. Não é ficar à espera de soluções que caiam do céu. Para já teremos em breve uma boa ocasião para mostrar a nossa atenção. Não a desperdicemos.

domingo, 24 de abril de 2011

Claude Debussy (1862 - 1918)

É obviamente muito difícil senão impossível marcar a transição entre o romantismo e a música do século XX mas se o procurássemos fazer então certamente um dos capítulos mais interessantes e significativos dessa passagem seria desempenhado por Claude Debussy. Não nos apressemos no entanto e guardemos esta conversa para a conclusão.

Claude Debussy nasceu em Paris a 22 de Agosto de 1862 numa familia de pequena burguesia. O pai tinha uma loja de loiça e não vivia propriamente desafogado financeiramente. Debussy o mais velho de 5 irmãos começou a estudar piano no conservatório onde a sorte o fez encontrar Nadezhda von Meck (conhecida mecenas de Tchaikovsky) que o contratou como professor de piano dos seus filhos. Este facto proporcionou-lhe além da satisfação da óbvia necessidade material um contacto directo com músicos e intelectuais.

Em 1880 Debussy começa os seus estudos de composição com Ernest Guiraud tendo 4 anos mais tarde vencido o Prémio de Roma um reputado prémio que oferecia aos vencedores dois anos de estudos pagos em Roma. Apesar da reputação do prémio esses dois anos em Roma foram frustrantes para Debussy do ponto de vista criativo. A obra com que venceu o prémio, uma cantata chamada Enfant Prodigue não é também das mais representativas do talento ou do estilo de Debussy. dizem as más linguas que teve de ser suficientemente castrada para satisfazer os gostos tradicionais do júri. Ainda de 1880 é a composição Beau Soir (L6) uma das mais conhecidas dos primeiros anos. A primeira interpretação proposta é de Renne Flemming mas proponho igualmente uma outra de Barbra Streisand (de que gosto muito também, atenção é uma adaptação não pretende ser igual ... )

Lorsque au soleil couchant les rivières sont roses
Et qu'un tiède frisson court sur les champs de blé,
Un conseil d'être heureux semble sortir des choses
Et monter vers le coeur troublé.

Un conseil de goûter le charme d'être au monde
Cependant qu'on est jeune et que le soir est beau,
Car nous nous en allons, comme s'en va cette onde:
Elle à la mer, nous au tombeau.

Torna-se pianista acompanhador da classe de canto de Madame Moreau-Sainti onde conhece Marie Vasnier por quem se apaixona. É também na biblioteca dela que encontra obras de Verlaine que marcarão senão o inicio pelo menos o crescimento exponencial da influência da literatura na obra de Debussy. Aliás Paul Dukas diz que nada influenciou mais Debussy do que a literatura.

Em 1890 compõe Clair de Lune que faz parte da Suite Bergamasque (L75) para piano. Não resisto a mostrar-vos uma versão (uma transcrição excelente) para violino interpretada por David Oistrack.

Em 1894 é interpretada pela primeira vez "L´Aprés Midi d´un Faune" uma das suas obras mais significativas (nesta interpretação a Orquestra Sinfónica de Londres dirigida por Stokowski) - podem ouvir aqui a segunda parte desta fabulosa interpretação. Esta obra baseada num poema de Mallarmé descreve o acordar de um Fauno, ser mitológico meio humano e meio bode e as memórias voluptuosas dos seus encontros com as ninfas.

[...] ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux !
Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste :
Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison ? [...]

A propósito deste poema há quem o considere o expoente máximo da literatura francesa. Não conseguindo ser tão absoluto a forma e a melodia dos sons é na verdade perfeita, tão perfeita que qualquer tradução sofre bastante e por isso não ouso desta vez uma tradução.

Ainda em 1894 termina a composição da sua Ópera (a unica que escreveu) e que é também o seu primeiro trabalho sinfónico de grande dimensão Pelleas e Melisande . Esta obra apenas foi estreada em 1902 tendo tido uma recepção relativamente tumultuosa em grande parte pelo conflito com Maeterlink a quem Debussy tinha prometido que o papel de Melissande seria para a sua companheira Georgette Leblanc. Porém Debussy faltou à promessa entregando esse papel a Mary Garden.

O seu Quarteto de Cordas em Sol Menor data também  desta época (1893) sendo possivelmente o trabalho mais significativo de Debussy no que diz respeito à música de câmara.

Em 1899 rompe definitivamente com Gaby Dupont iniciando uma relação com Marie-Rosalie Texier com quem casa ainda nesse ano. Termina os seus Nocturnos para Orquestra que são interpretados em 1900 nos Concertos Lamoureux.

Em 1903 inicia a composição de La Mer que viria a terminar dois anos depois. Entretanto do ponto de vista pessoal apaixona-se por Emma Bardac dedicando-lhe Fêtes Galantes (L104 - Segunda série). Deixem-me aqui abrir um parenteses para vos falar de Léo Ferré que muito mais tarde haveria também de tentar musicar estes poemas de Verlaine. Se querem que vos diga sinceramente não consigo escolher qual a versão que prefiro. O exemplo que vos mostro é o Colloque Sentimental.

COLLOQUE SENTIMENTAL

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l’heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l’on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

- Te souvient-il de notre extase ancienne ?
- Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne ?

- Ton cœur bat-il toujours à mon seul nom ?
Toujours vois-tu mon âme en rêve ? - Non.

- Ah ! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches ! - C’est possible.

Qu’il était bleu, le ciel, et grand l’espoir !
- L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.

Apropriado exemplo porque a mulher de Debussy ao saber da traição  tenta o suicídio com um tiro no estômago e muitos dos amigos de Debussy afastam-se. Segue-se um doloroso processo de divórcio (Emma que também era casada também divorcia-se igualmente) findo o qual os dois casam (1908). Em 1905 nasce a única filha de Debussy que viria a falecer com 19 anos um ano após a morte do pai vitima de difteria. É também em 1905 que é finalmente completada La Mer e estreada também nos Concertos Lamoureux.

Em 1906 a vida do compositor francês cruza-se com Francisco de Lacerda (1869-1934) a quem confia a partitura "Festas de Polymnie" de Rameau que o editor Durand quer incluir na edição dos trabalhos completos do compositor. O maestro Ernst Ansermet defende que já antes os dois compositores teriam trocado correspondência sobre por exemplo o folclore espanhol e português e que este facto teria mesmo inspirado uma parte da obra Danças Sagradas e Profanas (1904).

Em 1908 Debussy pela primeira dirige uma obra sua precisamente La Mer uns dias antes de casar com Emma. Estreia-se nesse ano também Children´s Corner (aqui numa interpretação do próprio Debussy) dedicado à sua filha "chou-chou" começando também as dificuldades financeiras que o iriam atormentar nos últimos anos da sua vida. Contrariamente ao que o título pode dar a entender estas não são peças destinadas a ser executadas por crianças, são antes uma evocação das recordações de infância.

A sua saúde também não era a melhor e no ano seguinte começaram os primeiros sintomas do cancro no colon que lhe acabaria por ceifar a vida cerca de 9 anos mais tarde. Neste mesmo ano começa a composição  de uma obra baseada no conto de Edgar Allan Poe - A Queda da Casa de Uscher (traduzida para francês por Baudelaire). Como vos dizia há pouco a presença da literatura é uma constante na obra de Debussy. O compositor infelizmente faleceu demasiado jovem para nos mostrar tudo o que seria capaz.

Em 1910 assiste à estreia de Pássaro de Fogo de Stravinsky e os dois compositores encontram-se pela primeira vez. No ano seguinte a sua obra Ibéria é estreada em Nova Iorque por Mahler. Apesar do sucesso das suas obras as dificuldades financeiras acumulam-se e em 1912 Debussy é obrigado a pedir um empréstimo ao editor Durand. Apesar de uma actividade frenética ( Debussy volta à critica musical), continua a dirigir e a compor estas dificuldades não passam e em fins de 1913 com a doença da mulher Debussy chega a falar em suicídio.

Em 1915 avisa o seu editor que irá compor uma série de seis sonatas para vários instrumentos. Destas seis acabará apenas por compor três. Uma sonata para violoncelo e piano, uma sonata em trio (harpa, flauta e viola de arco) e mais tarde a de violino e piano. No fim de 1915 é ouvida pela primeira vez a Berceuse Heroïque (em homenagem ao rei Alberto I da Bélgica e seus soldados, não nos esqueçamos que entretanto se tinha iniciado a I Guerra Mundial) e ainda em Dezembro desse ano ouve-se pela primeira vez Noel des Enfants qui n´ont plus de maison (cujo enorme sucesso popular viria a irritar bastante Debussy).

O estado das finanças de Debussy pioram ainda mais em 1916 um tribunal decide contra ele e obriga-o a pagar a pensão devida a Lilly Texier (ex-esposa) que não pagava desde 1910. Talvez por isso a somar a todos os restantes trabalhos tinha aceite fazer a revisão da edição completa das obras de Chopin e das Sonatas de Bach para violino e piano que o editor Durand pretende publicar numa série de obras completas dos grandes compositores.

Em 1917 é interpretada pela primeira vez a sua sonata para Violino e Piano (Gaston Poulet ao violino e o próprio Debusssy ao piano). No final desse ano, em Setembro dá os seus dois últimos concertos em Biarritz. Debussy faleceu apenas alguns meses mais tarde a 25 de Março de 1918 no meio do bombardeamento de Paris na grande ofensiva alemã da primavera desse ano. Debussy faleceu portanto sem ver o fim da primeira guerra mundial que tanto o havia deprimido.

A obra de Debussy é impossível de definir. É provavelmente um dos mais originais compositores de sempre. O caminho que escolheu é ímpar na história da música. Existem muitos que o classificam com sendo o equivalente do impressionismo na música e é verdade que as suas obras têm títulos que deixam entender um significado concreto, real das suas composições. Porém não deixa também de ser um romântico como é fácil de entender pelos poemas que musicou de praticamente todos os grandes vultos do romantismo francês. Como já vos disse neste curto texto por duas vezes mais do que a pintura Debussy foi fortemente influenciado pela literatura. Seria assim justo defini-lo mais como um romântico do que como um impressionista. Aliás o seu estilo de vida pessoal não deixa nada a dever aos grandes românticos que o precederam. Mas seria uma injustiça procurar defini-lo apenas dessa forma porque nos arriscaríamos então a ver Debussy apenas como um neo-romântico um compositor desfasado do seu tempo quando na verdade ele foi possivelmente dos mais progressistas compositores da história da música compondo muito antes de Stravinsky ou Schoenberg musica atonal ou destruindo a hegemonia da forma de Sonata recriando-a.

Debussy era um homem complexo e de ideias por vezes aparentemente contraditórias. Tanto nos dizia que a música deveria ser tão hermética que deveria ser quase uma cabala como defendia a sua simplicidade com o o seu contemporâneo Satie. Uma coisa é certa nesse inicio do século XX criaram-se duas escolas de modernidade. A Vienense verdadeiramente hermética e sombria e a Parisiense aparentemente simples e luminosa ... pelo menos é isto que eu penso, como também deve ser claro para vós para que lado se inclina a minha simpatia ...

Para terminar melhor só com música e por isso deixo-vos com um dos meus poemas preferidos. Il pleut sur mon coeur de Verlaine que Debussy musicou em 1887 (aqui numa fantástica interpretação de Teresa Stich-Randall, duvido muito que encontrasse outra melhor ...)

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

sexta-feira, 22 de abril de 2011

OML - Workshop da Páscoa - Concerto Final

Bem estive a rever o meu blog e penso que este tema tem sido recorrente por aqui. Fica assim o convite para um fim de tarde de Sábado um pouco (muito) diferente. Na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa no 23 de Abril às 18h. Se puderem não faltem. A música sempre foi uma boa forma de celebrar a Páscoa.

Pelo que sei do programa vai ser muito interessante !

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Fanáticos da Ópera - Um blogue que se recomenda

De vez em quando aparecem na Blogosfera alguns blogs que nos captam a atenção e que gostamos verdadeiramente de recomendar. Desta vez é o blogue Fanáticos da Opera que merece a nossa atenção. Tive conhecimento da sua existência através de um comentário de um dos seus autores aqui neste blog.

Claro que com um nome destes não resisti à tentação de uma visita e porque gostei muito do que li não posso deixar de vos recomendar uma visita. Quem sabe se o blogue Fanáticos da Opera não se tornará para vós também um daqueles que se visita regularmente. Para mim é com toda a certeza !

terça-feira, 19 de abril de 2011

Verdi e Berlusconi - A história da actualidade de uma composição eterna

Já vos tinha falado deste episódio mas agora tenho o vídeo do que se passou na Ópera de Roma. Arrepiante. Por duas razões. Primeiro porque demonstra que afinal a música clássica não é algo morto, que pertence a um museu, segundo porque nos faz pensar que eventualmente há coisas cujo valor não se mede pelos Euros que custam porque representam muito mais do que isso ...

Por isso oiçam o que Ricardo Mutti diz ao público quando aceita o "bis" pedido pelo público ... Ele está a falar das reduções orçamentais impostas por Berlusconni ... Obviamente que o coro dos escravos cantado por toda a Ópera de Roma em pé é um sinal pelo menos de reflexão.

Obrigado ao Sergio Azevedo que nos relembrou este evento no Facebook.

domingo, 17 de abril de 2011

Posts deste fim de semana

Vai ser difícil com os Dias da Música ontem no CCB onde ouvi algumas obras interessantes e boas interpretações (vamos ver se vos consigo contar hoje à noite). Hoje vou até à Figueira da Foz almoçar com a minha avó e também ouvir isto:

17 de Abril, 17h00


O projecto deste Concerto de Solidariedade a Favor do Haiti – Unidade de Saúde Materno-Infantil partiu originalmente do interesse manifestado por três directoras de turma do 5º e 6º anos integralmente dedicadas ao ensino artístico especializado da música da Escola EB 2º e 3º Ciclos Dr. João de Barros, em aliar uma pedagogia social de grande nobreza humanista e humanitária junto dos seus alunos ao contacto directo com uma orquestra profissional ou de nível de formação superior.

A esta causa juntou-se o Conservatório de Música David de Sousa e a Orquestra Sinfónica da Escola Superior de Música de Lisboa, para, através da receita líquida de bilheteira, contribuir para que a Cáritas Diocesena de Coimbra possa levar a bom porto a criação de uma unidade de saúde materno-infantil no Haiti.
Organização: Conservatório de Música David de Sousa, Escola EB 2º e 3º Ciclos Dr. João de Barros, Cáritas Diocesena de Coimbra, Centro de Artes e Espectáculos e Câmara Municipal da Figueira da Foz

M 3 anos
Duração aprox.: 2h00
Entrada: 5,00 EUROS

Portanto caros leitores da zona litoral centro se puderem não deixem de ir ver também ...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Alex Ross: The Rest Is Noise: Wagner gazes upon Australia

Uma resposta interessante de Wagner quando um correspondente o informa da representação de Lohengrin em Melbourne. É engraçado não só ver as fotografia de Melbourne em 1877 como também perceber como na altura (e passou um pouco mais de um século, bom mais ou menos um século e meio) o simples envio de umas fotos tinha tanto para dizer.


Alex Ross: The Rest Is Noise: Wagner gazes upon Australia

domingo, 10 de abril de 2011

Edward Elgar (1857 - 1934)

Edward Elgar nasceu perto de Worcester a 2 de Junho de 1857. Filho de William Elgar que tinha por profissão afinar pianos e que era também um violinista de razoável qualidade Elgar desde cedo aprendeu piano e violino. Da mãe uma apaixonada pela arte herdou o gosto pela literatura e pelo campo inglês.

Não foi fácil a vida de Elgar enquanto compositor. Embora tendo estudado Piano e Violino desde cedo sempre foi um autodidacta não sendo conhecido nenhum professor de composição. Este facto e não menos importante na Inglaterra da altura o facto de ser Católico valeram-lhe durante muitos anos o preconceito dos seus pares e da sociedade em geral.

Subsistiu durante os primeiros anos enquanto adulto dando aulas de violino e tocando órgão na Igreja Católica de St. George. Em 1899 casou com uma das suas alunas Caroline Alice Roberts  contra a vontade dos seus familiares porque obviamente era considerado um mau partido. A verdade é que este casamento viria a ter um papel fundamental na criação musical de Elgar pela fé absolutamente ilimitada que Alice tinha no talento do seu esposo.

Aos poucos a sua reputação enquanto compositor foi estendo-se para além dos limites do Worcester natal tendo o seu primeiro grande sucesso sido composto mesmo no limite do século XIX, Variations on a Original Theme - Enigma. Dedicados aos "seus amigos" oiçam aqui uma excelente explicação da obra nas Proms de 1995.  Ainda nesse ano compõe o ciclo de canções Sea Pictures e depois já no século XX (1901) as duas primeiras marchas "Pompa e Circunstância" que são sem dúvida as suas obras mais conhecidas (ao ponto de Elgar desejar que não fossem mais interpretadas) - se o inicio é conhecido coloquem o video perto do minuto 2 para perceberem o que vos digo (e o sentimento de Elgar). Claro que Elgar ainda tornou o caso pior ao transformar esta marcha no Hino Land of Hope and Glory .

Em 1908 compõe a sua primeira grande obra sinfónica, a Sinfonia nº 1 em Lá Bemol Maior dedicada e dirigida por Hans Richter que disse simplesmente dirigindo-se à orquestra "Senhores vamos ensaiar a melhor sinfonia de hoje pelo maior compositor de hoje e não apenas no seu país".  Esta obra foi recebida na altura com enorme entusiasmo tendo mesmo o seu andamento lento sido comparado aos de Beethoven.

Apenas um ano mais tarde Elgar (1911) compõe o seu concerto para violino dedicado a Kreisler e estreado por este nesse mesmo ano. É uma peça maravilhosa bem ao estilo romântico no entanto com uma orquestração muito mais complexa em que por essa razão o papel do solista é muito mais do que uma simples demonstração de virtuosismo antes contribuindo para um todo de grande intensidade. Na interpretação que escolhemos este concerto é interpretado por Yehudi Menuhin dirigido pelo próprio Elgar numa gravação de antes da Segunda Guerra Mundial(1932). A dedicatória ela própria não poderia ser mais enigmática contendo a frase em Espanhol "Aqui esta encerrada el alma de ….".

Nesse mesmo ano terminou a sua Segunda Sinfonia dedicada à memória do Rei Eduardo VII que o marcou profundamente já que Elgar associava tudo o que de bom se passou entre 1908 e 1911 ao monarca. É assim uma obra largamente introspectiva. Seguiu-se então a segunda-guerra mundial que deixou Elgar profundamente depressivo e quase incapaz de compor.

Quando a guerra acabou tinha nascido um novo Elgar muito menos majestoso. Já não era "Pompa e Circunstância" mas antes "Contemplação e Introspecção". No fim da segunda guerra houve no entanto um ultimo grande período criativo que nos trouxe a Sonata para Violino o Quarteto para Cordas e o Quinteto para piano e sobretudo o Concerto para Violoncelo que terá sido a sua grande ultima obra sinfónica. Este ultimo quarteto tem a característica adicional de estar ligado a uma das grandes lendas da música do século XX, Jacqueline du Pré que o imortalizou e o colocou no reportório obrigatório de Violoncelo pelas suas interpretações verdadeiramente sublimes. Aliás para vos dizer verdade se hoje estou a escrever esta curta biografia é porque o meu filho me mostrou na sexta uma interpretação desta senhora com apenas um comentário: Olha como é intenso ... e é ... o primeiro andamento é sublime e esgotante do ponto de vista emocional.

A esposa de Elgar faleceu em 1920 e com ela a centelha criativa de Elgar parece ter também desaparecido a sua centelha criativa (também ajudado pelo facto da sua música ser então considerada "fora de moda". Elgar faleceu em Londres a 23 de Fevereiro de 1934.

Durante muito tempo a sua música ficou com a fama de ser antiquada mas hoje reconhece-se o enorme talento e um sentido quase místico para a melodia. Elgar publicou em 1988 uma pequena peça que dedicou à sua esposa Caroline Alice e que demonstra bem esse sentido fantástico: Salut d´Amour (muito conhecido por várias razões a menor da qual não deixará de ser fazer parte do método de ensino de vários instrumentos). Aliás a recuperação do compositor não terá sido estranha a utilização de várias das suas peças para fim de ensino.

Uma grande parte desta biografia foi adaptada da biografia escrita pela Sociedade Elgar.

sábado, 9 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Wieniawski - Catálogo Temático de Trabalhos

No meu post sobre o Compositor Polaco esqueci-me de referir que uma das minhas fontes de informação foi o site da Sociedade Musical Henryk Wieniawski. Para os músicos e para os mais apaixonados pelo trabalho do compositor recomendo-vos uma visita que vale tanto pelo catálogo de imagens do compositor como sobretudo pelo catálogo completo e temático das suas obras. Um magnifico pdf que vale a pena ler.

Violinhos no CCB , Sábado dia 9 de Abril, 16h

Nesta altura do ano é já tradição este concerto que os Violinhos - Orquestra de jovens dos 3 aos 17 anos - nos oferecem no CCB. Sábado 16h com um programa adequado a jovens de mais de 6 anos. Prometem-se algumas surpresas ...

domingo, 3 de abril de 2011

Henryk Wieniawski (1835 - 1880)

Henryk Wieniawski foi um violinista e compositor polaco nascido em Lublin a 10 de Julho de 1835. Desde muito cedo (com cinco anos) os seus dotes enquanto violinista são notados começando a ter aulas com Hornziel um grande pedagogo. Em 1842 o grande violinista checo Henryk Panofka ouvindo-o recomenda que prossiga os seus estudos em Paris o que acaba por acontecer no final do verão desse ano (na altura Wieniawski tem apenas 7 anos) tendo ingressado na classe do professor Lambert Massart, grande violinista Belga a quem é por vezes atribuída a criação do vibratto sistemático e que foi professor doutros ilustres violinistas como Kreisler e Ysaÿe.

Wieniawski terminou o conservatório em 1846 com 11 anos apenas tendo então o professor Massart continuado a dar-lhe aulas enquanto aluno particular. Entre 1847 e 1849 realiza as suas primeiras tournées por vários países da Europa iniciando em 1849 as aulas de composição no Conservatório de Paris com Hipollite Collet que termina dois anos depois.

Em 1860 casa com Isabelle Hampton embora com a oposição inicial dos seus pais. Aparentemente o seu Op. 17 ( Legende ) que lhe é dedicado ajudou os progenitores a mudar de opinião (segundo a Wikipedia ... não tenho outra confirmação e por isso este facto cor-de-rosa fica sobre reserva. Note que por esta altura Wieniawski tinha já composto o seu primeiro concerto para Violino e Orquestra em Fá Sustenido menor cujo primeiro andamento foi considerado intocável pela enorme dificuldade técnica que a sua execução implica. Do segundo concerto Op. 22 já falamos e mostramos dois dos andamentos (segundo e terceiro) concerto esse que é hoje em dia uma das obras do reportório violinistico. É sabido que existiu um terceiro concerto que foi inclusivamente estreado em Moscovo mas que não tendo sido publicado se perdeu.

A maioria das composições de Wieniavski destinavam-se quer a ser executadas nas suas numerosas tournées e exibições publicas quer para suporte às aulas que leccionou tanto em Paris e em São Petersburgo (note-se a esse propósito que a sua regularidade nessas aulas estava longe de ser exemplar). Destes últimos destacam-se os 10 Estudos-Caprichos que ainda são hoje profusamente utilizados como instrumentos de ensino.

Para além da Legende o seu Scherzo-Tarentelle (Op. 16) é também frequentemente interpretado.

Wieniawski faleceu em Moscovo a 31 de Março vitima de ataque cardiaco tendo sido sepultado em Varsóvia a 7 de Abril.

Mais um extrtacto de Wieniawski por Manuel Abecasis

Tinha-vos mostrado aqui um extracto do andamento lento do concerto de Wienavski . Hoje para vos dar uma ideia das capacidades do violinista em andamentos de natureza contrastante aqui fica o Terceiro Andamento . Serve também como introdução à biografia do compositor em questão que estou a preparar e que tentarei publicar ainda hoje.



Espero que gostem ... Confesso que é o andamento deste concerto que prefiro ... Allegro con Fuoco alla Zingara

sábado, 2 de abril de 2011

Igor Stravinsky (1882 - 1971)

Igor Stravinsky é considerado por muitos o maior compositor do século XX. Não sei se será o maior, no que diz respeito a rankings de arte tenho sempre a percepção de que há alguma subjectividade envolvida mas que é um dos mais influentes e mais representativos compositores do Século XX não existe qualquer dúvida.

Nasceu em Orianenbaum a 17 de Junho de 1882 tendo sido criado em S. Petersburgo. Foi aí que conheceu Rimsky Korsakov na Universidade. Apesar da família ter antecedentes musicais, o pai era cantor no Teatro Mariinsky em São Petersburgo e dele ter recebido formação musical e um grande conhecimento do folclore russo Stravinsky era destinado a uma carreira de advogado ... Porém o encontro com Rimsky Korsakov de que acabou por ser aluno e a vontade do próprio Stravinsky acabou por mudar tudo.

As suas primeiras peças conhecidas incluídas no que se convencionou chamar Período Russo (de 1908 até 1918 aproximadamente) são caracterizados por uma Orquestração poderosa para orquestras de grande dimensão. A primeira destas obras Fogo de Artificio (Op. 4 de 1907) teve o dom de atrair a atenção de Diaghilev dos Ballets Russes que acabou por se revelar uma peça crucial na música do século XX ao encomendar a Stravinsky vários bailados. Primeiro Pássaro de Fogo (1910) depois Petrushka (1911) e por fim o revolucionário Sagração da Primavera de 1913. esta ultima obra quer pela sua recepção na estreia mas sobretudo pelo romper com muitos dos arquétipos então prevalecentes na música ocidental estabelece - goste-se ou não um marco fundamental da música do século XX.

Com o inicio da segunda guerra mundial Stravinsky muda-se para a Suiça e desenvolve um estilo neo-clássico em que utiliza formas clássica revisitando obras de compositores como Bach ou Pergolesi. Este período decorre de 1920 até 1954 destacando-se Pulcinella (1920) - inspirada em Pergolesi, as três sinfonias Sinfonia dos Salmos (1930) - inspirada em Bach, Sinfonia em Dó (1940) e Sinfonia em Três Movimentos (1945). Stravinsky adquiriu cidadania francesa em 1934 mas com a Segunda Guerra Mundial emigra para os Estados Unidos acabando por se tornar cidadão americano em 1945. Foi nesta altura também que em virtude dos compromissos familiares crescentes iniciou uma carreira enquanto Maestro e Solista.

O periodo serialista inicia-se em 1954 depois de uma crise criativa que apenas ultrapassou quando encontrou  Robert Craft seu assistente e que o guiou numa adaptação pessoal e progressiva da teoria de Schoenberg. Note-se que os dois artistas estavam em campos radicalmente opostos da criação artística pelo que esta aproximação de Stravinsky é muito reveladora da sua total abertura de espírito. Threni (1957) e The Flood (1962) são duas das composições mais relevantes deste período.

Stravinsky continuou a compor já com mais de 80 anos tendo falecido em 6 de Abril de 1971 em Nova Iorque tendo sido enterrado em Veneza considerada a sua cidade espiritual.

Stravinsky tem algumas das mais interessantes ideias sobre música não só através do que compôs mas também através do que disse. Por exemplo é ele que em 1936 afirma:

"For I consider that music is, by its very nature, essentially powerless to express anything at all, whether a feeling, an attitude of mind, a psychological mood, a phenomenon of nature, etc. Expression has never been an inherent property of music. That is by no means the purpose of its existence. If, as is nearly always the case, music appears to express something, this is only an illusion and not a reality. It is simply an additional attribute which, by tacit and inveterate agreement, we have lent it, thrust upon it, as a label, a convention – in short, an aspect which, unconsciously or by force of habit, we have come to confuse with its essential being."

Tendo sido mais interpretado completou algumas décadas mais tarde esta afirmação explicando:

"The over-publicized bit about expression (or non-expression) was simply a way of saying that music is supra-personal and super-real and as such beyond verbal meanings and verbal descriptions. It was aimed against the notion that a piece of music is in reality a transcendental idea "expressed in terms of" music, with the reductio ad absurdum implication that exact sets of correlatives must exist between a composer's feelings and his notation. It was offhand and annoyingly incomplete, but even the stupider critics could have seen that it did not deny musical expressivity, but only the validity of a type of verbal statement about musical expressivity. I stand by the remark, incidentally, though today I would put it the other way around: music expresses itself."

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