quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Listen to This - Capitulo 3 : Infernal Machines : How Recording changed Music

Este capitulo apesar de curto promete, acredito gerar alguma polémica ou pelo menos alguma discussão entre os leitores deste blog. Digo-vos desde já que é um tema com que me identifico bastante o que está expresso regularmente na expressão "ao vivo é outra coisa" que adoptei de outras instâncias e também no subtítulo deste blog, mas lá iremos ...

Os outros capítulos deste livro já analisados:
Capitulo 2
Capitulo 1

Aproveito também para vos lembrar que já tínhamos falado deste tema quando abordamos o pianista e compositor Canadiano Glenn Gould que considerava a gravação a verdadeira forma de transmitir música. No link que aqui coloquei traduzi uma entrevista que deu à High Fidelity e em que aborda este assunto (a entrevista é muito sui-generis dado que Glenn Gould é simultâneamente o entrevistador e o entrevistado).

Tenho noção que para os dias de hoje - de consumo imediato - este post será porventura longo demais, mas lá está eu acredito no poder da palavra e acreditem que vale a pena ler até ao fim ...

O capítulo começa com uma citação de Philip Sousa (1854 - 1932) que dizia a propósito dos gira-discos (não sei na altura seriam exactamente chamados assim ou sequer se era esse o formato prevalecente já que  existiam também os rolos de Edison) "Estas máquinas falantes vão arruinar o desenvolvimento artístico da música neste país. Quando era rapaz ouvia grupos de pessoas à frente de suas casas cantando as canções do dia ou canções antigas. Hoje ouvimos estas máquinas infernais noite e dia. Em breve não teremos uma única corda vocal. Há-de chegar um dia em que ninguém estará disposto a aceitar a nobre disciplina de aprender música. Todos teremos a música já feita nos nossos armários. Algo é irremediavelmente perdido quando não estamos na presença de pessoas fazendo música. O canto do rouxinol é delicioso porque é o próprio rouxinol a fazê-lo".

Sei que parece um tanto reaccionário mas como diz Alex Ross no seu livro antes de enviarmos este senhor para o esquecimento no que diz respeito a esta opinião (saberíamos sempre separar a sua obra enquanto compositor :-)) é bom reflectir um pouco sobre as profundas mudanças que a música sofreu em menos de um século.

Como diz Alex Ross uma coisa é facto - a música é hoje algo que raramente somos nós a fazer ou mesmo que ouvimos ao vivo alguém a fazer. Outra coisa também é um facto é que desde Sousa tem havido o clã dos adeptos da catástrofe e o clã dos adeptos da gravação enquanto libertadora tanto em termos conceptuais como em termos da democratização do acesso. Para que fique claro estou a escrever isto a ouvir o presente de anos que o meu filho me ofereceu ... um conjunto de 3 DVD com as integrais de Beethoven por Karajan e a sua filarmónica de Berlim. Para que fique claro sem gravação não vos poderia ter mostrado neste blogue tantas e tantas gravações históricas e sem dúvida que esse é uma oportunidade e um valor inestimável. Não teria idade nem ocasião de ver Karajan ao vivo mas posso agora fazê-lo. Mediado por uma gravação é certo mas posso. E posso também ouvir Casals, Jaqueline du Pré e lamentar que Suggia tenha gravado tão pouco.

Mas como propõe Alex Ross vejamos pelo trabalho dos teóricos que têm acompanhado as modificações sofridas pela música quais são as alterações que a gravação veio introduzir para além da democratização já referida. Em primeiro lugar as gravações em estúdio permitem correcções que hoje vão até á correcção das notas desafinadas criando assim uma realidade virtual de perfeição. Este efeito de virtualização foi ainda amplificado pela digitalização do processo que torna estas correcções/alterações praticamente ilimitadas nas suas possibilidades. Contrariamente ao que pensamos esta tecnologia pode ser e é utilizada nas gravações de música clássica que são tudo menos "reproduções fieis de uma realidade". São isso sim criações artificiais de uma realidade perfeita. Isto é de certa forma pernicioso se não nos apercebermos dessa diferença por quanto  são essas gravações que servem de referência para as comparações que efectuamos: Há literalmente pessoas que hoje em dia não conseguem ir a uma sala de concerto porque nunca vão encontrar aquele som perfeito que ouviram na sua sala de estar. Alex Ross vai mais longe dizendo que o nosso comportamento na sala de espectáculo é modelado pelo que acontece na sala de estar. Que o silêncio entre andamentos se impôs com mais facilidade porque é isso que acontece ao ouvirmos uma gravação em que claramente não aplaudimos nem exteriorizamos o nosso prazer (ou desprazer).

Alex Ross faz então o paralelo com o principio da incerteza de Heisenberg (um principio que diz que é impossível observar determinados eventos físicos sem os alterar) para nos dizer que não só a gravação alterou a forma como ouvimos como também alterou a forma como os interpretes fazem música. Essa alteração foi essencialmente no sentido da uniformização não só por imitação dos modelos considerados superiores mas também e sobretudo porque os próprios músicos ao ouvirem-se gravados passaram a detectar falhas (ou maneirismos ou outros "defeitos" de interpretação) e procuravam corrigi-los. Por outras palavras a gravação veio introduzir de forma muito mais ditatorial uma "forma" correcta e o culto do tecnicamente perfeito mesmo que no prejuízo da espontaneidade e da paixão.

Neste ponto deixo momentaneamente o livro de Alex Ross para falar então um pouco da relação deste tema com o nosso "ao vivo é outra coisa" e com o subtítulo deste blog "a única música que precisa de embalagem é a música de plástico" até porque curiosamente as duas ultimas páginas do capitulo do livro abordam precisamente este assunto embora numa ordem diferente, num ângulo ligeiramente diferente e certamente com mais qualidade mas enfim alguma coisa tem que ficar para quando comprarem o livro do Alex Ross :-)

Quando vos digo que "ao vivo é outra coisa" é porque efectivamente é outra coisa. A expectativa do inicio da música (não há botão de play numa sala de concertos), as vozes de outros seres humanos, a respiração dos artistas - se estivermos suficientemente perto - as suas expressões únicas, as suas falhas, a forma única como tocaram naquela ocasião, o comportamento da audiência nada disto passa numa gravação. E convenha-se que contrariamente a outros tipos de música que nasceram já na época da gravação e que foram concebidos essencialmente para ela a "música clássica" foi feita para ser ouvida ao vivo. Significa então que não há espaço para as gravações? Que devemos já correr e deitar fora todos os dvds e cds e LPs que tenhamos? Não claro que não. As gravações permanecem um óptimo meio para democratizar o acesso e para registar para a posteridade o que de outra forma se perderia. Aliás essa é a diferença fundamental entre o evento ao vivo. É que a gravação exige, é feita "para sempre". A música ao vivo é a música daquele instante. Alex Ross termina o seu capítulo com a história de uma gravação da Filarmónica de Viena no dia 16 de Janeiro de 1938  dirigida então por Bruno Walter e interpretando a Nona Sinfonia de Mahler. Este foi o ultimo concerto antes dos Nazis esmagarem a Áustria. Alex Ross conta que na assistência nesse dia estava Hans Fantel (critico do New York Times) com o seu pai longe de imaginar que essa seria a ultima vez que ouviria a Filarmónica em companhia do seu pai que haveria de desaparecer enquanto "inimigo do reich" diz Hans Fattel ao ouvir esta gravação recentemente tornada pública "Tive oportunidade de reconhecer e apreciar a aura diferente desse Domingo. Pude sentir a sua intensidade não pré-fabricada um turbilhão emocional muito diferente de muitas outras gravações da Nona de Mahler que tenho ouvido desde então". Obviamente no mundo de hoje ouvir esta gravação é tão fácil quanto ir ao site da Naxos e ... ouvir ... Sim é pago mas vale os Euros se estivermos interessados no documento histórico ou em experimentar a emoção da gravação agora que conhecemos o seu contexto. De certa forma esta liberdade de se procurar e de encontrar abre o espaço ao segundo ponto.

Quanto à "música de plástico que precisa de embalagem" a questão é que na verdade a música já existia sempre existiu, muito antes de uma "industria" a ter formato em pacotes e embalagens. Estes pacotes e embalagens serviram o seu fim, tiveram e têm um papel mas esse papel possivelmente acabou ou sendo menos dramático reduziu-se. A própria tecnologia de gravação que os criou acabou por criar também o instrumento para a sua renovação. Acredito que com as formas de acesso que  hoje temos à música vamos incentivar de novo a criatividade, não mais terão artistas de "inventar" músicas para perfazer a duração de um LP ou de um CD e nós enquanto consumidores também poderemos comodamente ouvir mais, ouvir antes de comprar, comparar, receber recomendações e sobretudo estar muito mais abertos a vários tipos de música a que de outras forma dificilmente teríamos acesso porque escondidos atrás das super-produções que recebiam o peso promocional da referida industria. É a liberdade de escolha sem embalagem. Acredito que neste universo mais livre a música clássica irá encontrar o seu lugar entre as outras formas sem torres de marfim, sem complexos de superioridade mas sobretudo sem ser uma "música do passado" mas antes uma música do presente ...

Dois livros citados por Alex Ross neste capitulo e que penso merecem a vossa atenção futura. Um bastante recente: Performing Music in the Age of Recording de Robert Philip e o histórico (porque inevitavelmente citado e o fundamento para bastantes reflexões posteriores: The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction (Penguin Great Ideas) de Walter Benjamin.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fernando Lopes Graça (1906 - 1994)

Um país que conte num século com músicos da qualidade de Vianna da Motta, Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos e Fernando Lopes Graça entre outros só poderia estar feliz e considerar-se certamente um dos marcos culturais da Europa. Aparentemente poucos entre nós se apercebem da dimensão destes vultos.

Fernando Lopes graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906 onde iniciou os seus estudos de piano. Ingressa depois no Conservatório Nacional onde viria a ser aluno de Vianna da Motta (piano) e o Padre Tomás Borba (outro dos grandes vultos musicais portugueses do século XX e praticamente desconhecido a não ser de uma minoria) e Luís de Freitas Branco (composição e Ciências Musicais). Viria a terminar o curso do Conservatório em 1931 com a classificação máxima tendo obtido em 1934 uma bolsa de estudo para estudar em Paris com Charles Koechlin.

Porém tal como tinha sido anteriormente proibido de exercer no conservatório Nacional por razões politicas exactamente pelas mesmas razões vê-se impedido de aproveitar essa bolsa deslocando-se no entanto para Paris (1937) a custas próprias para estudar com o referido professor.  Volta a Portugal em 1940 sendo então convidado por Tomás Borba para leccionar na Academia de Amadores de Música lugar que guardaria até 1954 altura em que a ditadura lhe retira a licença para leccionar sendo portanto privado de meios de subsistência.

Inspirando-se em Bela Bartok de que era confesso admirador inicia também nessa altura  (1940) com Michel Giacometti (há algumas biografias que indicam que este trabalho se iniciou em 1961 - não sei como dirimir entre as duas versões) uma recolha da música popular portuguesa trabalho absolutamente notável e que irá infelizmente em conjunção com um outro facto que relataremos de seguida diminuir a visibilidade da sua obra enquanto compositor. Porém contrariamente a Bartok Lopes Graça muito mais raramente incorporou nas suas obras sinfónicas elementos estilizados desse folclore (a influência existe mas a construção é diferente). Excepção deve-se fazer claro às harmonizações de canções populares que escreveu para vários coros (e outras obras para piano solo como por exemplo As Glosas)

Este ultimo facto leva-nos directamente à segunda razão pela qual muitas vezes se reduz Lopes Graça a um compositor "de intervenção" que sem dúvida foi mas que na minha opinião (e de muitos outros certamente mais relevantes como por exemplo o Maestro António Vitorino d´Almeida)  está longe de ser a parte mais relevante da sua obra. É certo que Acordai por exemplo é um marco relevante mas o que dizer então do concerto para Violoncelo obligatto (1969).  Na verdade se antes da revolução de 25 de Abril de 1974 se procurava ignorar a obra do compositor por razões politicas depois dessa data a faceta de resistente acabou por diminuir o crédito ao compositor de obras que não possuíam essa faceta.

É que para além do já referido concerto existem uma boa dezena de outras obras absolutamente notáveis. Dessas obras podemos salientar o conjunto de seis sonatas para piano (1931-1984recentemente interpretadas por António Rosado e editadas pela Numérica em colaboração com a câmara Municipal de Matosinhos pela ocasião do aniversário do falecimento do compositor (Ref.: NUM 1124 [Cd Duplo]) ou ainda no que diz respeito a obras para piano "In Memorian Bela Bartok" também interpretadas por António Rosado recentemente e igualmente registadas pela Numérica (Ref.: NUM_1145).

A titulo de curiosidade note-se que esta predilecção por Bartok lhe valeu (para além do óbvio mérito artístico que tinha) a honra de ser convidado pelo governo húngaro para participar no 100º aniversário do nascimento de Bela Bartok (1981). Ainda neste registo António Vitorino d´Almeida faz-nos notar que na sua obra "Requiem pelas vitimas do Fascismo em Portugal" Fernando Lopes Graça começa a obra com exactamente as mesmas notas com que o compositor Húngaro inicia uma das suas obras primas: A Música para Cordas, Percussão e Celesta . António Vitorino d´Almeida não acredita que seja uma coincidência ...

Continuando o registo de obras notáveis (e havíamos prometido uma dezena fácil) claramente não podemos esquecer o Quarteto para Cordas nº 1 com o qual vence o prémio Rainier III do Mónaco de composição que também não consegui localizar (ainda).

Canto de Amor e de Morte, Sinfonia Per Orquestra, Quatorze anotações para quarteto de cordas, sete Lembranças para Vieira da Silva seriam outras obras que recomendamos (entre outras) para quem deseje conhecer melhor o génio deste compositor português.

Não esquecendo claro está toda a sua vasta produção para crianças desde o Álbum do Jovem Pianista até às canções de embalar.

Recomenda-se para quem deseje saber mais sobre a obra do compositor uma visita ao Museu da Música Portuguesa onde se encontra todo o espólio do compositor. No próprio site também se encontram fotografias e documentos online bastante interessantes como por exemplo alguns recortes de imprensa recolhidos pelo próprio Fernando Lopes Graça sobre as várias estreias das suas obras e outras actividades. entre estes documentos escolhemos um artigo de João de Freitas Branco escrito a propósito de uma conferência que Lopes Graça proferiu na "sua" Academia dos Amadores de Música.

Dizia Lopes Graça acerca da música: "«Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance?» pergunta Lopes-Graça nos anos trinta. A resposta será o seu caminhar resistente reflectido nestas palavras: « Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia». - citado de Vidas Lusófonas - Lopes Graça.

Fernando Lopes Graça faleceu na Parede (perto de Lisboa) a 27 de Novembro de 1994.

Outras obras consultadas:

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Listen to This - Capitulo 2 : Chaconna, Lamento, Walking Blues - Bass Lines of Music History

Como vos tínhamos prometido vamos fazer uma análise alargada deste livro capitulo por capitulo. Podem ler aqui a sinopse do Primeiro Capitulo.

Neste segundo capítulo o autor começa por nos falar da Chaconne uma dança tida por ser obra do diabo tal a reacção que provocaria nas pessoas - a libertação e desinibição que provocariam (ou provocam). Os leitores mais atentos estarão a pensar: Estamos a falar da mesma Chaconne que conheço da partita de Bach? Sim estamos só que Bach desenvolveu a estrutura dessa Dança ao ponto de a tornar simplesmente outra coisa ... Perfeita mas outra coisa. A Chaconne do Diabo, a original essa está mais próxima do que poderão ouvir com Jordi Savall por exemplo.

Fala então Alex Ross do significado intrínseco da música quando aborda uma outra forma musical que percorre toda a evolução humana desde a Renascença: O baixo continuo ou ostinato em particular a sua forma Basso Lamento. Se a Chaconne evoluiu ao longo do tempo na interpretação do seu carácter emocional o Basso Lamento é exactamente o oposto. Essa sequência de notas descendentes num intervalo de quarta podem ser encontradas em toda a música clássica e música popular (desde a renascença aos nossos dias) significando exactamente a mesma coisa: Lamento e Dor.

Diz o autor que, citando Peter Kivy no seu livro Sound Sentiment , pode muito bem ser que esta forma represente (imite) a forma humana do choro. Por outras palavras o significado em música pode resultar da envolvente (da imitação) ou da convenção. No primeiro caso seriam universais no segundo dependeriam de um particular contexto cultural.

Alex Ross descreve então a importância que o Basso Lamento teve no inicio da popularidade da ópera como forma de enfatizar o significado das palavras forma que podemos encontrar ainda hoje no Rock dos Led Zepplin passando pela  Nona de Beethoven (a expressão "não esses tons não" com que se inicia o hino da alegria) referem-se precisamente a essa sequência de notas ou pelos blues.

Um capitulo interessante que debate se a música tem um significado por si ou se antes pelo contrário é fundamentalmente abstracta sendo culturais todas as associações que fazemos quanto às emoções que ela pretende transmitir.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Joly Braga Santos (1924 - 1988)

Joly Braga Santos nasceu em Lisboa  a 14 de Maio de 1924 tendo começado por estudar violino com apenas 6 anos e composição a partir dos 10. Foi aluno de Luis de Freitas Branco e professor do Maestro António Vitorino d´Almeida. Estudou também fora de Portugal tanto composição com Virgilio Mortari como direcção de Orquestra com Herman Scherchen e Antonino Votto. Na sua formação enquanto maestro não é de excluir também a enorme contribuição de Pedro de Freitas Branco (irmão de Luís de Freitas Branco e igualmente um dos grandes músicos portugueses do século XX).

De todas as biografias que consegui encontrar na net o que é público da sua vida não musical é escasso. Se houver quem me possa indicar alguma fonte de informação adicional ficaria grato. Sabemos que teve uma filha Maria da Piedade a quem dedicou a sua Sexta e ultima sinfonia (conhecemos o livro 10 Compositores Portugueses da Quixote que esperamos nos permita completar um pouco mais esta parte).

Musicalmente Joly Braga Santos foi juntamente com Luis de Freitas Branco o grande sinfonista português. Penso mesmo que terá nesse capítulo superado o seu mestre. Penso mesmo que não seria de um patriotismo exagerado considerar Joly Braga Santos um dos grandes expoentes musicais mundiais do século XX mesmo considerando que neste século temos outros génios como Stravinsky ou Schostakovich. Sustento que Joly Braga Santos se lhes pode comparar na qualidade e genialidade. Ter sido votado pela UNESCO um dos 10 compositores mais significativos da sua época é sinal que esse reconhecimento é mundial.

Joly Braga Santos sempre se caracterizou por um gosto apurado da forma não desdenhando a monumentalidade. Pensava ainda que a música deveria ser feita para agradar (mas sem cair na banalidade fácil). Embora com o tempo e com o contacto com outras escolas europeias o seu estilo e forma de compor se tenha modificado e refinado o compositor nunca perdeu essas características que no que me diz respeito me fazem apreciar a sua música.

Embora tenha composto inúmeras outras obras é sem dúvida na forma sinfónica que pensamos melhor se exprime o seu enorme talento.

A Primeira Sinfonia foi composta em 1947 logo após a segunda guerra mundial e dedicada precisamente "Aos Herois e Martires da Ultima Guerra Mundial". Infelizmente não consigo encontrar no You Tube extractos desta sinfonia. Esta primeira sinfonia em Ré tem três andamentos num formato mais típico dos concertos do que das sinfonias (andamento rápido-lento-rápido).

A Segunda Sinfonia em Si menor foi composta no ano subsequente 1948 sendo esta já em quatro andamentos. Propomos aqui o terceiro dirigido por Alvaro Cassuto na gravação integral das sinfonias de Joly Braga Santos efectuada para a Naxos. Esta é a única das suas sinfonias de que não conhecemos a dedicatória.

A terceira Sinfonia foi composta em 1949 sendo dedicada a Luís de Freitas Branco. Esta sinfonia em dó maior é no entanto marcada por uma maioria de temas introspectivos e relativamente calmos. Propomos que oiçam o inicio do primeiro dos quatro andamentos que compõem a sinfonia, sempre na direcção de Alvaro Cassuto agora com a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A quarta Sinfonia dedicada à Juventude Musical Portuguesa foi a primeira a incorporar coro e ultima do primeiro ciclo dado que após ter composto esta sinfonia Joly Braga Santos fez uma espécie de interregno sabático. Composta em 1950 e estreada em 1951 tem um final que de certa forma (talvez pelo coro) lembra a nona de Beethoven. Oiçam aqui o final da sinfonia dirigida por Alvaro Pereira.

A quinta sinfonia foi composta apenas em 1966 sendo intitulada "Virtus Lusitanae" . Propomos aqui o quarto e ultimo andamento numa interpretação da Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Alvaro Cassuto.

A sexta Sinfonia foi composta em 1972 e é dedicada á sua filha Maria da Piedade como já referimos. Trata-se de uma sinfonia em seis andamentos de que vos propomos um extracto aqui.

Depois de ouvirem apenas estas seis sinfonias certamente concordarão comigo quanto ao génio de Joly Braga Santos ao nível dos grandes compositores do século XX.

Joly Braga Santos faleceu em Lisboa a 18 de Julho de 1988

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