quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Gustav Leonhardt (1928-2012) - In Memorian

Faleceu ontem dia 17 de Janeiro de 2012 Gustav Leonhardt cravista e especialista em música barroca. Há quem defenda o seu mérito artístico sobretudo pela sua procura da autenticidade e de uma sonoridade mais próxima do som pretendido e usual dos compositores dessa época. Sendo essa uma dos factores que trouxe à música do século XX acredito que o seu contributo transcendeu em muito esse aspecto.

Curiosamente tínhamos falado do grande mestre num dos primeiros posts deste blog ainda em 2007.  Com alguns erros à mistura salientados por um dos leitores com outros que passaram incólumes não deixávamos de salientar um dos seus grandes legados: A recuperação de uma perspectiva de época e a integral das cantatas de Bach que gravou com Hannoncourt entre 1971 e 1990.

Assim no que me diz respeito prefiro de longe salientar a sensibilidade musical ímpar que transcende a discussão académica sobre o interesse ou primazia das interpretações de época sobre as restantes. E prefiro-o, embora Gustav Leonhardt não concordasse comigo de certeza,  porque acho que as suas interpretações têm valor muito para além dessa dimensão de análise. Curiosamente uma vez o maestro disse: "Se um músico parecer convincente vai parece autêntico por outro lado se procurar ser autêntico dificilmente vai convencer ..."

O estilo de Leonhardt caracterizava-se essencialmente por uma enorme sobriedade, as vezes até criticado por ser demasiado cerebral  demasiado frio, pensamos que se confunde a verbalização em folclore gestual com a verdadeira emoção que decorria da forma como pressionava as teclas e nos fazia percorrer a sua musica interior.

Numa entrevista o músico explicou como tinha começado a gostar de cravo:

Initially I was not drawn to the harpsichord - I was faced with it! When I was about ten-years-old, before World War II, my parents, who were not musicians, but were great music lovers, used to play a lot of chamber music with my brother and sister. Almost every night we would play music. Extraordinarily for amateurs at that time, my parents thought that since they sometimes played Telemann and Bach, they should have a harpsichord. So they ordered one, and since I was usually the keyboard man I was put on the harpsichord and played my written-out continuo part - badly, I’m sure, although I don’t now remember much about it. Then during the last year of the War everything in Holland stopped; there was no electricity, no water and we had to hide from the Germans. School was also stopped, which was marvellous for me, the best thing about a year when unimaginable horrors were going on elsewhere in Holland. Our house was in the countryside, so although we were not eating well, we were not suffering the hunger endured by those in the cities. It was then I started to look at our harpsichord with fresh eyes. I became absolutely fascinated by it and started regulating and tuning it all day long. It was then that I developed my desire to be a musician and devote myself to Bach, albeit in a rather naive way. After the War, I told my parents of my wishes, but they wisely made me finish my schooling. My father was a businessman and expected me to go into the business as a director, but my parents were also very liberal and agreed to let me study music. That was in 1947. At that time there was only one institute in Europe where you could study seriously the kind of music I was interested in. That was the Schola Cantorum in Basel, which of course remains today one of the foremost institutes. So I went to Basel for three years, and there laid the foundations for what happened later.

A entrevista (aliás notável) pode ser lida totalmente aqui. Professor notável (penso que dos cravistas actuais haverá poucos que não tenham de alguma forma aprendido com Gustav) não podemos deixar de mencionar também a sua contribuição enquanto musicólogo no estudo de alguns compositores que tinham sido quase totalmente ignorados ou mal entendidos.

Para ilustrar com música este post deixamo-vos com o ultimo concerto deste cravista excepcional que podem ouvir e ver no You Tube no passado dia 12 de Novembro. Escrevo aliás este post ao som desse concerto ... Estou seguro que descansará em paz, a mesma paz lúcida e luminosa que transparece neste vídeo.

Gustav Leonhardt Théâtre des Bouffes du Nord em Paris a 12 de Dezembro de 2011.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Wikipedia e Google em "Blackout"

Nos Estados Unidos hoje a Wikipedia e o Google estão em blackout em protesto contra os projectos de lei SOPA e PIPA. Este post vem na sequência do anterior e representa um posicionamento do autor (e sublinho o autor) deste blog contra legislação cujo objectivo é cercear a liberdade que a Internet nos proporciona sobre as mais esfarrapadas desculpas de protecção de um direito que é na sua essência legitimo.

Podem acreditar que a Internet é como é hoje porque os meios de comunicação social tradicionais e os poderes que os regulam e controlam, os mesmos que permitem que nos digam disparates o dia inteiro, os mesmos que nos tomam por idiotas, os mesmos que persistem em apresentar os factos apenas sobre o prisma que dá mais jeito aos seus donos estavam distraídos. Se não estivessem teríamos a internet subjugada e servil.

Hoje digo-vos que tenho mais e melhor informação, verdadeira informação, verdadeira opinião - de direita de esquerda, do centro - de todas as cores e feitios - na net do que nesses órgãos de comunicação. Não é por acaso que Murdoch se revolta contra o Google. É o controlo que o preocupa o facto de não o poder comprar.

O direito dos autores, o direito da propriedade intelectual deve ser defendido é verdade e como sabem também sou em absoluto contra a pirataria. Deve ser defendido mas não contra a liberdade de expressão. Leiam a página da Wikipedia que explica tudo o que há a saber.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Projecto Lei PL118 - A defesa do direito da industria à sobrevivência

Tinha pensado que não iria falar disto mas depois de hoje ter lido algumas das implicações deste projecto não posso deixar de comentar e de vos incitar a informarem-se sobre o que está em causa.

Em primeiro lugar, os leitores deste blog sabem que não defendo a pirataria. Sabem que defendo que se comprem os CDs e DVDs e/ou as respectivas músicas em formato digital. No que me diz respeito compro religiosamente as mesmas no ITunes ou em outras lojas virtuais. Compro também de tempos a tempos CDs e DVDs em lojas físicas embora muito menos. A razão para isso já a expus em outros locais mas fundamentalmente está relacionada com o valor que esses produtos efectivamente têm face ao seu preço. O verdadeiro problema que a industria (e sublinho industria, não a arte ou os artistas) teima em não reconhecer.

Este projecto de decreto lei como podem ler  redefine uma lei já existente e procura e cito "reforçar o legítimo interesse dos diversos titulares de direitos abrangidos pelo regime normalmente designado por “cópia privada”, mediante a criação de condições que garantam a percepção de uma compensação equitativa pela reprodução de obras intelectuais, prestações e produtos legalmente protegidos". O interesse dos autores é legitimo já se a SPA os representa seria outra história embora o paragrafo anterior deixe antever o que penso do assunto.

O decreto lei no essencial fixa valores a ser pagos por discos, cartões de memória, pens, ... sobre o argumento que podem ser utilizados para copiar obras protegidas por direitos de autor. Esta presunção de utilização já por si perfeitamente descabida (é escusado dizerem-me que é feita em outras áreas, outros países ou outros contextos porque isso apenas prova que se repete o erro e nas sábias palavras de Descartes se Errar é Humano perseverar no erro é obra do diabo) é ainda agravada por erros técnicos gravíssimos que tornarão esta lei obsoleta em meia dúzia de meses - ou o que é pior - impedirão na prática a comercialização de alguns tipos de dispositivos em Portugal (o erro está relacionado com a forma de taxação da capacidade que é perfeitamente ridícula e obviamente se baseia no pressuposto que quanto mais capacidade mais obras se pode manter em cópia).

Importa pouco ao legislador perceber se o que está a ser armazenado é efectivamente sujeito a direito (o cumulo do ridículo é que um cartão de memória colocado numa máquina fotográfica pagará imposto!) porque diz-se é impossível controlar essa utilização. Pois graças a Deus que é efectivamente impossível porque senão nem sei o que inventariam mas já estou a ver que não falta vontade de uma versão digital da policia do Fahrenheit 451.

Eu que sou autor, que compro legitimamente as minhas musicas que faço backup das mesmas vou ser taxado três vezes. Diz o legislador que esse custo será suportado pelo retalho ou pelos fabricantes. Deixem-me rir. Não só em alguns produtos isso é matematicamente impossível (e pelo que expus à pouco rapidamente vai atingir o ponto da inviabilidade) como ainda por cima a taxa é aplicada ANTES do IVA pelo que o estado arrecada mais 23% do montante da taxa, habilidoso não? Esse custo é de certeza suportado pelo consumidor. Uma impressora de jacto de tinta multifunções (basta ter duas - impressão e fax por exemplo) €7 a mais? Porque posso imprimir ou fazer scans ????? Até 17 Kg apenas porque se for mais aí vai para uma categoria diferente onde obviamente será ainda mais taxada. Deixem-me ir a uma loja online só para verificar uma coisa. Multifunções começam a €40 portanto €7 são mais 18% ... Calculos idênticos em discos podem dar acréscimos de custo de 50% ou mais (e isto agora sem fazer a previsão do lógico crescimento das capacidades dos mesmos e redução do custo por TB unitário).

Por fim se a lei contribuísse em alguma coisa para a cultura em Portugal, para a defesa do legitimo direito dos autores eu ainda poderia contemplar a hipótese de dizer: Ok, são mais uns Euros que ficam como uma doação, uma espécie de mecenato, afinal de contas eu faço uma doação anual para a Wikipedia porque não também para os autores portugueses. Mas desenganem-se os que assim pensam. Esta lei não defende autores, defende industrias e essas há muito que não têm nada a ver com os mesmos e muito menos com as respectivas artes de que se outorgam o direito de defesa como se sem eles não existisse música ou músicos, cinema ou cineastas, literatura ou escritores, pintores ou pintura.

Acredito que os grandes vultos que no final do século XIX criaram estas sociedades um pouco por todo o mundo vissem o que agora andam a fazer dariam uma volta completa na tumba. Um deles tenho a certeza que reescreveria o Carnaval dos Animais para incluir outra espécie.

Recomendo-vos fortemente que leiam o Blog Jonasnut que contém a compilação de tudo o que há a saber sobre o assunto e muito democraticamente expõe em muitos casos a tese e antítese. No que me diz respeito  já resolvi o que penso acerca deste projecto de lei: Simpaticamente diria que é um pouco mau demais para ser verdade.

Uma decreto lei injustificável sobre o pronto de vista da filosofia e do principio do mesmo e para acréscimo mal pensado. Como digo sempre quando me querem justificar a bondade de um caminho pela bondade do fim a que se destina fico logo com o pé atrás. É que me ensinaram que os fins nunca justificam os meios.

Diz que não gosta de música clássica a votação

Pois é caros leitores o nosso blog está a votação para blog do ano na categoria de música no concurso de Blogs promovido pelo Aventar. Como não deixamos de gostar de uma sã disputa convidamos os nossos leitores a darem uma vista de olhos à lista e a votarem em uma ou mais categorias.

Na categoria de música enfim espero que votem bem (em consciência mas bem ;-)) e mais não digo ...

Oportunidades na Amazon