terça-feira, 19 de abril de 2011

Verdi e Berlusconi - A história da actualidade de uma composição eterna

Já vos tinha falado deste episódio mas agora tenho o vídeo do que se passou na Ópera de Roma. Arrepiante. Por duas razões. Primeiro porque demonstra que afinal a música clássica não é algo morto, que pertence a um museu, segundo porque nos faz pensar que eventualmente há coisas cujo valor não se mede pelos Euros que custam porque representam muito mais do que isso ...

Por isso oiçam o que Ricardo Mutti diz ao público quando aceita o "bis" pedido pelo público ... Ele está a falar das reduções orçamentais impostas por Berlusconni ... Obviamente que o coro dos escravos cantado por toda a Ópera de Roma em pé é um sinal pelo menos de reflexão.

Obrigado ao Sergio Azevedo que nos relembrou este evento no Facebook.

domingo, 17 de abril de 2011

Posts deste fim de semana

Vai ser difícil com os Dias da Música ontem no CCB onde ouvi algumas obras interessantes e boas interpretações (vamos ver se vos consigo contar hoje à noite). Hoje vou até à Figueira da Foz almoçar com a minha avó e também ouvir isto:

17 de Abril, 17h00


O projecto deste Concerto de Solidariedade a Favor do Haiti – Unidade de Saúde Materno-Infantil partiu originalmente do interesse manifestado por três directoras de turma do 5º e 6º anos integralmente dedicadas ao ensino artístico especializado da música da Escola EB 2º e 3º Ciclos Dr. João de Barros, em aliar uma pedagogia social de grande nobreza humanista e humanitária junto dos seus alunos ao contacto directo com uma orquestra profissional ou de nível de formação superior.

A esta causa juntou-se o Conservatório de Música David de Sousa e a Orquestra Sinfónica da Escola Superior de Música de Lisboa, para, através da receita líquida de bilheteira, contribuir para que a Cáritas Diocesena de Coimbra possa levar a bom porto a criação de uma unidade de saúde materno-infantil no Haiti.
Organização: Conservatório de Música David de Sousa, Escola EB 2º e 3º Ciclos Dr. João de Barros, Cáritas Diocesena de Coimbra, Centro de Artes e Espectáculos e Câmara Municipal da Figueira da Foz

M 3 anos
Duração aprox.: 2h00
Entrada: 5,00 EUROS

Portanto caros leitores da zona litoral centro se puderem não deixem de ir ver também ...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Alex Ross: The Rest Is Noise: Wagner gazes upon Australia

Uma resposta interessante de Wagner quando um correspondente o informa da representação de Lohengrin em Melbourne. É engraçado não só ver as fotografia de Melbourne em 1877 como também perceber como na altura (e passou um pouco mais de um século, bom mais ou menos um século e meio) o simples envio de umas fotos tinha tanto para dizer.


Alex Ross: The Rest Is Noise: Wagner gazes upon Australia

domingo, 10 de abril de 2011

Edward Elgar (1857 - 1934)

Edward Elgar nasceu perto de Worcester a 2 de Junho de 1857. Filho de William Elgar que tinha por profissão afinar pianos e que era também um violinista de razoável qualidade Elgar desde cedo aprendeu piano e violino. Da mãe uma apaixonada pela arte herdou o gosto pela literatura e pelo campo inglês.

Não foi fácil a vida de Elgar enquanto compositor. Embora tendo estudado Piano e Violino desde cedo sempre foi um autodidacta não sendo conhecido nenhum professor de composição. Este facto e não menos importante na Inglaterra da altura o facto de ser Católico valeram-lhe durante muitos anos o preconceito dos seus pares e da sociedade em geral.

Subsistiu durante os primeiros anos enquanto adulto dando aulas de violino e tocando órgão na Igreja Católica de St. George. Em 1899 casou com uma das suas alunas Caroline Alice Roberts  contra a vontade dos seus familiares porque obviamente era considerado um mau partido. A verdade é que este casamento viria a ter um papel fundamental na criação musical de Elgar pela fé absolutamente ilimitada que Alice tinha no talento do seu esposo.

Aos poucos a sua reputação enquanto compositor foi estendo-se para além dos limites do Worcester natal tendo o seu primeiro grande sucesso sido composto mesmo no limite do século XIX, Variations on a Original Theme - Enigma. Dedicados aos "seus amigos" oiçam aqui uma excelente explicação da obra nas Proms de 1995.  Ainda nesse ano compõe o ciclo de canções Sea Pictures e depois já no século XX (1901) as duas primeiras marchas "Pompa e Circunstância" que são sem dúvida as suas obras mais conhecidas (ao ponto de Elgar desejar que não fossem mais interpretadas) - se o inicio é conhecido coloquem o video perto do minuto 2 para perceberem o que vos digo (e o sentimento de Elgar). Claro que Elgar ainda tornou o caso pior ao transformar esta marcha no Hino Land of Hope and Glory .

Em 1908 compõe a sua primeira grande obra sinfónica, a Sinfonia nº 1 em Lá Bemol Maior dedicada e dirigida por Hans Richter que disse simplesmente dirigindo-se à orquestra "Senhores vamos ensaiar a melhor sinfonia de hoje pelo maior compositor de hoje e não apenas no seu país".  Esta obra foi recebida na altura com enorme entusiasmo tendo mesmo o seu andamento lento sido comparado aos de Beethoven.

Apenas um ano mais tarde Elgar (1911) compõe o seu concerto para violino dedicado a Kreisler e estreado por este nesse mesmo ano. É uma peça maravilhosa bem ao estilo romântico no entanto com uma orquestração muito mais complexa em que por essa razão o papel do solista é muito mais do que uma simples demonstração de virtuosismo antes contribuindo para um todo de grande intensidade. Na interpretação que escolhemos este concerto é interpretado por Yehudi Menuhin dirigido pelo próprio Elgar numa gravação de antes da Segunda Guerra Mundial(1932). A dedicatória ela própria não poderia ser mais enigmática contendo a frase em Espanhol "Aqui esta encerrada el alma de ….".

Nesse mesmo ano terminou a sua Segunda Sinfonia dedicada à memória do Rei Eduardo VII que o marcou profundamente já que Elgar associava tudo o que de bom se passou entre 1908 e 1911 ao monarca. É assim uma obra largamente introspectiva. Seguiu-se então a segunda-guerra mundial que deixou Elgar profundamente depressivo e quase incapaz de compor.

Quando a guerra acabou tinha nascido um novo Elgar muito menos majestoso. Já não era "Pompa e Circunstância" mas antes "Contemplação e Introspecção". No fim da segunda guerra houve no entanto um ultimo grande período criativo que nos trouxe a Sonata para Violino o Quarteto para Cordas e o Quinteto para piano e sobretudo o Concerto para Violoncelo que terá sido a sua grande ultima obra sinfónica. Este ultimo quarteto tem a característica adicional de estar ligado a uma das grandes lendas da música do século XX, Jacqueline du Pré que o imortalizou e o colocou no reportório obrigatório de Violoncelo pelas suas interpretações verdadeiramente sublimes. Aliás para vos dizer verdade se hoje estou a escrever esta curta biografia é porque o meu filho me mostrou na sexta uma interpretação desta senhora com apenas um comentário: Olha como é intenso ... e é ... o primeiro andamento é sublime e esgotante do ponto de vista emocional.

A esposa de Elgar faleceu em 1920 e com ela a centelha criativa de Elgar parece ter também desaparecido a sua centelha criativa (também ajudado pelo facto da sua música ser então considerada "fora de moda". Elgar faleceu em Londres a 23 de Fevereiro de 1934.

Durante muito tempo a sua música ficou com a fama de ser antiquada mas hoje reconhece-se o enorme talento e um sentido quase místico para a melodia. Elgar publicou em 1988 uma pequena peça que dedicou à sua esposa Caroline Alice e que demonstra bem esse sentido fantástico: Salut d´Amour (muito conhecido por várias razões a menor da qual não deixará de ser fazer parte do método de ensino de vários instrumentos). Aliás a recuperação do compositor não terá sido estranha a utilização de várias das suas peças para fim de ensino.

Uma grande parte desta biografia foi adaptada da biografia escrita pela Sociedade Elgar.

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