domingo, 22 de abril de 2012

Gnossiennes de Erik Satie

Continuando a mostrar-vos o conjunto de 100 obras que escolhemos para quem quer conhecer e começar a gostar de música clássica (são um pouco mais de 100, fizemos alguma batota :-)) hoje proponho-vos, na sequência do post de ontem, as Gnossiennes também de Erik Satie.

Dizer que Erik Satie era excêntrico peca talvez por ser um eufemismo. Satie sempre viveu nos extremos de forma pouco convencional. Na verdade sempre foi um revolucionário em todas as dimensões em que procurarmos.Na música foi certamente onde esta forma de estar produziu os seus frutos mais perenes.

As Gnossienes foram compostas cerca de dois anos após as Gymnopédies sendo publicadas pela primeira vez num jornal "Figaro Musical" - as três primeiras Gnossienes isto é - dado que as ultimas três apenas foram publicadas em 1968 sendo discutível que Satie sequer as tivesse considerado como fazendo parte deste conjunto.

O nome deste conjunto de peças é também ele sujeito a várias interpretações. Há quem pense que deve ser entendido como uma derivação de uma palavra Grega que remeteria assim para a mitologia Grega do Minotauro explicação que dada a ligação de Satie ao surrealismo poderia fazer algum sentido. Há também quem defenda que ao contrário que este nome se deveu às ligações de Satie à religião Gnostica (Satie chegou a fundar uma "Igreja" de que era o único fiel - ao mesmo tempo uma contradição e uma afirmação desse carácter Gnóstico paradoxo tão fiel ao seu humor e ao gosto pelos paradoxos também eles característicos dos surrealistas franceses da época.

Pessoalmente penso que Saite inventou a palavra sem pensar muito em outra referência que não fosse tratar-se de um conceito totalmente novo. Na verdade na altura escrever música sem barras de compasso e sem uma verdadeira indicação de tempo, a não ser indicações "poéticas" que muitos pensam ser gozo aos impressionistas (em particular Debussy) - "avec étonnement" diríamos poder ser assim ou talvez não.

Embora sejam cronologicamente posteriores às Gymnopédies (1888) alguns musicólogos pensam que na verdade estas obras estão mais directamente ligadas às Trois Sarabandes de 1887.

Optamos por vos mostrar as 7 composições hoje em dia classificadas e interpretadas segundo esta classificação embora como vos referi apenas as três primeiras tenham sido efectivamente publicadas por Satie segundo esta designação.

Gnossiene nº1
Gnossiene nº2 - Avec étonnement
Gnossiene nº3 - Lent

Gnossiene nº4 - Lent
Gnossiene nº 5 - Moderé
Gnossiene nº 6 - Avec conviction et avec une tristesse rigoureuse
Gnossiene nº 7 - Allez. Calme.

sábado, 21 de abril de 2012

Gymnopédies de Erik Satie

Injustamente proclama-se que começou aqui a música de elevador. Injusto porque embora seja verdade que Satie compôs obras que ele considerava como "musica de ambiente" estas peças não faziam parte desse conjunto.

Injusto numa dimensão oposta para outros compositores que já antes haviam composto obras para funcionarem com música ambiental (uma delas aliás está na nossa Lista das 100 obras de Música Clássica - Taffelmusik de Telemann).

Compostas e editadas em 1888 - a primeira e a terceira já que aparentemente a terceira apenas foi editada cerca de sete anos mais tarde - estas obras não tendo para mim a dimensão emocional das Gnossiennes de que falaremos de seguida não deixam de ser obras notáveis e muito mais do que simples música ambiente sem desprimor para esta ultima porque em doses reduzidas também há espaço para ela no Mundo ...

Estas obras foram orquestradas por Debussy quase imediatamente de forma que é possível que conheçam também a versão orquestral (a primeira e terceira já que Debussy considerava a segunda inadequada para esse fim).

Quanto ao nome destas peças embora se tenham tentado encontrar várias explicações o mais provável é Satie ter escolhido o nome apenas pelo seu toque de exotismo. Na altura da edição as partituras incluíam um poema do seu amigo, companheiro e poeta Contamine de Latour em que este termo é utilizado. Porém não é claro se o poema precedeu a composição ou vice-versa.


Tendo em conta o carácter de Satie e o seu gosto pela sonoridade das palavras inclinamo-nos para uma explicação simplesmente "fonética". Estas peças pela simplicidade que demonstram foram na verdade uma verdadeira revolução na escrita para piano solo. As Gnossiennes de que falaremos de seguida exploram e expandem estas ideias.

Gymnopédie nº 1 - Interpretação de Aldo Ciccolini
Gymnopédie nº2 - Interpretação de Maria Aloupi
Gymnopédie nº 3 - Interpretação de Aldo Ciccolini

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Richard Strauss escreve a Hitler

Naquele dia 13 de Julho de 1935 conta-nos a Diapason Richard Strauss escreve a Hitler assegurando o ignóbil ditador da sua "profunda veneração".  Tinha acabado de ser despedido do cargo de Director Artístico da Música de Câmara do Reich e nessa carta ajoelhava-se e apelava ao sentido de justiça do ditador.



É verdade que a razão do despedimento esteve directamente ligada à exigência de manter no programa da sua ópera o nome do libretista (judeu) Stefan Weig. É esta atitude dual que é tão difícil de entender em Strauss. Por um lado tem a coragem de resistir e não ceder mas por outro reconhece a autoridade do ditador mesmo quando os seus "pedidos" são inaceitáveis.

Será difícil de entender mas devemos compreender que Richard Strauss na verdade tinha um ego do tamanho do mundo. Não acreditava estar em perigo e pensava genuinamente que salvaria a música alemã. Não dos "perigos" do judaísmo mas eventualmente de si própria. O choque do despedimento é mais a incredulidade perante aquilo que pensava ser impossível do que qualquer outra coisa.

Strauss sempre teve uma atitude ambígua, bivalente porque aceitava mas também criticava e defendia na prática quem era injustamente oprimido ou pior. Terá assim salvo muitos músicos ...

Goebels que interceptou uma carta de Richard Strauss para Stefan Weig achava o músico perigoso. acreditamos que não forçosamente pelas suas ideias resolutas mas mais pelo facto de nada recear. Essa independência que provinha do seu enorme ego era perigosa. Mais perigosa do que uma qualquer militância. E essa carta em que Richard Wagner perguntava se alguém achava que Mozart escreveu conscientemente enquanto "ariano" foi sabiamente utilizada para o afastar.

Richard Strauss não foi corajoso porque a coragem pressupõe a noção do perigo e Strauss julgava estar acima dele, mas é verdade que com família judia tinha muito em risco e por isso talvez não seja justo vê-lo desta forma. Facto é que nunca foi na verdade nazi e que salvou muitos seres humanos de uma morte trágica. Coragem e resolução? Talvez não, essa estava guardada para a sua música.

Um ano mais tarde em 1936 comporia e dirigiria o seu Hino Olímpico que em parte vos mostramos neste vídeo.

Hino Olímpico em Berlim dirigido por Richard Strauss.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dia Mundial da Voz : The Day After

Ontem (quero dizer segunda-feira para os que me lêem no dia correcto isto é na Terça) foi o Dia Mundial da Voz. Não sou grande fã dos dias mundiais a não ser pelo pretexto que nos dão de falar de coisas que doutra forma nos esquecemos ou fazemos por esquecer. E no que diz respeito à voz nada mais apropriado do que falar; a homenagem fica feita quase só por aí, por aquilo que cada um de nós faz com esse instrumento maravilhoso capaz de transmitir tantas emoções.



Não só pelo que a voz diz pelas palavras mas também pelo que transmite pelo seu tom por aquela qualidade de carinho como reconhecemos na bem-amada ou naquela voz de comando que aceitamos de um líder natural, como se o timbre desmaterializasse as palavras. Como na voz das grandes cantoras e cantores que transformam canções banais em momentos inesquecíveis.

Hoje apetece-me voltar a falar neste blog de algumas dessas vozes, no feminino desta vez, apenas no feminino sem qualquer outra razão que não seja a saudade e talvez o facto de todas elas estarem numa determinada lista.

Sem qualquer ordem especial começamos por Ella continuamos para Elis para terminar na Callas, conseguem imaginar uma melhor trilogia para o Day After? As canções? Bem são daquelas que precisamente poderiam ser banais não fossem cantadas por quem são ...

Over the Rainbow por Ella Fitzgerald

When all the world is a hopeless jumble
 And the raindrops tumble all around 
Heaven opens a magic lane


E não é que o céu abre mesmo um caminho mágico através dos nossos ouvidos até à nossa alma?




Cais por Elis Regina


Para quem quer se soltar
invento o cais 
Invento mais que a solidão me dá 
Invento lua nova a clarear 
Invento o amor 
e sei a dor de me lançar 
Eu queria ser feliz 
Invento o mar 
Invento em mim o sonhador 
Para quem quer me seguir 
eu quero mais 
Tenho o caminho do que sempre quis 
E um saveiro pronto pra partir 
Invento o cais 
E sei a vez de me lançar


E como não nos encontrarmos, (re)encontrarmo-nos nesta canção?




Um bel di, vedremo pela Callas

E ninguém exprime melhor a dor da partida e nem sequer são necessárias palavras, mesmo não entendendo uma única palavra perceberíamos. A Voz é assim, a música é assim ...

Oportunidades na Amazon