O debate se esta obra se deve classificar com Jazz ou como música clássica nunca estará verdadeiramente terminado. A bem dizer isso não me interessa muito já que os títulos ou as classificações apenas são úteis enquanto taxonomia quando nos ajudam a entender a forma como as coisas se organizam. Se nas ciências essa forma deve obedecer a critérios rigorosos, já nas artes há uma certa liberdade poética e de sentimento que nos pode permitir - a nosso belo prazer - definir algumas coisas como nos manda o coração. No meu caso esta obra é tanto uma peça de Jazz como uma música clássica.
Foi composta nos primeiros dias do ano de 1924 reza a lenda em apenas algumas semanas sobre a pressão da ideia ser "roubada" por um outro produtor. Na verdade a obra foi uma encomenda de Paul Whiteman o maestro de uma banda de Jazz e que tinha uns meses antes discutido com Gerswin a possibilidade de se fazer um concerto de raíz profundamente americana e que provasse que o Jazz era digno de uma sala de concerto. Ironia suplementar Paul Whiteman até tinha formação clássica, violinista que fora da Orquestra Sinfónica de Denver.
A orquestração da obra não é de Gershwin (pelo menos a da estreia não foi) mas sim de Ferde Grofé sendo também tema de debate se naquela altura Gershwin teria ou não capacidade técnica para ele próprio escrever a orquestração. É preciso enquadrar este facto na realidade de um compositor da Broadway que Gershwin também era. Normalmente o trabalho de orquestração não era feito pelos compositores das "canções" - Berlin, Kern ou Rodgers raramente orquestravam - mas sim por técnicos especialistas. O tempo dos compositores era demasiado precioso para algo que era essencialmente visto não como um trabalho criativo mas antes como um trabalho técnico. É assim razoável admitir que este modelo fosse aplicado nesta encomenda sobretudo dado o escasso tempo existente para a completar.
A obra está dividida em três partes embora não estejam identificadas como tal. A primeira parte é uma parte rápida e alegre, a parte mais extensa, a segunda é uma parte lenta normalmente chamada o tema do amor pelo seu carácter doce para depois terminar de novo num final épico. Os leitores mais fieis deste blog não deixarão de notar nesta estrutura a forma normal de um concerto clássico com os andamentos rápido-lento-rápido. Podemos identificar claramente cinco temas que são apresentados logo nos primeiros compassos da obra.
A estreia a 12 de Fevereiro de 1924 recebeu um acolhimento fantástico por parte do público menos fantástico por parte da critica que nitidamente não conseguiu ultrapassar a barreira do género. Aliás nem de um lado nem do outro da barricada já que os especialistas do Jazz também não foram propriamente entusiasta da obra. Na estreia da obra estava presente uma plateia que hoje seria considerada impossível com alguns dos grandes vultos musicais da época: Heifetz, Kreisler, John Sousa e Rachmaninoff por exemplo. Na estreia com Gershwin ao piano a cadencia final foi verdadeiramente improvisada pelo que é impossível saber hoje como foi exactamente interpretada embora se admita que as versões que se seguiram interpretadas por Gershwin possam ser semelhantes.
Mas chega de palavras fiquem com a primeira parte da obra interpretada por Bernstein e a Filarmónica de Nova Iorque.
Deixo-vos também a titulo de comparação uma das versões interpretadas pelo compositor.
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Mozart - As Sonatas para Violino
Inspirado pelo sentimento de urgência na reparação de uma injustiça colectiva que estamos a cometer neste blog vejo-me forçado a fazer campanha eleitoral por Mozart. Eu até não queria (não que Mozart não mereça antes pelo contrário, não deveria era precisar mas isso é outra história), mas dizia eu não queira porque, pecado capital para um amador de música clássica Mozart não me enche as medidas.
Antes que comecem a maldizer o autor deste blog uma explicação prévia. Não está em causa obviamente a genialidade do compositor. Aliás quem seria eu para a isso me atrever. É simplesmente porque em Mozart tudo é sempre tão certo, tão puro, tão claro e transparente (aliás essa é a grande dificuldade que se coloca a quem interpreta Mozart). Eu gosto de obras mais arriscadas, com mais arabescos, mais românticas se quisermos ou mais barrocas se preferirmos um passo para o passado. O período clássico e o seu expoente máximo, a perfeição da forma atingida por Haydn e Mozart nem sempre me conseguem comover. Há obviamente excepções ... Aqui fica desta forma assinalada a minha má vontade ao realizar esta campanha desculpem este longo desabafo.
Mozart escreveu como se sabe mais de trinta sonatas para violino e piano embora entre estas se encontrem 16 que são trabalhos da sua mais tenra infância e que na realidade são mais sonatas para piano com acompanhamento de violino do que o inverso. Esquecendo essas ficamos com as Sonatas Nº17 a Nº 36 das quais algumas estão incompletas ou foram completadas após a morte do compositor por alunos ou estudiosos. Em nome da verdade mesmo estas obras poderiam ser no minimo ser consideradas obras onde o piano é igualmente importante ou mesmo mais importante que o Violino. Porém hoje em dia são apresentadas desta forma e por isso as apresento nesta lista.
Escolher entre o conjunto que resta é muito difícil senão impossível. Como em outras cmapanhas eleitorais vamos escolher os andamentos que nos parecem ser melhores promessas para o vosso voto. Começamos assim com o segundo andamento (Allegro) da K.301 em Sol Maior a Sonata nº 18 composta em 1778 em Manheim e dedicada a Maria Elisabeth eleitora do Palatinado.
A segunda proposta é a sonata K. 302 em Mi Bemol Maior composta apenas uns meses depois e dedicado à mesma princesa fazendo portanto parte do mesmo ciclo intitulado "Sonatas do Palatinado".
Já num ciclo diferente a sonata K.454 em Si Bemol Maior composta em 1784 em Viena e dedicada a Regina Strinasacchi um virtuoso do violino.
E claro que depois do post sobre Clara Haskil não poderiamos terminar sem incluir uma sonata de Mozart interpretada por esta excelente dupla no caso a K. 526 em Lá Maior e escrita em 1788 eventualmente para o mesmo virtuoso violinista que a anterior.
Depois destes exemplos parece-me que pelo menos mais alguns votos terão de fluir para as obras de Mozart!
Antes que comecem a maldizer o autor deste blog uma explicação prévia. Não está em causa obviamente a genialidade do compositor. Aliás quem seria eu para a isso me atrever. É simplesmente porque em Mozart tudo é sempre tão certo, tão puro, tão claro e transparente (aliás essa é a grande dificuldade que se coloca a quem interpreta Mozart). Eu gosto de obras mais arriscadas, com mais arabescos, mais românticas se quisermos ou mais barrocas se preferirmos um passo para o passado. O período clássico e o seu expoente máximo, a perfeição da forma atingida por Haydn e Mozart nem sempre me conseguem comover. Há obviamente excepções ... Aqui fica desta forma assinalada a minha má vontade ao realizar esta campanha desculpem este longo desabafo.
Mozart escreveu como se sabe mais de trinta sonatas para violino e piano embora entre estas se encontrem 16 que são trabalhos da sua mais tenra infância e que na realidade são mais sonatas para piano com acompanhamento de violino do que o inverso. Esquecendo essas ficamos com as Sonatas Nº17 a Nº 36 das quais algumas estão incompletas ou foram completadas após a morte do compositor por alunos ou estudiosos. Em nome da verdade mesmo estas obras poderiam ser no minimo ser consideradas obras onde o piano é igualmente importante ou mesmo mais importante que o Violino. Porém hoje em dia são apresentadas desta forma e por isso as apresento nesta lista.
Escolher entre o conjunto que resta é muito difícil senão impossível. Como em outras cmapanhas eleitorais vamos escolher os andamentos que nos parecem ser melhores promessas para o vosso voto. Começamos assim com o segundo andamento (Allegro) da K.301 em Sol Maior a Sonata nº 18 composta em 1778 em Manheim e dedicada a Maria Elisabeth eleitora do Palatinado.
A segunda proposta é a sonata K. 302 em Mi Bemol Maior composta apenas uns meses depois e dedicado à mesma princesa fazendo portanto parte do mesmo ciclo intitulado "Sonatas do Palatinado".
Já num ciclo diferente a sonata K.454 em Si Bemol Maior composta em 1784 em Viena e dedicada a Regina Strinasacchi um virtuoso do violino.
E claro que depois do post sobre Clara Haskil não poderiamos terminar sem incluir uma sonata de Mozart interpretada por esta excelente dupla no caso a K. 526 em Lá Maior e escrita em 1788 eventualmente para o mesmo virtuoso violinista que a anterior.
Depois destes exemplos parece-me que pelo menos mais alguns votos terão de fluir para as obras de Mozart!
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Resultados Provisórios - Melhor obra para Violino Solo
Após mais uma semana temos agora 12 votantes num total de 75 votos expressos o que significa uma média de 6,25 votos por votante um aumento relativo à semana passada.
Na frente desta nossa votação com 50% dos votantes a terem preferido estas obras encontramos três obras totalmente diferentes na sua natureza: As sonatas e partitas de Bach - um expoente do período barroco sem dúvida um expoente da nossa civilização, a Sonata de Cesar Franck uma certa surpresa embora seja uma obra lindíssima e uma das minhas preferidas, uma representação do "outburst" do romantismo e por fim Tzigane que é uma obra que desafia um pouco qualquer qualificação, uma obra do período pós-romântico, das escolas nacionais, uma obra francesa sem dúvida mas com sonoridade do leste, uma obra bastante misteriosa portanto.
Na cauda da tabela sem surpresa ficam os compositores menos conhecidos mas ficam também algumas francas injustiças em particular meus amigos - As Sonatas para Violino de Mozart? - Só um voto? Certo bem sei que o piano foi talvez o instrumento onde melhor se exprimia mas ainda assim, ainda assim. Obrigam-me assim a iniciar a campanha eleitoral precisamente com um post sobre essas Sonatas, um pouco à contre-coeur porque gostaria de ajudar Debussy, Mendelssohn ou Elgar a subir um pouco, ficará para depois. Assim dentro de momentos voltaremos com umas sonatas de Mozart especialmente para si, caro votante.
No resto meus amigos, 12 votantes? Num dia este blog tem mais de 100 visitantes. Vá votem que não custa nada! O Post com uma descrição de cada uma das obras e com links para o You Tube para que as possam ouvir está aqui.
Bach - Sonatas e Partitas para Violino.......6
Cesar Franck - Sonata em Lá Maior............6
Ravel - Tzigane..............................6
Beethoven - Sonata Primavera.................5
Beethoven: Sonata Kreutzer...................5
Ysaye - Sonatas..............................5
Prokofiev - Sonata nº1.......................5
Paganini - 24 Caprichos......................4
Chausson - Poéme.............................4
Locatelli Op. 6 - 12 Sonatas para Violino....3
Brahms - Violin Sonata Nº1 (Sonata da Chuva).3
Debussy - Sonata para Violino em Sol Menor...3
Schubert - Sonata em La Maior................2
Schumann - Violin Sonata Nº 1................2
Fauré - Sonata nº 1..........................2
Grieg - Sonata Nº 3 em Dó Menor..............2
Janacek - Sonata para Violino e Piano........2
Bartok - Sonata nº 1.........................2
Vaughan Williams : Sonata para Violino.......2
Mozart - Sonatas para Violino................1
Mendelssohn - Sonata em Fá Menor.............1
Max Reger - Violin Sonata Nº1................1
Fritz Kreisler - Caprice Viennois............1
Korngold Violin Sonata.......................1
Elgar - Violin sonata em Mi Menor............1
Na frente desta nossa votação com 50% dos votantes a terem preferido estas obras encontramos três obras totalmente diferentes na sua natureza: As sonatas e partitas de Bach - um expoente do período barroco sem dúvida um expoente da nossa civilização, a Sonata de Cesar Franck uma certa surpresa embora seja uma obra lindíssima e uma das minhas preferidas, uma representação do "outburst" do romantismo e por fim Tzigane que é uma obra que desafia um pouco qualquer qualificação, uma obra do período pós-romântico, das escolas nacionais, uma obra francesa sem dúvida mas com sonoridade do leste, uma obra bastante misteriosa portanto.
Na cauda da tabela sem surpresa ficam os compositores menos conhecidos mas ficam também algumas francas injustiças em particular meus amigos - As Sonatas para Violino de Mozart? - Só um voto? Certo bem sei que o piano foi talvez o instrumento onde melhor se exprimia mas ainda assim, ainda assim. Obrigam-me assim a iniciar a campanha eleitoral precisamente com um post sobre essas Sonatas, um pouco à contre-coeur porque gostaria de ajudar Debussy, Mendelssohn ou Elgar a subir um pouco, ficará para depois. Assim dentro de momentos voltaremos com umas sonatas de Mozart especialmente para si, caro votante.
No resto meus amigos, 12 votantes? Num dia este blog tem mais de 100 visitantes. Vá votem que não custa nada! O Post com uma descrição de cada uma das obras e com links para o You Tube para que as possam ouvir está aqui.
Bach - Sonatas e Partitas para Violino.......6
Cesar Franck - Sonata em Lá Maior............6
Ravel - Tzigane..............................6
Beethoven - Sonata Primavera.................5
Beethoven: Sonata Kreutzer...................5
Ysaye - Sonatas..............................5
Prokofiev - Sonata nº1.......................5
Paganini - 24 Caprichos......................4
Chausson - Poéme.............................4
Locatelli Op. 6 - 12 Sonatas para Violino....3
Brahms - Violin Sonata Nº1 (Sonata da Chuva).3
Debussy - Sonata para Violino em Sol Menor...3
Schubert - Sonata em La Maior................2
Schumann - Violin Sonata Nº 1................2
Fauré - Sonata nº 1..........................2
Grieg - Sonata Nº 3 em Dó Menor..............2
Janacek - Sonata para Violino e Piano........2
Bartok - Sonata nº 1.........................2
Vaughan Williams : Sonata para Violino.......2
Mozart - Sonatas para Violino................1
Mendelssohn - Sonata em Fá Menor.............1
Max Reger - Violin Sonata Nº1................1
Fritz Kreisler - Caprice Viennois............1
Korngold Violin Sonata.......................1
Elgar - Violin sonata em Mi Menor............1
Clara Haskil (1895-1960)
O post de hoje é dedicado a Clara Haskil pianista que este mês é capa da Diapason. Uma pianista que o titulo do artigo biográfico que lhe é dedicado sub-titula "sofrimento e paixão". Sub-titulo sem dúvida justificado por uma vida dura mas na qual nunca deixou de conseguir demonstrar a sua paixão. Por acaso tínhamos falado já brevemente desta pianista na Biografia de Arthur Grumiaux com quem realizou o seu ultimo concerto mas vamos começar pelo inicio.
Clara Haskil nasceu a 7 de Janeiro de 1895 em Bucareste numa família judaica. A sua mãe Berthe era pianista amadora. Porém rapidamente a sua vida transforma-se em tragédia. O apartamento onde residia com a família incendeia-se, o pai morre vitima de pneumonia.
O irmão mais velho toma então conta da jovem e é graças a ele que Clara ainda muito jovem muda-se para Viena para estudar com Richard Robert. Estamos então no inicio do século XX e os três anos que Clara passa em Viena registam uma evolução absolutamente notável. Tanto assim é que o seu professor a recomenda a Fauré.
Muda-se então para Paris para se inscrever no Conservatório na classe de Cortot mas as relações com o professor não são as melhores apesar de terminar o conservatório em 1910. Curiosamente Clara além de interpretar magistralmente o piano era também uma excelente violinista tendo também obtido um prémio em 1909 na primeira fase da sua carreira. Mais tarde esta ambivalência vai permitir-lhe alguns momentos de grande significado musical ao trocar de instrumento com Arthur Grumiaux que ele também era excelente violinista e pianista (no seu caso por esta ordem).
Porém quando a sua carreira parece começar a despontar com contratos um pouco por toda a Europa a jovem pianista tem de se submeter a um tratamento de vários anos (entre 1914 e 1918) à escoliose que a afligia.
Deve então uma vez terminada a guerra e terminados os tratamentos recomeçar a carreira. Mas se o seu temperamento já não era fácil e a sua auto-confiança diminuta os anos de sofrimento, um irmão cada vez mais tirano e a própria vida difícil do período entre as duas grandes guerras não melhoram o panorama. Não abundam assim as oportunidades e quando estas existem o próprio carácter da pianista pouco exuberante ou simpático com o público, um pavor do palco extremo tornam os concertos não tão bem sucedidos como provavelmente mereciam musicalmente. Certamente inibem os produtores de considerar repetir contratos.
Ainda assim realiza duas tournées aos Estados Unidos (1924-1925), interpreta com Ysase no centenário da morte de Beethoven (1927), encontra Dinu Lipatti seu compatriota e com quem estabelecerá grande amizade e formará uma das suas mais relevantes parcerias musicais (as outras sendo Grumiaux e Pablo Casals). Será também nesse período que conhecerá a princesa de Polignac que irá desempenhar um papel preponderante na sua sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial: Sim porque a dureza da vida da pianista não tinha ainda acabado.
Quando a guerra se inicia Clara Haskil vive em Paris rapidamente compreendendo que deve fugir para a Zona Livre quando a França capitula. Na verdade dadas as suas origens o seu destino estaria doutra forma traçado.
Deixem-me a este propósito arriscando um post mais longo do que o costume abrir um pequeno parenteses sobre esta época negra da nossa história. Estamos quase a metade do século XX e um grupo de pessoas com base numa teoria absurda apoiando-se no medo e na violência e em pseudo-lógica da ausência de alternativas e focalizando os problemas no "exterior", nos "outros" conseguiu conduzir numa Europa civilizada um genocídio de que não havia memória e que certamente acreditaríamos ser impossível. É bom que não esqueçamos isto porque obviamente a história recente e alguns sintomas actuais parecem-me infelizmente demasiado próximos. Não esqueçamos que entre a barbárie e a civilização se encontra uma linha muito ténue: a linha da nossa consciência e a nossa coragem de dizer: Não! ...
Parenteses fechado Clara consegue fugir graças à ajuda da princesa Polignac juntando-se aos elementos da Orquestra Nacional que foge em pequenos grupos para se juntar em Marselha então na Zona Livre. É aqui que conhece Casals com quem dará alguns concertos privados. Porém apenas um ano depois (em 1942) novo problema de saúde (um tumor) obriga-a a uma rocambolesca operação feita às escondidas por um cirurgião vindo de Paris pago pelos seus amigos.
Em Setembro de 1942 é detida pela policia sendo libertada depois de nova intervenção da Princesa de Polignac. Decide então que é tempo de partir para a Suiça o que acaba por fazer num dos últimos dias em que a fronteira com esse país esteve aberta. Viverá na Suiça até à sua morte em 1960 acabando por adquirir nacionalidade Suiça.
Até ao fim da Guerra não obstante o seu talento Clara Haskil não tinha efectuado uma única gravação comercial. Mesmo considerando a época em causa esta ausência é estranha mas facilmente explicada pelos acontecimentos que relatei.
Na Suiça renasce então pela terceira vez (este termo renascimento é o utilizado no artigo da Diapason que utilizo por o considerar perfeitamente adequado). Na Suiça encontra então Michel Rossier que a ajudará a relançar a sua carreira juntamente com Casals (que a convida para o primeiro dos festivais em Prades), Grumiaux, Charles Chaplin (que diz que conheceu na vida três génios, Chruchill, Einstein e Clara) e claro o seu compatriota Lipatti.
Multiplicam-se então os concertos com as maiores orquestras e maestros. A Philips oferece-lhe um contrato de exclusividade discográfico.
Porém tal como toda a sua vida quando tudo parecia estar a caminhar bem a sua saúde deteriora-se e em 1960 termina de forma brutal quando em Bruxelas ao sair de um comboio tropeça e caindo desamparada acaba por falecer no hospital a 6 de Dezembro de 1960.
Para ilustrar o génio desta pianista obviamente apenas poderia escolher Mozart do qual aliás continua a ser considerada uma das grandes referências em termos de interpretação. Aliás a bem dizer ela detestaria esta ultima frase. Dizia na verdade Clara Haskil : " Eu não concebo Mozart, toco-o tal como está escrito". Modéstia certamente mas reveladora da sua forma de estar na música e na visão que tinha do interprete.
E claro que não poderia deixar de vos mostrar a parceria com Grumiaux. Foi para tocar com ele em Bruxelas que Clara Haskil acabou por falecer. Com Mozart também obviamente !
Clara Haskil nasceu a 7 de Janeiro de 1895 em Bucareste numa família judaica. A sua mãe Berthe era pianista amadora. Porém rapidamente a sua vida transforma-se em tragédia. O apartamento onde residia com a família incendeia-se, o pai morre vitima de pneumonia.
O irmão mais velho toma então conta da jovem e é graças a ele que Clara ainda muito jovem muda-se para Viena para estudar com Richard Robert. Estamos então no inicio do século XX e os três anos que Clara passa em Viena registam uma evolução absolutamente notável. Tanto assim é que o seu professor a recomenda a Fauré.
Muda-se então para Paris para se inscrever no Conservatório na classe de Cortot mas as relações com o professor não são as melhores apesar de terminar o conservatório em 1910. Curiosamente Clara além de interpretar magistralmente o piano era também uma excelente violinista tendo também obtido um prémio em 1909 na primeira fase da sua carreira. Mais tarde esta ambivalência vai permitir-lhe alguns momentos de grande significado musical ao trocar de instrumento com Arthur Grumiaux que ele também era excelente violinista e pianista (no seu caso por esta ordem).
Porém quando a sua carreira parece começar a despontar com contratos um pouco por toda a Europa a jovem pianista tem de se submeter a um tratamento de vários anos (entre 1914 e 1918) à escoliose que a afligia.
Deve então uma vez terminada a guerra e terminados os tratamentos recomeçar a carreira. Mas se o seu temperamento já não era fácil e a sua auto-confiança diminuta os anos de sofrimento, um irmão cada vez mais tirano e a própria vida difícil do período entre as duas grandes guerras não melhoram o panorama. Não abundam assim as oportunidades e quando estas existem o próprio carácter da pianista pouco exuberante ou simpático com o público, um pavor do palco extremo tornam os concertos não tão bem sucedidos como provavelmente mereciam musicalmente. Certamente inibem os produtores de considerar repetir contratos.
Ainda assim realiza duas tournées aos Estados Unidos (1924-1925), interpreta com Ysase no centenário da morte de Beethoven (1927), encontra Dinu Lipatti seu compatriota e com quem estabelecerá grande amizade e formará uma das suas mais relevantes parcerias musicais (as outras sendo Grumiaux e Pablo Casals). Será também nesse período que conhecerá a princesa de Polignac que irá desempenhar um papel preponderante na sua sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial: Sim porque a dureza da vida da pianista não tinha ainda acabado.
Quando a guerra se inicia Clara Haskil vive em Paris rapidamente compreendendo que deve fugir para a Zona Livre quando a França capitula. Na verdade dadas as suas origens o seu destino estaria doutra forma traçado.
Deixem-me a este propósito arriscando um post mais longo do que o costume abrir um pequeno parenteses sobre esta época negra da nossa história. Estamos quase a metade do século XX e um grupo de pessoas com base numa teoria absurda apoiando-se no medo e na violência e em pseudo-lógica da ausência de alternativas e focalizando os problemas no "exterior", nos "outros" conseguiu conduzir numa Europa civilizada um genocídio de que não havia memória e que certamente acreditaríamos ser impossível. É bom que não esqueçamos isto porque obviamente a história recente e alguns sintomas actuais parecem-me infelizmente demasiado próximos. Não esqueçamos que entre a barbárie e a civilização se encontra uma linha muito ténue: a linha da nossa consciência e a nossa coragem de dizer: Não! ...
Parenteses fechado Clara consegue fugir graças à ajuda da princesa Polignac juntando-se aos elementos da Orquestra Nacional que foge em pequenos grupos para se juntar em Marselha então na Zona Livre. É aqui que conhece Casals com quem dará alguns concertos privados. Porém apenas um ano depois (em 1942) novo problema de saúde (um tumor) obriga-a a uma rocambolesca operação feita às escondidas por um cirurgião vindo de Paris pago pelos seus amigos.
Em Setembro de 1942 é detida pela policia sendo libertada depois de nova intervenção da Princesa de Polignac. Decide então que é tempo de partir para a Suiça o que acaba por fazer num dos últimos dias em que a fronteira com esse país esteve aberta. Viverá na Suiça até à sua morte em 1960 acabando por adquirir nacionalidade Suiça.
Até ao fim da Guerra não obstante o seu talento Clara Haskil não tinha efectuado uma única gravação comercial. Mesmo considerando a época em causa esta ausência é estranha mas facilmente explicada pelos acontecimentos que relatei.
Na Suiça renasce então pela terceira vez (este termo renascimento é o utilizado no artigo da Diapason que utilizo por o considerar perfeitamente adequado). Na Suiça encontra então Michel Rossier que a ajudará a relançar a sua carreira juntamente com Casals (que a convida para o primeiro dos festivais em Prades), Grumiaux, Charles Chaplin (que diz que conheceu na vida três génios, Chruchill, Einstein e Clara) e claro o seu compatriota Lipatti.
Multiplicam-se então os concertos com as maiores orquestras e maestros. A Philips oferece-lhe um contrato de exclusividade discográfico.
Porém tal como toda a sua vida quando tudo parecia estar a caminhar bem a sua saúde deteriora-se e em 1960 termina de forma brutal quando em Bruxelas ao sair de um comboio tropeça e caindo desamparada acaba por falecer no hospital a 6 de Dezembro de 1960.
Para ilustrar o génio desta pianista obviamente apenas poderia escolher Mozart do qual aliás continua a ser considerada uma das grandes referências em termos de interpretação. Aliás a bem dizer ela detestaria esta ultima frase. Dizia na verdade Clara Haskil : " Eu não concebo Mozart, toco-o tal como está escrito". Modéstia certamente mas reveladora da sua forma de estar na música e na visão que tinha do interprete.
E claro que não poderia deixar de vos mostrar a parceria com Grumiaux. Foi para tocar com ele em Bruxelas que Clara Haskil acabou por falecer. Com Mozart também obviamente !
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