quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Leonard Bernstein - Quinta Parte - Os Concertos e Integrais com a Filarmónica de Viena

A Filarmónica de Viena tinha sido a Orquestra de Mahler. Era na altura (meados dos anos sessenta) uma das melhores orquestras da Europa. Embora continuasse ligado à sua Filarmónica de Nova Iorque Bernstein iniciou uma ligação com estas duas orquestras que foi de certa forma surpreendente tendo em conta que havia ainda uma certa hostilidade da cidade em relação ao maestro. Porém a paixão de ambos por Beethoven e Mahler tudo pode conciliar.

Bernstein começou a trabalhar em Viena em 1966 com a Vienna State Opera tendo estreado com Falstaff de Verdi e com o grande Dietrich Fischer Diskau no papel de Falstaff. Porém sem dúvida o que marcou esta passagem de Bernstein por Viena foram as integrais das sinfonias de Beethoven e Brahms e algumas gravações de Mahler. Estes eram os elos emocionais mais fortes que ligavam Bernstein a estas duas orquestras.

Desta forma proponho que oiçam dois extractos de Bernstein com esta Orquestra. Em primeiro lugar Beethoven e a quinta Sinfonia aqui . Depois Mahler e a sua quarta sinfonia aqui.

Esta ligação com as duas orquestras viria a durar até ao ano do seu falecimento em 1990 com mais de 24 épocas de colaboração.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

James Galway (1939-)

Uma grande parte deste post é baseado na autobiografia de James Galway.

James Galway nasceu em Belfast na Irlanda do Norte a 8 de Dezembro de 1939 numa família de recursos bastante modestos.

Os anos da sua infância e adolescência foram normais, bom tão normais quanto poderia ser uma infância em Belfast na segunda grande-guerra e imediatamente após. Tanto o pai como a mãe eram músicos embora não pudessem viver dessa actividade numa Belfast pobre e dividida (embora Galway negue que isso se tivesse repercutido no seu dia a dia). James era então um miúdo normal bastante irrequieto e audacioso (conta-nos como ia ficando sem um dedo numa experiência com munições) mas desde muito cedo fascinado pela música.

Esteve quase para aprender violino mas uma experiência pedagógica menos conseguida faz com que rapidamente se dedique à flauta. O pai embora sem uma educação musical formal foi instrumental no desenvolvimento musical do jovem Galway ao impor um ritmo de trabalho e de estudo e introduzindo-o a peças clássicas, embora de forma pouco ortodoxa.

Quando sentiu que tinha chegado o momento de um professor mais conhecedor soube encontra-lo por várias ocasiões. O primeiro foi Ardwell Dunning que o levou a ganhar o seu primeiro prémio o "Irish Flute Championship" que venceu com apenas 10 anos.

Este prémio fez perceber ao seu pai que o rapaz tinha um dom especial e por isso mais um vez o teimoso irlandês investigou tendo encontrado Muriel Dawn uma antiga cantora e vocalista e também professora de flauta que introduziu Galway ao método francês através do método de Marcel Moyse.

Foi Muriel Dawn que permitiu a James Galway tocar para Geoffrey Gilbert e para John Francis reputados professores em Londres e com quem James Galway iria estudar mais tarde. Na realidade isso aconteceu assim que Muriel conseguiu encontrar uma forma para que lhe fosse concedida uma bolsa de estudo.

Começou por estudar com John Francis no Royal College of Music e depois com Geoffrey Gilbert na Guilhall School of Music. James Galway não esconde que nos seus estudos musicais apreciou imenso a técnica mas muito pouco a teoria tendo tido problemas em qualquer uma destas escolas. Conta a autobiografia que todas as desculpas eram boas para faltar às aulas teóricas.

Mais tarde estudou também em Paris com os professores Gaston Crunelle e Jean Pierre Rampal tendo também tido lições privadas com Marcel Moyse (sim um dos outros flautistas que estavam na nossa votação). Galway não gostou muito de Paris embora reconhecesse que o conservatório funcionasse de uma forma diferente do ensino Inglês com muito maior enfase na competição entre os alunos. Galway achava que isso era bom porque permitia que cada um se esforçasse ao máximo.

Depois de terminados os estudos Galway embora sempre um pouco a contra-gosto começou uma carreira de em várias orquestras. Dizemos a contragosto porque este artista sempre exprimiu um desejo de fazer ouvir a sua própria voz, ou seja de abarcar uma carreira de solista. Foi no entanto aconselhado pelos seus amigos e professores a não o fazer. Note-se que nesta altura Rampal ainda mal tinha começado a recuperar a flauta como instrumento solista e efectivamente este tipo de carreira era um risco considerável.

Galway começou a sua carreira com a Philharmonia Orchestra tendo depois passado pela Sadler's Wells Opera (Covent Garden Opera) - que deixou pela necessidade de fazer música "a metro".

Tocou depois na London Symphony Orchestra e na Royal Philharmonic Orchestra tendo em 1969 decidido ir prestar provas para a Filarmónica de Berlim então dirigida por Karajan. As coisas estiveram quase para correr mal conforme podemos ler na sua autobiografia. Na verdade Galway inadvertidamente chegou atrasado (a hora da audição foi mudada sem que o tivessem avisado a tempo). Ora quando chega a Berlim dizem-lhe precisamente isso - que a audição já terminou e que já foi escolhido o primeiro flautista. Galway revolta-se e diz consegue na mesma a audição - tocando no auditório várias peças que lhe são pedidas sucessivamente.

No fim quando passado uns minutos lhe comunicam o resultado Galway diz que tendo sido maltratado não sabe se este é um sitio onde quer tocar. Acaba por voltar a Londres mas aceita o posto em Berlim onde acabaria por ficar até 1975.

A partir de 1975 após ter deixado a Filarmónica de Berlim James Galway dedicou-se então a uma carreira de solista que inclui várias gravações de vários géneros musicais. As suas participações na Rua Sésamo estão provavelmente na memória de muitos miúdos.

É "Sir" desde 2001 o que conhecendo o seu espírito rebelde não deixa de ser uma curiosa contradição. O que já não é uma contradição e está perfeitamente adequado a um homem que preza imenso as pessoas com quem aprendeu - os seus professores - é a sua luta para que melhore a educação musical na Inglaterra, e atreveria-me a dizer no mundo.

São famosas as suas Master Classes e o seu site oficial é um paraíso para quem está a aprender flauta pela quantidade de recursos presentes. É também notável o seu trabalho em várias fundações que procuram promover o ensino da música ou da flauta. É presidente da Flutewise desde 2003 (associação que empresta flautas a jovens com dificuldades financeiras) e membro fundador do Music Education Consortium que procura pressionar o governo britânico para melhorar a qualidade do ensino da música em Inglaterra.

Dos vários trabalhos e arranjos que publicou permito-me salientar,porque nos são culturalmente próximas, as Aria Bachianas Brasileiras No. 5 para Flauta e Piano de Heitor Villa-Lobos.

Para quem quiser ouvir o excelente som deste grande flautista nas suas gravações radiofónicas dos anos 60 o melhor é mesmo visitarem o site oficial e apontarem o vosso browser para aqui. Depois é só escolher entre Telemann, Prokofiev, Hindemith , ...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

As pesquisas interessantes da semana (#10)

Qual é a composição de instrumentos no quinteto ? : Em música clássica normalmente um quinteto é constituído por um quarteto clássico (dois violinos, uma viola de arco e um violoncelo) ao qual é adicionado um quinto elemento ficando então o grupo designado pela natureza desse quinto elemento. Por exemplo se for um piano teremos um quinteto de piano, se fôr um Oboe um quinteto de Oboe e por aí fora.

se tu m'ami se sospiri tradução: Temos tido vários pedidos para uma tradução desta peça. de que já falamos aqui. Na verdade esta obra foi erradamente atribuída a Pergolesi durante muito tempo enquanto na verdade a mesma foi composta por Alessandro Parisotti (um musicólogo que estudava a obra de Pergolesi). Encontramos uma tradução desta canção da autoria de Débora Letícia Batista aqui, e que transcrevemos para vosso beneficio (com ligeiras correcções a azul):

Se tu me amas, se suspiras
Somente por mim, gentil Pastor;
Tenho pena de teu martírio,
Tenho predilecção pelo teu amor:

Mas, se pensas que somente a ti
Eu deveria amar,
Pastorzinho, estás sujeito
Facilmente a te enganares.

A Bela Rosa vermelha
Hoje Sílvio escolherá,
Com a desculpa do espinho
Amanhã então a desprezará.

Mas, dos homens, o conselho
Eu, por mim, não seguirei,
Não é porque me agrada o Lírio
Que as outras flores desprezarei.

musica clássica segundo concerto de Brahms: Supomos que está o nosso leitor a falar da segunda sinfonia de Brahms. Falamos desta peça, uma composição de uma enorme paz interior aqui.

maurizio kagel : Compositor Argentino. tínhamos dado conta do seu falecimento aqui. Que descanse em paz. A propósito continuam a perguntar-nos para que serve a música. Se fosse necessário ter um qualquer fim prático diria que serve entre outras coisas para nos trazer paz interior.

lista de 10 melhores musicas clássicas: Hum. Escolha muito, mas muito dificil. Só dez ? Tentando ser pragmático e ter por regra não escolher mais do que uma composição do mesmo compositor e ainda não pretender escolher "as melhores" mas apenas as que eu prefiro. Mesmo assim é dificil. Fica para amanhã.

jorge moyano‏ ouvir: Um dos meus pianistas preferidos. Não encontrei no You Tube. Vou ter de fazer uma curta biografia.

vamos passear no parque e rola na ribanceira quem quiser no faz de conta: Bem ok. Vitória destacadissima no prémio semanal da perplexidade.

domingo, 2 de novembro de 2008

Brahms ( 1833 - 1897) - Uma Biografia (Primeira Parte)

Terminamos hoje a série de post sobre Brahms com uma biografia e uma recordação das suas obras principais. Como esta biografia é bastante extensa para tornar mais fácil a sua leitura vamos dividi-la em quatro partes. O que escrevemos nesta biografia é baseado nos trabalhos de John Lawrence Erb e H.C. Colles. Esta primeira parte descreve os primeiros anos de vida até ao encontro com os Schumann e o artigo que iria tornar Brahms famoso.

Brahms nasceu em Hamburgo a 7 de Maio de 1833. O pai Johann Brahms era um bom músico, tendo sido director musical na Orquestra Municipal (Stadt Theater). Segundo a biografia de o pai no inicio opôs-se a que Brahms seguisse a carreira de músico embora seja aparente que essa opinião se tenha modificado pouco a pouco. Nesses primeiros tempos, a mãe, dezassete anos mais velha que o pai foi o apoio que Brahms precisava.

Apesar do pai ser considerado como um dos melhores músicos de Hamburgo (estava entre os 40 melhores contrabaixo da Alemanha) a vida da família era dificil, vivendo em bairros pobres da cidade.

Brahms desde muito cedo demonstrou uma paixão pelo piano. Este facto é visível nas várias anedotas do quotidiano - diz-se por exemplo que tocava piano a quatro mãos com a sua mãe "apenas para se divertir" - mas também pelo facto do seu primeiro professor Otto Cossel logo aos dez anos ter-lhe recomendado um professor mais avançado Eduard Marxsen com quem iria estudar piano e composição durante largos anos.

Já nessa altura Brahms tinha também marcado o seu gosto pela composição. Na verdade mesmo ante de saber música Brahms inventou um sistema de notação próprio para fixar as melodias que inventava no piano ...

Em 1848, portanto com 15 anos apresenta-se pela primeira vez em público, aparentemente com a oposição inicial do seu professor. O programa incluía entre outras composições a sua Op. 1, uma sonata para piano baseada numa melodia popular, hábito que aliás Brahms manteria. Daria nessa altura mais dois concertos mas depois durante cinco anos não mais se apresentou em público utilizando o seu tempo para aperfeiçoar a sua técnica e arte de composição. Esta terá sido uma decisão imposta pelo seu professor Eduard Marxsen pelo que é justo dar a este homem uma parte do crédito de nos ter proporcionado tantos momentos de prazer com a música de Brahms.

Em 1953 Brahms inicia a sua primeira tournée acompanhando o violinista húngaro Edouard Remenyi. Até aí Brahms tinha passado alguns momentos difíceis tendo sido completamente ignorado enquanto compositor e conhecido um sucesso moderado enquanto pianista. Mas esta tour iria mudar tudo completamente.

A causa foi o famoso concerto em Gottingen onde deviam tocar a sonata para piano e violino Kreutzer de Beethoven. Acontece que o piano estava mal afinado (um meio tom acima) e que já não havia tempo para o afinar. Afinar o violino para o tom do piano arruinaria o efeito. Então Brahms propõe-se tocar a sonata meio tom acima transcrevendo de memória e em tempo real.

Quem dos nossos leitores for pianista saberá a dificuldade do que acabamos de descrever. Na prática, não é exactamente apenas isto mas permitam-me esta liberdade poética para conseguir explicar a natureza do virtuosismo, significa tocar a peça mentalmente lembrando-se da tecla a pressionar e mudando para a tecla imediatamente seguinte. As teclas pretas "contam" e por isso em vez de tocar numa branca Brahms teria que tocar na preta mais aguda imediatamente consecutiva - percebem? Isto tudo sem perder o sentido da musicalidade ...

Mas dizíamos este concerto iria mudar o destino de Brahms porque para sua fortuna o grande violinista Joseph Joachim estava entre a audiência e assim que o concerto acabou falou com os artistas, felicitando-os pelo concerto e propondo cartas de recomendação para a corte em Hannover e para Liszt. Em Hannover tudo parecia correr pelo melhor mas depois de um primeiro concerto que foi um sucesso a policia proibiu o segundo e expulsou os dois músicos para Weimar. Este facto segundo se veioa apurar mais tarde estava relacionado com Edouard Remenyi que sendo um nacionalista húngaro teria participado em actividades subversivas ...

Não restava outra hipótese que ir para Weimar onde de novo as coisas pareciam bem encaminhadas. No primeiro concerto Liszt estava entre a audiência e fica impressionado com o jovem pianista , tanto que o convida a visitar a sua residência no dia seguinte instigado por Remenyi.

Ao chegar à casa do mestre Brahms está de tal forma nervoso que se recusa a tocar mesmo depois Remenyi e o próprio Liszt insistirem. Liszt então pega no Shcerzo da Op. 4 de Brahms e interpreta-o de forma excepcional. Infelizmente um pouco depois a pedido dos presentes aceita tocar uma sonata que tinha acabado de compor recentemente e Brahms, fatigado de tanta viagem teria adormecido.

Embora Liszt nunca tenha cobrado essa falta de delicadeza a Brahms o facto é que os dois nunca cultivaram a partir daí grande ligação. Mais ainda é possível que tenha sido deste incidente que tenha resultado a grande animosidade dos Wagnerianos em relação a Brahms, embora nesse particular, sem nunca contarem com o apoio implicito ou explicito de Liszt.

No dia seguinte Brahms deixa Wiemar de novo para Gottingen onde espera obter a carta de recomendação que Joseph Joachim lhe havia prometido para Schumann. Terá de esperar até ao fim do verão aproveitando para assistir às aulas de Joachim. Em Setembro dirige-se então a pé de Gottingen a Dusseldorf a casa dos Schumann onde é recebido com o calor humano próprio da família Schumann.

Do ponto de vista artístico a primeira reacção de todos os que frequentavam a casa dos Schumann é em primeiro lugar de cepticismo. Porém assim que ouvem pela primeira vez Brahms interpretar uma peça de Schumann o sucesso é completo. O entusiasmo de Schumann materializa-se então num artigo que viria a ficar famoso não só pela polémica gerada mas porque iria lançar Brahms de forma definitiva ainda que atraindo ao mesmo tempo alguma má fé de alguns críticos. Nesse artigo Schumann dizia o seguinte (tradução minha a partir da versão em Inglês).

"Neue Bahnen" - Novos Caminhos

[...]
" e ele chegou, este jovem escolhido, ele sobre o qual as Graças e os Heróis parecem ter mantido a atenção. O seu nome é Johannes Brahms e vem de Hamburgo onde tem trabalhado em tranquilidade obscuridade com o seu excelente e dedicado professor nas partes mais delicadas da sua profissão. [...] Depois somos arrastados para um círculo encantado. Veio depois um momento de inspiração em que o piano se transformou numa orquestra cheia de vozes diferentes. Havia sonatas, ou antes sinfonias escondidas, canções cuja poesia se revela mesmo sem palavras enquanto em todas parece percorrer uma profunda melodia; melodias meio-demoníacas e formas mutantes; sonatas para violino e piano; quartetos de cordas e cada um destas criações tão diferente das restantes que pareciam provir de fontes diferentes. E depois como numa gigantesca cascata todas estas fontes unem-se e no vapor da queda formam-se arco-iris de paz onde rouxinois cantam as suas canções. [...]

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