O disco oferecido com a Diapason deste mês é L´Art de la Fugue com André Isoir no órgão. Escrevo este post enquanto me delicio com a obra. E eu que nem sequer sou grande fã de órgão (gosto mas não posso dizer que seja dos meus instrumentos preferidos) deixo-me facilmente enredar pela teia polifónica, pela sua clareza e complexidade em simultâneo perdido entre as várias melodias que se cruzam sem saber onde me fixar. Como quem olha para um céu estrelado e não se consegue fixar num conjunto de estrelas tão cintilantes que todas parecem.
Obra ultima de Bach envolta em mistério para alguns, incompleta para outros. Perfeita. Não é céu que Bach pinta é o Céu que ele atinge ou melhor que define. Abro com sinceridade a cortina na janela que tenho em frente e olhando em frente não atinjo as estrelas mas não é culpa de Bach, são antes as nuvens que toldam o céu de inverno, azar da circunstância ultimamente pouco comum. Porém se os olhos não partem, parte a alma na mesma viagem.
Não encontro uma versão da BWV 1080 por este interprete mas em compensação deixo-vos com o sempre admirável Glenn Gould (com trautear incluído :-)).
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
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quarta-feira, 7 de março de 2012
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (Parte VI)
Esta é a sexta parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.
As cinco primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte), aqui (terceira parte), aqui (quarta parte) e aqui (quinta parte)
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould High Fidelity, Fevereiro 1974.(Quinta Parte). g.g é Glenn Gould entrevistador, G.G. é glenn Gould pianista/compositor
g.g: Mr. Gould existe uma certa consistência no que disse mas parece-me que percorremos um longo caminho desde o concerto-vs-gravação com o qual começamos.
G.G.: Pelo contrário penso que andamos a fazer uma série de variações sobre esse tema e na verdade demos a volta ao circulo.
As cinco primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte), aqui (terceira parte), aqui (quarta parte) e aqui (quinta parte)
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould High Fidelity, Fevereiro 1974.(Quinta Parte). g.g é Glenn Gould entrevistador, G.G. é glenn Gould pianista/compositor
g.g: Mr. Gould existe uma certa consistência no que disse mas parece-me que percorremos um longo caminho desde o concerto-vs-gravação com o qual começamos.
G.G.: Pelo contrário penso que andamos a fazer uma série de variações sobre esse tema e na verdade demos a volta ao circulo.
g.g.: Em todo o caso tenho apenas mais umas quantas perguntas para lhe colocar de que, provavelmente a mais pertinente agora é: Sem ser um membro frustrado da censura existe alguma outra carreira que lhe interesse?
G.G.: Pensei muitas vezes que gostaria de ser um prisioneiro.
g.g.: E acha que isso é uma carreira ?
G.G.: Oh certamente. Claro que no pressuposto que seria totalmente inocente de todas as acusações.
g.g.: Alguma vez lhe sugeriram que poderia sofrer do complexo de Myshkin?
G.G: Não e não posso aceitar o elogio. Simplesmente como disse nunca percebi a preocupação pela liberdade tal como é conceptualizada pelo mundo ocidental. Tanto quanto posso entender a liberdade de movimento tem apenas a ver com mobilidade e a liberdade de expressão está relacionada com a agressão verbal socialmente sancionada. Assim ser preso seria o teste perfeito da nossa mobilidade interior e da força que nos permitiria saír criativamente da situação humana.
g.g.: Mr. Gould embora esteja cansado noto aí uma contradição em termos.G.G.: Oh certamente. Claro que no pressuposto que seria totalmente inocente de todas as acusações.
g.g.: Alguma vez lhe sugeriram que poderia sofrer do complexo de Myshkin?
G.G: Não e não posso aceitar o elogio. Simplesmente como disse nunca percebi a preocupação pela liberdade tal como é conceptualizada pelo mundo ocidental. Tanto quanto posso entender a liberdade de movimento tem apenas a ver com mobilidade e a liberdade de expressão está relacionada com a agressão verbal socialmente sancionada. Assim ser preso seria o teste perfeito da nossa mobilidade interior e da força que nos permitiria saír criativamente da situação humana.
G.G.: Não penso que realmente o seja. Penso também que existe uma geração mais nova que a nossa - tem a minha idade não tem?
g.g.: Assumiria que sim.
G.G.: Uma geração mais nova que não tem que lutar com esse conceito, para quem o factor competitivo não é uma componente inevitável da vida e que programam a sua vida sem tomarem isso em consideração.
g.g.: Está a tentar vender-me o neo-tribalismo ?
G.G: Não, na realidade não. Suspeito que as tribios competitivas foram as que nos puseram primeiro nesta barafunda mas como eu disse não mereço a designação de complexo de Myshkin.
g.g.: Bem a sua modéstia é lendária Mr. Gould mas o que o fez chegar a essa conclusão?
G.G.: O facto de que faria inevitavelmente pedidos aos meus captores - pedidos que um espirito verdadeiramente livre poderia evitar fazer.
g.g.: Tais como ?
G.G.: A cela teria de ser pintada em cinzento-marinha
g.g.: Acho que isso não seria um problema.
G.G.: Bem ouvi dizer que a reforma da lei penal envolve pintar as celas em cores primárias.
g.g.: Ah estou a ver.
G.G.: E claro teria de existir algum tipo de acordo relativo ao ar condicionado. Ventilação superior estaria fora de questão - tenho propensão para inflamações na traqueia - e claro assumindo que algum tipo de ventilação forçada fosse utilizada o regulador de humidade teria --
g.g.: Mr. Gould peço perdão pela interrupção mas acabou de me ocorrer que dado que nos disse já várias vezes hoje que sofreu uma experiência traumática no Salzburg Festspielhaus --
G.G.: Oh ! Não pretendia ter dado a impressão de uma experiência traumática bem pelo contrário. A minha infecção foi tão grave que consegui cancelar um mês inteiro de concertos retirar-me para os Alpes e viver a mais idílica e isolada experiência de vida.
g.g: Estou a ver. Posso agora fazer uma sugestão?
G.G.: Claro !
g.g.: Como sabe o velho Festspielhaus foi originalmente uma academia de equitação.
G.G.: Certo. Tinha esquecido isso.
g.g: E claro a parte de trás do edíficio está encostada a uma montanha.
G.G: Sim isso é verdade.
g.g.: E dado que é obviamente um homem viciado em simbolos - estou certo que essa sua fantasia do prisioneiro - pareceria-me que o Festspielhaus - a Felsenreitschule - com a sua ambiência Kafkiana montada na base de um penhasco com a memória da mobilidade equestre assombrando o seu passado e localizada ainda por cima na cidade onde nasceu o compositor cujos trabalhos tem tão frequentemente criticado, e dessa forma compromentendo o sua própria opinião sobre julgamentos estéticos --
G.G.: Ah mas eu critiquei-os sobretudo como provas de uma vida hedonistica.
g.g.: Como queira. O Festspielhaus, Mr. Gould é o local onde um homem com as suas ideias, um homem à procura do martirio deveria voltar.
G.G.: Martírio ? O que lhe deu esa impressão ? Não poderia de forma nenhuma voltar !
g.g: Por favro Mr. Gould tente perceber. Não poderia haver uma forma mais significativa de purificar a carne, de fazer ascender o espírito e certamente nenhuma forma com mais significado metafórico de exprimir o seu estilo de vida hermético, através do qual definir a sua procura pelo martirio autobiograficamente, tal como estou certo que um dia virá a fazer.
G.G: Tem de acreditar no que lhe digo. Não tenho tal demanda na mente.
g.g.: Sim tenho a certeza que deverá voltar Mr. Gould. Deverá mais uma vez pisar o palco do Festspielhaus, deverá voluntariamente, com felicidade mesmo submeter-se aos ventos gélidos que atravessam o palco porque só então e apenas então terá atingido o martirio que tão obviamente deseja.
G.G: Por favor não me interprete mal; estou sensibilizado pela sua preocupação. É apenas que nas palavras imortais de Mr. Vonnegut's Billy Pilgrim : "Ainda não estou pronto.
g.g. Nesse caso nas também imortais palavras do mesmo Mr. Vonnegut : "então aqui vai."
G.G.: O facto de que faria inevitavelmente pedidos aos meus captores - pedidos que um espirito verdadeiramente livre poderia evitar fazer.
g.g.: Tais como ?
G.G.: A cela teria de ser pintada em cinzento-marinha
g.g.: Acho que isso não seria um problema.
G.G.: Bem ouvi dizer que a reforma da lei penal envolve pintar as celas em cores primárias.
g.g.: Ah estou a ver.
G.G.: E claro teria de existir algum tipo de acordo relativo ao ar condicionado. Ventilação superior estaria fora de questão - tenho propensão para inflamações na traqueia - e claro assumindo que algum tipo de ventilação forçada fosse utilizada o regulador de humidade teria --
g.g.: Mr. Gould peço perdão pela interrupção mas acabou de me ocorrer que dado que nos disse já várias vezes hoje que sofreu uma experiência traumática no Salzburg Festspielhaus --
G.G.: Oh ! Não pretendia ter dado a impressão de uma experiência traumática bem pelo contrário. A minha infecção foi tão grave que consegui cancelar um mês inteiro de concertos retirar-me para os Alpes e viver a mais idílica e isolada experiência de vida.
g.g: Estou a ver. Posso agora fazer uma sugestão?
G.G.: Claro !
g.g.: Como sabe o velho Festspielhaus foi originalmente uma academia de equitação.
G.G.: Certo. Tinha esquecido isso.
g.g: E claro a parte de trás do edíficio está encostada a uma montanha.
G.G: Sim isso é verdade.
g.g.: E dado que é obviamente um homem viciado em simbolos - estou certo que essa sua fantasia do prisioneiro - pareceria-me que o Festspielhaus - a Felsenreitschule - com a sua ambiência Kafkiana montada na base de um penhasco com a memória da mobilidade equestre assombrando o seu passado e localizada ainda por cima na cidade onde nasceu o compositor cujos trabalhos tem tão frequentemente criticado, e dessa forma compromentendo o sua própria opinião sobre julgamentos estéticos --
G.G.: Ah mas eu critiquei-os sobretudo como provas de uma vida hedonistica.
g.g.: Como queira. O Festspielhaus, Mr. Gould é o local onde um homem com as suas ideias, um homem à procura do martirio deveria voltar.
G.G.: Martírio ? O que lhe deu esa impressão ? Não poderia de forma nenhuma voltar !
g.g: Por favro Mr. Gould tente perceber. Não poderia haver uma forma mais significativa de purificar a carne, de fazer ascender o espírito e certamente nenhuma forma com mais significado metafórico de exprimir o seu estilo de vida hermético, através do qual definir a sua procura pelo martirio autobiograficamente, tal como estou certo que um dia virá a fazer.
G.G: Tem de acreditar no que lhe digo. Não tenho tal demanda na mente.
g.g.: Sim tenho a certeza que deverá voltar Mr. Gould. Deverá mais uma vez pisar o palco do Festspielhaus, deverá voluntariamente, com felicidade mesmo submeter-se aos ventos gélidos que atravessam o palco porque só então e apenas então terá atingido o martirio que tão obviamente deseja.
G.G: Por favor não me interprete mal; estou sensibilizado pela sua preocupação. É apenas que nas palavras imortais de Mr. Vonnegut's Billy Pilgrim : "Ainda não estou pronto.
g.g. Nesse caso nas também imortais palavras do mesmo Mr. Vonnegut : "então aqui vai."
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (parte V)
Esta é a quinta parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.
As quatro primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte), aqui (terceira parte) e aqui (quarta parte)
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould High Fidelity, Fevereiro 1974.(Quinta Parte). g.g é Glenn Gould entrevistador, G.G. é glenn Gould pianista/compositor
g.g.: Mas está essencialmente a falar como um reformador do século XVI.
G.G.: Na realidade sinto-me bastante próximo dessa tradição. Na realidade numa das minhas melhores criações notei que --
g.g.: Ora aí está um julgamento de ordem estetica !
G.G.: Mil desculpas -- deixe-me tentar outra vez. Numa ocasião anterior, fiz notar que eu, mais do que o heroi de Mr. Santayana´s sou "O Ultimo Puritano".
Santayana é um filósofo e escritor de origem Espanhola mas que celebrizou nos Estados Unidos com o romance "O Ultimo Puritano" de 1935.
g.g.: E não pensa que exista qualquer problema em conciliar a consciência individual do reformismo e a censura colectiva da tradição puritana? Ambos os caminhos parecem-me curiosamente misturados na sua tese e por aquilo que conheço nos seus documentários também.
G.G.: Bem não, não penso que exista qualquer inconsistência, porque no seu melhor - o que equivale a dizer na sua forma mais "pura" -- essa tradição envolvia uma perpetual divisão cismática. O melhor e mais puro -- e em qualquer medida o mais ostracizado -- dos individuos acabou nos vales dos Alpes como símbolo da sua rejeição do mundo da planície. Na verdade existe uma seita Mennonite na Suiça que equaciona a separação do mundo com a sua atitude.
g.g.: Seria justo sugerir que o Sr., pelo seu lado, relaciona esse afastamento com latitude ? Afinal criou o documentário "A ideia do Norte" como um comentário metafórico e não como um documentário factual.
G.G.: Sim isso é bem verdade. Claro muitos dos documentários falaram de situações de grande isolamento. Estações no ártico, na Newfounland, enclaves Mennonite e por aí fora.
g.g.: Sim mas tratavam-se de comunidades isoladas.
G.G.: Isso é porque a minha obra prima está ainda um pouco longe.
g.g.: São então esquissos autobiográficos?
G.G.: Não me compete a mim dizer isso.
As quatro primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte), aqui (terceira parte) e aqui (quarta parte)
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould High Fidelity, Fevereiro 1974.(Quinta Parte). g.g é Glenn Gould entrevistador, G.G. é glenn Gould pianista/compositor
g.g.: Mas está essencialmente a falar como um reformador do século XVI.
G.G.: Na realidade sinto-me bastante próximo dessa tradição. Na realidade numa das minhas melhores criações notei que --
g.g.: Ora aí está um julgamento de ordem estetica !
G.G.: Mil desculpas -- deixe-me tentar outra vez. Numa ocasião anterior, fiz notar que eu, mais do que o heroi de Mr. Santayana´s sou "O Ultimo Puritano".
Santayana é um filósofo e escritor de origem Espanhola mas que celebrizou nos Estados Unidos com o romance "O Ultimo Puritano" de 1935.
g.g.: E não pensa que exista qualquer problema em conciliar a consciência individual do reformismo e a censura colectiva da tradição puritana? Ambos os caminhos parecem-me curiosamente misturados na sua tese e por aquilo que conheço nos seus documentários também.
G.G.: Bem não, não penso que exista qualquer inconsistência, porque no seu melhor - o que equivale a dizer na sua forma mais "pura" -- essa tradição envolvia uma perpetual divisão cismática. O melhor e mais puro -- e em qualquer medida o mais ostracizado -- dos individuos acabou nos vales dos Alpes como símbolo da sua rejeição do mundo da planície. Na verdade existe uma seita Mennonite na Suiça que equaciona a separação do mundo com a sua atitude.
g.g.: Seria justo sugerir que o Sr., pelo seu lado, relaciona esse afastamento com latitude ? Afinal criou o documentário "A ideia do Norte" como um comentário metafórico e não como um documentário factual.
G.G.: Sim isso é bem verdade. Claro muitos dos documentários falaram de situações de grande isolamento. Estações no ártico, na Newfounland, enclaves Mennonite e por aí fora.
g.g.: Sim mas tratavam-se de comunidades isoladas.
G.G.: Isso é porque a minha obra prima está ainda um pouco longe.
g.g.: São então esquissos autobiográficos?
G.G.: Não me compete a mim dizer isso.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (Parte IV)
Esta é a quarta parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.
As três primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte) e aqui (terceira parte).
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould
High Fidelity, Fevereiro 1974.
(Quarta Parte)
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould
High Fidelity, Fevereiro 1974.
(Quarta Parte)
g.g.: E tem noção que está a definir e a defender um tipo de censura que contradiz toda a tradição pós-renascentista do pensamento Ocidental ?
G.G.: Claro. É a tradição pós-renascentista que está a levar o mundo Ocidental à beira da destruição. Sabe este gosto particularmente esquisito da liberdade de movimento, liberdade de expressão e por aí adiante é um fenómeno puramente Ocidental. Faz parte da noção Ocidental que é possível separar a palavra e a acção.
g.g. : O sindroma paus-e-pedras ?
G.G.: Precisamente. Existem provas que - a propósito McLuhan fala disto na Galáxia Guttenberg - que povos pré-literados ou minimamente literados estão muito menos dispostos a fazer essa distinção.
g.g.: Suponho que também existe a noção bíblica que desejar o mal é realizar o mal.
G.G.: Exactamente. Apenas as culturas que, por acidente ou boa gestão, ultrapassaram a Renascença é que vêm na arte a ameaça que ela verdadeiramente representa.
g.g.: Posso assumir que a União das Républicas Socialistas Soviéticas está dentro desses critérios?
Não esquecer que este artigo é de 1974 e que estávamos nesta altura em plena Guerra Fria.
G.G.: Absolutamente. Os Soviéticos são um pouco rudes no que diz respeito ao método, admito-o, mas as suas preocupações são absolutamente justificadas.
g.g.: E então as suas próprias preocupações? Será que alguma das suas actividades violou essas restrições e nos seus próprios termos "ameçou" a sociedade ?
G.G.: Sim.
g.g.: Quer falar sobre isso ?
G.G.: Não especialmente.
g.g. : Nem mesmo por um instante? Por exemplo o que diz de ter fornecido música para o Slaughterhouse Five ?
Filme de ficção cientifica de 1972. Glenn Gould tocou para esse filme várias peças de Bach (Variações Goldberg nº 18 e 25 -- BWV 988, Concerto de Brandenburg nº 4 - 3º andamento BWV 1049, Concerto No 3 para cravo 1º andamento BWV 1054 , Concerto nº 5 para Cravo 5º andamento BWV 1056)
G.G.: E então?
g.g.: Bem pelo menos pelos standards soviéticos o filme de Mr. Vonnegut's é provavelmente uma peça socialmente destrutiva, não acha?
G.G.: Tenho receio que tenha razão. Lembro-me mesmo de uma jovem senhora em Leninegrado uma vez me dizer "Dostoyevsky - apesar de ser um grande escritor era infelizmente pessimista".
g.g.: E pessimismo combinado com a valorização do prazer puro é a marca de Slaughterhouse certo?
G.G.: Sim mas eram as propriedades hedonisticas mais do que as pessimistas que me deram muitas noites sem sono.
g.g.: Então não aprovou o filme?
G.G.: Admirei o seu saber-fazer extravagante.
g.g.: Não é a mesma coisa que gostar.
G.G.: Não , não é.
g.g.: posso então assumir que mesmo um idealista tem o seu preço?
G.G.: Prefiro dizer que mesmo um idealista por perceber mal as intenções de um script de cinema.
g.g.: Teria preferido então um Billy Pilgrim sem compromissos ?
Billy Pilgrim é o personagem principal de Slaughterhouse
G.G.: Sim teria preferido algumas características redentoras na sua personagem.
g.g.: Então não concorda com a teoria arte-como-pura-técnica de Stravinsky por exemplo?
G.G.; Claro que não . Essa é provavelmente literalmente a ultima coisa que a arte é.
g.g.: E então quanto à teoria arte-como-arquétipo-de-violência ?
G.G.: Não acredito em arquétipos. São simples brinquedos nas mentes que resistem à capacidade de aperfeiçoamento do homem. Para além disso se está á procura de arquétipos de violença então a engenharia genética por exemplo é uma aposta melhor.
g.g: E quanto à arte-como-experiência-transcendente ?
G.G.: Das três que citou é única que merece que se fale dela.
g.g.: Tem então uma teoria sua?
G.G.: Sim, mas não vai gostar dela.
g.g.: Estou preparado.
G.G.: Bem acho que a arte deveria ter a oportunidade para estar fora de fase. Penso que devemos aceitar que a arte não é inevitavelmente benigna, que a arte é potencialmente destrutiva. Deveríamos analisar as áreas onde tende a fazer menos mal, usá-las como guia e incorporar na arte um componente que lhe permita evitar a sua própria obsolescência.
g.g: Hmm.
G.G.: Porque, sabe, a posição - ou posições - presente da arte, algumas das quais enumerou têm alguma analogia com o movimento "destruam a bomba" de venerada memória.
g.g: Certamente não se opõe a movimentos desse tipo?
G.G.: Não, mas dado que não vi nenhum movimento "abaixo a criança que tira as asas a uma libelinha" também não me posso juntar ao movimento "abaixo a bomba". Está a ver? O mundo Ocidental está cheio de noções de qualificação. A ameaça de uma destruição nuclear enche essa qualificação. A perda de uma libelinha não. Enquanto estes dois fenómenos não forem reconhecidos como um único indivisível enquanto a agressão física e verbal forem apenas vistas como uma faceta da competição enquanto cada decisão não possa ser equacionada para a sua correlação moral, continuarei a ouvir a Filarmónica de Berlim por detrás de uma divisória em vidro.
g.g.: então não espera ver o seu desejo de morte para a arte cumprido durante a sua vida?
G.G.:Não, não poderia viver sem a Quinta Sinfonia de Sibelius.
Fim da Quarta Parte.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (parte III)
Esta é a terceira parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.
Além de nos explicar muito sobre a forma como este artista se encarava este artigo é também um verdadeiro statement sobre o que é a arte e a música além de demonstrar uma visão notável. As duas primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte).
Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould
High Fidelity, Fevereiro 1974.
(Terceira Parte)
g.g.: Então suponho que a questão óbvia é: Se não faz julgamentos estéticos em relação ao trabalho de outros então como encara julgamentos estéticos em relação ao seu trabalho?
G.G.: Oh, alguns dos meus melhores amigos são críticos, apesar de não ter a certeza que gostasse que o meu piano fosse tocado por um deles.
g.g.: Mas há alguns momentos definiu o termo "Perfeição espíritual" como um estado em que o julgamento estético é eliminado.
G.G.: Não queria ter dado a impressão que a única forma de chegar a esse estado fosse esse critério.
g.g.:Claro, percebo issso. Mas seria justo dizer que na sua opinião o espirito crítico leva fatalmente à exclusão de um estado de graça ?G.G.: Bem, acho que isso seria muita presunção da minha parte. Como disse alguns dos meus melhores amigos são --
g.g.: -- são critícos, eu sei, mas está a fugir à questão.G.G.: Não intencionalmente. Simplesmente penso que não se deve generalizar em assuntos em que reputações tão distintas estão em causa e --
g.g.: Mr Gould penso que nos deve, assim como aos nossos leitores uma resposta a esta questão
G.G.: Devo?
g.g.: É a minha convicção; talvez devesse repetir a questão.
G.G.: Não, não é necessário.
g.g.: Então acha realmente que o crítico represente uma espécie moralmente ameaçada?G.G.: Não, não é necessário.
g.g.: -- Por favor Mr. Gould, responda à pergunta - Acha isso não acha ?
G.G.: Bem, como disse, eu --
G.G.: Bem, como disse, eu --
G.G: [pausa] Sim.
g.g.: Com certeza que acha e agora também se sente melhor com esta confissão.
G.G.: Hmm, não neste momento
g.g.: Mas isso virá com o tempo.
G.G.: Acha mesmo ?
g.g.: Não tenho dúvida. Mas agora que colocou a sua posição de forma tão franca tenho de mencionar o facto que em tempos já fez criticas com expressão de valores estéticos. Lembro-me por exemplo de um artigo sobre Petula Clark que escreveu para esta coluna alguns anos atrás e que --G.G: -- que continha mais julgamentos estéticos por centimetro quadrado de página que eu julgaria possível escrever hoje. Mas era essencialmente uma critica moral. Era uma peça em que utilizei a Miss Clark, por assim dizer, para comentar num determinado meio social.
g.g.: Acha portanto que consegue destinguir entre uma crítica estética do inviduo - que rejeita de forma liminar - e o estabelecimento de imperativos morais para sociedade como um todo.
G.G: Penso que consigo. claro que há áreas em que a sobreposição é inevitável. vamos por exemplo admitir que moro numa cidade em que todas as casas são cinzento de navio de guerra.g.g.: Porquê essa côr ?
G.G.: É a minha cor preferida.
G.G.: É a minha cor preferida.
g.g: É uma cor bastante negativa não é ?
g.g: Mudando desta forma a simetria do planeamento urbano.
G.G.: Sim isso também, mas está a ver a questão do ponto de vista estético. As reais consequências desta acção seriam que este seria o prenúncio de actividade maníaca na cidade e quase inevitavelmente - dado que outras casas seriam pintadas inevitavelmente de outras cores - encorajariam um clima de competição e como corolário de violência.
g.g: Imagino então que esse vermelho no seu vocabulário represente o comportamento agressivo.
G.G.: Penso que há um consenso quanto a isso. Mas como disse haveria aqui uma sobreposição do estético com o moral. O homem que pintou a primeira casa de vermelho pode o ter feito por uma razão puramente estética e para utilizar uma velha palavra seria pecado responsabiliza-lo pela escolha da cor. Tal facto iria certamente cercear qualquer outro julgamento da sua parte. Mas se fossemos capazes de o convencer que a sua estética apresentava um perigo para a comunidade e desde que ele conseguisse ter um vocabulário adequado para a tarefa - que não seria obviamente uma de standards estéticos - então isso seria, creio da minha responsabilidade.
g.g: Tem a noção que esta a começar a falar como um personagem saído de George Orwell ?
G.G.: O mundo Orweliano não contém terrores especiais para mim.
Fim da terceira parte
Leia aqui a Quarta Parte.
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