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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Berlioz - Requiem (Grande Messe des Morts)

Esta obra é uma das mais conhecidas de Berlioz tendo sido composta em 1837 por encomenda do então ministro do interior de França o Conde Adrien de Gasparin. A estreia desta composição foi bastante acidentada. Berlioz conta mesmo nas suas memórias que na estreia dirigida por François-Antoine Habeneck este maestro na parte mais complicada da peça teria tirado do bolso a sua caixa de rapé para consumir um pouco ... Berlioz teria saltado nessa altura para o palco dirigindo o resto da obra.

A peça acabaria por ser dedicada ao Conde Adrien de Gasparin por todo o apoio que deu a Berlioz na concretização da obra e sobretudo no financiamento da mesma. Esta peça acabaria por ser a obra que lançou Berlioz enquanto compositor.

Do ponto de vista orquestral a peça é simplesmente monumental tendo sido escrito para uma forte secção de Sopro, Percussão, cordas e Voz. Pessoalmente esta é uma das minhas peças preferidas de música sacra. Na minha modesta opinião tem a marca das obras de génio. Diz-se que na estreia pessoas houve que não conseguiram conter as emoções ... Berlioz em todo o caso dizia que se apenas se pudesse salvar uma das suas obras então que essa fosse o Requiem.

A composição baseia-se no texto em Latim e é composto por 10 movimentos. Para vos mostrar este Requiem descobri no You Tube uma versão interpretada em 2000 nas Proms em Londres. A orquestra é constituída por alunos de conservatórios de Paris e de Londres numa verdadeira comunhão. São dirigidos por Sir Colin Davis que confere a esta interpretação a verdadeira paixão da comunhão entre os homens. Já agora recomendo-vos que oiçam também a introdução da BBC a esta interpretação aqui.

1. Introit – Kyrie e também uma parte aqui.

Sequência
2. Dies irae
3. Quid sum miser
4. Rex tremendae
5. Quaerens me
6. Lacrimosa e também aqui.

Ofertório
7. Domine Jesu Christe e também aqui.
8. Hostias e também aqui

9. Sanctus e também aqui
10. Agnus Dei – Comunhão e também aqui

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Berlioz - Les Nuits d´été (Op. 7) - Sexta Parte (L'île inconnue)

Vamos ouvir hoje a ultima das canções do ciclo "Les Nuits d´été" intitulada "L'île inconnue". Prometo a tradução para português desta canção para breve.

Oiçam aqui esta canção interpretada por Marilyn Horne e pela Orchestre Symphonique de Montreal dirigida por Pierre Hetu.

L'île inconnue

L'aviron est d’ivoire,
Le pavillon de moire,
Le gouvernail d’or fin.
J’ai pour lest une orange,
Pour voile une aile d’ange,
Pour mousse un séraphin.
J’ai pour lest une orange,
Pour voile une aile d’ange,
Pour mousse un séraphin.

Dites, la jeune belle,
Où voulez-vous aller?
La voile enfle son aile,
La brise va souffler.
La voile enfle son aile,
La brise va souffler.

Est-ce dans la Baltique?
Dans la mer Pacifique?
Dans l’ile de Java?
Où bien est-ce en Norvège,
Cuellir la fleur de neige,
Où la fleur d’Angsoka?
Dites, dites, la jeune belle, dites,
Où voulez-vous aller?

“Menez-moi” dit la belle
“À la rive fidèle
Où l’on aime toujours!”
“Cette rive, ma chère,
On ne la connâit guère,
“Cette rive, ma chère,
On ne la connâit guère
Au pays des amours,
On ne la connâit guère,
On ne la connâit guère
Au pays des amours.
Où voulez-vous aller?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Berlioz - Les Nuits d´été (Op. 7) - Quinta Parte (Au cimetière)

Continuando o nosso percurso nesta obra de Berlioz hoje vamos ouvir a canção "Au cimetière". Tal como nas anteriores deixo aqui a versão original do texto em francês e uma tradução para português (minha).

Para esta canção, que podem ouvir aqui escolhi a interpretação de Marilyn Horne com a Orquestra Nacional de França dirigida por Charles Munch. Gravação de 1964.

No cemitério

Conhecem o branco túmulo
onde flutua com um som de queixume
a sombra de um teixo?
No teixo uma pálida pomba,
triste e só no sol poente
canta o seu canto:

Uma canção doentiamente terna,
Ão mesmo tempo encantadora e fatal,
Que vos fará mal
E que gostaríamos de ouvir sempre
Uma canção na forma de suspiro aos céus
O anjo apaixonado

Dir-se-ia que a alma acordada
chora debaixo da terra em uníssono
com a canção,
E da infelicidade do esquecimento
queixa-se num murmúrio
Muito ternamente.

Nas asas da música
sentimos lentamente voltar
uma recordação
uma sombra, uma forma angélica,
passa num raio trémulo,
num véu branco.

As "belles de nuit" meio-fechadas
espalham o seu perfume fraco e doce
à nossa volta
E o fantasma
murmura esticando os braços:
Tu voltarás

Nunca mais perto do túmulo,
eu irei, quando desce a noite
no seu manto negro,
ouvir a pomba pálida
cantar no topo do freixo
o seu canto de lamento.

Au cimetière

Connaissez-vous la blanche tombe,
Où flotte avec un son plaintif
L'ombre d'un if?
Sur l'if une pâle colombe,
Triste et seule au soleil couchant,
Chante son chant:

Un air maladivement tendre,
À la fois charmant et fatal,
Qui vous fait mal
Et qu'on voudrait toujours entendre;
Un air comme en soupire aux cieux
L'ange amoureux.

On dirait que l'âme éveillée
Pleure sous terre à l'unisson
De la chanson,
Et du malheur d'être oubliée
Se plaint dans un roucoulement
Bien doucement.

Sur les ailes de la musique
On sent lentement revenir
Un souvenir.
Une ombre, une forme angélique,
Passe dans un rayon tremblant,
En voile blanc.

Les belles de nuit demicloses
Jettent leur parfum faible et doux
Autour de vous,
Et le fantôme aux molles poses
Murmure en vous tendant les bras:
Tu reviendras!

Oh! jamais plus près de la tombe,
Je n'irai, quand descend le soir
Au manteau noir,
Écouter la pâle colombe
Chanter sur la pointe de l'if
Son chant plaintif.

domingo, 31 de agosto de 2008

Berlioz - Les Nuits d´Été (op. 7) - Quarta Parte

Continuando a nossa viagem ao ciclo de canções Les Nuits d´été de Berlioz hoje vamos ouvir a canção "Absence". Como tenho feito nas ultimas canções deixo-vos o original em Francês e a tradução para Português que é minha.

Para ouvirmos esta canção proponho Bernarda Fink com a Deutsche Symphonie Orchestra - Berlin dirigida por Kent Nagano: Oiçam aqui .

Ausência

Volta, Volta minha bem amada
Como uma flor longe do sol
A flor da minha vida está fechada
Longe do teu sorriso vermelho

Entre os nossos corações que distância!
Tanto espaço entre os nossos beijos
Oh destino amargo! Oh dura ausência!
Oh grandes desejos não satisfeitos!

Volta, volta minha bem amada,
Como uma flor longe do sol
A flor da minha vida está fechada
Longe do teu sorriso vermelho

Desde aqui tantos campos,
Tantas cidades e tantas aldeias
Tantos vales e tantas montanhas
Para cansarem os cavalos!

Volta, volta minha bem amada,
Como uma flor longe do sol
A flor da minha vida está fechada
Longe do teu sorriso vermelho

Absence

Reviens, reviens, ma bien-aimée!
Comme une fleur loin du soleil,
La fleur de ma vie est fermée
Loin de ton sourire vermeil.

Entre nos coeurs quelle distance!
Tant d’espace entre nos baisers!
O sort amer! O dure absence!
O grands désirs inappaisés!

Reviens, reviens, ma bien-aimée!
Comme une fleur loin du soleil,
La fleur de ma vie est fermée
Loin de ton sourire vermeil.

D’ici bas que de compagnes,
Que de villes et de hameaux,
Que de vallons et de montagnes,
À lasser le pied des chevaux!

Reviens, reviens, ma bien-aimée!
Comme une fleur loin du soleil,
La fleur de ma vie est fermée
Loin de ton sourire vermeil.

sábado, 30 de agosto de 2008

Berlioz - Les Nuits d´été (Op. 7) - Terceira Parte

Continuando em Berlioz e nas Nuits d´été enquanto ainda nos lembramos como eram hoje vamos ouvir "Sur les lagunes". Lembramos de novo que os poemas são de Teophile Gautier e que este ciclo é composto de seis canções, sendo esta a terceira. A tradução do original em francês para português é minha.

Oiçam aqui Janet Baker com a Orquestra da Rádio Dinamarquesa dirigida por Herbert Blomstedt numa gravação de 1972.

Nas Lagoas

A minha bela amiga faleceu,
Chorarei para sempre
para o seu túmulo ela leva
a minha alma e o meu amor
Para o céu sem me esperar
ela voltou
O anjo que a levou
Não quis também me levar
Quão amargo é o meu destino!
Ah! Ir para o mar sem amor!

A branca criatura
está deitada no seu caixão
como na natureza
tudo me parece em luto
a pomba esquecida
chora, chora e pensa na ausente
a minha alma chora e sente
que está sem par
Quão amargo é o meu destino!
Ah! Ir para o mar sem amor!

Sobre mim a noite imensa
estende-se como uma névoa
canto o meu romance
que apenas a noite entende
Ah! como ela era bela!
E como eu a amava!
Nunca mais amarei
uma mulher tanto como ela!
Quão amargo é o meu destino!
Ah! Ir para o mar sem amor!
... Ir para o mar sem amor! Ah! Ah!

Sur les Lagunes

Ma belle ami est morte,
Je pleurerai toujours;
Sous la tombe elle emporte
Mon âme et mes amours.
Dans le ciel sans m’attendre
Elle s’en retourna;
L’ange qui l’emmena
Ne voulut pas me prendre.
Que mon sort est amer!
Ah! sans amour s’en aller sur la mer!

La blanche créature
Est couchée au cercueil;
Comme dans la nature
Tout me parait en deuil!
La colombe oubliée
Pleure, pleure et songe à l’absent
Mon âme pleure et sent
Qu’elle est dépareillée.
Que mon sort est amer!
Ah! sans amour s’en aller sur la mer!

Sur moi la nuit immense
S’étend comme un linceul;
Je chante ma romance
Que la nuit entend seul.
Ah! comme elle était belle!
Et comme je l’aimais!
Je n’aimerai jamais
Une femme autant qu’elle!
Que mon sort est amer!
Ah! sans amour s’en aller sur la mer!
..s’en aller sur la mer! Ah! Ah!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Berlioz - Les Nuits d´été (Op. 7) - Segunda Parte

Continuando hoje a nossa viagem pelas obras de Berlioz vamos falar da segunda das canções deste ciclo (o poema relembramos é de Théophile Gautier). Chama-se a canção o "Espectro da Rosa". A tradução do poema do original em francês para o português é minha. As minhas desculpas pela menor qualidade (deixo o original também para que possam seguir a canção).

O Espectro da Rosa

Abre a tua pálpebra fechada
Que um pensamento virginal aflora
Sou o espectro da rosa
Que ontem passeavas no baile

Apanhaste-me ainda cheio de pérolas
Das lágrimas de prata do regador
E na festa estrelada
Levaste-me a passear, levaste-me a passear toda a noite

Oh tu que da minha morte foste a causa
Sem que o possas dispensar
todas as noites o meu espectro rosa
à tua cabeceira virá dançar

Não temas, não reclamo
nem missa nem De Profundis
esse leve perfume é a minha alma
esse leve perfume é a minha alma
e eu venho do paraíso
chego do paraíso

O meu destino foi digno de inveja
e para ter tal sorte
muitos teriam dado a vida
porque no teu seio tenho o meu túmulo

E no alabastro onde repouso
um poeta com um beijo
escreveu: "Aqui jaz uma rosa
de que todos os Reis vão ter ciúmes"

Escolhi uma interpretação de que gosto particularmente (é uma das vozes mais doces que conheço). Oiçam aqui Regine Crespin com a Orquestra da Radio de France conduzida por Jean-Claude Hartemann.


Le Spectre de la Rose


Soulève ta paupière close
Qu’effleure un songe virginal!
Je suis le spectre d’une rose
Que tu portais hier au bal.

Tu me pris encore emperlée
Des pleurs d’ argent de l’arrosoir,
Et parmi la fête étoileée
Tu me promenas, tu me promenas tout le soir.

O toi qui de ma mort fut cause,
Sans que tu puisses le chasser,
Toutes les nuits mon spectre rose
A ton chevet viendra danser;

Mais ne crains rien, je ne réclame
Ni messe ni De Profundis.
Ce leger parfum est mon âme,
Ce leger parfum est mon âme,
Et j’arrive du paradis,
J’arrive du paradis.

Mon destin fut digne d’envie,
Et pour avoir un sort si beau,
Plus d’ un aurait donné sa vie;
Car sur ton sein j’ai mon tombeau,

Et sur l’albâtre où je repose
Un poète avec un baiser
Écrivit: “Ci git une rose,
Que tous les rois vont jalouser.”

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Berlioz - Te Deum (Op. 22)

Hoje vamos por momentos interromper a nossa visita ao ciclo de canções Les Nuits d´été que começamos aqui para nos debruçarmos numa outra obra vocal: Te Deum (Op. 22).

Esta obra foi composta em 1849 tendo sido originalmente concebida como um hino para celebração de alguma vitória militar ou pelo parece ter cristalizado material não utilizado de uma grande sinfonia em honra de Napoleão. Aliás esta obra contém mais partes "emprestadas" de outras obras de Berlioz como por exemplo o Requiem de falaremos também em breve.

Não tendo sido uma encomenda Berlioz teve de encontrar uma razão para estrear o seu Te Deum. Acabou por o conseguir em 1855 embora não existindo uma razão militar para celebrar um dos andamentos da obra foi suprimido (e hoje é raramente tocado dado que existem instruções para que este apenas seja interpretado nesse tipo de ocasiões).

A obra segue o texto litúrgico Te Deum embora Berlioz se tenha concedido a liberdade poética de efectuar algumas alterações na ordem para aumentar o efeito dramático. Para vos mostrar esta obra vamos contar com a ajuda da Filarmónica de Viena dirigida por Claudio Abbado.

1. Te Deum laudamus

Este andamento começa como poderão ouvir por cinco acordes profundos, fortes. Este é um dos dois andamentos onde Berlioz utiliza o coro de crianças (embora especificasse que poderia ser suprimido caso necessário).

Primeira Parte - Te Deum Laudamus

2. Tibi omnes

Existem especialistas de orquestração que pensam que este é uma das obras primas de orquestração deste compositor. depois de um começo que diríamos uma inocente e primária introdução do órgão somos surpreendidos por uma entrada lindíssima do coro que será aos poucos conduzido a um clímax sonoro que se repetirá de forma sempre diferente mais duas vezes.

Segunda Parte - Tibi Omnes

3. Prelúdio

Este andamento é apenas instrumental e aquele que Berlioz especificou que não deveria ser tocado nos casos em que o Te Deum não fosse interpretado para uma celebração militar. Desta forma este andamento não é hoje praticamente interpretado (e nunca o foi na vida de Berlioz).

4. Marcha para a apresentação das Bandeiras

Este andamento também é hoje raramente tocado. No entanto contrariamente ao prelúdio Berlioz considerava que este andamento fazia parte integrante da obra e não poderia ser suprimido. Na interpretação de 1855 Berlioz colocou este andamento logo a seguir ao Tibi Omnes. Porém nas actuais edições musicais é colocado no fim e muito raramente tocado. Um dos factores que levará porventura a este facto é a necessidade de 12 Harpas para a sua execução o que torna o mesmo um pesadelo de logística.

5. Dignare

Um movimento bastante meditativo, calmo.

Terceira Parte: Dignare

6. Christe, rex gloriæ

Se o anterior andamento é introvertido, calmo, contemplativo e conducente ao recolhimento e reflexão este andamento é o seu oposto. Extrovertido, alegre com o coro frequentemente em plena utilização das suas capacidades vocais.

Quarta Parte - Christe, rex gloriæ

5. Te ergo quæsumus

Quinta Parte - Te Ergo quæsumus

6. Judex crederis

Sexta e Sétima Parte

domingo, 24 de agosto de 2008

Berlioz - Les Nuits d´été Op. 7

Esta composição é um conjunto de seis melodias que Berlioz compôs com base em poemas de Théophile Gautier. Este conjunto de canções foi terminado em 1841.

Inicialmente foram compostas apenas para voz e piano (tenor ou mezzo-soprano) mas posteriormente (1856) Berlioz orquestrou estas composições (soprano).

As seis canções intitulam-se:
  • Villanelle
  • Le Spectre de la Rose
  • Sur les Lagunes (Lamento)
  • L'Absence
  • Au Cimetière (Clair de lune)
  • L'Ile inconnue
Hoje vamos propor-vos ouvir a primeira destas canções Villanelle.

Oiçam aqui Janet Baker. Aqui fica o poema (prometo-vos uma tradução em breve).

Quand viendra la saison nouvelle,
Quand auront disparu les froids,
Tous les deux nous irons, ma belle,
Pour cueillir le muguet aux bois.

Sous nos pieds égrénant les perles
Que l'on voit, au matin trembler,
Nous irons écouter les merles
Siffler.

Le printemps est venu, ma belle;
C'est le mois des amants béni;
Et l'oiseau, satinant son aile,
Dit ses vers au rebord du nid.

Oh! Viens donc sur ce banc de mousse,
Pour parler de nos beaux amours,
Et dis-moi de ta voix si douce:
Toujours!

Loin, bien loin égarant nos courses,
Faisons fuir le lapin caché,
Et le daim, au miroir des sources
Admirant son grand bois penché;

Puis chez nous, tout heureux, tout aises,
En paniers, en laçant nos doigts,
Revenons, rapportant des fraises,
Des bois.

sábado, 23 de agosto de 2008

Berlioz - Sinfonia Fantástica Op. 14 (Quinta Parte)

No quinto movimento, sem dúvida o mais "diabólico" da sinfonia continua o pesadelo e as visões induzidas pelo ópio. Voltando ao texto de Berlioz diz o compositor acerca desta quinta parte:

"O Arstista vê-se no sabbat, no meio de um conjunto horrível de sombras, feiticeiros, monstros de todas as espécies reunidos para o seu enterro. Ruídos estranhos, gemidos, gargalhadas, gritos longínquos aos quais outros gritos parecem responder. A melodia amada reaparece mas perdeu o seu caracter de nobreza e timidez; não é agora mais do que uma dança ignóbil, trivial e grotesca: É Ela que vem ao Sabbat ... Grande aclamação de alegria à sua chegada ... Ela junta-se à orgia diabólica ... Paródia burlesca do Dies Irae, ronda do Sabbat. A Ronda do Sabbat e o Dies Irae misturados"

Oiçam aqui esta quinta parte interpretada pela NHK Symphony Orchestra (Tokyo) conduzida pelo maestro Pinchas Steinberg.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Berlioz - Sinfonia Fantástica Op. 14 (Quarta Parte)

A quarta parte da sinfonia fantástica intitula-se "Marche au Suplice". Retomando como de costume a folha de programa original escrita pelo próprio Berlioz ficamos a saber que:

"Tendo adquirido a certeza que não somente que aquela que ele adora não corresponde ao seu amor mas que ainda por cima é incapaz de o compreender e como se isso não fosse suficiente é indigna do seu amor o artista resolve envenenar-se com ópio. Porém a dose é demasiado fraca para lhe dar a morte ao invés fazendo-o mergulhar num sono acompanhado de visões horríveis. Sonha que matou a mulher que ama e que é condenado e conduzido ao cadafalso assistindo à sua própria execução. O cortejo avança ao som de uma marcha às vezes sombria e cruel outras vezes brilhante e solene e na qual aos ruídos surdos de passos graves sucedem-se sem transição passos fortíssimos. No fim da marcha os quatro primeiros compassos que representam a ideia fixa reaparecem como um derradeiro pensamento de amor interrompido pelo golpe fatal".

Interpretado num allegretto non troppo este andamento é simultaneamente o mais curto e o mais assustador desta sinfonia. Oiça aqui a Orquestra Filarmónica de Israel dirigida por
Noam Zur.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Berlioz - Sinfonia Fantástica Op. 14 (Terceira Parte)

Segundo Berlioz este foi o andamento que menor sucesso teve na data da estreia. Dizia ele que tinha suscitado poucas reacções.

Na folha de programa escrita pelo próprio (veja aqui para mais informações) dizia:

"Encontrando-se uma noite no campo ouve ao longe dois pastores que cantam. Este duo pastoral, o local, o ligeiro rumor dos ramos docemente agitados pelo vento, algumas razões de esperança que construiu recentemente tudo contribui para tornar o coração do nosso jovem mais calmo e dar uma cor mais alegre às suas ideias. Reflecte então sobre a sua solidão. Espera não estar só por muito mais tempo ... Mas e se ela o engana ? Esta mistura de esperança e de receio, as ideias de felicidade perturbadas por alguns pressentimentos sombrios formam o tema deste Adagio. No fim um dos pastores retoma o canto. O outro já não lhe responde ... Ruído ao longe do trovão ... Solidão ... Silêncio ...."

Este Adagio é claramente inspirado da Sexta Sinfonia de Beethoven igualmente em Fá Maior e igualmente passada "no campo".

Pode ouvir aqui uma parte deste terceiro andamento com a NBC Symphony Orquestra dirigida por Bruno Walter.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Berlioz - Sinfonia Fantástica op. 14 (Segunda Parte)

A segunda parte da sinfonia fantástica é intitulada "Baile". Trata-se de uma composição na forma de valsa em Lá Maior (Allegro non troppo). Vejamos o que Berlioz dizia desta parte da obra na sua folha de programa. Relembro que este texto é a tradução da folha de programa original de 1832 escrita pelo próprio Berlioz - veja mais detalhes neste outro post.

"O Artista é colocado nas mais diversas circunstâncias de vida, no meio do tumulto de uma festa na calma contemplação das belezas da natureza; mas em qualquer lugar, na cidade, nos campos a imagem da bem-amada persiste e não deixa de perturbar a sua alma."

Pode ouvir o segundo andamento aqui (Herbert von Karajan dirigindo a Orquestra de Paris) ou então aqui (Esa-Pekka Salonen dirigindo a Swedish Radio Symphony Orchestra). Bom e agora qual das versões preferem ?

domingo, 17 de agosto de 2008

Berlioz - Sinfonia Fantástica op. 14

Pensamos que melhor do que ninguém Berlioz nos pode falar da sua Sinfonia Fantástica. Desta forma muito do que vamos dizer dos vários andamentos resulta da folha de programa escrita pelo próprio Berlioz para a estreia da obra a tradução do francês é minha. Na verdade esta folha de programa sofreu várias alterações entre a data da sua composição 1830 e a data da ultima revisão (1850). Neste texto utilizaremos como base a versão de 1832. O texto de Berlioz está nesta cor.

Antes de mais convém contextualizar um pouco esta obra. Como já referimos trata-se de uma obra que é mais do que autobiográfica. É uma obra que serviu um propósito especifico na vida de Berlioz: A conquista da atenção (e do amor) da sua bem-amada.

Conta na verdade a história que Berlioz teria visto a actriz Irlandesa Harriet Smithson representar Hamlet no papel de Ofélia no dia 11 de Setembro de 1827. Berlioz ficou imediatamente apaixonado (tudo muito romântico e adequado ao espírito excessivo da época)tendo enviado inúmeras cartas sempre sem qualquer tipo de resposta. A actriz deixa Paris sem que Berlioz a possa sequer conhecer. Berlioz decide então em apenas dois meses escrever a Sinfonia Fantástica como a forma de exprimir o seu amor. Abençoada actriz diria eu ...

Bom o facto é que o objecto de tal paixão não assistiu à estreia (5 de Dezembro de 1830) tendo por fim ouvido a sinfonia em 1832 já com a adição do drama "Lelo" de que falaremos mais tarde. Finalmente aceitou encontrar-se com Berlioz e os dois casaram a 3 de Outubro de 1833. Quanto à felicidade do casamento as opiniões dividem-se. Divorciaram-se nove anos depois.

A obra tem como título original "Episódios da vida de um artista - Sinfonia em cinco partes" e segundo a página de programa escrita por Berlioz:

"O compositor teve por objectivo descrever naquilo que elas possuem de musical as diferentes situações da vida de um artista. O plano do drama instrumental, privado que está da utilização da palavra deve ser exposto previamente. O programa que se segue deve assim ser considerado como o texto de uma ópera, servindo de transporte aos fragmentos de música dos quais é a razão do carácter e da expressão"

Berlioz explica também que a obra pode ser tocada sem a distribuição do programa embora a expressão que utiliza "à la rigueur" me leve a pensar que ele preferiria que não fosse assim. Dizia então:

"Este programa deve ser distribuído sempre que a Sinfonia Fantástica for dramatizada e por consequência seguida do monodrama Lélio que termina e completa o Episódio da Vida de um Artista. Neste caso a orquestra invisível deve ser colocada no palco por trás da cortina"

"Se a Sinfonia for executada isoladamente num concerto esta disposição não é necessária: Pode-se inclusivamente em ultimo caso prescindir da distribuição do programa limitando-se apenas a descrição ao nome dos andamentos; a sinfonia (pelo menos o autor assim o espera) podendo oferecer por si própria interesse musical independente de toda a intenção dramática"

Poderíamos debater - e será sem dúvida interessante - até que ponto uma composição "programática" tem valor como uma composição abstracta ou melhor até que ponto o facto de existir uma intenção descritiva especifica lhe fornece mais valor. Porém não o faremos já, afinal de contas voltamos de férias ainda ontem e temos de recuperar os neurónios antes de semelhante batalha conceptual.

Continuando pois com a descrição de Berlioz chegamos ao primeiro andamento.

Primeira Parte : Sonhos-Paixões

"O autor parte do contexto que um jovem músico sofre da doença mental que um escritor célebre chamou a "vaga das paixões", vê pela primeira vez uma mulher que reúne todas as características do ser ideal que a sua imaginação havia formado e dela fica perdidamente apaixonado. Devido a uma originalidade inexplicável a imagem querida apenas se apresenta ao artista sobre forma musical na qual ele encontra um certo carácter apaixonado mas nobre e tímido tal como o sentimento que nutre pela sua bem-amada"

"Este reflexo melódico com o seu modelo perseguem-no sem interrupção como uma dupla ideia fixa. Tal é a razão do aparecimento em todos as peças da sinfonia da melodia que começa o primeiro Allegro"

"A passagem desse estado de sonho melancólico,interrompido por acessos de alegria sem razão, a momentos de paixão delirante, com movimentos de fúria, ciúme e respectivos regressos à ternura, lágrimas, etc ... é o tema da primeira parte."

Oiçam aqui o primeiro andamento desta sinfonia agora embebidos deste enquadramento. Pareceu-vos diferente a música do que sem o mesmo (ver este outro post) ?

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