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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Holst - Os Planetas

Esta é uma das obras da lista que vos proponho de que será mais facilmente criticada a presença numa lista de 100 obras. Convirá não esquecer no entanto que esta lista não pretende estabelecer mérito artístico mas antes divulgar a música e ajudar quem não a conhece a primeiro gostar e depois aos poucos apreender as várias vertentes da mesma. Ora nitidamente faltava alguma música composta no inicio do século XX e nesse particular Gustav Holst , compositor inglês que compôs esta obra entre 1914 e 1916 merece esta menção por aquilo que pode contribuir numa primeira aproximação à música desse século.

Contrariamente ao que o nome pode parecer indicar esta suite orquestral de sete movimentos (uma execução completa demora cerca de 50 minutos) não tem nada a ver com planetas no sentido astronómico do termo. Tem isso sim a ver com o sentido astrológico de que Holst era, como dizer, partidário.

Assim cada movimento é dedicado a um planeta, ou melhor a um Deus ou se preferirem a um corpo astrológico procurando representar para cada um o seu carácter. É deste ponto de vista uma obra programática.

A obra foi estreada publicamente numa execução completa da suite apenas a 17 de Novembro de 1920 embora antes tenham existido algumas interpretações parciais e/ou privadas.

A estrutura da obra é dividida em sete andamentos com a seguinte descrição:

Marte, O Portador da Guerra (1914)
Vénus, O Portador da Paz (1914)
Mercúrio, O Mensageiro Alado (1916)
Júpiter, O Portador da Alegria (1914)
Saturno, O Portador da Velhice (1915)
Úrano, O Mágico (1915)
Neptuno, O Místico (1915)

Curiosamente o ultimo andamento termina com um fade-out o que se hoje é relativamente comum na época foi uma estreia e seguramente uma das poucas obras da música clássica a terminar com esse efeito.

Podem ouvir uma interpretação completa desta obra no video que se segue.



Uns anos mais tarde do andamento Jupiter Holst retirou uma melodia musicando um poema "I vow to thee my country", hino patriótico que viria a tornar-se facilmente a parte mais conhecida da suite orquestral.



domingo, 27 de dezembro de 2015

Wagner - Der Ring des Nibelungen

E lá está, um dia teria de escrever sobre este ciclo de obras ... Não o faço propriamente a contragosto porque se está nesta lista é porque é uma daquelas obras incontornáveis. Porém para vos ser sincero não corresponde exactamente ao tipo de música de que gosto, mas obviamente este monumento tinha de estar nesta lista.

O ciclo completo é composto por quatro obras distintas que têm sido interpretadas em separado embora a intenção de Wagner fosse que fossem interpretadas como um ciclo (note-se que cada uma das obras dura entre 2:30 (Das Rheingold - A primeira das quatro) e algo entre 4:00 e 5:00 para a ultima (Gotterdammerung) para um total de mais de 15h de música ... Música com uma orquestração intrincada, verdadeiramente uma obra de arte totalmente e absolutamente romântica na sua maravilhosa complexidade tanto musical como do próprio enredo onde é fácil perder-se tantas são as personagens, traições, juramentos e palavras dadas.

Wagner compôs este ciclo entre 1848 e 1874 tendo a primeira apresentação enquanto ciclo ocorrido apenas em 1876 no festival de Bayreuth entre os dias 13 e 17 de Agosto.

O Libretto do próprio Wagner é baseado num poema épico do século XII de origem germânica ou nórdica antes do período de cristianização. Para quem conhece o Lord of the Rings (Senhor dos Anéis ) em particular a sua fundamentação pode-se dizer com alguma liberdade poética que a origem é aproximadamente a mesma - as lendas nórdicas.

Sem querer revelar demasiado do enredo - aliás se o fizesse receio que este post bateria facilmente o record de número de palavras e vos fatigaria além do imaginável - decidi fazer apenas um breve resumo do que está em causa em cada uma das obras sem grande detalhe quanto ao enredo. Um sumário da moral se quisermos ... Um aviso quanto à dita moral - é uma interpretação pessoal e portanto sujeita a ser discutida e contestada.

Das Rheingold (O Anel de Ouro)

Esta obra foi concebida originalmente para três actos tendo sido reduzida para um único e é na verdade uma espécie de introdução ao resto da história sendo por isso de todas as peças aquela que mais dificilmente pode ser interpretada isoladamente - embora isso tenha acontecido e seja possível. Conta esta obra o roubo do ouro que possibilita a manufactura de um anel com propriedades mágicas que permitem o controlo do mundo e como este anel amaldiçoada trará a desgraça a quem o possuir - incluindo os Deuses.



Die Walküre (As Valquírias) 

Os Deuses nesta obra decidem o destino dos mortais ... A importância da palavra e do dever parecem sobrepor-se ao amor.



Siegfried

Uma história de amor dir-se-ia quando Siegfried depois de matar o dragão que o guardava entrega a Brunnhilde o anel que permite ser dono do mundo como prova da sua fidelidade e amor.




Götterdämmerung (O Ocaso dos Deuses)

Num ambiente de "Armageddon"  esta obra descreve a consequência das escolhas feitas nas obras anteriores ... uma obra sobre amor e traição e o fim dos Deuses ...


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Verdi - La traviata

Esta ópera de Verdi em três actos dispensa qualquer apresentação. É pura e simplesmente a ópera mais vezes interpretada em todo o mundo e certamente uma das que mais paixão desperta.

O libretto (de Francesco Maria Piave) é baseado numa história de Alexander Dumas (Filho) - A Dama das Camélias e conta a história de uma prostituta (ou cortesã se quisermos utilizar uma espécie de eufemismo) e de um jovem aristocrata que acabam por se apaixonar mas que o pai separa para evitar o escândalo e prejudicar o casamento da irmã do jovem fidalgo. Violetta decide deixar o jovem quando instada pelo pai deste a ter em atenção o futuro. Violetta na verdade está doente com tuberculose e acaba por falecer não sem antes de ter esclarecido tudo com Alfredo.

Entre as muitas árias famosas que esta ópera contém teremos de destacar no primeiro acto Libiamo ne' lieti calici (um dueto fantástico) e claro o fim do mesmo com o famoso Sempre Libera .

No segundo acto destaca-se claramente a ária De' miei bollenti spiriti em que o jovem Alfredo fala alegremente da sua vida feliz com Violetta.

No terceiro acto claro o pungente "Addio, del passato bei sogni ridenti" (Adeus belos sonhos do passado).

Com excepção do extracto do segundo acto (Pavarotti)  escolhi sempre Callas propositadamente porque gostava de terminar este post falando-vos ainda que resumidamente de uma das récitas mais míticas de sempre e que teve lugar no nosso país, no Teatro São Carlos.

Na verdade hoje isto seria impensável mas a verdade é que no palco do São Carlos esteve nesse longínquo dia de 27 de Março de 1958 aquela que na altura era a maior estrela da ópera. E por um daqueles milagres inexplicáveis aquela récita produziu uma das interpretações que ficará na história da música. Porque não estive lá recomendo fortemente a leitura deste post do Blog Citizen Grave.

Além disso graças ao You Tube tenho a sorte de vos poder propor ouvirem a rendição completa dessa fabulosa interpretação. Claro que como de costume se gostarem sugiro fortemente que comprem uma versão física ou digital como vos aprouver (3 libras para uma versão digital no link da Amazon Inglaterra que incluo para vossa conveniência).






segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Prokofiev - Romeu e Julieta

Não é certamente a única obra musical baseada na conhecida história de amor embora nesta lista seja a única (haveria outras que também poderiam estar mas esta coisa de ter um número limitado de entradas implica forçosamente uma escolha).

Originalmente esta obra é um ballet composto em Setembro de 1935 tendo sido estreado em Brno em 1938 na então Republica da Checoslováquia (antes da segunda guerra logo ainda não dentro da esfera de influência dos soviéticos) sendo a estreia em solo Russo realizada após algumas revisões apenas em 1940 (11 de Janeiro de 1940).

Do bailado original (Op. 64) o compositor acabou por retirar três suites orquestrais e uma transcrição para piano de uma parte do ballet a que chamou "Romeu e Julieta : Dez Peças para Piano". Recomendamos claro o original (procuramos que esta lista tivesse as três formas de expressão musical, Orquestra, Ópera e Ballet) mas hoje propomos precisamente esta ultima transcrição.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Prokofiev - Concerto para Piano e Orquestra nº 1

Prokofiev em 1917
Este concerto, uma das primeiras obras publicadas de Prokofiev (Op. 10) em Ré Bemol Maior foi durante muito tempo desconsiderado  por ser uma obra de juventude e também eventualmente por uma duração inferior ao habitual apenas cerca de 15 minutos que pareciam curtos para o desenvolvimento de uma ideia musical.

Isto dito é um concerto que recomendo para quem quer começar a ouvir música clássica e por isso faz parte da nossa lista das 100 obras. E recomendo porque tem para mim a característica das grandes obras; é impossível a indiferença a começar pela exuberância do seu tema principal.

Os três andamentos são interpretados sem pausa entre eles seguindo uma estrutura bastante clássica de andamento rápido - lento - rápido. A dedicatória ao seu professor Tcherepin (temido professor como Prokofiev dizia) transparece também na natureza um tanto clássica dessa estrutura.

O concerto foi composto em 1911 sofrendo uma revisão em 1912 tendo a sua estreia com Prokofiev enquanto solista sido a 7 de Agosto de 1912. Gostava de encontrar uma versão do próprio Prokofiev para vos mostrar mas não consegui. Assim sendo proponho na mesma uma excelente interpretação de Sviatoslav Richter com a Orquestra Sinfónica da Checoslováquia dirigida pelo magnifico Karel Ancerl numa gravação de 1953.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Shostakovich - Concerto para Violoncelo nº 1

Já falamos neste blog muitas vezes deste concerto porque na verdade não perco uma única ocasião para o ouvir ao vivo e claro aconselho todos que possam que me imitem - garanto que não ficarão indiferentes aquele que é possivelmente o grande concerto para Violoncelo do século XX e claro um dos melhores da história da música.

O concerto resulta da amizade e colaboração artística de Schostakovich e Rostropovich (o grande violoncelista para quem não sabe). Obviamente o concerto foi dedicado a este ultimo que também foi responsável pela estreia a 4 de Outubro de 1959 com a Orquestra sinfónica de Leninegrado sobre a direcção de outro grande nome da música Russa Yevgeny Mravinsky.

Se  excluirmos o facto do concerto ser quatro andamentos o mesmo segue uma estrutura clássica (ou "normal" para evitarmos confusões com o termo) começando com um Allegreto que é seguido por um andamento lento e para depois terminar com uma cadenza seguida do ultimo andamento sendo que os andamentos 2 a 4 são interpretados sem pausa entre eles (attacca).

O concerto tem uma estrutura cíclica tão querida dos românticos e que dá ao concerto uma maravilhosa unidade (pelo menos é assim que o sinto) estrutura cíclica essa construída à volta do tema exposto logo no inicio da obra e que é tão marcante como as pancadas do destino de Beethoven. Esse pequeno tema é uma espécie de código já que as notas de que é composto (em alemão) formam uma espécie de monograma do compositor.

Schostakovich está longe de ser um compositor aceite unanimemente inclusivamente pelos seus pares do século XX sendo muitas vezes julgado um compositor menor ou ainda pior. O que eu acho que muitos não entendem é que da música composta no século XX dentro da música erudita (evito de novo a palavra clássica para evitar confusões) a música composta por Schostakovich é das poucas que mantém alguma relação com aquilo que o publico consegue entender e verdadeiramente apreciar e não perder-se em composições tão intelectualmente artificiais que apenas literalmente meia dúzia de iluminados podem apreciar. Bem sei que esta é uma opinião polémica mas é voluntário.

E pronto fiquem com este magnifico concerto, claro que só poderia ser por Rostropovich numa gravação de 1961 com a Sinfónica de Londres dirigida por Sir Charles Grove.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sinfonia nº 7 de Bruckner

Para mim Bruckner e em especial esta 7ª Sinfonia relembra-me Salzburgo e uma noite de frio (frio de Verão entenda-se) em que a pude ouvir numa das suas praças  numa projecção de video como se faz por cá para um jogo de futebol.

Não a praça não estava cheia - haveria provavelmente outras atracções artisticamente mais relevantes na cidade mas na altura lembro-me de pensar que era sem dúvida diferente ...

Ao procurar uma imagem para representar este post apercebi-me que na verdade Bruckner representa para mim ainda uma outra memória, esta não musical e que vos deixo adivinhar ... 

A sinfonia composta em 1883 e revista dois anos depois naquela procura incessante da perfeição que caracterizava o compositor tem os habituais quatro andamentos sendo dedicada a Ludwig II da Baviera.  Os quatro andamentos são dispostos numa forma clássica naquela que é uma das sinfonias mais conhecidas de Bruckner e sinceramente uma das que prefiro e que acho mais fácil para quem se inicia à música clássica. 

E sim quem se inicia um dia tem que ouvir Bruckner, o homem das sinfonias que não acabam (esta tem uma duração superior a uma hora) e por isso esta obra faz parte das nossa recomendação das 100 Obras. Também poderia fazer parte dessa mesma lista a quarta sinfonia mas pela razão que expus prefiro esta.

Por essa razão e pelo magnifico segundo andamento um adágio que se diz ter sido escrito já com a morte de Wagner em pensamento (na altura em que Bruckner compôs a obra Wagner estava já profundamente doente). Se quiserem cometer o pecado de não ouvir a obra completa então seleccionem este segundo andamento.

A obra como muitas das composições de Bruckner está envolvida em alguma polémica quanto a revisões exteriores à vontade do compositor nomeadamente de Arthur Nikisch maestro que dirigiu a estreia no teatro da Opera de Leipzig pela Orquestra da Gewendhaus a 30 de Dezembro de 1884.

Deixo-vos com a interpretação da Orquestra do Festival de Lucerna dirigida por Claudio Abbado que suponho segue a versão anotada por Nikisch.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A História do Soldado - Stravinsky

Representação no teatro da Cornucópia
Esta obra foi composta em 1918 nos meses que antecederam o fim da guerra e conta a história de um soldado russo que volta a casa (a Rússia como sabemos retirou-se da primeira guerra mundial em 1917 na sequência da revolução).

A obra foi estreada em Lausanne a 28 de Setembro desse mesmo ano tendo sido dedicada a Werner Reinhart filantropo Suiço grande apoiante de Stravinsky e diz-se responsável pelo facto da opereta ter duas versões para ensembles . A primeira para um trio pouca vezes interpretada mas a primeira a ser composta precisamente para piano, violino e clarinete o que poderá ser um piscar de olho adicional a Werner ele próprio um excelente clarinetista amador. Esta primeira suite em 5 partes foi estreada em 1919. A segunda suite muito mais próxima do original data de 1920.

A história é muito interessante já que o regresso do soldado a casa é interrompido pelo Diabo (garantia de uma história pelo menos movimentada) que o convence a trocar o seu violino (a sua alma) pelo livro onde está escrito o futuro (representando o materialismo).

Esta obra é como todas as que estão nesta lista uma excelente forma de introdução à música clássica neste caso de um compositor relativamente recente (já sei que se utilizo a palavra contemporâneo vamos ter polémico) e se puderem assistir a uma versão representada recomendo fortemente para uma sessão passada em família (para maiores de 6 anos diria) já que a duração - aproximadamente uma hora é conveniente para esse efeito.

Não podendo aqui fica uma versão completa.


E a moral da história? Bem felizmente o autor esclarece as coisas ...

Il ne faut pas vouloir ajouter 
A ce qu'on a ce qu'on avait, 
On ne peut pas être à la fois 
Qui on est et qui on était 

Il faut savoir choisir; 
On n'a pas le droit de tout avoir: 
C'est défendu. Un bonheur est tout le bonheur; 
Deux, c'est comme s'ils n'existaient plus.

Numa tradução aproximada fica assim:

Não devemos querer juntar
ao que temos aquilo que tínhamos
Não podemos ser em simultâneo
o que somos e o que eramos

Temos de saber escolher
Não temos o direito de tudo ter

É proíbido. Uma felicidade é toda a felicidade
Duas é como se não existissem.

sábado, 22 de novembro de 2014

Britten - O Guia de Orquestra para Jovens

Voltamos hoje à nossa lista das 100 Obras que recomendamos para começar desta vez com uma peça que está na mesma categoria do Pedro e o Lobo, Carnaval dos Animais ou mesmo os Planetas de Holst: São obras compostas para introduzir os jovens à música clássica curiosamente todas compostas no final do século XIX ou inicio do século XX.

A obra de Britten data de 1946 e foi originalmente uma encomenda para um filme (documentário) intitulado "Os instrumentos da Orquestra". Britten possivelmente porque tinha na altura muito trabalho demorou bastante tempo a iniciar a composição e inclusivamente acabou por não escrever a introdução e narração que fazem parte da versão narrada (que não é a mais frequentemente interpretada).

A obra foi composta com base no Rondeau de um compositor britânico do período barroco, Henry Purcell que vos mostro em instrumentos da época.



A obra começa pelo tema interpretado por toda a Orquestra seguido por várias variações uma por cada tipo de instrumento presente na Orquestra. Na versão narrada antes de cada uma destas variações existe um texto que explica a função daquele naipe ou secção especifica.

A obra termina com uma fuga iniciada pelas flautas a que se vão juntando todos os instrumentos. A narração como referimos é por vezes omitida sendo também por vezes substituída por outras mais curtas ou humorísticas como é o caso daquela que seleccionamos para vos mostrar esta obra. Uma interpretação da Orquestra da BBC nos proms de 2011.


E para os mais novos (lamento mas apenas em Inglês) o Weil Music Institute de Carnegie Hall desenvolveu um jogo interactivo que recomendo para quem queira mostrar a uma criança as várias secções e instrumentos de uma orquestra - baseado na obra de Britten, claro.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Concerto de Aranjuez de Rodrigo e Spain de Chick Corea

O post de hoje é dedicado ao meu colega Alexandre que um pouco antes da hora de almoço nos presenteou com uma versão de Spain (Chick Corea). Retorqui eu - mas isso é o Concerto de Aranjuez do Rodrigo, talvez não o primeiro andamento murmurei. Mas de repente estava o adagio a tocar e as recordações  da casa da minha avó na distante Monbahus no espaço e no tempo - e na energia a tal outra dimensão Alex, a tal outra dimensão, Sim neste caso existe uma verdadeira dimensão na diferença de energia.

Algures no Lot-et-Garonne a curta distância de uma tempestade de Verão e o cheiro da terra molhada que entrava pela janela quando tocava o disco de vinil na aparelhagem, tantas vezes repetido . Um pingo de modernidade numa casa e numa farmácia do século XIX com bidons de vidro de perfume e umas torneiras em vidro que me fascinavam. O perfume a lavanda, uma campainha na porta e as notas de um teclado de um piano afagado pela minha avó, que as vezes saíam tal como Aranjuez pelas janelas. Ainda hoje a lavanda e a terra molhada me lembram a pureza do ar e do coração daquela aldeia.

Não me é verdadeiramente possível falar do Concerto de Aranjuez sobretudo deste segundo andamento de forma que não seja puramente emocional. Foi ao som dele que namorei horas sem fim - real ou imaginariamente, Foi com o seu fundo sonoro que escrevi os textos mais melosos que alguma vez foram produzidos (sim incluindo este) . Três andamentos do qual o segundo é o mais conhecido e o que foi retomado por Chick Corea na sua composição Spain onde desenvolve o tema  à sua maneira e com a sua linguagem única.

O concerto - o original perdoa-me a precisão, o que ouvia em casa da minha avó nas tardes de verão - a despropósito muitas vezes depois de um pouco de Django Reinhardt ou Chopin - foi composto por Joaquin Rodrigo em 1939 inspirado ao que se diz nos jardins do palácio Real de Aranjuez . Talvez por isso aquele segundo andamento cheire tanto a melancolia. Por isso ou por ter sido completado logo após a devastadora Guerra Civil , uma procura de unidade que talvez pudesse hoje servir de inspiração para tantos. Certamente por isso, quase poeticamente, oito anos antes de morrer, Rodrigo foi nomeado pelo Rei D. Juan Carlos - Marqués de los Jardines de Aranjuez.

O concerto foi estreado uns meses depois a 9 de Novembro de 1940 em Barcelona e uns dias depois em Madrid. Desde aí para além da retoma de Corea com que começamos este texto as versões, aliterações e outras citações várias são difíceis de listar ou de citar tal a sua quantidade. O Adagio tem a qualidade da música que nos entra pelo coração, sem pedir licença e desperta em cada um de nós o desejo ardente da nossa poesia, seja ela qual for,

Porque nisso tens toda a razão Alexandre. Se a energia pode até nem ser uma dimensão  a música essa tem de o ser e nessa dimensão apenas existe uma razão: a nossa emoção, o nosso sentimento. Tudo o resto reduz-se a à técnica da expressão e é de somenos importância.

E por isso para ilustrar este fabuloso concerto na forma neo-clássica de andamento rápido-lento-rápido resolvi escolher um músico andaluz que até ter tocado esta obra não tinha qualquer treino clássico. E esta interpretação digam o que disserem os puristas, para mim está perfeita ! Está aqui a dimensão da alma, 21 gramas ou 21 toneladas tudo dependerá do momento. Paco de Lucia na Guitarra solo.




E sim Alexandre não podia deixar de mostrar aqui para todos a composição Spain baseada no tema do Adágio deste concerto. Apreciem as duas porque ambas poderiam estar na lista ... Mas se me permites Alexandre vou apresentar-te este tema de Chick Corea numa versão que talvez não conheças com outro dos meus génios preferidos ... Bobby McFerrin, Um dueto absolutamente fantástico !

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Pedro e o Lobo contado por Jacques Brel - Mais uma das minhas 100 obras preferidas

Retomo de novo o tema das 100 obras que recomendo para quem quer começar a ouvir música clássica. Por vezes chamo a este tema as "100 obras preferidas" - pequena liberdade poética que não deixa de estar correcta dado que sem dúvida todas as obras de que vos falo fazem parte daquelas que prefiro.

Hoje vou falar-vos de uma história que certamente conhecem - O Pedro e o Lobo . A obra musical foi composta por Prokofiev em 1936 sob encomenda de Natalya Stats e o Teatro de Crianças de Moscovo. O objectivo era introduzir nas crianças o gosto pela música. Intrigado pelo desafio Prokofiev levou menos de uma semana a completar tanto a música como o texto ambos de sua autoria.

A estreia teve lugar uns dias depois a 2 de Maio de 1936 e esteve muito longe de ser um sucesso. Felizmente desde aí a peça tornou-se prevalecente precisamente para o fim a que se destinava - a introdução à música para os mais pequenos e não só diríamos nós, não só !

Não vos vou fazer perder muito tempo procurando explicar que cada instrumento representa uma personagem, nem tão pouco vos vou procurar demonstrar a genialidade desta composição aparente simples.

A narração da história é uma prova do inegável sucesso da obra. Percorrendo rapidamente a lista de narradores que tenham gravado , excluindo as actuações ao vivo não gravadas que tornariam esta lista ainda mais impressionante, vemos nomes como Eleonor Roosevelt, David Attenborough, António Banderas e Sophia Loren , Bill Clinton e Gorbachev, David Bowie, Sting entre muitos outros ...

Hoje e para começar recomendo-vos uma narração em Francês pelo enorme Jacques Brel - não é a melhor orquestra possível e o inicio com a apresentação dos instrumentos pelo maestro poderia ser muito melhor mas a narração de Jaques Brel é simplesmente fantástica ...



Agora outras das versões que vos dei na lista de personalidades celebres. Primeiro Sting (com uma orquestra francamente melhor) dirigida por Claudio Abbado.



E por fim a versão com David Bowie (orquestra filarmónica de Filadélfia dirigida por Eugene Ormandy).



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Ernest Chausson - Poéme

Continuamos hoje a nossa epopeia pelas 100 obras que recomendamos com uma composição de um músico quase desconhecido mas de que gosto particularmente. Esta obra é uma das peças fundamentais no reportório de violino tendo sido composta em 1896 por Ernest Chausson por encomenda - ou melhor por influencia - do grande violinista e compositor Ysaÿe que lhe tinha solicitado um concerto para violino.

Ora Ernest Chausson que não era particularmente conhecido pela sua auto-confiança sentido-se incapaz de tal tarefa resolveu escrever uma obra menos complexa - uma espécie de fantasia. A obra foi estreada formalmente em Paris em 1897 por Ysaÿe tendo desde logo conhecido um grande sucesso.

A obra contida num único andamento não possui nenhuma forma composicional especifica desenvolvendo-se livremente inspirado numa história do romancista Russo Ivan Turgenev intitulada "Canto do Amor Triunfante". Note-se porém que apesar dessa inspiração Chausson  quis desde sempre negar qualquer desígnio programático referindo "não existe qualquer descrição. Apenas sensações."

Para ilustrar esta obra escolhemos uma gravação da violinista francesa Ginette Neveu de 1946 com a Orquestra Philarmonia de Londres sobre a direcção de Dobroven.

domingo, 26 de outubro de 2014

Shostakovich - Concerto para Violino nº1 em Lá Menor (Op. 77)

Pode hoje parecer estranho de uma obra abstracta (e voltamos ao tema de ontem) mas a verdade é que este concerto não foi interpretado durante mais de 10 anos devido ao receio do compositor que o mesmo fosse julgado revisionista pelo regime de Estaline e literalmente condenasse o compositor à morte (e literalmente é mesmo literalmente).

A verdade é que o concerto foi composto pouco após a segunda guerra mundial entre 1947 e 1948 tendo apenas sido estreado a 29 de Outubro de 1955 tendo por solista David Oistrakh a quem a obra tinha sido dedicada e que colaborou intensamente com o compositor em várias alterações e revisões. A honra da direcção de Orquestra coube a Yevgeny Mravinsky que dirigiu a Filarmónica de Leninegrado. O concerto foi muito bem recebido sendo que a história ainda lhe haveria de conceder mais um papel.

As relações entre os Estados Unidos e a Russia estavam a conhecer em 1953 (consequência eventual da morte de Estaline em 1953) um bom período tanto que Oistrakh foi autorizado a fazer uma tournée aos Estados Unidos onde iria tocar com algumas orquestras americanas que se disputaram o privilégio de estrear - precisamente este concerto para Violino. Essa interpretação foi transmitida pela rádio e gravada sendo neste momento possível ouvir um extracto de cerca de 4 minutos no site dos Arquivos da Filarmónica de Nova Iorque (o final e o inicio do aplauso final). Orquestra dirigida por Dimitri Mitropoulos. O programa dessa série de concertos está disponível sendo interessante a dscrição que faz da obra e que seguimos de seguida. Notem em primeiro lugar que tanto neste programa como em muitas outras referências este concerto é numerado como sendo o Opus 99. Isto tem por causa obviamente o tempo decorrente entre a composição e a publicação e interpretação. Shostakovich em vida preferiu não arriscar e conservadoramente manteve essa numeração. Musicalmente faz muito mais sentido incluir este concerto com uma numeração mais próxima da original.

O concerto rompe com a tradição clássica do concerto ao ter sido concebido em quatro andamentos (em vez dos tradicionais três).


1º Andamento Nocturne: Moderato – Um discurso baseado em dois temas, um lamento em que por vezes paira Beethoven por outras Mahler. Um andamento numa forma de Sonata muito modificada quase livre. Um andamento que cresce de um lamento para um "grito"dramático num crescendo que não vos deixará indiferentes. Aliás posso dizer-vos que foi exactamente este concerto e este andamento que um dia na Gulbenkian há uns anos me fez mudar de opinião de forma radical relativamente a Schostakovich.

2º Andamento Scherzo: Allegro – Neste andamento pela primeira vez podemos ouvir o motivo DSCH embora de forma quase ocasional. Esta parte da composição caracteriza-se por um ritmo verdadeiramente frenético sendo muitas vezes apelidado de "diabólico".

3º Andamento Passacaglia: Andante – Cadenza (attacca) – Talvez o andamento mais conhecido do concerto e aquele que permite ao solista uma maior expressividade. O andamento termina com uma condução directa ao ultimo andamento (é esse o significado da expressão "attacca" mecanismo utilizado para manter o ambiente criado).

4º Andamento Burlesque: Allegro con brio – Presto – Um andamento também muito rítmico como aliás uma grande parte do concerto uma verdadeira dança campestre porém com o acido tipico de Schostakovich.

Sendo a obra dedicada a David Oistrakh obviamente apenas poderíamos recomendar uma interpretação deste violinista. A que vos mostramos de 1956 não está disponível da sua totalidade (embora exista uma gravação em disco da mesma e uma gravação feita em estúdio no dia seguinte) mas felizmente podemos encontrar um magnifico vídeo de um concerto em Berlim (1967) com Oistrakh e a Staatskapelle Berlin dirigida por Heinz Fricke.




sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Concerto para Violoncelo em Si Menor - Dvorak

O ultimo dos concertos para um instrumento solista e Orquestra composto por Dvorak. Na opinião de muitos o melhor concerto de Violoncelo do reportório - pessoalmente estou dividido entre este e o de Shostakovich mas certamente uma das obras que prefiro. Na opinião de muitos a obra prima de Dvorak ainda superior à Nona Sinfonia (dita do Novo Mundo).

O concerto foi escrito entre 1894-1895 para o seu amigo violoncelista Hanus Wihan a quem é dedicado. Porém por razões de comunicação e de agenda a estreia da obra coube a Leo Stern a 19 de Março de 1896 em Londres no Queens Hall concerto dirigido pelo próprio Dvorak. Hanus Wihan acabou por o interpretar apenas em 1899 também sobre a direcção de Dvorak (entretanto várias interpretações desta obra fantástica tinham já ocorrido)

A obra segue o formato tradicional de concerto com um andamento rápido seguido de um andamento lento para no final voltarmos a um andamento rápido. Existem muitas interpretações sobre o significado emocional desta obra, existindo quem veja na mesma uma espécie de despedida na forma de uma autobiografia, outros que pensam que se trata da expressão da saudade e da alegria do regresso à terra natal (quando Dvorak iniciou a composição desta obra estava nos Estados Unidos afastado da mulher).

No nosso entender esta obra pode conter todas estas metáforas e outras tantas que a nossa alma imaginar tal é a riqueza e equilíbrio que revela.

1º Andamento Allegro (Si Menor - Si Maior) : Este andamento contém um dos temas mais facilmente reconhecíveis de Dvorak. Certamente um andamento inspirado pela sua experiência americana, um andamento cheio de energia e alegria, um claro contraponto ao resto do concerto que por razões que veremos é essencialmente triste e nostálgico.

2º Andamento  Adagio, ma non troppo (Sol Maior) : Se quanto ao anterior andamento podem subsistir dúvidas quanto ao seu "significado" neste caso estas dúvidas estão totalmente esclarecidas porque é sabido pelas palavras do próprio Dvorak que todo este andamento é dedicado a Josefina o seu primeiro grande amor e irmã de sua mulher com quem se casou após a rejeição da irmã. Uma citação de uma das canções preferidas de Josefina Kéž duch můj sám “Deixa-me Só” aparece, uma expressão da preocupação do compositor que tinha acabado de saber da doença da cunhada.

3º Andamento  Allegro moderato – Andante – Allegro vivo (Si Maior - Si Menor) : Este andamento prolonga a homenagem que o compositor faz à sua cunhada tendo já sido composto após o retorno à Checoslováquia e tendo já conhecimento da sua morte. O certo é que Dvorak foi especialmente

Quanto à qualidade e interesse desta obra basta referir o que Brahms disse a seu propósito, algo do género "Ah se eu soubesse que era possível escrever um concerto de Violoncelo destes ... Os Violoncelistas devem estar agradecidos a Dvorak por ter escrito uma obra destas .

A minha interpretação preferida desta obra? Bem mentiria se não vos dissesse que gosto de Rostropovich porém este concerto é um soneto à vida e ao amor e nesse sentido tendo a preferir a interpretação mais suave de Jacqueline Du Pré com a Sinfónica de Chicago dirigida por Daniel Barenboim. E claro que se puderem adquirir a gravação que inclui também o Concerto para Violoncelo de Elgar terão num mesmo disco os dois concertos nos quais esta Violoncelista é para muitos imbatível (no caso de Elgar há maestros que terão dito que sem Jacqueline este concerto - o de Elgar - não é a mesma coisa ... mas isto será outra história).

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Delibes - Lakmé

Delibes (1836-1891) é um compositor francês que se destingiu essencialmente em obras para bailado ou ópera. Além da obra de que hoje falaremos Delibes é essencialmente conhecido pelo seu bailado Copélia.

Lakmé foi composta entre 1881 e 1882 e estreada no ano seguinte a 14 de Abril pela Ópera Comique na sala Favart em Paris. O libretto de Edmond Godinet e Philippe Gille é baseado em duas obras "Les babouches du Brahamane" de Théodore Pavie e do conto "Le Mariage de Loti" de Pierre Loti. Como era moda na altura a obra centra-se no Oriente trazendo um tema que não é propriamente original: Uma jovem nativa apaixona-se por um oficial que acaba por a abandonar - com o fim trágico que se pode facilmente adivinhar. Mas a banalidade do tema acaba precisamente neste curto resumo porque o resto, tanto o libreto como a música são tudo menos isso.

A ópera foi desde a sua estreia um sucesso imenso para Delibes tendo atingido mais de 1000 interpretações antes do inicio da Segunda Guerra Mundial.

Poderão estar a pensar: Não conheço. Enganam-se. Esta ópera em três actos contem pelo menos duas passagens que é impossível não terem ouvido já uma boa centena de vezes, no mínimo. Vamos começar por vos falar do "dueto da flores" que irão certamente reconhecer e que neste caso vos proponho numa versão não encenada de Anna Netrebko e Elina Garanca.

Para quem não domina o francês o suficiente para conseguir perceber o poema aqui fica uma tradução livre (e felizmente isenta da necessidade de métrica) de uma parte do mesmo.

Sobre a espessa cobertura 
onde o branco jasmim 
se entrelaça à rosa
na margem em flor
rindo pela manhã
Vem! desceremos juntos.
docemente 
[...]




A outra ária mais conhecida, a "Canção dos Sinos" é uma referência no que diz respeito ao canto lírico. Desta vez iremos escolher uma gravação histórica da grande Callas.

Onde vai a rapariga índia
filha dos Párias
quando a lua brinca
entre as grandes mimosas
Ela corre no musgo
e não se lembra
que em todo o lado se rejeitam
as filhas dos Párias
[...]



Mas verdadeiramente o que espanta nesta ópera para aqueles de vós que após terem ouvido estes dois excertos tenham essa curiosidade, o que verdadeiramente espanta dizia é a enorme quantidade de melodias que nos parecem absolutamente deliciosas. Obviamente uma obra que se recomenda na sua totalidade.


sábado, 18 de outubro de 2014

Ravel - Concerto de piano para a mão esquerda

Quando o pianista austríaco Paul Wittgenstein (1887-1961) perdeu um dos braços na primeira guerra seria difícil imaginar o impacto que este facto teria no reportório para piano. Paul Wittgenstein estava no entanto determinado a prosseguir a carreira de solista que havia começado apenas um ano antes do inicio do conflito.

Utilizando a fortuna da sua família encomendou uma série de concertos para serem interpretados por pianistas que dispusessem apenas da mão esquerda. Entre os concertos encomendados figurava o de Ravel. Wittgenstein não tinha propriamente um feitio fácil e muitos dos concertos recebidos foram rejeitados e nunca interpretados. Sempre pagos mas simplesmente colocados numa gaveta, o que era possível dado ser uma condição de Wittgenstein a exclusividade de interpretação dos mesmos enquanto em vida.

O próprio concerto de Ravel não escapou a alguma polémica entre o compositor e o interprete e a estreia a 5 de Janeiro de 1932 pela Sinfónica de Viena dirigida por Robert Heger continha algumas adaptações que Ravel não aprovava. Temos a sorte de poder ouvir no YouTube uma gravação histórica pelo próprio Wittgenstein de 1937 com a Orquestra do Concertgebouw dirigida por Bruno Walter.

Até essa data Ravel não tinha ainda escrito nenhuma obra de grande dimensão para piano embora tivesse intenção de o fazer, a encomenda de Wittgenstein foi o catalisador para que escrevesse em simultâneo o concerto de que hoje falamos e o muito mais conhecido Concerto em Sol Maior.

Este concerto foi concebido como uma peça num unico andamento que pode ser dividido em três partes que seguem a habitual configuração do concerto "lento-rápido-lento" porém sem a interrupção formal dos andamentos separados.

Inicialmente uma das características que não agradou particularmente a Wittgenstein foi a nítida influência do Jazz já presente em várias composições de Ravel na altura e que neste concerto não deixam de aparecer em vários momentos da peça - especialmente na contribuição da percussão e dos sopros.

O concerto começa com um pianissimo que é quase inaudível interpretado pela orquestra que é depois seguido de uma primeira longa cadenza interpretada pelo piano solo. De novo mais uma das razões de desacordo entre Wittgenstein e Ravel que terá dito a propósito dessa cadenza : "Se quisesse tocar sozinho não teria encomendado um concerto para piano e orquestra". Uma belissima cadenza que introduz o tema principal.

O que é importante notar neste concerto é que a preocupação do compositor em não transformar este concerto numa prova de capacidades técnicas do solista acaba por lhe conferir um tom bastante sombrio pela utilização de uma maior quantidade de sons graves, de certa forma a fronteira normal da mão esquerda do pianista.

Especialmente notável é também a cadenza final onde confluem e são "misturados" todos os temas da obra num memorável crescendo . Deixamos para terminar uma interpretação completa de Jean Efflam Bavouzet com a Orquestra Philharmonia dirigida por Esa-Peka Salonen nas Proms de 2010.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Delibes - Lakmé

Lakmé é uma das várias óperas que Delibes escreveu e que permanece no reportório de ópera em grande parte por causa de duas árias famosas: O "sous le dôme épais" (dueto das flores) e o "L´air des clochettes". Sem prejuízo da popularidade dessas árias a verdade é que esta obra composta entre 1881 e 1882 merece estar nesta lista.

Uma obra profundamente marcada pelo "folclore" oriental que estava na moda e influenciava uma grande parte da produção artística francesa da época. Uma história de um amor impossível entre um oficial britânico e uma jovem Hindu que acaba de forma trágica. A obra foi estreada a 14 de Abril de 1883 com enorme sucesso.

Das duas árias de que falamos a primeira é a cena em que o jovem britânico conhece Lakmé o dueto sendo entre Lakmé e a sua aia que colhem flores. Fiquem com uma interpretação notável de Netbreko e Garanca não encenada.



A segunda ária (eventualmente até mais conhecida antes dos anúncios da British Airways e outros filmes que utilizaram este primeiro tema) acontece logo no segundo acto em que esta canção é utilizada para obrigar o jovem oficial britânico a revelar-se o que leva a ser apunhalado pela aia.

sábado, 7 de setembro de 2013

Grieg - Peer Gynt

Cartaz para a peça Peer Gynt com música de Gieg
por Eduard Munch
Bom na nossa lista de 100 Obras pela ordem das que me faltam deveria hoje falar-vos do Concerto de Piano  para a Mão esquerda de Ravel porém como na semana passada foi o aniversário do seu falecimento resolvemos mudar a ordem e recomendar a suite Peer Gynt uma das duas obras de Grieg que estão nesta lista sendo a outra o seu extraordinário Concerto para Piano.

Esta obra foi composta para servir como música para a peça de teatro do mesmo nome de Ibsen. Aliás foi Ibsen que convidou Grieg a desenvolver este projecto. Na altura Grieg tinha já uma forte reputação adquirida pelo seu Concerto para Piano. Talvez mais importante para Ibsen fosse no entanto a sua experiência em trabalhos semelhantes e claro a sua tendência fortemente nacionalista que agradava a ambos. Ibsen era na altura não só um dos melhores escritores do mundo mas também um dos ícones do nacionalismo norueguês tal como Grieg.

Não se pense no entanto que a relação artística entre os dois homens foi fácil. Na verdade tinham opiniões bastante diferentes sobre a obra. As ideias de música para Ibsen eram um pouco ilustrativas demais para Grieg; por exemplo Ibsen queria que cada lugar por onde Peer Gynt passasse fosse ilustrado por uma música popular desse país, Grieg limitou-se a um pequeno apontamento. Por outro lado Ibsen achava que a música de Grieg tinha tirado poder ao conto tornando-o mais "bonito" enquanto a intenção do dramaturgo era bem mais sombria.

A estreia teve lugar em Oslo (então Christiania) a 24 de Fevereiro de 1876 tendo sido um sucesso absoluto. Apesar de não estar totalmente satisfeito com a obra Grieg deu entrada no seu registo de obras como Op. 26 tendo também retirado da mesma duas suites orquestrais Op. 46 em 1888 e Op. 55 em 1891 obras estas que são as que ouvimos hoje em dia mais frequentemente nas salas de concerto. Conforme poderão constatar as suites não mantêm a ordem original e devem ser entendidas como música programática sem dúvida mas sem uma relação demasiado fixa com o original.


Suite No. 1, Op. 46

Morning Mood : Esta peça originalmente fazia parte da abertura do Quarto acto. Nessa altura Peer Gynt está em África tendo-se tornado rico mas rodeado de falsos amigos. Grieg avisava contra o excesso de interpretação programática não obstante sempre referindo que "imaginava com esta música os primeiros raios de sol por cima do horizonte ao som dos primeiros fortes". O facto é que esta melodia é sem dúvida uma das mais conhecidas e uma das que mais rapidamente associamos ao amanhecer.

The Death of Åse : Na peça de Ibsen esta música serve tanto para a introdução do terceiro acto como para o seu fecho. O herói volta para perto de Solveg e da sua mulher Ase que está às portes da morte. Uma música de lamento portanto.

Anitra's Dance : Voltamos aqui ao Quarto Acto na peça original e a uma festa onde Peer Gynt é seduzido por Anitra, filha do grupo de beduínos que o acolhe depois de mais uma fuga. esta dança em tempo de Mazurka é também uma melodia muito conhecida e certamente uma das mais voluptuosas da música clássica.

In the Hall of the Mountain King : Na peça original este episódio situa-se perto do fim do segundo acto quando Peer Gynt se situa na terra dos Trolls e conquista a filha do rei da montanha. Porém os seus subditos não recebem bem esta conquista e Peer Gynt tem de, mais uma vez, fugir para se salvar. Uma melodia rítmica, propositadamente rústica e "barbara" que procura ilustrar os mais básicos, grotescos e animalescos comportamentos da espécie humana.

Suite No. 2, Op. 55

The Abduction of the Bride. Ingrid's Lament : Originalmente esta música abria o acto II. Ilustrava o rapto de Ingrid por Peer Gynt e a sua fuga para a montanha. Um andamento que começa rápido representando o rapto mas que acaba em tons dramáticos tristes quando Peer Gynt abandona Ingrid.

Arabian Dance (Arabisk dans) : Uma das outras danças do Quarto Acto na tenda do rei beduíno. Uma melodia que procura ilustrar o exotismo do norte de África.

Peer Gynt's Homecoming (Stormy Evening on the Sea) :  Nestes dois últimos andamentos Grieg retoma a ordem normal. No original esta peça fazia parte do inicio do quinto acto e ilustra o regresso de Peer Gynt a casa. Um regresso que seria calmo não fosse a tempestade no mar que acaba por o transformar num naufrago. Um andamento que ilustra assim os contrastes da natureza e do mar.

Solveig's Song : Peer Gynt finalmente volta para o seu amor sendo que esta peça terminava o quinto e ultimo acto. Ilustra o amor eterno e a redenção. Uma lindíssima melodia e mais uma vez uma das mais reconhecidas da música clássica.

Faço-vos notar que é na verdade espantoso o número de melodias que conhecemos e que provêm desta obra ...



Nota: Sim leram bem o cartaz para a peça foi da autoria do pintor Eduard Munch - o do famoso Grito e outras obras. Notável trio ...


domingo, 1 de setembro de 2013

Max Bruch - Concerto para Violino em Sol Menor

Embora tivéssemos falado muito "en passant" por este concerto quando votamos o nosso concerto de Violino preferido fizemo-lo quase que através de uma curta biografia do compositor Max Bruch que é um desses compositores  conhecido por praticamente apenas uma obra - aliás como veremos pela história que vos vou contar uma perseguição que o afligiu em vida de forma bastante dramática.

O concerto Op. 26 em Sol Menor terá sido começado a ser composto em 1857 quando ainda estudava com Ferdinand Hiller. Porém só cerca de 10 anos mais tarde em 1865 o trabalho viria a assumir uma forma quase final quando Bruch residia em Colónia onde era o director do Real Instituto de Música. Na altura a peça era o seu primeiro grande trabalho para Orquestra e obviamente o seu primeiro concerto. Em Abril de 1886 a peça estava pronta para ser estreada o que acabou acontecer a 24 de Abril embora com um solista diferente do previsto.



Essa primeira ante-estreia se quisermos assim chamar-lhe levou Bruch a considerar que o concerto necessitava de ser revisto o que acabou por fazer durante quase um ano com o auxilio do violinista Joseph Joaquim de quem já falamos por várias vezes neste blog e que teve neste período de tempo um papel fundamental na consolidação da forma romântica do concerto - talvez tanto quanto os compositores que auxiliou.

Certo é que graças ao trabalho dos dois o concerto fica pronto para nova estreia a 5 de Janeiro de 1867 sendo solista o próprio Joachim a quem aliás Bruch dedicou a obra. O concerto foi um sucesso absoluto de tal forma que Bruch desesperou durante toda a sua vida porque apenas lhe falavam dessa sua obra. Embora tenha composto mais dois concertos a verdade é que nunca atingiram notoriedade.

O caso era especialmente desesperante porque Bruch fruto de um mau negócio não recebia qualquer rendimento desse primeiro concerto - tinha aceite um modelo em que apenas recebia um valor fixo na data de edição não tendo depois direito a nenhuma royaltie subsequente. No final da sua vida tentou ainda encontrar uma forma de receber editando o trabalho nos Estados Unidos mas mesmo aí foi vitima de um editor sem escrúpulos e a sua morte em 1920 acabou por chegar antes de ter visto recompensado financeiramente o seu sucesso.

Na verdade parece assim parco consolo as palavras do violinista Joseph Joachim que colocava este concerto de violino junto dos 4 grandes concertos de violino germânicos: O de Beethoven, o de Brahms, o de Mendelssohn e o de Bruch.

O anterior julgamento pode parecer excessivo e a colocação de Bruch ao nível de Brahms e de Beethoven um devaneio lírico do violinista. Mas não nos esqueçamos que é de um especialista que estamos a falar e de alguém que participou activamente na composição de três destes concertos. O que se passa é que na verdade o concerto de Bruch é uma obra notável transmitindo uma riqueza de ambientes e de tensões dignas de uma obra prima de cinema - aliás o concerto de Bruch é uma obra altamente cinematográfica.

Começa com um andamento que Bruch marcou como prelúdio (Vorspiel) que estabelece um ambiente quase místico - de antecipação. Ficamos várias vezes suspensos antes da entrada da Orquestra com um fortíssimo que parece ir resolver tudo mas não eis que de novo nova melodia se lança no ar retomando a dúvida ... Tudo desemboca num final calmo que liga ao maravilhoso segundo andamento, um Andante onde podemos ouvir das mais belas melodias e orquestrações compostas para um andamento lento de um concerto.

Como dizia Joachim no entanto o concerto não acaba nesse Adagio, reinventa-se com um maravilhoso contraste para o terceiro andamento que depois de uma introdução calma pela orquestra se vai desenvolvendo até um final frenético e energético que deixa normalmente os ouvintes suspensos.

Hesitei bastante na interpretação a utilizar para este concerto. sendo um dos concertos "standard" do reportório violinistico (Max Bruch sofreria ainda hoje) praticamente todos os grandes violinistas de Perlman a Heifetz passando por Menuhin e Oistrakh o interpretaram. Então entre esses e a nova escola de um Bell, ou de uma Julia Fischer ou de uma Sarah Chang qual escolher? Bom hoje estou romântico e prefiro olhar para a Julia Fischer ... critério tão bom como outro qualquer, trata-se afinal de uma grande obra do romantismo e esta violinista captou o espírito da obra - isso vos garanto. Julia Fischer portanto com a Orquestra de Zurique dirigida por David Zinman.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ravel - Bolero

Se dissessem a Ravel que a sua obra mais conhecida e mais vezes interpretada, adaptada ou abusada seria o seu Bolero com toda a certeza Ravel riria com vontade. Talvez depois lhe assaltasse a dúvida e talvez como Saint Saens proibisse a edição ou interpretação dessa obra numa tentativa de dar espaço às demais.

A verdade é que o Bolero pela sua característica repetitiva dois temas repetidos alternadamente do principio ao fim num longo crescendo de 15 minutos é fantasticamente actual e penso que o será sempre.

Como muitas obras nasceu de forma fortuita resultante de uma encomenda da bailarina Russa Ida Rubinstein. Na origem esta obra é efectivamente um ballet. Curiosamente antes de conceber esta obra de arte Ravel tinha considerado fazer uma adaptação de outras obras mas por razões diversas acabou felizmente por optar por esta maravilha.

A obra foi estreada a 22 de Novembro de 1928 em Paris tendo sido logo na estreia um sucesso notável. Esta foi também uma das ultimas obras que Ravel escreveu antes de ser forçado a reformar-se por doença. Existem um sem número de anedotas sobre a obra entre as quais a celebre afirmação de uma ouvinte na estreia que teria afirmado: "Ele é louco" ao que Ravel teria respondido ao saber dessa opinião : "Foi a unica que compreendeu a obra".

Na verdade Ravel afirmou por várias vezes que a obra não continha nenhuma invenção ou desenvolvimento e que a Orquestração era do mais simples que poderia ter feito. Ravel chegou mesmo a afirmar que a obra "não continha nenhuma música" e acreditava que muitas orquestras se recusariam a interpreta-la. Ravel escreveu mesmo ao critico Calvocoressi o seguinte texto:

"I am particularly desirous that there should be no misunderstanding about this work. It constitutes an experiment in a very special and limited direction, and should not be suspected of aiming at achieving anything different from or anything more than it actually does achieve. Before its first performance, I issued a warning to the effect that what I had written was a piece lasting about seventeen minutes and consisting wholly of ‘orchestral tissue without music' - of one long, very gradual crescendo. There are no contrasts, there is practically no invention except the plan and the manner of execution. The themes are altogether impersonal ... folktunes of the usual Spanish-Arabian kind, and (whatever may have been said to the contrary) the orchestral writing is simple and straightforward throughout, without the slightest attempt at virtuosity.... I have carried out exactly what I intended, and it is for listeners to take it or leave it."

"Tenho especial interesse em que não exista qualquer malentendido acerca desta obra. É uma experiência numa direcção muito especifica e limitada e não deve ser entendida como pretendendo alcançar algo diferente de ou algo mais do que efectivamente consegue. Antes da sua primeira interpretação pública avisei que tinha escrito uma peça de 17 minutos consistindo somente de "tecido orquestral" sem música - um longo muito gradual crescendo. Não existem contrastes não existe praticamente nenhum desenvolvimento excepto no plano e forma de execução. Os temas são totalmente impessoais ... temas populares do tipo Hispano-Árabe e (apesar do que possa ter sido dito em contrário) a escrita orquestral é simples e directa sem qualquer tentativa de virtuosismo. Fiz exactamente o que tencionava e cabe aos ouvintes decidir se a devem amar ou odiar."

Repare-se além de tudo o que já dissemos na ênfase no tempo - 17 min. (outra das anedotas é a conhecida polémica com Toscanini) que o  compositor coloca e que não é muito usual. De resto como já referimos um mesmo ritmo dois temas cada um com 18 compassos tocados alternadamente 18 vezes num longo crescendo.


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