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sábado, 18 de agosto de 2012

Beethoven - Sonata Primavera

Tendo em consideração que decorre neste momento uma votação este post pode ser visto como campanha eleitoral e bem de certa forma até é. Na verdade ao percorrer a lista das 100 obras que recomendo para começarem a ouvir música clássica encontrei também esta sonata sem que ainda exista um artigo que a descreva e que me satisfaça. Já falamos dela aqui e também neste outro post mas enquanto descrição já não me satisfazem.

A Sonata Primavera (Op. 24) em Fá Maior é a quinta das sonatas para violino de Beethoven tendo sido editada em 1801 e dedicada ao mecenas Conde Moritz von Fries (o mesmo da sétima sinfonia por exemplo).

É uma obra na qual é evidente que Beethoven já encontrou a sua própria voz estando neste momento já bastante distante do classicismo puro entrando já em pleno romantismo. Curiosamente esta obra inicialmente  era para fazer parte de um conjunto que incluía também a Sonata Nº 4 em Lá Menor (Op. 23). Devemos notar que tal como Mozart Beethoven considerava estas obras mais como sonatas para piano com acompanhamento para violino do que o inverso. Porém os violinistas do século XIX e XX  apropriaram-se destas obras de tal forma que neste momento tanto poderiam estar nesta lista como numa de obras para piano: É perfeitamente justo dizer que são desse ponto de vista obras em que os dois instrumentos têm papeis quase equilibrados dependendo a sua relevância mais dos interpretes do que da partitura, o que aliás não deixa de ter o seu interesse adicional.

O primeiro andamento da sonata (Allegro) começa com um tema maravilhoso, uma das minhas melodias preferidas em toda a música clássica primeiro introduzido pelo violino e depois repetido pelo piano. É um tema alegre que contrasta com o segundo tema desse mesmo andamento que mantendo alguma alegria não deixa de ter um certo tom de ansiedade digamos. O jogo que descrevemos entre o violino e o piano repete-se ao longo de todo este andamento quase como um desafio. Diz-se que Beethoven procurou que esta obra fosse especialmente fácil de ouvir e talvez por isso os temas são repetidos (são reexpostos) na sua totalidade antes do desenvolvimento que é bastante curto sendo depois de novo recapitulados antes do final do andamento. Esta repetição dos dois temas num andamento que é relativamente curto contribui certamente para que a obra seja de fácil memorização e incute alguma "familiaridade" ao ouvinte. Para ilustrar este primeiro andamento escolhemos David Oistrakh com Lev Oborin no piano.




O segundo andamento (adagio molto expressivo) é de uma tranquilidade absoluta, uma espécie de repouso tranquilo das emoções do primeiro andamento. Agora é o piano que assume a liderança sendo o primeiro a expor os temas seguido pelo violino que os repete. Também neste caso temos dois temas mas contrariamente ao primeiro andamento não estamos aqui na presença de uma forma sonata típica sendo que após a exposição os dois temas são revisitados em sequência com variações. Continuamos a ilustrar esta obra com os interpretes que utilizamos para o primeiro andamento.


O terceiro andamento (Scherzo - Allegro Molto) é particularmente curto apenas pouco mais de um minuto sendo constituído pelo Scherzo propriamente dito e um trio. É de novo um tema alegre e bastante rítmico como que para nos libertar da introspecção em que o segundo andamento nos coloca. Neste caso resolvi passar para uma interprete contemporânea. O video que vos mostro tem a sonata inteira pelo que se desejarem podem ouvi-la toda de seguida mas o terceiro andamento propriamente dito começa um pouco depois de 18:05. Fiquem portanto com Anne Sophie Mutter no violino e Lambert Orkis no piano.




Por fim o quarto andamento (Rondo: Allegro ma non troppo) voltamos a ter uma belíssima melodia com os dois instrumentos em pé de igualdade partilhando, repetindo-a. É um fim de peça bastante alegre que nos faz retornar ao inicio da obra. Ainda não como no período romântico com a forma cíclica de retoma do tema inicial -  forma que aprecio particularmente pela sua unidade, aliás o santo graal de românticos como Schubert ou Schumann, mas já bastante próximo ... Para este andamento escolhi o violinista Augustin Dumay com a nossa Maria João Pires ao piano. Tal como no caso anterior a sonata está inteiramente reproduzida neste video sendo que o quarto andamento começa perto de 17:15. Tenho a sorte imensa de ter este disco autografado pela pianista e posso dizer-vos que esta é uma das interpretações de referência segundo muitos especialistas.

sábado, 2 de maio de 2009

Concerto de ontem na Gulbenkian : Pinchas Zuckerman, Amanda Forsyth e

Fui ontem ouvir à Gulbenkian este concerto. Já tinha tido a oportunidade de ouvir Pinchas Zukerman com a Orquestra Gulbenkian interpretando na altura se não estou em erro o duplo concerto para violino e violoncelo de Brahms, com a sua mulher Amanda Forsyth.

Desta vez, tal como aliás na temporada passada, vieram juntos ela para interpretar umas peças de Max Bruch e ele para dirigir a Orquestra e nos presentear com uma primeira audição do concerto para Violino e Orquestra de Knussen.

Na segunda parte Pinchas Zukerman dirigiu a Orquestra Gulbenkian numa interpretação de Segunda Sinfonia de Beethoven de que gostei embora sinceramente já tenha visto a Orquestra em melhores dias.

A primeira parte foi interessante quer pelas duas peças de Bruch Canzone, para violoncelo e orquestra, em Si bemol maior, op.55 e Adagio sobre melodias celtas, para violoncelo, op.56 que nunca tinha ouvido ao vivo quer pela obra de Knussen que obviamente não conhecia. Os frequentadores mais regulares deste blog já sabem que não é propriamente a minha "chávena de chá" mas até gostei do concerto.

Das sinfonias de Beethoven falta-me agora a quarta para poder dizer que as vi todas interpretadas ao vivo ...

sábado, 22 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 9 Op. 125 em Ré Menor - Terceiro Andamento

Esta Sinfonia por ser a minha preferida tem o privilégio de ter um post por andamento. No fim farei um resumo com links para todos os posts relativos a esta sinfonia para que possam facilmente ter uma ideia da obra na sua totalidade. Por agora se chegaram aqui pela primeira vez podem ler os posts sobre o primeiro andamento aqui e sobre o segundo andamento aqui. Uma apresentação da obra pode também ser lida aqui.

O terceiro andamento (Adagio molto e cantabile - Andante Moderato) é a parte lírica desta sinfonia. Embora muitos prefiram o andamento lento da sétima sinfonia para mim este andamento é pura e simplesmente a música orquestral mais bela e serena alguma vez composta. Se nos admira o facto de Beethoven estar quase completamente surdo quando compôs esta sinfonia sem duvida que este é o andamento que mais me impressiona desse ponto de vista.

O andamento é composto por dois temas que são executados em sucessão para depois numa combinação magnifica um deles se apagar como se reconhecesse que era a sua altura de sair de cena.

Deste andamento um dos nossos guias, Berlioz apropriadamente diz que se trata de uma obra tão bela que se fosse possível descrevê-la em palavras mesmo que de forma apenas aproximada teria a poesia encontrado o seu maior arauto. Não vamos nós tentar descansem ...

Dizia então Berlioz: "Quant à la beauté de toutes ces mélodies, à la grâce infinie des ornements dont elles sont couvertes, aux sentiments de tendresse mélancolique, d’abattement passionné, de religiosité rêveuse qu’elles expriment, si ma prose pouvait en donner une idée seulement approximative, la musique aurait trouvé dans la parole écrite une émule que le plus grand des poëtes lui-même ne parviendra jamais à lui opposer."

Para ilustrar este andamento voltamos a Toscanini na sua gravação histórica de 1948 em Nova Iorque com a Orquestra da NBC. Podem ouvir este andamento aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte - e o inicio do quarto andamento).

quinta-feira, 20 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 9 Op. 125 em Ré Menor - Segundo Andamento

Tinhamos na segunda-feira visto o primeiro andamento aqui . Hoje vamos falar um pouco do segundo andamento.

Este segundo andamento é um Scherzo com um tema semelhante ao primeiro andamento. Trata-se de um andamento fortemente ritmado. Tanto quanto se sabe este foi a primeira parte da sinfonia a ser composta. Curiosamente é o único caso em que o Scherzo (apesar de não estar anotado como tal) é colocado logo após o movimento de abertura.

Diz-se deste andamento que é o milagre da repetição sem monotonia e na verdade este andamento é essencialmente constituído por uma frase repetida várias vezes em diversas opções de orquestração. Esta frase é repetida quatro vezes nos primeiros 8 compassos do andamento.

Contam-se várias histórias sobre este andamento. Karl Holtz diz por exemplo que após a sua execução na audição de estreia os músicos estavam a chorar e o público começou a aplaudir entusiasmado. Conta-se ainda que na estreia em Paris Rossini terá dito ao saír "O segundo andamento é a coisa mais bonita que já ouvi. Não conseguiria fazer nada para a melhorar".

Mais dramática, ou mais romântica se tivermos em conta a música de Glinka o compositor russo este terá aparentemente chorado compulsivamente ao ouvir o sherzo e dito "on ne touche pas lá" ...

Podem ouvir a interpretação de Karajan deste andamento aqui (coloquem o tempo no minuto 15:09 se quiserem ouvir apenas o segundo andamento, antes disso têm o não menos fantástico primeiro ... )
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segunda-feira, 17 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 9 Op. 125 em Ré Menor

Passaram-se mais de dez anos entre a estreia da oitava e a estreia da nona sinfonia também apelidada de Coral. Não foram para Beethoven anos fáceis e este facto deve-nos recomendar cautela quando procuramos relacionar a vida de um compositor e a sua obra.

Esta sinfonia é sem dúvida um dos icons da cultura ocidental, um momento inultrapassável na evolução da espécie humana.

É uma sinfonia que me leva sempre às lágrimas pela sua fé no homem. Se tivermos em conta como referimos o que Beethoven passou durante esses anos, a morte de muitos dos seus mais queridos amigos, a morte do seu irmão, dificuldades financeiras várias e sobretudo a surdez, drama sem dúvida terrível para um músico como podemos ficar indiferentes a esta expressão de solidariedade? Eu não consigo e a bem dizer não quero.

Diz-se que esta peça marca o inicio do romantismo pela sua expressão de sentimentos sem restrição, pela sua forma inaudita. Na verdade nunca antes uma sinfonia tinha utilizado um coro. Nunca antes se tinha escrito de forma tão apaixonada tão irrestricta, tão perto dos limites. Como já perceberam vamos passar alguns posts com esta obra porque não resisto a saborear convosco em grande detalhe esta composição.

O primeiro andamento (Allegro ma non troppo, un poco maestoso) foi escrito na forma de sonata. Deste andamento diz-nos Berlioz que nos será difícil ouvir algo de mais profundamente trágico. Eu diria que nos será dificil ouvir algo de mais profundamente trágico e pungente.

Há muitas interpretações históricas desta sinfonia. Para começar e para vos mostrar este primeiro andamento fiquem com Toscanini em 1948 em Nova Iorque com a orquestra da NBC aqui e aqui.

domingo, 16 de março de 2008

Beethoven - 8ª Sinfonia Op. 93 em Fá Maior

Tal como a 4ª sinfonia a 8ª também sofre do problema de ter sido composta entre duas obras de tal forma marcantes que face a estas parece uma obra menor. Na realidade não poderíamos estar mais longe da verdade. A 8ª sinfonia de Beethoven é ela também uma obra de arte notável e não fosse existirem as restantes e estaríamos aqui a dizer: Ah, a oitava sinfonia de Beethoven.

Aliás o próprio Beethoven que era pouco dado a comparar as suas obras dizia da mal amada oitava : " Um dia ainda hão-de gostar dela. É uma questão de tempo". Porém na verdade no seu tempo a oitava sinfonia pareceu a muitos ser um retrocesso. A negação de toda a expansão do género sinfónico que Beethoven havia conseguido nas suas anteriores sinfonias 3, 5, 6 e 7. Como demonstraremos trata-se no entanto de um equivoco.

A oitava sinfonia foi composta em 1812 tendo sido estreada em 1814 uns meses após a sétima num concerto em que esta também foi tocada. Esta sinfonia em Fá Maior (Op. 93) é constituída por quatro andamentos.

O primeiro andamento (Allegro vivace e con brio) : Contrariamente às sinfonias anteriores nesta não existe qualquer tipo de introdução sendo tocado de imediato o primeiro tema.

Do segundo andamento (Scherzando - Allegretto) Berlioz diz que é como se tivesse sido escrito de uma só vez, à primeira tal a naturalidade que transmite. Sabemos porém que muitas vezes essa aparente facilidade apenas se consegue com um trabalho intenso.

O terceiro andamento (Tempo di Menuetto) é um aparente regresso de Beethoven às origens do género sinfónico. Este é um dos andamentos que justifica a opinião prevalecente de que este é um regresso ao passado, a Haydn. Mas trata-se de uma ilusão provocada pelo "tempo de minueto" dado que nunca Haydn ou Mozart teriam escrito um andamento assim. A forma "antiga" não espartilha a criatividade.

O quarto andamento (Allegro vivace) é o corolário de uma obra que só é comum na sua aparência. Este quarto andamento é o mais significativo de toda a obra, nomeadamente pelo facto da coda do mesmo ser uma das mais elaboradas de todas as obras de Beethoven.

Oiçam aqui a interpretação de Herbet von Karajan desta sinfonia.

sábado, 15 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 7 em Lá maior (op. 92) - Segunda parte

Como dissemos no primeiro post a Sinfonia nº7 em Lá Maior Op. 92 foi estreada em Viena em 8 de Dezembro de 1813 sendo dedicada ao conde Moritz von Fries.

Curiosamente como muitas das sinfonias de Beethoven também esta está ligada à história de Napoleão dado que a referida estreia foi um concerto de beneficência para os soldados austríacos feridos na batalha de Hanau.

Esta sinfonia é composta de quatro andamentos. Como acontece nas sinfonias 1, 2 e 4 o primeiro andamento (Vivace) é iniciado com uma introdução onde segundo Berlioz a melodia, as modulações e a orquestração disputam-se sucessivamente a atenção. O andamento propriamente dito é caracterizado por um tema fortemente ritmado (que aliás segundo o mesmo Berlioz teria valido a Beethoven várias criticas amargas, ainda hoje alguns acusando-o de ser demasiado "naif"). Vejam uma parte deste andamento com o maestro Fritz Reiner aqui.

O segundo andamento (allegreto) é o mais "consensual" nesta obra sendo considerado umas das obras primas do compositor como já referimos. Este andamento também é como o primeiro fortemente marcado por um ritmo. Berlioz gostaria que acreditássemos que Beethoven cria que esta fosse uma dança de camponeses. George Grove no seu livro Beethoven e as nove sinfonias discorda. Wagner chama a toda esta sinfonia "a apoteose da dança" precisamente por causa do seu aspecto fortemente ritmado. Oiçam aqui Vladimir Ashkenazy aqui interpretando este segundo andamento.

O terceiro andamento (presto) é constituído por um Scherzo e um trio e também aqui existe uma forte figura rítmica presente ao longo de todo o andamento. Para este terceiro andamento escolhi o maestro de que vos falei quando introduzi esta sinfonia, Carlos Kleiber que podem ouvir aqui.

O quarto andamento (Allegro con brio) não é menos rico ritmicamente que os anteriores andamentos. Entre a tensão provocada pelas mudanças de tonalidade e a coda que é absolutamente fantástica estamos com Berlioz quando ele afirma que Beethoven não fazia música para os olhos ... referindo-se ele ao facto das técnicas empregues não serem utilizadas para ficarem bem nas partituras ou na análise mas sim para despertarem as emoções dos ouvintes ... E que despertam, despertam ! Oiçam Karl Bohm neste andamento final aqui .

Finalmente para aqueles que se perguntam o que faz um maestro vejam este vídeo de um maestro consagrado com uma orquestra de estudantes de Leicester ... com a sétima de Beethoven. Vejam aqui para terem a ideia do que é o trabalho de um maestro. Claro que com músicos profissionais os "problemas" são outros, mas dá-vos uma ideia ...

terça-feira, 11 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 7 em Lá maior (Op. 92)

Se a sexta sinfonia é conhecida pelo seu conjunto poético e tranquilo, se a quinta é conhecida pelo seu jorrar de emoções fortes a sétima sinfonia é sobretudo conhecida pelo seu maravilhoso segundo andamento. Este andamento foi repetido na estreia, a pedido do público e tem-se mantido popular desde então.

É de certa forma uma injustiça já que esta obra mereceria uma atenção muito mais profunda pelo seu todo. Esta sinfonia é a sétima pela sua data de edição (apenas) dado que provavelmente em termos de composição se acredita que terá sido a quinta. Foi estreada em Viena a 8 de Dezembro de 1813.

Hoje não vos consigo fazer a descrição total da sinfonia e não sei se nos próximos dias conseguirei fazer posts ... estarei na terra de nuestros hermanos (não, não vou ver o Benfica que Deus me livre de tal sorte :-) :-) :-)) ... Por agora fiquem com o primeiro andamento dirigido por Carlos Kleiber, aqui.

domingo, 9 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 6 (Segunda Parte)

A Sexta Sinfonia é constituída por cinco andamentos contrariamente à prática comum no período clássico (quatro andamentos). Como veremos cada um dos andamentos tem um nome especifico que procura remeter o leitor para um determinado clima. Saliente-se a esse propósito que Beethoven nitidamente não acreditava na música programática propriamente dita. Muitas das notas dos seus cadernos quando compunha a sexta sinfonia demonstram que uma das preocupações do compositor era que não tomassem as partes da sua música como imitações da natureza.

O primeiro andamento (Allegro ma non troppo) - Despertar de sentimentos felizes à chegada ao campo - Este andamento é composto da repetição de pequenos temas com alterações várias um considerável número de vezes mas sem nunca nos aborrecer. Há quem tenha referido que esta repetição de padrões é própria da natureza. Para ilustrar este andamento oiçam a Orquestra Sinfónica de Tóquio dirigida por Otmar Suitner aqui.

O segundo andamento (Andante molto mosso) - Cena perto do ribeiro - É provavelmente aquele que pela melodia e pela orquestração mais perto está de sugerir directamente os sons da natureza e não os sentimentos por esta inspirado como Beethoven pretendia. Oiçam aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte) deste andamento com Arturo Toscanini dirigindo a BBC Symphony Orquestra.

O terceiro andamento (Allegro) - Festa da gente do campo - Este andamento na verdade um Scherzo traz pela primeira vez o elemento humano. Para trazer á nossa memória esse elemento humano beethoven utiliza os sopros utilizando inclusivamente pequenas notas de humor como por exemplo a imitação estilizada de um instrumentista algo limitado. É um elemento barulhento, cheio de vida e que acaba de forma intempestiva como que interrompido por algo de inesperado: A chuva.

O quarto andamento (Allegro) - Trovoada, tempestade - Começa gentilmente como se ouvissemos as gotas da chuva e a trovoada ao longe para num crescendo sucessivo a tempestade se aproximar.

O quinto andamento (Allegretto) - Canção dos pastores, agradecimento - Este andamento é um verdadeiro canto idílico de agradecimento pelo fim da tempestade pelo retorno à serenidade.

Oiçam estes últimos andamentos sempre com a BBC Symphony Orchestra dirigida por Toscanini aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte).

quinta-feira, 6 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 6

Como dissemos esta sinfonia não poderia ter um contraste maior em relação à quinta. Curiosamente as duas foram escritas em simultaneo e segundo Grove é mesmo provável que a numeração original tenha sido a inversa (primeiro a sexta e depois a quinta). Foi completada em 1808 tendo sido composta entre 1804 e 1808 tal como a quinta. Também como esta foi dedicada aos mesmos Franz Joseph von Lobkowitz e ao conde Rasumovsky. Curiosamente foi estreada exactamente no mesmo concerto em que a quinta o foi (imaginem como foi possível !) e que correu bastante mal. Um programa demasiado longo mal ensaiado terão sido as razões.

Aliás como vos disse a junção destas duas obras dedicada a estes dois homens em conjunto tinha de certeza um significado para Beethoven dado que conforme vos referi era suposto a quinta ser dedicada ao conde Franz von Oppersdorf (que "coitado" se teve de contentar com a quarta sinfonia).

Se a terceira e a quinta endereçam a emoção e a luta pela felicidade do espírito a sexta sinfonia op. 68 em Fá Maior é a primeira e única verdadeira incursão de Beethoven na música programática. Porém note-se que mesmo neste caso Beethoven teve o cuidado de nos avisar que a sua sinfonia mais do que "uma pintura" pretendia retratar os sentimentos de paz e de poesia ao contacto com a Natureza.

Não vamos hoje dissecar os vários andamentos desta sinfonia (até porque são mais do que os habituais - 5 neste caso) e o adiantado da hora já não permite essa veleidade. Deixo-vos por hoje com um parágrafo da análise de Berlioz sobre esta sinfonia:

Mais le poëme de Beethoven!... ces longues périodes si colorées!... ces images parlantes!... ces parfums!... cette lumière!... ce silence éloquent!... ces vastes horizons!... ces retraites enchantées dans les bois!... ces moissons d’or!... ces nuées roses, taches errantes du ciel!... cette plaine immense sommeillant sous les rayons de midi!... L’homme est absent!... la nature seule se dévoile et s’admire... Et ce repos profond de tout ce qui vit! Et cette vie délicieuse de tout ce qui repose!... Le ruisseau enfant qui court en gazouillant vers le fleuve!... le fleuve père des eaux, qui, dans un majestueux silence, descend vers la grande mer!... Puis l’homme intervient, l’homme des champs, robuste, religieux... ses joyeux ébats interrompus par l’orage... ses terreurs... son hymne de reconnaissance ...

Que recomendamos leiam ouvindo o início da Pastoral aqui.

terça-feira, 4 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 5 Op. 67 em Dó Menor (Segunda Parte)

A quinta sinfonia estreada a 22 de Dezembro de 1808 é composta de quatro andamentos. A descrição que se segue (como aliás das restantes sinfonias de Beethoven) é uma mistura dos meus sentimentos pessoais com as opiniões de Berlioz e de Groove (que indico sempre que são transcrições ou aliterações das mesmas).

O primeiro andamento (Allegro) é a expressão dos sentimentos desordenados, de momentos de puro desespero logo seguidos de outros do mais profundo lirismo. Mas a expressão destes profundos e contrastantes estados de espírito é construído no mais profundo respeito por uma estrutura clássica. O facto desta expressão tão dramática ser feita dentro de tão rigorosos limites realça mais o génio do compositor e paradoxalmente torna a transmissão das emoções directa e imediata. Ontem na introdução a esta obra tinha-vos mostrado uma versão de Toscanini. Hoje vou essencialmente socorrer-me de Bernstein (tenho utilizado várias vezes Karajan nas outras sinfonias) portanto agora desculpem-me mas vou mostrar-vos Bernstein em 1976 com a Sinfónica da Rádio da Baviera (para quem gosta das histórias de moda podem aqui ver Bernstein com um look diferente - de barba ... ). Oiçam aqui.

O segundo andamento (Adagio) é tão profusamente triste tão consistentemente melancólico e não obstante tão perfeitamente belo e sintetizado. Nada existe a mais, nenhuma expressão excessiva, apenas e exclusivamente a justa medida. Oiçam aqui este segundo andamento dirigido por Carlos Kelber.

Por outro lado o terceiro andamento (Sherzo) é todo ele mistério começando num tom que revela do medo mas que pouco a pouco se afasta para dar lugar ao surpreendente inicio do quarto andamento que como sabem é tocado sem interrupção. Aliás esta ligação é extraordinariamente dificil de conseguir. Oiçam aqui a primeira parte do terceiro andamento aqui dirigido por Leonard Bernstein em 1976 por ocasião de um concerto em favor da amnistia internacional. Oiçam aqui a fase final deste terceiro andamento e o inicio do quarto andamento.

Se o terceiro andamento é misterioso o quarto por seu lado é a manifestação da energia e alegria pura, é se quisermos o final feliz de uma obra absolutamente fantástica. Continuemos com Bernstein no final deste quarto andamento aqui.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 5 Op. 67 em Dó Menor

Chegamos à sinfonia mais conhecida de Beethoven. A quinta sinfonia com o seu começo já despertou muitas pessoas para a música ou não fossem chamados os toques do destino. Digo eu que para quem ouve esta composição o destino só pode mesmo ser apaixonar-se por esta sinfonia !

A sinfonia nº 5 Op. 67 em Dó Menor foi composta entre 1804-1808 sendo dedicada conjuntamente a Franz Joseph von Lobkowitz e ao conde Rasumovsky.

Note-se que esta história dos "golpes do destino" é uma expressão que provém de Anton Schindler secretário e biografo de Beethoven em que hoje se confia muito pouco por se saber que manipulou várias informações dos diários de Beethoven. Acresce que se sabia que Schindler tinha um gosto pela teatralização na qual este argumento do "destino" cabe demasiado a propósito. Talvez tenha sido uma história inventada, mas que foi bem inventada lá isso foi.

Desta sinfonia diz Berlioz que é eventualmente a primeira em que Beethoven deu livre curso à sua voz sem influência de qualquer influência externa. Berlioz defende que a primeira, segunda e quarta estavam ligadas aos percursores do período clássico Haydn e Mozart e que a Terceira por original que fosse do ponto de vista músical estaria ligada à literatura Grega e a Homero e à Iliada em particular.

Deixo-vos com um extracto do texto (ainda em françês, mas já vos prometi que no fim desta série vou publicar o texto integral traduzido e anotado porque acho que vale a pena).

La symphonie en ut mineur, au contraire, nous paraît émaner directement et uniquement du génie de Beethoven; c’est sa pensée intime qu’il y va développer; ses douleurs secrètes, ses colères concentrées, ses rêveries pleines d’un accablement si triste, ses visions nocturnes, ses élans d’enthousiasme en fourniront le sujet; et les formes de la mélodie, de l’harmonie, du rhythme et de l’instrumentation s’y montreront aussi essentiellement individuelles et neuves que douées de puissance et de noblesse. - Berlioz

Por fim fiquem com o primeiro andamento desta sinfonia dirigida por Toscaninni. Hoje ao fim do dia ou amanhã pela madrugada mais sobre este primeiro andamento ...

sábado, 1 de março de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 4 (Op. 60)

A Sinfonia nº4 tal como a Sinfonia nº 8 é muitas vezes vista como o patinho feio das nove. Se para as primeiras duas cabe o papel de introdução a quatro e seis têm a desagradável missão de estar entre obras de tal dimensão poética, de tal transbordar de emoções que lhes é difícil captar a nossa atenção.

Certamente que não será por falta de qualidade porque qualquer uma das obras é por ela só extraordinária e não fosse o facto das outras existirem certamente estariam no conjunto das obras mais admiradas de sempre.

A Sinfonia nº 4 em Si Bemol foi terminada em 1806 tendo sido dedicada ao conde Franz von Oppersdorf. Segundo vários historiadores por razões que não se conhecem a sinfonia que era supostamente para von Oppersdorf seria a quinta mas Beethoven sentiu-se forçado a dedicar esta e a sexta em conjunto a Lobkowitz e Razoumovsky.

Esta Sinfonia não poderia ser mais diferente da terceira que a antecede e da quinta que lhe sucede. Esta sinfonia caracteriza-se pela absoluta perfeição da forma, pela expressão da alegria e espontaneidade, de uma doçura celeste para utilizarmos a expressão de Berlioz. Visivelmente Beethoven era um homem feliz quando a escreveu, embora como saibamos na maioria dos casos o estado de espírito do compositor transpareça muito pouco nas suas obras possivelmente devido à enorme variação do seu humor de dia para dia ou mesmo de hora para hora.

O primeiro andamento (Adagio -- Allegro vivace) começa tal como as anteriores três sinfonias com uma introdução um Adagio para depois entrar no Allegro de forma magnificamente orquestrada. Este andamento é de uma alegria contagiante. Em determinadas passagens quase nos apetece dansar e certamente o faremos em espírito.

Do segundo andamento (Adagio) diz Berlioz que certamente não terá sido escrito por um ser humano, que mais parece o suspirar do arcanjo Miguel contemplando o Mundo. E como na verdade achamos que não faremos melhor que Berlioz não comentaremos mais. Ou talvez o façamos ... Grove no seu livro "Beethoven and his Nine Symphonies" emite a hipótese que este andamento é inspirado pela paixão de Beethoven e apresenta como prova as cartas que foram encontradas após a sua morte e que datam da altura da composição.

O terceiro andamento (Allegro vivace) é quase todo ele composto por frases fortemente ritmadas e frequentes variações dinâmicas. Beethoven retoma aqui um tempo de minueto porém de tal forma afastado do que antes tinha sido a dança palaciana que na verdade estamos aqui a falar tal como na terceira sinfonia de uma forma nova de tratamento da forma sinfónica.

O quarto andamento (Allegro ma non troppo) - Grove faz notar no seu livro que "ma non troppo" está escrito a vermelho no manuscrito como se fosse uma nota à posteriori que nos diz, rápido mas não demasiado rápido - é o corolário lógico de toda a sinfonia. É alegria pura condensada !

Poderá ouvir aqui esta sinfonia dirigida por Herbert Von Karajan.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 3 - Segunda Parte

A primeira parte do texto sobre esta Sinfonia: Sinfonia Heróica (Primeira Parte)

O Segundo Andamento (Marcia funebre: Adagio assai) como o nome indica é uma marcha fúnebre. Trata-se de uma composição que é das mais pungentes de toda a história da música. Alterna entre a mais profunda expressão da dor com momentos de luz e esperança. Grove diz no seu livro "Beethoven and his Nine Symphonies" que em certos momentos a música parece-nos dizer "se formos fortes iremos conseguir vencer a dor para depois cair numa tristeza ainda mais profunda". É sem duvida uma obra prima de uma perfeição absoluta e de expressão de sentimentos fortíssimos. É impossível ouvir esta música sem ficar emocionalmente abalado. Oiçam aqui e aqui uma interpretação deste andamento dividido em duas partes, dirigido em duas partes. A direcção da orquestra sinfónica de Nova Iorque é de Bruno Walter. Notem que o video faz publicidade a uma rádio online que sinceramente não posso recomendar ou deixar de recomendar porque ainda não experimentei. Como implica a instalação de uma toolbar utilizem muita cautela se o resolverem fazer.

O Terceiro Andamento (Scherzo: Allegro vivace), tal como aliás e sobretudo o quarto, são por vezes considerados menores, ao ponto de um dos maiores críticos ingleses do século XIX ter afirmado uma vez "a interpretação da terceira sinfonia terminou e muito correctamente no fim da marcha fúnebre tendo as restantes partes sido omitidas". Pessoalmente discordo por várias razões. Primeiro porque retomando o que dizia o segundo andamento tem de ser equilibrado pela solução da angústia e da dor e desse ponto de vista não há nada melhor do que o terceiro andamento. Depois porque musicalmente este terceiro andamento não deixa de ser brilhante. Continuamos com Bruno Walter para este andamento aqui.

Se o terceiro andamento já divide opiniões o Quarto Andamento (Finale: Allegro molto) ainda recolhe mais dúvidas. Construído inteiramente a partir de um tema e variações em fuga bastantes simples não deixa de ser uma composição extraordinaria. Berlioz na sua análise das sinfonias de Beethoven, onde não deixa nunca palavras pelo meio diz a respeito deste andamento que aqui Beethoven conseguiu construir a diferença de cores que existe entre o azul e o violeta. Diz ainda Berlioz que essa diferença era antes de Beethoven completamente desconhecida. Ainda Bruno Walter para este andamento aqui.

Como nota final e em resumo retomando de novo Berlioz ele refere que Beethoven terá provavelmente escrito sinfonias e obras que emocionam mais o público do que esta sinfonia, no entanto diz ele "la Symphonie héroïque est tellement forte de pensée et d’exécution, le style en est si nerveux, si constamment élevé, et la forme si poétique, que son rang est égal à celui des plus hautes conceptions de son auteur". Nesse texto, que um dia destes hei-de reproduzir aqui devidamente traduzido e anotado na sua integra (fica a promessa), Berlioz parte nesse instante e a propósito desta sinfonia, para uma discussão filosófica sobre a percepção do que é belo e das diferenças que essa percepção tem entre as pessoas, mesmo quando partilham um código cultural comum. É um texto muito interessante que sem dúvida irei partilhar convosco um dia destes, até porque parece-me ser um texto bastante contemporâneo face a alguns acontecimentos recentes neste país à beira-mar plantado.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Beethoven - Sinfonia nº3

Chegamos à terceira sinfonia que é um marco de importância fundamental na história da música. Mesmo que não compartilhemos a opinião que esta obra marca o fim do período clássico e a entrada no romantismo, não deixa nunca de ser uma obra de profunda ruptura.

A Sinfonia nº 3 em Mi Bemol Maior, Op. 55, também chamada de Eroica foi composta no fim de 1803 início de 1804. Inicialmente foi dedicada a Napoleão Bonaparte que Beethoven admirava por representar os ideais da revolução francesa. Porém conta a anedota que quando Beethoven soube que Napoleão se tinha proclamado Imperador num acesso de fúria riscou o seu nome do manuscrito.

Foi assim que a sinfonia ganhou o seu nome actual "Sinfonia eroica, composta per festeggiare il sovvenire d'un grand'uomo".

A sinfonia foi executada pela primeira vez em privado para o seu grande amigo o príncipe Joseph Franz Maximilian Lobkowitz em 1804 tendo a primeira interpretação publica tido lugar no ano seguinte.

O Primeiro Andamento (Allegro con brio)começa com uns acordes que serão retomados de forma bem mais enfática na quinta sinfonia mas sobretudo temos de nos recordar do magnifico primeiro tema que começa por ser exposto primeiro em parte pelos violoncelos e que certamente teremos trauteado um dia sem saber. Diz Berlioz na sua análise das nove sinfonias que temos vindo a citar que "Quand, à ce rhythme heurté viennent se joindre encore certaines rudes dissonances, comme celle que nous trouvons vers le milieu de la seconde reprise, où les premiers violons frappent le fa naturel aigu contre le mi naturel, quinte de l’accord de la mineur, on ne peut réprimer un mouvement d’effroi à ce tableau de fureur indomptable." Não nos apercebemos hoje do profundo choque que este quadro músical representou.

Oiçam aqui a interpretação que já vos mostramos de Herbert von Karajan . Na verdade este link já não está activo por razões de reclamação de direitos da Filarmónica de Berlim (algo que acho um perfeito disparate tendo em consideração que se trata de um documento histórico e que na qualidade apresentada não substitui a aquisição antes a potencia mas enfim ... ) . Assim sendo e enquanto não for também retirada proponho-vos uma interpretação não inferior de Bernstein e a Filarmónica de Viena (neste caso a obra está completa ... ).

Amanhã analisaremos os restantes andamentos que sinceramente a madrugada já vai longa e o sono já não me deixa escrever com um mínimo de discernimento.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Beethoven - Sinfonia nº 2, Op. 36 em Ré Maior

A segunda sinfonia de Beethoven foi escrita entre 1801 e 1802 e foi a ultima composição do que se convencionou chamar o primeiro período. Este período termina como dissemos no texto em que falamos da primeira sinfonia, com o reconhecimento por Beethoven da sua crescente e irreversível surdez.

A Sinfonia, em Ré Maior foi dedicada ao príncipe Carl Lichnowsky tendo sido em grande parte escrita durante o verão de 1802 em Heiligenstadt perto de Viena. Curiosamente data também do fim desse verão o famoso "Testamento" de Beethoven para os seus irmãos, tão cheio de desespero e de angústia. Porém nada desses sentimentos transparecem na segunda sinfonia.

O manuscrito original da segunda sinfonia perdeu-se (tal como aliás o da primeira) porém existem vários esboços encontrados em blocos de apontamentos que Beethoven utilizava para anotar ideias à medida que lhe iam surgindo.

A segunda sinfonia de Beethoven é em relação à primeira um passo bastante grande na definição de um novo estilo sinfónico não tanto por existirem novas ideias mas sobretudo pelo desenvolvimento na dimensão e na profundidade das mesmas.

Exceptua-se deste raciocínio à coda do ultimo andamento que essa sim é de um novo mundo.

O primeiro andamento (Adagio molto — Allegro con brio) começa tal como na primeira sinfonia com uma introdução que embora mais longa ainda não possui propriamente a extensão e desenvolvimento que iriam caracterizar as futuras sinfonias de Beethoven.
Pode ouvir este primeiro andamento dividido em duas partes aqui e aqui.

O segundo andamento (Larghetto) que o seu aluno Ferdinand Ries diz ser quase Andante é um dos mais longos andamentos lentos das sinfonias de Beethoven. Deste andamento Hector Berlioz diz que é um "chant pur et candide, exposé d’abord simplement par le quatuor, puis brodé avec une rare élégance, au moyen de traits légers dont le caractère ne s’éloigne jamais du sentiment de tendresse qui forme le trait distinctif de l’idée principale" Pode ouvi-lo aqui.

O terceiro andamento (Scherzo: Allegro)rompe definitivamente com a existencia de um minueto como um dos andamentos de uma sinfonia (já na primeira sinfonia Beethoven tinha ameaçado). Podem ouvir este andamento aqui.

O quarto andamento (Allegro molto)é de uma energia transbordante. E embora o final hoje nos pareça "normal" na altura foi algo de absolutamente extraordinário. Podem ouvir este andamento aqui.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Beethoven - Sinfonia nº1

Esta primeira sinfonia foi escrita no que os musicólogos chamam o primeiro período de Beethoven. Porém foi também composta no dealbar de um novo século e estrada nos primeiros meses do século XIX. Esta obra marca também o fim do ciclo de Beethoven já que foi terminada meses antes da primeira crise de Beethoven quando ele se apercebeu da sua progressiva e irreversível perda de audição. Porém marca também paradoxalmente o inicio de um ciclo de génio. Na verdade embora esta obra seja essencialmente uma obra de continuidade, como dissemos na introdução deste ciclo, ela contém já algumas notas da autêntica revolução que Beethoven viria a trazer na concepção sinfónica. Por exemplo o terceiro andamento embora esteja marcado como sendo um minueto de acordo com a prática normal na época clássica é tão rápido que não pode deixar de ser considerado um Sherzo como virá a ser prática nas grandes sinfonias românticas.

Mas vamos começar pelo início. Esta obra foi dedicada ao seu amigo vienense o conde Gottfried van Swieten (que também já havia sido patrono e amigo de Mozart e de Haydn e a que devemos portanto muitíssimo). Escrita entre 1799 e 1800 foi estreada em 1800 mais precisamente no dia 2 Abril no primeiro concerto que Beethoven realizou para seu próprio proveito e onde para além da estreia desta sinfonia foi também tocado um conerto de Mozart e alguns extractos da "Criação" de Haydn.

A sinfonia é composta por 4 andamentos. O primeiro andamento (Adagio molto—Allegro con brio) começa por uma espécie de introdução muito calma e uma dissonância que se pensa ter sido uma experimentação de Beethoven dado que o voltou a utilizar logo no ano seguinte. Alias esta dissonância que hoje não nos parece nada de transcendente foi suficientemente inovadora para valer a Beethoven uma polémica pessoal com os críticos da época nomeadamente Preindl, Stadler e Weber.

O segundo andamento (Andante cantabile con moto) é um dos andamentos onde se nota em simultaneo a escola de contraponto do seu mestre Albrechtsberger mas em simultâneo uma elegância e uma beleza acima de qualquer escola. Em termos de inovação é também neste andamento que Beethoven nos reserva uma utilização da percursão inovadora e que anuncia a verdadeira revolução que acabou por ocorrer mais tarde.

O terceiro andamento (Menuetto: Allegro molto e vivace) é dos quatro o que mais trouxe em termos de inovação. Na verdade embora guarde a forma do minueto Beethoven faz explodir completamente a forma tradicional desta antiga dança de salão para a transformar em algo completamente novo. Nas palavras de J. W Davison´s Beethove terá aqui dado "Um Salto para um mundo novo".

Finalmente o quarto andamento (Adagio—Allegro molto e vivace)embora seja caracterizado por Berlioz na sau análise das nove sinfonias de Beethoven como "Uma brincadeira infantil e nada beethoviana".

Oiçam aqui esta sinfonia dirigida por Herbert von Karajan.

Em resumo embora seja uma composição que no seu conjunto seja vista como uma sinfonia na mais pura tradição Mozartiana e Haydiana contém suficiente inovação e qualidade para ser uma obra prima profundamente original.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

As Sinfonias de Beethoven

Como tínhamos prometido este fim de semana vamos começar a nossa série sobre as nove sinfonias de Beethoven. Se cada uma destas sinfonias é por si própria uma obra de arte única e de génio, no seu conjunto constituem um autêntico hino à música. Para começar a nossa viagem vejamos a lista e uma breve sinopse de cada uma das obras (com links para um vídeo de um dos andamentos da mesma).

As duas primeiras sinfonias Sinfonia 1 em Dó Maior composta entre 1799 e 1800 estreada em 1800 e ainda a sinfonia 2 em Ré maior composta entre 1801 e 1802 estreada em 1803 são ainda muito próximas das sinfonias de Mozart. Oiçam aqui esta sinfonia dirigida por Herbert von Karajan. No que diz respeito à segunda sinfonia experimente ouvir aqui também dirigida por Karajan.

Porém após a terceira sinfonia em Mi Bemol Maior chamada de Eroica composta em 1803 e estreada em 1804 nada na música foi como dantes. Esta sinfonia foi verdadeiramente um marco, uma viragem. Pode-se pensar que marca o inicio do período romântico. Na verdade supostamente Haydn terá dito que esta obra coloca o artista no centro da mesma, querendo com isto dizer que é uma obra em que não existe qualquer tipo de restrição na expressão das emoções. Oiçam aqui o inicio desta sinfonia dirigida por Karajan.

A sinfonia Nº4 em Ré bemol Maior composta em 1806 e estreada em 1807 é uma obra que realmente nunca foi muito apreciada pelos seus próprios méritos. É geralmente considerada como uma obra de transição entre a Terceira e a Quinta Sinfonias o que é sem dúvida uma grande injustiça. Oiçam aqui Herbert von Karajan a dirigir esta obra.

Se a Terceira sinfonia foi uma obra de ruptura a Quinta em Dó Menor, composta entre 1805 e 1808 e estreada nesse mesmo ano foi a sua evolução natural. Algumas vezes apelidada da Sinfonia do Destino pela famosa forma como se inicia (Beethoven teria dito segundo um dos seus biógrafos que seria assim que o destino bateria à porta). Oiçam o Primeiro Andamento dirigido por Arturo Toscanini.

A Sexta Sinfonia (Pastoral) em Fá Maior composta também entre 1805 e 1808 e também ela estreada em 1808 pode ser considerada uma obra programática no sentido que pretende expressar o gosto de Beethoven pela natureza. Oiçam o primeiro andamento dirigido por Herbert von Karajan

A Sétima Sinfonia em Lá Maior foi composta entre 1811 e 1812 e estreada em 1813. Do seu ultimo andamento Tchaikovsky dizia: "Uma série de imagens cheias de felicidade, de realização e de prazer pela vida". Oiçam o primeiro andamento dirigido por um dos mais misteriosos maestros dos nossos dias.

A oitava sinfonia em Fá Maior composta entre 1811 e 1812 foi estreada em 1814. É a mais curta de todas as sinfonias sendo por isso por vezes referida como a "pequena sinfonia". Porém se a duração realmente é curta a arte que revela não deixa nada a dever às restantes. É uma sinfonia muito "bem disposta". Oiçam o primeiro andamento de novo dirigido por Herbert von Karajan.

A nona sinfonia em Ré menor foi composta entre 1817 e 1824 e estreada nesse mesmo ano. É para muitos a melhor obra de música jamais composta (eu admito que está na minha lista de preferidas e se não estiver no topo estará lá perto). Quando ouvida numa sala de concertos, ao vivo é algo que nunca se esquece. Por agora e até que possam ter essa experiência oiçam o final da sinfonia dirigida por Bernstein.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Beethoven - Sonata para piano e trompa - Op. 17

Hoje vamos ouvir uma sonata para um instrumento completamente diferente. Trata-se da Sonata para Piano e Trompa Op. 17 em Fá maior publicada em 1800.

Tem três andamentos . Para ilustrar a sua interpretação encontramos no You Tube um filme de Dennis Brain que é uma espécie de James Dean dos instrumentistas de Sopro. Porque não teremos talvez tão cedo uma outra oportunidade para contar a sua história resolvi fazê-lo num segundo post hoje, que poderá ler aqui.

No que diz respeito a esta sonata o primeiro andamento é um allegro moderato, o segundo Poco Adagio, quasi Andante e finalmente o terceiro andamento é um Allegro Moderato. Podem ouvir esta Sonata dividida em duas partes: aqui e aqui. O primeiro filme tem ainda uma excelente introdução sobre a trompa e especificamente a diferença entre a trompa do tempo de Beethoven e a dos nossos dias. Só por essa introdução vale a pena ouvir.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Beethoven - Quartetos para cordas Op. 18 (nº1)

Hoje vamos voltar as peças para cordas mais especificamente aos quartetos para cordas incluídos no Op. 18 compostos entre os anos de 1798 e 1800.

Confesso que a razão pela qual escolhi hoje esta peça é essencialmente porque o meu filho a está a aprender uma delas e quis ver se encontrava uma execução que pudesse servir de modelo. Na verdade encontrei uma excelente, mas sobre isto falaremos daqui a pouco.

O Op. 18 é composto por seis composições todas para dois violinos, viola e violoncelo. Foram compostos para satisfazer uma encomenda do Prince Lobkowitz patrão do violinista Karl Amenda, amigo de Beethoven.

O quarteto nº1 em Fá Maior que vos vou mostrar hoje - e que é o tal de que andei à procura - tem quatro andamentos. O quarteto segue a organização normal da forma sonata. O primeiro andamento (Allegro con brio) pode ser ouvido aqui, tal como os restantes numa interpretação excelente do quarteto Alban Berg. Podem ouvir o segundo andamento (Adagio affettuoso ed appassionato) aqui, o terceiro andamento (Scherzo: Allegro molto) aqui e finalmente o quarto andamento (Allegro) aqui.

E estamos quase, quase, a iniciar a nossa viagem pelas nove sinfonias de Beethoven ...

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