Chegamos à terceira sinfonia que é um marco de importância fundamental na história da música. Mesmo que não compartilhemos a opinião que esta obra marca o fim do período clássico e a entrada no romantismo, não deixa nunca de ser uma obra de profunda ruptura.
A Sinfonia nº 3 em Mi Bemol Maior, Op. 55, também chamada de Eroica foi composta no fim de 1803 início de 1804. Inicialmente foi dedicada a Napoleão Bonaparte que Beethoven admirava por representar os ideais da revolução francesa. Porém conta a anedota que quando Beethoven soube que Napoleão se tinha proclamado Imperador num acesso de fúria riscou o seu nome do manuscrito.
Foi assim que a sinfonia ganhou o seu nome actual "Sinfonia eroica, composta per festeggiare il sovvenire d'un grand'uomo".
A sinfonia foi executada pela primeira vez em privado para o seu grande amigo o príncipe Joseph Franz Maximilian Lobkowitz em 1804 tendo a primeira interpretação publica tido lugar no ano seguinte.
O Primeiro Andamento (Allegro con brio)começa com uns acordes que serão retomados de forma bem mais enfática na quinta sinfonia mas sobretudo temos de nos recordar do magnifico primeiro tema que começa por ser exposto primeiro em parte pelos violoncelos e que certamente teremos trauteado um dia sem saber. Diz Berlioz na sua análise das nove sinfonias que temos vindo a citar que "Quand, à ce rhythme heurté viennent se joindre encore certaines rudes dissonances, comme celle que nous trouvons vers le milieu de la seconde reprise, où les premiers violons frappent le fa naturel aigu contre le mi naturel, quinte de l’accord de la mineur, on ne peut réprimer un mouvement d’effroi à ce tableau de fureur indomptable." Não nos apercebemos hoje do profundo choque que este quadro músical representou.
Oiçam aqui a interpretação que já vos mostramos de Herbert von Karajan . Na verdade este link já não está activo por razões de reclamação de direitos da Filarmónica de Berlim (algo que acho um perfeito disparate tendo em consideração que se trata de um documento histórico e que na qualidade apresentada não substitui a aquisição antes a potencia mas enfim ... ) . Assim sendo e enquanto não for também retirada proponho-vos uma interpretação não inferior de Bernstein e a Filarmónica de Viena (neste caso a obra está completa ... ).
Amanhã analisaremos os restantes andamentos que sinceramente a madrugada já vai longa e o sono já não me deixa escrever com um mínimo de discernimento.
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Beethoven - Sinfonia nº 2, Op. 36 em Ré Maior
A segunda sinfonia de Beethoven foi escrita entre 1801 e 1802 e foi a ultima composição do que se convencionou chamar o primeiro período. Este período termina como dissemos no texto em que falamos da primeira sinfonia, com o reconhecimento por Beethoven da sua crescente e irreversível surdez.
A Sinfonia, em Ré Maior foi dedicada ao príncipe Carl Lichnowsky tendo sido em grande parte escrita durante o verão de 1802 em Heiligenstadt perto de Viena. Curiosamente data também do fim desse verão o famoso "Testamento" de Beethoven para os seus irmãos, tão cheio de desespero e de angústia. Porém nada desses sentimentos transparecem na segunda sinfonia.
O manuscrito original da segunda sinfonia perdeu-se (tal como aliás o da primeira) porém existem vários esboços encontrados em blocos de apontamentos que Beethoven utilizava para anotar ideias à medida que lhe iam surgindo.
A segunda sinfonia de Beethoven é em relação à primeira um passo bastante grande na definição de um novo estilo sinfónico não tanto por existirem novas ideias mas sobretudo pelo desenvolvimento na dimensão e na profundidade das mesmas.
Exceptua-se deste raciocínio à coda do ultimo andamento que essa sim é de um novo mundo.
O primeiro andamento (Adagio molto — Allegro con brio) começa tal como na primeira sinfonia com uma introdução que embora mais longa ainda não possui propriamente a extensão e desenvolvimento que iriam caracterizar as futuras sinfonias de Beethoven.
Pode ouvir este primeiro andamento dividido em duas partes aqui e aqui.
O segundo andamento (Larghetto) que o seu aluno Ferdinand Ries diz ser quase Andante é um dos mais longos andamentos lentos das sinfonias de Beethoven. Deste andamento Hector Berlioz diz que é um "chant pur et candide, exposé d’abord simplement par le quatuor, puis brodé avec une rare élégance, au moyen de traits légers dont le caractère ne s’éloigne jamais du sentiment de tendresse qui forme le trait distinctif de l’idée principale" Pode ouvi-lo aqui.
O terceiro andamento (Scherzo: Allegro)rompe definitivamente com a existencia de um minueto como um dos andamentos de uma sinfonia (já na primeira sinfonia Beethoven tinha ameaçado). Podem ouvir este andamento aqui.
O quarto andamento (Allegro molto)é de uma energia transbordante. E embora o final hoje nos pareça "normal" na altura foi algo de absolutamente extraordinário. Podem ouvir este andamento aqui.
A Sinfonia, em Ré Maior foi dedicada ao príncipe Carl Lichnowsky tendo sido em grande parte escrita durante o verão de 1802 em Heiligenstadt perto de Viena. Curiosamente data também do fim desse verão o famoso "Testamento" de Beethoven para os seus irmãos, tão cheio de desespero e de angústia. Porém nada desses sentimentos transparecem na segunda sinfonia.
O manuscrito original da segunda sinfonia perdeu-se (tal como aliás o da primeira) porém existem vários esboços encontrados em blocos de apontamentos que Beethoven utilizava para anotar ideias à medida que lhe iam surgindo.
A segunda sinfonia de Beethoven é em relação à primeira um passo bastante grande na definição de um novo estilo sinfónico não tanto por existirem novas ideias mas sobretudo pelo desenvolvimento na dimensão e na profundidade das mesmas.
Exceptua-se deste raciocínio à coda do ultimo andamento que essa sim é de um novo mundo.
O primeiro andamento (Adagio molto — Allegro con brio) começa tal como na primeira sinfonia com uma introdução que embora mais longa ainda não possui propriamente a extensão e desenvolvimento que iriam caracterizar as futuras sinfonias de Beethoven.
Pode ouvir este primeiro andamento dividido em duas partes aqui e aqui.
O segundo andamento (Larghetto) que o seu aluno Ferdinand Ries diz ser quase Andante é um dos mais longos andamentos lentos das sinfonias de Beethoven. Deste andamento Hector Berlioz diz que é um "chant pur et candide, exposé d’abord simplement par le quatuor, puis brodé avec une rare élégance, au moyen de traits légers dont le caractère ne s’éloigne jamais du sentiment de tendresse qui forme le trait distinctif de l’idée principale" Pode ouvi-lo aqui.
O terceiro andamento (Scherzo: Allegro)rompe definitivamente com a existencia de um minueto como um dos andamentos de uma sinfonia (já na primeira sinfonia Beethoven tinha ameaçado). Podem ouvir este andamento aqui.
O quarto andamento (Allegro molto)é de uma energia transbordante. E embora o final hoje nos pareça "normal" na altura foi algo de absolutamente extraordinário. Podem ouvir este andamento aqui.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Johann Adolph Hasse (1699 - 1783)
Vida
Johann Adolph Hasse foi um compositor alemão conhecido no seu tempo pela sua incrível produção de óperas tendo composto mais de 60 óperas. Foi um dos últimos alunos de Scarlatti em Nápoles onde esteve entre 1720 e 1730.
Em 1730 voltou à Alemanha mais precisamente a Dresden para ocupar o posto de Kappelmeister depois de ter casado com a soprano Faustina Bordoni em Veneza onde esteve algum tempo incluindo o Carnaval quando foi estreada a sua ópera Artaserse.
Esta ópera é especialmente relevante pois ela marca o inicio da sua colaboração com o libretista Metastasio. Um dos papeis foi interpretado por Farinelli que terá cantado duas das àrias desta opera todos os dias durante dez anos ao Rei Filipe V de Espanha. Podem aqui ouvir uma destas duas àrias interpretadas por um cantor lírico mexicano ...
A sua estadia em Dresden foi muitas vezes interrompida para deslocações a Veneza onde tanto ele como a sua esposa eram imensamente populares.
No final da sua vida viveu em Viena entre 1764 e 1773 tendo no entanto mantido o seu hábito de se deslocar regularmente a Veneza. Porém o estilo das suas óperas estava já nessa altura a ser secundarizado por Gluck e desta forma Hasse resolveu voltar a Veneza onde viria a falecer dez anos depois. Nos ultimos anos da sua vida dedicou-se ao ensino e à música sacra que de certa forma paradoxalmente são hoje as suas obras mais vezes executadas.
Obra
Após a sua morte a maioria da sua obra operática caíu no esquecimento, em grande parte devido à reforma conduzida por Gluck como já referimos.
Não obstante a obra de Johann hasse é digna de registo na consolidação do género Opera Séria no final do século XVIII. Seguiu regras de composição bastante rigorosas em que cada tonalidade correspondia a um determinado estado de espírito mas às quais não faltava inspiração e sobretudo em grande parte graças à sua colaboração com Metastasio desenvolveu aos poucos um muito maior respeito pelo libretista o que contribuiu de forma decisiva para a evolução do género operático.
Oiçam por exemplo este moteto como um excelente exemplo da música sacra que compôs.
Johann Adolph Hasse foi um compositor alemão conhecido no seu tempo pela sua incrível produção de óperas tendo composto mais de 60 óperas. Foi um dos últimos alunos de Scarlatti em Nápoles onde esteve entre 1720 e 1730.
Em 1730 voltou à Alemanha mais precisamente a Dresden para ocupar o posto de Kappelmeister depois de ter casado com a soprano Faustina Bordoni em Veneza onde esteve algum tempo incluindo o Carnaval quando foi estreada a sua ópera Artaserse.
Esta ópera é especialmente relevante pois ela marca o inicio da sua colaboração com o libretista Metastasio. Um dos papeis foi interpretado por Farinelli que terá cantado duas das àrias desta opera todos os dias durante dez anos ao Rei Filipe V de Espanha. Podem aqui ouvir uma destas duas àrias interpretadas por um cantor lírico mexicano ...
A sua estadia em Dresden foi muitas vezes interrompida para deslocações a Veneza onde tanto ele como a sua esposa eram imensamente populares.
No final da sua vida viveu em Viena entre 1764 e 1773 tendo no entanto mantido o seu hábito de se deslocar regularmente a Veneza. Porém o estilo das suas óperas estava já nessa altura a ser secundarizado por Gluck e desta forma Hasse resolveu voltar a Veneza onde viria a falecer dez anos depois. Nos ultimos anos da sua vida dedicou-se ao ensino e à música sacra que de certa forma paradoxalmente são hoje as suas obras mais vezes executadas.
Obra
Após a sua morte a maioria da sua obra operática caíu no esquecimento, em grande parte devido à reforma conduzida por Gluck como já referimos.
Não obstante a obra de Johann hasse é digna de registo na consolidação do género Opera Séria no final do século XVIII. Seguiu regras de composição bastante rigorosas em que cada tonalidade correspondia a um determinado estado de espírito mas às quais não faltava inspiração e sobretudo em grande parte graças à sua colaboração com Metastasio desenvolveu aos poucos um muito maior respeito pelo libretista o que contribuiu de forma decisiva para a evolução do género operático.
Oiçam por exemplo este moteto como um excelente exemplo da música sacra que compôs.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Beethoven - Sinfonia nº1
Esta primeira sinfonia foi escrita no que os musicólogos chamam o primeiro período de Beethoven. Porém foi também composta no dealbar de um novo século e estrada nos primeiros meses do século XIX. Esta obra marca também o fim do ciclo de Beethoven já que foi terminada meses antes da primeira crise de Beethoven quando ele se apercebeu da sua progressiva e irreversível perda de audição. Porém marca também paradoxalmente o inicio de um ciclo de génio. Na verdade embora esta obra seja essencialmente uma obra de continuidade, como dissemos na introdução deste ciclo, ela contém já algumas notas da autêntica revolução que Beethoven viria a trazer na concepção sinfónica. Por exemplo o terceiro andamento embora esteja marcado como sendo um minueto de acordo com a prática normal na época clássica é tão rápido que não pode deixar de ser considerado um Sherzo como virá a ser prática nas grandes sinfonias românticas.
Mas vamos começar pelo início. Esta obra foi dedicada ao seu amigo vienense o conde Gottfried van Swieten (que também já havia sido patrono e amigo de Mozart e de Haydn e a que devemos portanto muitíssimo). Escrita entre 1799 e 1800 foi estreada em 1800 mais precisamente no dia 2 Abril no primeiro concerto que Beethoven realizou para seu próprio proveito e onde para além da estreia desta sinfonia foi também tocado um conerto de Mozart e alguns extractos da "Criação" de Haydn.
A sinfonia é composta por 4 andamentos. O primeiro andamento (Adagio molto—Allegro con brio) começa por uma espécie de introdução muito calma e uma dissonância que se pensa ter sido uma experimentação de Beethoven dado que o voltou a utilizar logo no ano seguinte. Alias esta dissonância que hoje não nos parece nada de transcendente foi suficientemente inovadora para valer a Beethoven uma polémica pessoal com os críticos da época nomeadamente Preindl, Stadler e Weber.
O segundo andamento (Andante cantabile con moto) é um dos andamentos onde se nota em simultaneo a escola de contraponto do seu mestre Albrechtsberger mas em simultâneo uma elegância e uma beleza acima de qualquer escola. Em termos de inovação é também neste andamento que Beethoven nos reserva uma utilização da percursão inovadora e que anuncia a verdadeira revolução que acabou por ocorrer mais tarde.
O terceiro andamento (Menuetto: Allegro molto e vivace) é dos quatro o que mais trouxe em termos de inovação. Na verdade embora guarde a forma do minueto Beethoven faz explodir completamente a forma tradicional desta antiga dança de salão para a transformar em algo completamente novo. Nas palavras de J. W Davison´s Beethove terá aqui dado "Um Salto para um mundo novo".
Finalmente o quarto andamento (Adagio—Allegro molto e vivace)embora seja caracterizado por Berlioz na sau análise das nove sinfonias de Beethoven como "Uma brincadeira infantil e nada beethoviana".
Oiçam aqui esta sinfonia dirigida por Herbert von Karajan.
Em resumo embora seja uma composição que no seu conjunto seja vista como uma sinfonia na mais pura tradição Mozartiana e Haydiana contém suficiente inovação e qualidade para ser uma obra prima profundamente original.
Mas vamos começar pelo início. Esta obra foi dedicada ao seu amigo vienense o conde Gottfried van Swieten (que também já havia sido patrono e amigo de Mozart e de Haydn e a que devemos portanto muitíssimo). Escrita entre 1799 e 1800 foi estreada em 1800 mais precisamente no dia 2 Abril no primeiro concerto que Beethoven realizou para seu próprio proveito e onde para além da estreia desta sinfonia foi também tocado um conerto de Mozart e alguns extractos da "Criação" de Haydn.
A sinfonia é composta por 4 andamentos. O primeiro andamento (Adagio molto—Allegro con brio) começa por uma espécie de introdução muito calma e uma dissonância que se pensa ter sido uma experimentação de Beethoven dado que o voltou a utilizar logo no ano seguinte. Alias esta dissonância que hoje não nos parece nada de transcendente foi suficientemente inovadora para valer a Beethoven uma polémica pessoal com os críticos da época nomeadamente Preindl, Stadler e Weber.
O segundo andamento (Andante cantabile con moto) é um dos andamentos onde se nota em simultaneo a escola de contraponto do seu mestre Albrechtsberger mas em simultâneo uma elegância e uma beleza acima de qualquer escola. Em termos de inovação é também neste andamento que Beethoven nos reserva uma utilização da percursão inovadora e que anuncia a verdadeira revolução que acabou por ocorrer mais tarde.
O terceiro andamento (Menuetto: Allegro molto e vivace) é dos quatro o que mais trouxe em termos de inovação. Na verdade embora guarde a forma do minueto Beethoven faz explodir completamente a forma tradicional desta antiga dança de salão para a transformar em algo completamente novo. Nas palavras de J. W Davison´s Beethove terá aqui dado "Um Salto para um mundo novo".
Finalmente o quarto andamento (Adagio—Allegro molto e vivace)embora seja caracterizado por Berlioz na sau análise das nove sinfonias de Beethoven como "Uma brincadeira infantil e nada beethoviana".
Oiçam aqui esta sinfonia dirigida por Herbert von Karajan.
Em resumo embora seja uma composição que no seu conjunto seja vista como uma sinfonia na mais pura tradição Mozartiana e Haydiana contém suficiente inovação e qualidade para ser uma obra prima profundamente original.
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