domingo, 11 de janeiro de 2009

Haydn - A consolidação da forma sinfónica clássica

Depois das primeiras nove sinfonias Haydn aos poucos irá consolidar a forma sinfónica clássica. E neste caso a palavra clássica deve ser mesmo tomada pelo seu significado literal isto é a forma de sinfonia característica do período clássico, isto é:

Um primeiro andamento em forma de Sonata tipicamente um Allegro, um segundo andamento calmo próprio à introspecção - Um andante, um terceiro andamento na forma de um minueto estilizado e finalmente um ultimo andamento conclusivo tipicamente um novo Allegro.

Embora seja relativamente dificil definir fronteiras fixas até porque esta conceptualização que estamos aqui a fazer é obviamente concretizada "à posteriori". É muito pouco provável que Haydn tivesse noção do qualquer percurso criativo que estava a percorrer. Esta sistematização serve assim apenas para podermos ter uma orientação no incrível número das 104 sinfonias compostas por Haydn. Este segundo período leva-nos assim até 1765/1766. Para tornar as coisas mais interessantes saliente-se que o número das sinfonias é cronológico de publicação não de composição. Por esta razão por exemplo a Sinfonia nº 72 que pertence do ponto de vista lógico a este período apenas foi publicada muito mais tarde (cerca de 1780) pelo que temos ainda de ter em atenção esse ponto.

Se as sinfonias 6 a 8 (Le Matin, Le Midi, Le Soir) são representativas do primeiro período de que falámos aqui neste período de consolidação teremos de falar de alguns tipos diferentes de Sinfonias.

Sem nenhuma ordem em particular começamos por falar de sinfonias que incluem partes ou conceitos de composições de origem religiosa na sua concepção. Tome-se por exemplo a Sinfonia nº 30 (também conhecida como Aleluia) composta em 1765 e que inclui uma melodia Gregoriana com o mesmo nome.

Neste período de consolidação existem também algumas obras na forma de "sonata de igreja" que começam por um andamento lento têm depois um presto um minueto como terceiro andamento terminando num presto. Destas Sinfonias a mais conhecida é talvez a Sinfonia nº 22 de que podem ouvir o segundo andamento aqui. Esta sinfonia também é conhecida como "O Filósofo" devido ao seu primeiro andamento muito introspectivo.

Neste período de consolidação convirá também notar algumas sinfonias que inovaram ao introduzir temas populares de origem eslava e cigana na melodia de que é exemplo a sinfonia nº28.

São também características deste período as chamadas "Sinfonias de Caça" da qual a nº 31 é a mais popular e de que podem ouvir aqui o primeiro andamento Allegro. É curioso a este respeito notar que neste período as obras de Haydn eram realizadas para serem interpretadas na corte do seu patrono o príncipe Nikolaus Esterházy que embora apreciasse imenso a música tinha meios limitados. A Orquestra à disposição de Haydn sofria desse problema sendo muitas vezes as peças compostas para satisfazer os músicos mais dotados ou mesmo para festejar a chegada de um como foi aparentemente o caso desta Sinfonia chamada também "Sinal de Corneta" que teria sido composta para festejar o ingresso de Franz Stamitz and Joseph Dietzl, excelentes interpretes de Corneta.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (Parte IV)

Esta é a quarta parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.

As três primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte) e aqui (terceira parte).

Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould
High Fidelity, Fevereiro 1974.
(Quarta Parte)


g.g.: E tem noção que está a definir e a defender um tipo de censura que contradiz toda a tradição pós-renascentista do pensamento Ocidental ?

G.G.: Claro. É a tradição pós-renascentista que está a levar o mundo Ocidental à beira da destruição. Sabe este gosto particularmente esquisito da liberdade de movimento, liberdade de expressão e por aí adiante é um fenómeno puramente Ocidental. Faz parte da noção Ocidental que é possível separar a palavra e a acção.

g.g. : O sindroma paus-e-pedras ?

G.G.: Precisamente. Existem provas que - a propósito McLuhan fala disto na Galáxia Guttenberg - que povos pré-literados ou minimamente literados estão muito menos dispostos a fazer essa distinção.

g.g.: Suponho que também existe a noção bíblica que desejar o mal é realizar o mal.

G.G.: Exactamente. Apenas as culturas que, por acidente ou boa gestão, ultrapassaram a Renascença é que vêm na arte a ameaça que ela verdadeiramente representa.

g.g.: Posso assumir que a União das Républicas Socialistas Soviéticas está dentro desses critérios?

Não esquecer que este artigo é de 1974 e que estávamos nesta altura em plena Guerra Fria.

G.G.: Absolutamente. Os Soviéticos são um pouco rudes no que diz respeito ao método, admito-o, mas as suas preocupações são absolutamente justificadas.

g.g.: E então as suas próprias preocupações? Será que alguma das suas actividades violou essas restrições e nos seus próprios termos "ameçou" a sociedade ?

G.G.: Sim.

g.g.: Quer falar sobre isso ?

G.G.: Não especialmente.

g.g. : Nem mesmo por um instante? Por exemplo o que diz de ter fornecido música para o Slaughterhouse Five ?

Filme de ficção cientifica de 1972. Glenn Gould tocou para esse filme várias peças de Bach (Variações Goldberg nº 18 e 25 -- BWV 988, Concerto de Brandenburg nº 4 - 3º andamento BWV 1049, Concerto No 3 para cravo 1º andamento BWV 1054 , Concerto nº 5 para Cravo 5º andamento BWV 1056)

G.G.: E então?

g.g.: Bem pelo menos pelos standards soviéticos o filme de Mr. Vonnegut's é provavelmente uma peça socialmente destrutiva, não acha?

G.G.: Tenho receio que tenha razão. Lembro-me mesmo de uma jovem senhora em Leninegrado uma vez me dizer "Dostoyevsky - apesar de ser um grande escritor era infelizmente pessimista".

g.g.: E pessimismo combinado com a valorização do prazer puro é a marca de Slaughterhouse certo?

G.G.: Sim mas eram as propriedades hedonisticas mais do que as pessimistas que me deram muitas noites sem sono.

g.g.: Então não aprovou o filme?

G.G.: Admirei o seu saber-fazer extravagante.

g.g.: Não é a mesma coisa que gostar.

G.G.: Não , não é.

g.g.: posso então assumir que mesmo um idealista tem o seu preço?

G.G.: Prefiro dizer que mesmo um idealista por perceber mal as intenções de um script de cinema.

g.g.: Teria preferido então um Billy Pilgrim sem compromissos ?

Billy Pilgrim é o personagem principal de Slaughterhouse

G.G.: Sim teria preferido algumas características redentoras na sua personagem.

g.g.: Então não concorda com a teoria arte-como-pura-técnica de Stravinsky por exemplo?

G.G.; Claro que não . Essa é provavelmente literalmente a ultima coisa que a arte é.

g.g.: E então quanto à teoria arte-como-arquétipo-de-violência ?

G.G.: Não acredito em arquétipos. São simples brinquedos nas mentes que resistem à capacidade de aperfeiçoamento do homem. Para além disso se está á procura de arquétipos de violença então a engenharia genética por exemplo é uma aposta melhor.

g.g: E quanto à arte-como-experiência-transcendente ?

G.G.: Das três que citou é única que merece que se fale dela.

g.g.: Tem então uma teoria sua?

G.G.: Sim, mas não vai gostar dela.

g.g.: Estou preparado.

G.G.: Bem acho que a arte deveria ter a oportunidade para estar fora de fase. Penso que devemos aceitar que a arte não é inevitavelmente benigna, que a arte é potencialmente destrutiva. Deveríamos analisar as áreas onde tende a fazer menos mal, usá-las como guia e incorporar na arte um componente que lhe permita evitar a sua própria obsolescência.

g.g: Hmm.

G.G.: Porque, sabe, a posição - ou posições - presente da arte, algumas das quais enumerou têm alguma analogia com o movimento "destruam a bomba" de venerada memória.

g.g: Certamente não se opõe a movimentos desse tipo?

G.G.: Não, mas dado que não vi nenhum movimento "abaixo a criança que tira as asas a uma libelinha" também não me posso juntar ao movimento "abaixo a bomba". Está a ver? O mundo Ocidental está cheio de noções de qualificação. A ameaça de uma destruição nuclear enche essa qualificação. A perda de uma libelinha não. Enquanto estes dois fenómenos não forem reconhecidos como um único indivisível enquanto a agressão física e verbal forem apenas vistas como uma faceta da competição enquanto cada decisão não possa ser equacionada para a sua correlação moral, continuarei a ouvir a Filarmónica de Berlim por detrás de uma divisória em vidro.

g.g.: então não espera ver o seu desejo de morte para a arte cumprido durante a sua vida?

G.G.:Não, não poderia viver sem a Quinta Sinfonia de Sibelius.

Fim da Quarta Parte.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Recomendações de Música Clássica ao Vivo

Este post também é publicado no blog Folhas Pautadas.

Começamos a nossa visita ao país musical ao vivo pelo sul, pela cidade de Faro onde o Quarteto Lacerda vai interpretar a integral dos Quartetos de Cordas de Joseph Haydn por ocasião do bi-centenário da morte do compositor. O concerto terá lugar na Sexta-Feira dia 9 de Janeiro às 21:30 no Teatro Municipal de Faro.

Em Palmela no Auditório Municipal de Pinhal Novo no Sábado dia 10 às 21:30 teremos um concerto pelo Trio de Clarinetes de Palmela (Fernando Pernas, João Quítalo e Mário Cabica) . A entrada é livre.

Agora já em Lisboa, não costumamos referir o que se passa na Gulbenkian não porque não tenha qualidade (obviamente é sempre muito bom) mas porque sinceramente não precisam da nossa modesta promoção. Abre-se aqui a excepção para a Orquestra de Câmara de Basileia e Marijana Mijanovic que estarão no Auditório da Fundação no dia 11 às 19h. Serão interpretadas obras de António Vivaldi e Georg Friederich Händel. Na próxima semana (Terça-Feira 19h) no auditório 2 não deixem também de ir ver jovens músicos portugueses neste momento a estudar em Zurique num recital que promete (Oboé, Fagote e Piano).

Ainda na zona de Lisboa mais precisamente no Museu Condes de Castro Guimarães em Cascais o Coro Vox Maris dará no dia 10 de Janeiro às 17h um concerto. Continuando com coros e não muito longe no Colégio dos Maristas de Carcavelos teremos o "Encontro de Coros - 20º Aniversário do Coral Infantil de Carcavelos" no mesmo dia (Sábado 10) mas às 16h. Estarão presentes o Coral Infantil de Carcavelos, Coral Infantil Bragantino (Bragança), Coral Infanto-Juvenil de Torres Novas, Coro Vozes do Mar da ESSA e Pequenos Cantores de Coimbra

Em Santarém teremos a Orquestra do Algarve dirigida por Laurent Wagner no Teatro Sá da Bandeira no Domingo às 17h num concerto intitulado "Música de filmes". A entrada é livre condicionada à lotação da sala.

Ainda em Santarém e também no dia 10 teremos às 21:30 na Igreja da Graça o Coro Gregoriano de Lisboa, informação do blog Belogue de Notas.

No Sábado dia 10 de Janeiro às 21:30 a Orquestra Clássica do Centro dará no Cine-Teatro Messias (Lugar da Mealhada) um "Concerto de Ano Novo" em que serão interpretadas Valsas, Mazurcas, Polcas e Danças de Strauss, Offenbach e Brahms.

A Sociedade Filarmónica de Crestuma estará no Auditório Municipal de Gaia (AMG) na Sexta-Feira dia 9 de Janeiro pelas 21:45 num "Concerto de São Gonçalo" sendo dirigido pelo Maestro José Monteiro.

A Orquestra Nacional do Porto interpretará um concerto intitulado "Novo Mundo" na Casa da Música do Porto dirigida por Christoph König. Será na Sexta-Feira às 21h num programa que incluirá obras de Edgar Varèse, George Gershwin, György Ligeti, Heitor Villa-Lobos e Antonín Dvorák.

No Theatro Circo de Braga a Orquestra da Universidade do Minho interpretará a 5ª Sinfonia de Beethoven . Será no Sábado às 21:30. Na primeira parte o pianista Luís Pipa interpretará o 4º Concerto para piano e orquestra enquanto Ângelo Martingo interpretará a Fantasia Coral para piano, coro e orquestra. A Orquestra será dirigida por Vítor Matos.

Finalmente integrado no "Fan - Festival de Ano Novo 2008/2009" teremos em Bragança no Teatro Municipal de Bragança a ópera "Amor de Perdição" de João Arroyo no Sábado dia 10 de Janeiro às 21:30. Participa o Coro do Centro de Estudos em Ópera e Teatro Musical da Universidade de Aveiro (CEOTM-UA), a Orquestra Orquestra Sinfónica da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Instituto Politécnico do Porto (ESMAE), e o Coro do Centro de Estudos em Ópera e Teatro Musical da Universidade de Aveiro. A ópera é baseada no romance homónimo de Camilo de Castelo Branco. A direcção artística é de António Salgado e a direcção musical de António Saiote. Encenação de Marcos Barbosa.

Tchaikovsky - Bailados - Quebra Nozes

O Quebra de Nozes (Op. 71) é o terceiro e ultimo dos bailados compostos por Tchaikovsky tendo sido composto entre 1891 e 1892 sendo também uma das ultimas obras publicadas em vida do compositor. Da Bela Adormecida, o segundo bailado

O bailado foi composto por encomenda de Ivan Vsevolozhsky. Contrariamente ao bailado Bela Adormecida de que falamos aqui Tchaikovsky não estava especialmente contente com a história (uma

A estreia do Bailado teve lugar numa dupla estreia em conjunto com a ultima ópera do compositor Iolanta a 18 de Dezembro de 1892. A estreia foi um sucesso relativo mas tal como para os restantes bailados Tchaikovsky nunca pensou no sucesso que estes se veriam a revelar.

Trata-se de um ballet em dois actos baseado em L’Histoire d’un Casse Noisette de Alexandre Dumas Pai que por sua vez é uma adaptação de um conto de Hoffmann. A coreografia inicial é de Petitpas mas foi terminado pelo seu assistente Lev Ivanov devido a doença.

Oiçam aqui uma das minhas valsas preferidas, a valsa das flores, que faz parte do segundo acto do ballet.

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