sábado, 20 de julho de 2013

As Valsas Vienenses de Johann Strauss II

Incluímos na nossa lista de 100 Obras as valsas vienenses de Johann Strauss. Fizemo-lo com perfeito conhecimento de que alguns amantes de música clássica mais eruditos acharão certamente esta escolha absurda. Relembro que o objectivo desta lista é ser um ponto de inicio e desse ponto de vista há poucas obras que para mim mais transmitem alegria e vida.

Tinhamos falado um pouco do compositor Johann Strauss II quando escrevemos uma curta biografia e nessa altura listamos algumas das suas valsas mais conhecidas. Hoje iremos falar-vos em maior detalhe de algumas destas Valsas tentando também explicar-vos o contexto do género.

Em primeiro lugar quanto à origem da Valsa devo dizer-vos que tal como muitas das dansas hoje vistas como aristocráticas também a Valsa teve origem nos bailes populares da Baviera e do Tirol. A sua introdução nos bailes da aristocracia e da corte foi no inicio tumultuosa essencialmente pela proximidade fisica que esta dansa implica, além do enebriante ritmo considerado diabólico por alguns. A propósito do andamento de uma forma geral o mesmo foi-se tornando mais rápido com o passar dos anos. Assim por exemplo as valsas de Johann Strauss I (o pai) tendem a ser menos rápidas que as de Johann Strauss II (o filho mais velho - sim há mais ... ).

Convém ainda referir que a partir do momento em que se tornou conhecida a partir dos salões austriacos a Valsa ganhou adeptos em todo o mundo tendo conhecido interpretações locais que por vezes são conjugações muito interessantes do folclore local com a forma da valsa. Dessas formas talvez a mais conhecida e uma das mais interessantes porque de certa forma é um retorno à expressão popular é a Valse Musette de que deixo aqui um exemplo.



No que diz respeito as Valsas que imortalizaram Johann Strauss II vamos seguir uma ordem cronológica começando por aquela que é porventura a mais conhecida de todas - O Danúbio Azul. Curiosamente foi estreada com uma versão coral com uma letra bastante satirica - a Austria tinha acabado de perder a guerra com a Prussia. Não foi essa no entanto a letra que chegou até nós nem aquela que tornou esta obra um hino não oficial da cidade de Viena ... Note-se que como todas as valsas que Strauss compôs após 1860 (esta obra foi composta em 1866 e estreada a 15 de Fevereiro de 1867) esta obra é muito mais do que uma simples dança, é uma verdadeira obra para concerto como atestam uma introdução e uma coda longas e elaboradas e uma orquestração rica, cheia de detalhes interessantes. Pode dancar-se? Sim claro que pode e não deixa de ser uma valsa mas é muito mais do que a sua aparência. Num concerto de beneficiencia alguém aproxima-se do maestro e diz-lhe algumas palavras ao ouvido. A música pára e quando recomeça é o Danubio Azul que se ouve. Johann Strauss II tinha falecido estavamos então a 3 de Junho de 1899 e esta obra era a embaixadora da cidade e da nação austriaca, um verdadeiro hino não oficial. Deixem-me então mostrar-vos esta valsa primeiro na versão coral:



Possivelmente muito próximo daquilo que foi interpretado na estreia e que foi recebido de forma pouco entusiasta já que foi após a estreia da obra em Paris (na sua versão orquestral) que o fogo se espalhou. Claro que para a versão orquestral não existe dúvida possível sobre qual a orquestra e a ocasião que devemos partilhar convosco. Claro que é o Concerto de Ano Novo sendo que por tradição esta obra é a altura em que a Orquestra deseja a todos os presentes um Bom Ano . Aqui fica a interpretação de 2011.



A propósito desta valsa é totalmente verdadeira a "anedota" que refere que a filha de Strauss pediu um autografo ao compositor alemão Brahms este escreveu os primeiros compassos do Danubio Azul com a menção adicional: "Infelizmente não composto por Brahms".

A segunda valsa de que vos queria falar foi composta quase imediatamente após o Danubio Azul, Künsterleben é bastante peculiar porque embora mantenha alguma da alegria característica deste tipo de dança não deixa de ter um tom quase melancólico não só pela introdução num tom menor mas também pela calma transmitida pelos vários episódios. A coda uma das mais longas de Strauss é também uma das mais representativas do grande talento do compositor enquanto orquestrador.



Neste conjunto de valsas é obrigatório falar-vos de Vienese Blut (Sangue de Viena) outro dos quase hinos oficiais da capital austríaca. Esta valsa interpretada pela primeira vez a 22 de Abril de 1873 é muitas vezes relacionada com o inicio da ligação de Strauss com a Filarmónica de Viena. Convém notar que até essa data esta prestigiosa orquestra se recusava a interpretar as valsas de Strauss por as considerar música menor. Conforme poderão constatar esta obra contém uma das passagens mais conhecidas e mais atribuídas às valsas mas que muitas vezes pensamos fazer parte de outras Valsas.

A valsa diz-se captura o espírito cintilante de Viena não deixa de ter também momentos imperiais, grandiosos adequados à dedicatória a um casamento imperial.



Por fim não poderíamos deixar de destacar a Valsa do Imperador. Composta em 1888 e estreada a 21 de Outubro de 1889 originalmente chamada de "mão na mão" já que era destinada ao brinde ao Imperador austríaco por ocasião do seu aniversário. No entanto a valsa acabou por adoptar o nome Kaiser Waltz ou Valsa do imperador já que foi utilizada em Berlim para homenagear a amizade entre a Áustria e a Alemanha e as suas coroas; o nome Kaiser permitindo a referência mutua aos dois monarcas.

Do ponto de vista musical esta é uma das ultimas valsas de Strauss claramente mais destinada às salas de concerto do que aos salões de dança.

domingo, 30 de junho de 2013

Rir num concerto de música clássica

A pergunta colocada pelo texto de apresentação do concerto "Clássicos são os trapos" é precisamente essa. E se pudéssemos rir num concerto de música clássica ? Pois não sei logo vos direi. Como já vos mostrei aqui por várias vezes é perfeitamente possível juntar humor e música clássica. Aliás bom humor e boa música clássica. Veremos ... Daqui a pouco, às 21h no Teatro da Malaposta em Odivelas.

Cesar Franck - Sonata para Violino e Piano

A semana passada como sabem os leitores mais atentos pude ouvir de novo esta sonata interpretada por dois jovens músicos, numa excelente interpretação aliás. Esta obra é uma das minhas preferidas e parece por isso estranho que nunca tenha na verdade falado detalhadamente acerca dela. Hoje é o dia até porque fazendo parte da minha lista das 100 Obras chegamos quase a esse ponto (a Traviatta de Verdi seria primeiro mas hoje apetece-me falar desta belíssima sonata).

Foi composta em 1886 e contrariamente ao que por vezes se diz não foi composta especificamente para Ysaye e muito menos para o seu casamento. É verdade que foi dedicada a esse fabuloso violinista e compositor, é verdade que foi oferecida como presente de casamento e é ainda verdade que a primeira interpretação não pública teve lugar na véspera do casamento de Ysaye. O que se passou na verdade foi que Cesar Franck não tinha um destinatário especifico para a sonata. Foi a pianista Marie Lontine amiga de ambos que sugeriu a dedicatória. O casamento e oferta surgiu quase como por acaso. Este facto está relativamente bem documentado com a carta de resposta de Cesar Franck ao pedido de Lontine (em inglês aqui porque a fonte que consultei para escrever este texto é inglesa)

"You are asking me, dear Madame, to dedicate the sonata to Ysaÿe. I will do so with great pleasure, not having promised it yet to anybody else, and I will be very happy to give it under the advocacy of such an artist"

O casamento teve lugar a 26 de Setembro sendo a primeira interpretação publica da Sonata a 16 de Dezembro desse ano em Bruxelas num recital composto exclusivamente com obras de César Franck. Um longo recital - conta a história que a sonata esteve quase para não ser interpretada dado o facto de estar já a faltar a luz natural e os responsáveis do local (Musée Moderne de Peinture) não autorizarem nenhuma forma de iluminação não natural. Os interpretes foram nem mais nem menos que o próprio Ysaye e a pianista Marie Lontine. Ysaye nunca mais deixou de interpretar esta sonata sendo o grande responsável pelo facto da mesma fazer hoje parte do reportório de violino.

Quanto à sonata propriamente dita é claramente típica do período romântico e em particular da escola francesa. Aliás em muitos pontos a obra é uma espécie de resposta cultural franco-belga ao domínio germânico e à humilhante derrota militar de Sadowa em 1871. Fortemente inspirada em Liszt no que diz respeito à forma cíclica os 4 andamentos a sonata começa com um Allegretto ben Moderato totalmente poético com várias mudanças de andamento que contribuem para uma verdadeira montanha russa de sentimentos opostos e que termina num misterioso final. escolhemos para vos mostrar esta obra um representante da escola franco-belga de violino por razões óbvias: Christian Ferras ao violino com Pierre Barbizet no piano.



O segundo andamento (Allegro) é muitas vezes visto como o inicio verdadeiro da obra sendo o primeiro andamento então visto como uma introdução particularmente longa. de certa forma do ponto de vista formal esta análise é reforçada por este andamento ser na verdade uma forma sonata mais convencional - como é usual na forma sonata do período romântico ao invés do primeiro andamento. No que me  diz respeito não concordo muito com essa análise dado que a saída de uma forma de sonata tradicional foi explicitamente desenhada por Franck sendo que o primeiro andamento faz muito mais do que apenas "introduzir". Este segundo andamento é absolutamente frenético sem tanta variação de andamento como o primeiro.




Depois do energético segundo andamento o terceiro andamento marcado como recitativo - fantasia é um andamento lento que recupera a forma do concerto barroco e clássico (andamento rápido - lento - rápido). Um repouso merecido e necessário tanto para o executante como para o ouvinte que precisa de fôlego espiritual. Uma espécie de Lied em três partes




Por fim no quarto andamento marcado como um Allegreto poco mosso é uma espécie de Rondo aproveitando material dos anteriores andamentos numa perfeita forma cíclica que dá unidade à obra. Dizemos uma espécie de Rondo porque na verdade é mais uma forma livre do que propriamente um Rondo mas ... É esta forma livre inovadora e cujo único objectivo é exactamente a sensação de unidade e de resolução que transmite que faz desta obra uma das minhas preferidas.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Guilhermina Suggia nasceu há 128 anos !


A violoncelista Guilhermina Suggia nasceu há 128 anos. Certamente a melhor violoncelista portuguesa de sempre e um dos melhores instrumentistas portugueses de sempre. Como sempre neste blog celebramos com música este aniversário.

Mas antes deixem-me recomende que leiam o conjunto de posts que escrevemos com uma biografia da talentosa violoncelista.

Guilhermina Suggia (1885-1950)


Para quem não queira ler a biografia aqui fica uma gravação de 1927 de Kol Nidrei de Max Bruch.


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