sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Os insultos e a música clássica

Então acham que na música clássica apenas existem "gentleman" e que o mais grave que um compositor pode dizer de um outro será : "Aquela dissonância pareceu-me um pouco demais" ? Pensem duas vezes ... A arte do insulto tem um refinamento especial ... Escolhemos para tema de hoje uma lista de 21 insultos (dos melhores) compilados pela ClassicFM que comentamos e enriquecemos com links para as músicas ... e um insulto todo nosso!  Uma forma para começarem o fim de semana com uma boa gargalhada!


  1. "Ouvir a 5ª Sinfonia de Vaughan Williams é como observar uma vaca durante 45 minutos" Maldizente: Aaron Compland. Bem temos primeiro de assumir que observar uma vaca durante 45 minutos é aborrecido (o que semeia desde já alguma discordia) para verdadeiramente considerar isto um insulto. Podem julgar sem preconceitos através de uma interpretação recente nos Proms pela Orquestra da Escócia dirigida por Andrew Manze. 
  2. "Gosto da sua ópera. Penso que a vou transformar em música" . Maldizente : Beethoven - O site não referia o alvo da ira do compositor pelo que este insulto perde toda a credibilidade.
  3. "Que bom que isto não seja música". Maldizente: Rossini a propósito da Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Meu caro amigo Rossini, tenha a santa paciência mas essa obra está na nossa lista das 100 melhores músicas clássicas e por isso da próxima vez escolha outro alvo, ok? 
  4. "Ele era uma gárgula de seis pés e meio". Maldizente : Stravinsky a propósito de Rachmaninoff . Bem aqui passamos claramente ao insulto pessoal. Pode-se argumentar em favor de Stravinsky que possivelmente seria verdade ou que na verdade Stravinsky queria apenas referir o carácter carrancudo de Rachmaninoff.
  5. "Tudo o que precisam para compor como ele é uma grande quantidade de tinta" . Maldizente: Stravisnsky de novo agora a propósito de Messiaen. Stravinsky está até agora no top dos insultos com duas magnificas afirmações. Desta vez não podemos deixar de referir uma certa simpatia por esta "boutade".
  6. "É a mais insípida e básica paródia do que deve ser a música" Maldizente: Tchaikovsky a propósito de Boris Godunov de Mussorgsky. Bem compreendemos que três horas e meia possam ser difíceis de suportar ... mas nós até gostamos por isso deixamos ao vosso critério numa interpretação dirigida pelo já saudoso Abbado em 1998. 
  7. "É lindo e aborrecido. Muitas peças acabam muito antes do fim". Maldizente: Stravinsky que acaba assim de completar um hattrick. O compositor russo referia-se aqui a obra Theodora de Handel. De novo talvez apenas um problema de paciência, mais de 3 horas e vinte podem ser efectivamente demais ... 
  8. "O equivalente musical da estação de S. Pancras". Maldizente: Sir Thomas Beecham a propósito de Elgar. No domínio portanto do insulto pessoal temos de começar por explicar a frase. Em primeiro lugar a expressão no site da ClassicFM não esclarece que foi proferida a propósito da 1ª Sinfonia de Elgar. O Maestro Thomas Beecham estava assim a referir que a mesma obra seria excessivamente barulhenta ou incongruente do ponto de vista sonoro (como uma estação onde confluem sons dispares).
  9. "Wagner tem momentos bonitos mas péssimos quartos de hora" . Maldizente : Rossini a propósito de Wagner. Bom segunda aparição de Rossini nesta lista. Sendo uma critica genérica desta vez não iremos contradizer ... 
  10. "Uma banheira de carne de porco e cerveja" . Maldizente : Berlioz a propósito de Handel. Vence até agora de forma destacada o prémio da imagem mais desagradável. Sendo como a anterior uma afirmação sem alvo concreto perde um pouco da sua relevância. Fraquito :-).
  11. "O público esperava o oceano, algo grande, colossal, Ao invés foi-lhes servido uma chávena de água agitada" . Maldizente: Louis Schneider a propósito de La Mer de Debussy. Bom sendo um critico teremos de dar um desconto mas esta afirmação ganha até agora o prémio da metáfora mais criativa. 
  12. "Ele gosta do que não está polido, do que é inacabado, do que é feio". Maldizente: Tchaikovsky a propósito de Mussorgsky. Segunda aparição de Tchaikovsky nesta lista repetindo o alvo ... Bah ... tinha mais jeito para a música do que para o insulto este Tchaikovsky.
  13. "Um compositor para uma mão direita" . Maldizente: Wagner a propósito de Chopin. Bom este insulto carece de explicação para o comum dos mortais ganhando por isso até agora o prémio da exclusividade. Pensamos que este comentário se dirige a mítica incapacidade de Chopin para pensar em outra coisa que não fosse na melodia - num piano normalmente a função da mão direita. Chamando a atenção portanto à nulidade da harmonia (num piano a função da mão esquerda) e da orquestração. 
  14. "Dá-me a impressão de ser uma criança mimada" . Maldizente : Clara Schumann a propósito de Liszt. 
  15. "Todos os últimos andamentos de Bach são como uma máquina de costura". Maldizente : Bax a propósito de Bach.
  16. "Que bastardo sem talento" . Maldizente : Tchaikovsky a propósito de Brahms.
  17. "Handel é da quarta divisão. Não é sequer interessante". Maldizente : Tchaikovsky a propósito de Handel. 
  18. "Se tivesse feito munições durante a guerra teria sido melhor para a música" . Maldizente: St. Saens a propósito de Ravel.
  19. "Gostei muito da ópera. De tudo menos da música" . Maldizente: Britten a propósito da ópera de Stravinsky The Rake´s progress.
  20. "Faria melhor dedicar-se a recolher neve do que a  escrevinhar música" Maldizente: Richard Strauss a propósito de Schoenberg
  21. "Bach nas notas erradas" Maldizente: Prokofiev a propósito de Stravinsky.
Como prometido o 22º insulto (fora do artigo original no qual se baseia este post) e o nosso preferido porque se dirige ao próprio é do grande Johann Sebastian Bach. Dizia ele que "se eu decidir ser idiota serei-o com o meu próprio acorde" ou seja por vontade própria e à minha maneira. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A música (clássica) é para todos

Na timeline de uma amiga no Facebook pude ver e ouvir  recentemente um video de uma pessoa de idade a tocar uma piano na rua de uma cidade. Interpretava uma música de sua autoria dizia-se; daquele piano eram mais que notas que saiam, saía o reflexo de uma alma sofrida certamente mas uma alma que se queria também dar a todos.

Aqui fica o video "original"  (o que despertou a vontade de escrever esta história).

Não pude obviamente deixar de tentar descobrir mais e felizmente nos comentários dos vídeos encontrei a informação que necessitava. A pianista e compositora chama-se Natalie Trayling e a cidade é Melbourne.  Neste artigo poderão ler a história completa da sua dramática vida. Mãe de quatro filhos dos quais dois faleceram ainda jovens, divorciada do marido acabou por viver algumas temporadas na rua. Vive hoje num quarto de um hotel desde 2004 onde toca regularmente para os hóspedes.

Foi ideia do seu ex-marido comprar-lhe o piano com que a ouvimos tocar no primeiro vídeo. Dizia ele que seria melhor para ela tocar para mais pessoas. E nós concordamos e subscrevemos inteiramente as suas palavras quando diz:

"As crianças vêm ter comigo e pessoas de todos os extractos sociais e formas de vida. Amo estar na rua e sentir que eles devem ouvir a minha música. O que eu sinto quando toco e o que sinto quando estou no meio deles faz-me sentir bem. É algo que não teria numa sala de concertos porque apenas algumas pessoas podem ir até lá. Esta música é para todos".

E é mesmo. A música, clássica ou não, é mesmo para todos. Sem limites. E por isso hoje só posso deixar-vos com um outro amador, um qualquer escolhido ao acaso no You Tube. Um das várias centenas que interpreta uma música de que gosto, de que provavelmente muitos de nós gostamos.

Comptine d´un autre été

Porque a música é para todos, de todos para todos, sem fronteiras e sem limites. Sem embalagens, e sem plástico. Sem industria e sem mediação obrigatória. Ali. Nas ruas de Melbourne, nas nossas ruas mas sobretudo nas nossas almas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

De volta à música clássica ... escrita

Bom, faz quase um ano que deixei de escrever neste blog. Uma espécie de sabática motivada não pelo cansaço da música - essa nunca deixou de fazer parte da minha vida - mas porque este blog me lembrava demasiado um tempo a que precisava dar um pouco de distância.

Distância obtida estou de volta para vos continuar a falar da música de que gosto. Porque para todos os recomeços deve existir um símbolo, porque melhor símbolo de distância não haverá certamente, porque tão pouco poderemos encontrar mais perfeita metáfora do reencontro e ainda porque este tema junta duas paixões: a música e a astronomia retomo este blog com um post que vos vai falar do objecto humano mais distante da Terra e o único que homem já fez sair da pequenez do nosso sistema solar: As naves Voyager e em particular o seu disco dourado.

Já por várias vezes vos falei delas (das naves) e muitas vezes (quase tantas) vos mostrei a Gavotte en Rondeau de Bach interpretada por Arthur Grumiaux  mas hoje, naquilo que é um recomeço, creio ser mais oportuno mencionar uma outra escolha, o primeiro andamento da Quinta Sinfonia de Beethoven, apelidada "do destino". Do destino porque diz-se se batesse à porta (o dito) assim bateria. Quando assim se fala claro que estamos a pensar naqueles primeiros compassos ...

Do destino é bom mas terminar como começamos - com amor - é provavelmente ainda melhor. E se muitas vezes falamos destes discos dourados e da sua música nunca vos revelamos que estes discos encerram (pelo menos) uma grande história de amor. Na verdade Carl Sagan responsável pela mensagem apaixonou-se durante a gravação dos mesmos por aquela que viria a ser a sua mulher Ann Druyan. Até à gravação Ann e Carl conheciam-se profissionalmente mas um dia Ann que era a directora criativa do projecto descobre excitada a obra que faltava para os discos. Uma canção chinesa com mais de 2.500 anos chamada "Flowing Stream".

Pois foi ao contar ao telefone a Carl Sagan a descoberta que tinha feito que ambos se aperceberam que ... A história poderia ficar por aqui que já seria uma bela história. Porém facto é que ela está agora imortalizada para além do sistema solar. Na verdade alguns dias depois Carl Sagan tem a ideia de gravar as ondas cerebrais de um ser humano na esperança que daqui a uns milhões de anos, se porventura alguma espécie inteligente vier a tomar posse dos discos, essa mesma espécie consiga reformular os pensamentos a partir dessas mesmas ondas.

Ora o que foi gravado foram as ondas cerebrais de Ann Druyan que meditou durante umas horas sobre a natureza humana. Diz Ann que no entanto no final se permitiu uma mensagem pessoal sobre o significado de estar apaixonada. É ou não é uma linda história de amor - a única que verdadeiramente terá neste momento atravessado tempo e espaço ...

Nas palavras de Ann Druyan "Sempre que estou deprimida penso que eles ainda se deslocam a 35.000 milhas por hora, fora do sistema solar no grande mar infinito do espaço interestelar".

Podem ler a história completa aqui




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes (1913-1980)

faria amanhã 100 anos o poeta brasileiro Vinicius de Moraes. Perguntarão porque razão neste blog sobre música clássica falamos do poeta ou do poetinha como carinhosamente Tom Jobim lhe teria chamado -a alcunha que perduraria para sempre.

É uma questão legitima e que tem uma resposta subjectiva e prepotente. Porque posso e porque para mim Vinicius, Jobim e tantos outros da MPB são tão "clássicos" como os demais que por aqui falamos. Para escolher um poema do Vinicius nem sei por onde começaria.

No fim de semana passado fui ouvir Stacey Kent. Cantora americana de Jazz fanática de Brasil e de Bossa Nova; tal como eu. Cantou algumas canções do Vinicius e do Jobim e logo para começar uma canção com música do parceirinho 100% Tom e letra de Vinicius - Chega de Saudade (numa aula de português nos Estados Unidos de que Stacey falou - que grande atmosfera e como é lindo o português).



(A Stacey Kent para quem não conhece é a rapariga que está de cinzento a seguir aos dois rapazes de verde na imagem inicial). By the way obrigado mana pelo presente ... que grande presente. E que saudades tu sabes de quem ...

Para viver um grande amor, Vinicius deverá saber bem, por nove vezes casado, sagrado cavalheiro. Não basta ser bom sujeito é sempre necessário um crédito na florista. E que tal passarmos a ganhar dinheiro com a poesia eu que já só ando mesmo em boa companhia ...



Mas a felicidade é mesmo uma coisa louca mas delicada de todas as cores e é por ela ser assim que dela devemos tratar com cuidado: tristeza não tem fim, felicidade sim ... ao vivo agora em 1978 dois anos apenas antes da sua morte.



Vinicius está sempre comigo na secretária do meu escritório num poema que tinhas na tua carteira. O amor dizias é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos de outrora vagam no nascimento do dia. E eu me lembro de quando a luz dos olhos teus ...



E oiçam até ao fim Elis Regina em Formosa ... até ao fim do vídeo mas não da canção que Elis não consegue ... porque como diz se fosse só isto não fazia mesmo sentido.

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