quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Joseph Haydn (1732-1809) - Duzentos anos desde a sua morte

Fará em 31 de Maio de 2009 duzentos anos que faleceu Joseph Haydn um dos grandes compositores do período clássico.

Desta forma até esse dia vamos fazer uma pequena retrospectiva deste compositor até essa data, o pai das Sinfonias, o pai dos quartetos de cordas, a figura estruturante do período clássico um exemplo, o gigante no qual Mozart e Beethoven se inspiraram e se basearam.

Para começar esta viagem vamos começar pelas 104 sinfonias. Obviamente é impossível falarmos individualmente de todas de forma que vamos utilizar alguns agrupamentos utilizados pelos especialistas.

Para começar pelo principio vamos iniciar este conjunto de textos precisamente nas primeiras sinfonias. As semelhanças entre as primeiras nove sinfonias são muito mais relevantes do que as diferenças que também existem claro.

Em primeiro lugar nestas nove primeiras sinfonias apenas existem 3 andamentos, contrariamente à forma clássica da sinfonia que viria a tomar forma mais tarde. O primeiro andamento é sempre um Allegro com uma estrutura semelhante a uma forma rudimentar de Sonata (existe por vezes mais do que um segundo tema) , o segundo um Andante e o terceiro um Presto que por vezes assume a forma de rondo.

Estas primeiras nove sinfonias quer na orquestração quer nas dinâmicas são ainda muito próximas do barroco e do ponto de vista cronológico até mais conservadores do que algumas outras obras que Haydn entretanto tinha composto.

Oiçam aqui o primeiro andamento da Sexta Sinfonia e aqui o terceiro andamento dessa mesma sinfonia.

Recomendações de Musica Clássica

Depois do post de ontem em que Glenn Gould manifestava a sua opinião quanto a espectáculos ao vivo estas recomendações servem também de catarse. Este post é também publicado no blog Folhas Pautadas.

Não queremos deixar de neste inicio de ano agradecer aos nossos amigos da Sercultur sem os quais estas recomendações seriam muito mais difíceis de compilar. Sugerimos que não deixem de visitar cultura.sapo.pt para conhecerem outras recomendações de música clássica e outras formas de arte também, claro.

Começamos este post como de costume pelo sul, mais precisamente pelo Algarve onde a Banda Osíris dirigida por Jean-Marc Burfin e tendo como solista Francine Romain (Soprano) interpretarão obras de António Vivaldi , Georges Bizet, J.S. Bach, P. Tchaikovsky,W.A. Mozart, John Williams e Gioachino Rossini a maioria das quais em arranjos de Fábio Gurian.

Estes concertos terão lugar em três datas diferentes:

1 de Janeiro (quinta-feira) 17:30, Teatro de Portimão
3 de Janeiro (Sábado) 21:30, Teatro de Portimão
4 de Janeiro (Domingo) 16:00, Teatro de Portimão

Esta informação foi obtida a partir do site da Orquestra do Algarve. Não consegui pelo publicado perceber qual a relação entre a Banda Osiris e a Orquestra do Algarve ... Nem se é a mesma coisa. Se alguém me puder ajudar ...

Um pouco mais a Norte (Évora) teremos o "Concerto de Ano Novo" pela Orquestra de Cordas do Conservatório Regional de Évora dirigida por Luís Rufo no Teatro Garcia de Resende. Será no Domingo às 18h. Serão interpretadas obras de Haendel, Vivaldi, L. Mozart, Corelli e J. Hook.

Entre os dias 2 e 4 de Janeiro estará no CCB a ópera "La Spinalba Ovvero Il Vecchio Matto" na versão de concerto de Francisco António de Almeida. Sempre às 21h. Os solistas serão Ana Quintans, Joana Seara, João Fernandes, Luís Rodrigues com a Orquestra Os Músicos do Tejo sob a direcção do Maestro Marcos Magalhães.

No Domingo 4 de Janeiro no Salão Nobre do Edifício da Câmara Municipal de Lisboa (Praça do Município) - uma sala lindíssima - temos uma dupla proposta. Em primeiro lugar às 15h um concerto pelos Violinhos dirigidos por Filipa Poejo depois às 17h teremos a Sinfonietta de Lisboa dirigida por Vasco Pearce de Azevedo. A entrada é livre.

Ainda na zona de Lisboa mas precisamente no Colégio dos Maristas de Carcavelos teremos o "Concerto de Ano Novo" com a OCCO e os solistas Paulo Ferreira (tenor) e Liza Veiga (soprano). Serão interpretadas obras de G. Puccini, G. Rossini, J. Strauss, N. Paganini, Fr. Kreisler, J. Offenbach. Será no Domingo às 18h30. A orquestra será dirigida pelo Maestro Nikolay Lalov.

Continuando na zona de Lisboa (Almada para ser preciso) teremos a "Infância de Cristo" de Berlioz pelo Coro Sinfónico Lisboa Cantat e da Orquestra Sinfónica A2M. Será no Domingo às 18h na Academia Almadense. Serão solistas Maria Luísa Freitas (mezzo soprano - Virgem Maria), João Cipriano Martins (tenor - Recitante), Diogo Oliveira (barítono - S. José), Nuno Dias (baixo - Pai de Família). A orquestra será dirigida pelo Maestro Pedro Pinto Figueiredo.

Em Aveiro (Teatro Aveirense) a Orquestra Filarmonia das Beiras dirigida por António Vassalo Lourenço interpretará um "Concerto de Ano Novo" no dia 1 às 18h (daqui a umas horas portanto). Na primeira parte teremos Músicas de Filmes e Musicais da Broadway. A segunda parte será constituída por excertos famosos de operetas e outras peças de Strauss. A entrada é livre. Este concerto repete-se no dia 3 no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria às 21:30. Entrada também livre. Repete também no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha no dia 4 às 16h. Entradas: €7,5.

A Orquestra Sinfónica de Jovens de Santa Maria da Feira estará no Europarque também para um "Concerto de Ano Novo" no Domingo dia 4 pelas 18h. Serão dirigidos pelo Maestro Paulo Martins num programa composto pelas obras de Tchaikovsky "Suite Lago dos Cisnes Op. 20a"; "Suite Quebra Nozes Op. 71a" de que temos estado a falar no nosso blog.

Mais uma orquestra de jovens (com idades entre os 13 e 25 anos) a "Momentum Perpetuum" estará na Casa da Música do Porto também para um concerto de Ano Novo hoje Quinta-feira às 18h. A orquestra será dirigida por Martin André. Entradas: €12. Serão interpretadas obras de Hector Berlioz, Enrique Granados, Richard Wagner, Jean Sibelius, Joaquin Turina e Samuel Barber.

Ainda na Casa da Música do Porto mas no Domingo 4 de Janeiro pelas 18h João Bettencourt da Câmara oferecerá um Recital de Piano com um programa que inclui obras de Beethoven, Brahms e Schumann.

Em Gaia (no Auditório Municipal de Gaia) no dia 3 pelas 21:45 estará a Orquestra Per Cordare e Coro dos Pequenos Cantores de Coimbra também num concerto de "Ano Novo" sobre a direcção do Maestro João Costa.

Em vários pontos do país teremos um recital intitulado "Concerto de Ano Novo - Gala Lírica". Serão interpretadas obras de Mozart, Verdi, Saint Saëns, Puccini, Offenbach, Lehár e Lloyd-Webber. O elenco é composto por Mónica Pais (soprano), Marina Pacheco (soprano), Nádia Fidalgo (mezzo-soprano), Ema Viana (mezzo-soprano), Francisco Reis (tenor), José Corvelo (barítono) acompanhados ao piano por Melissa Fidalgo.

Poderão assistir a este recital nos seguintes locais:

1 de Janeiro: Teatro de Vila Real : 17h
3 de Janeiro: Teatro Municipal de Bragança : 16h
8 de Janeiro: Centro Cultural de Chaves : 21h30

Os preços variam segundo os locais.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Votos de um Excelente 2009 e uma mensagem "curativa"

Sabemos por tudo o que não podemos deixar de ouvir que 2009 não vai ser um ano famoso do ponto de vista económico. Ouvimos também alguns economistas dizer que se trata já de um problema do foro psicológico. Os economistas como os marketeers e os treinadores de futebol estão naquelas categorias profissionais aborrecidas porque todos acham que podem fazer melhor do que eles: os chamados treinadores de bancada.

Se não passa na cabeça de ninguém dizer a um piloto de Boeing "ora agora chega-te para lá que eu acho que conduzo esta coisa melhor do que tu" passa-nos na cabeça achar que todos os anteriores não estão bons da mesma.

Claro que ajuda o facto de entre eles poucas vezes estarem de acordo mesmo sobre simples factos do quotidiano mas isso já é outra história. Para aqui o que interessa é que vamos acreditar que todo este problema, toda a crise é apenas psicológica e é nesse espírito que vos vou tentar dar uma infusão de esperança, com música claro está.

A receita é simples: A Valsa.

Sigam os seguintes passos:
1) Escolham um parceiro com quem dançar (uma vassoura dá claro mas no fim dar um beijinho à dita é sinceramente menos agradável)
2) Escolham a vossa valsa preferida. Qualquer uma serve. Eu recomendo para melhores resultados o Danúbio Azul, A Valsa do Imperador ou a Valsa das Flores.
3) Dancem. Podem voltar ao passo 2 para mudar de valsa se quiserem.
4) Repitam o passo 3 até não poderem mais. Penso que estarão curados (ao fim de duas horas) do cepticismo se tiverem honestamente valsado sem pensar em mais nada (incluindo o facto da vassoura poder ser maior ou mais pequena ou estar a pisar-vos o pé)

Podem voltar a este tratamento sempre que quiserem. Não se conhecem efeitos secundários a não ser um certo estado de euforia. Para os mais novos recomenda-se prudência pelos efeitos de potencial habituação.

Não funciona? Ora bem não é verdade tenho aqui a prova. Pessoas a valsarem em Viena o ano passado com a transmissão do concerto do ano novo.

Para a receita ficar completa aqui ficam os links para as três valsas recomendadas. Dancem em sequência para potenciar o efeito.

Danúbio Azul
Valsa do Imperador
Valsa das Flores

Bom ano de 2009! E já sabem, High Hopes!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (parte I)

Este é mais um post na nossa sequência sobre Glenn Gould. Podem ler o anterior post em que falávamos das suas gravações aqui.

Glenn Gould além da sua actividade enquanto pianista era também um notável escritor. Não só acerca de música chegando mesmo à poesia. Aliás Gould dizia que se não fosse músico seria poeta. Do que escreveu e do que tenho vindo a conhecer ao escrever esta série de posts hoje vou-vos traduzir um artigo interessantíssimo que Gould escreveu para a revista High Fidelity em Fevereiro de 1974. O artigo é bastante longo porém creio que vale a pena ganharem uns minutos do vosso tempo a lerem-no dado que não só ficam a saber muito sobre a forma como Gould pensava, como ainda podem rir um pouco (as perguntas e o diálogo que ele imagina têm por vezes muita piada), como adicionalmente ainda ganham uma forma completamente diferente de percepcionar a arte (para além da música).

Claro que nós, que gostamos de música ao vivo discordamos absolutamente de uma parte da teoria de Gould mas não obstante - como diria Bernstein - Gould é suficientemente interessante e intelectualmente honesto para que decidamos publica-lo :-)

Porque este artigo é muito longo dividimos-lo em várias partes. Esta é a primeira parte. O original em Inglês pode ser lido aqui onde podem encontrar para além deste texto muitos outros documentos interessantes escritos por e sobre Gould, nitidamente um site a visitar para aprofundarem o vosso conhecimento sobre este génio da música. Eu já o fiz e garanto-vos que tenho agora uma ideia completamente diferente sobre ele.

Em alguns pontos deste artigo introduzimos alguns comentários nossos quer para discordar de Gould (desculpem, mas não resistimos) quer para explicar o contexto e tornar o texto compreensível. Estes comentários estão claramente indicados por estarem escritos assim. Por outro lado a tradução que fiz procurou sempre que possível ser fiel ao nível de linguagem utilizado, coloquial por vezes erudito noutras. O artigo original tem essa dicotomia que procuramos manter embora em português não resulte tão bem eventualmente porque não existe esse tipo de tradição na nossa linguagem escrita e certamente também por óbvia falta de talento por parte do tradutor.

Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould - High Fidelity, Fevereiro 1974.

Glenn Gould (como jornalista : g.g.): Sr. Gould Creio que - perdoe-me o facto de estar a ser tão directo - creio que tem a reputação de ser uma "noz dificil de quebrar" no que diz respeito a entrevistas?

GLENN GOULD (como ele próprio : G.G.): Nunca ouvi tal coisa!

g.g.: Bem na verdade é o tipo de rumor que nós jornalistas apanhamos de fontes espalhadas por aí, mas quero assegurar-lhe que estou pronto a retirar qualquer pergunta que considere menos apropriada.

G.G.: Oh, não consigo antever qualquer problema desse tipo.

g.g.: Então para tudo ficar claro desde já, há algum tema que não possamos de todo tratar?

G.G.: Bem certamente não consigo pensar em nenhum tema fora de limites. Música à parte claro.

g.g.: Bem Mr. Gould eu não quero voltar atrás com a minha palavra. Sei que a sua participação nesta entrevista nunca foi estabelecida contratualmente, mas foi firmada com um aperto de mãos.

G.G.: Figurativamente claro está.

g.g.: Claro, e assumi que passaríamos uma grande parte do nosso tempo debatendo assuntos de índole musical.

G.G.: Bem, acha que é essencial? É que sabe a minha visão pessoal de entrevista - e como eventualmente sabe fiz umas quantas - é que a matéria mais relevante, mais inspiracional normalmente provem de áreas não relacionadas com a especialidade do entrevistado.

g.g.: Por exemplo ?

G.G.: Bem por exemplo quando preparei documentários para rádio entrevistei um teólogo sobre tecnologia, um hidrógrafo acerca de William James, um economista acerca de pacifismo e uma dona de casa acerca do mercado de arte.

William James (1842-1910) foi um psicólogo e filósofo americano pioneiro na psicologia da educação, experiências religiosas e misticismo.

g.g.: Mas seguramente também entrevistou músicos acerca de música?

G.G.: Ah sim, claro. Normalmente para os pôr à vontade à frente do microfone. Mas foi muito mais interessante falar com Pablo Casals sobre por exemplo o conceito de Zeitgeist que, claro, não está relacionado com música.

Pablo Casals sabeis quem é certamente. Zeitgeist: O espírito do tempo ou de uma geração. Poderia também ser uma personagem da Marvel Comics ...

g.g.: Sim ia precisamente arriscar esse comentário.

G.G.:Ou Leopold Stokowski acerca da possibilidade de viagens interplanetárias, o que é - penso que concordará - não obstante Stanley Kubrick - uma grande digressão.

Leopold Stokowski (1882-1970) grande maestro conhecido pelo seu espírito dinâmico e grande esforço na obtenção de um som perfeito nas gravações orquestrais. A referência a Kubrick está obviamente relacionada com o filme 2001 - Odisseia no Espaço em que viagens interplanetárias e música ficaram intimamente relacionadas com a cena da nave a acostar ao som de Strauss entre outros ...

g.g.:Bem isto na realidade coloca um problema Mr. Gould, mas deixe-me tentar colocar-lhe a questão de forma mais assertiva. Existe um tema que gostaria particularmente de discutir ?

G.G.: Bom, na realidade não pensei muito nisso, mas assim de repente poderíamos falar da situação política no Labrador ?

Labrador - Estado Federal do Canadá. Não faço ideia do problema que existia na altura, ou sequer se existia problema. Eventualmente a junção com Newfoundland poderia ser discutida na altura.

g.g.: Estou certo que isso poderia produzir um diálogo estimulante, Mr. Gould, mas penso que devemos ter em atenção que High Fidelity é uma revista essencialmente para os Estados Unidos da América.

High Fidelity : Revista impressa entre 1951 e 1989 cobrindo equipamento e assuntos relacionados com música.

G.G.: Sim claro. Nesse caso que tal os direitos aborígenes no Oeste do Alaska?

g.g.:Sim. Não quero certamente ignorar temas tão interessantes quanto esses em termos de audiência porém dado que High Fidelity é essencialmente orientada para uma audiência interessada em música deveríamos pelo menos começar a nossa conversa com um tema relacionado com as artes.

G.G.: Oh, certamente. Que tal então examinarmos a questão dos direitos aborígenes reflectidos nos estudos etno-musicais realizados em Point-Barrow?

g.g: Bem tenho de confessar que esperava uma linha mais convencional por assim dizer, Mr. Gould. Como estou certo que sabe, a questão quase obrigatória que diz respeito à sua carreira é a controvérsia concerto-vs-gravação, e penso que devemos pelo menos tocá-la.

G.G.: Bem não tenho qualquer objecção em repsonder a umas quantas questões sobre esse tema. No que me diz respeito envolve primariamente questões morais mais do que musicais portanto esteja à vontade.

g.g.: É muito simpático da sua parte aceder a essa questão. Vou tentar ser breve então para que possamos cobrir outros assuntos.

G.G.: É justo.

g.g.: Bem foi citado por várias vezes dizendo que o seu envolvimento com a gravação - com os media em geral - representam um envolvimento com o futuro.

G.G.: Está correcto. Até o disse nas páginas deste excelente jornal.

g.g.: Exacto. E disse também que ao invés a sala de concerto, o palco de recital, a casa de ópera representa o passado - um aspecto do seu passado em particular, talvez, mas também o passado da música em geral.

G.G.: É verdade, embora deva admitir que o meu único contacto com uma opera foi através de uma inflamação da traqueia que apanhei quando toquei no velho Festspielhaus em Salzburgo. Como sabe era um edifício bastante ventoso e eu ...

g.g.: Bem talvez possamos discutir a sua saúde num outro momento mais oportuno Mr. Gould mas ocorre-me que - e espero que me desculpe por dizê-lo - existe algo inerentemente egoísta acerca de opiniões deste tipo. Afinal decidiu deixar todas as interpretações em público há quanto tempo - dez anos?

G.G.: Nove anos e onze meses na data deste número precisamente.

g.g.: E admite que a maioria das pessoas que optam por mudanças radicais na sua carreira mantêm a noção de que, embora relutante, o futuro está do lado delas?

G.G.:É encorajador pensar assim, claro, mas tenho de contrariar a utilização do termo "radical". É certo que dei o salto baseado na convicção que dado o estado da arte, uma imersão total nos media representaria um desenvolvimento lógico - e continuo convencido disso. Mas muito francamente muito embora gostemos todos de equacionar formulas "passado-futuro" os principais patrocinadores de tais convicções, as principais motivações dessas mudanças radicais para utilizar o seu termo, estão normalmente relacionadas com uma situação tão prosaica como a resolução do desconforto do presente.

g.g.: Não tenho a certeza de ter apanhado o comboio, Mr. Gould.

G.G.: Bem por exemplo, deixe-me sugerir que a motivação mais forte para a invenção do expectorante tenha sido uma garganta dorida. Claro que depois de inventado o expectorante poderíamos especular o quanto a invenção representaria o futuro e a garganta dorida o passado, mas duvido que nos sentíssemos inclinados a pensar nesses termos enquanto a infecção e a dor estivessem presentes. Não será preciso dizer que a minha inflamação da traqueia em Salzburgo, uma medicação desse tipo ...

g.g.: Desculpe-me Mr. Gould, estou certo que será louvado pelas suas desventuras em Salzburgo mas preciso de ir um pouco além neste ponto. Devo entender então que a sua retirada dos palcos de concerto e subsequente envolvimento com os media foi motivado pelo equivalente musical de uma garganta dorida?

G.G.: Acha isso errado?

g.g.: Bem para ser totalmente franco, acho isso absolutamente narcisista. E para mim é também completamente oposto à sua declaração de que objecções morais estiveram na base da sua decisão.

G.G.: Bem não vejo qualquer contradição - excepto se na sua opinião o desconforto deva ser visto com uma virtude positiva.

g.g: As minhas opiniões não são o objecto desta entrevista Mr. Gould mas para responder à sua questão, o desconforto em si não é o problema. Acredito simplesmente que um artista que mereça esse epíteto deve estar preparado para sacrificar o seu conforto pessoal.

G.G.: Com que fim?

g.g.: No interesse da preservação das grandes tradições da experiência musical e teatral, de manter a nobre responsabilidade do artista em relação à sua audiência.

G.G.: E não lhe parece que uma sensação de desconforto, de não à vontade seria a melhor conselheira tanto para o artista como para a audiência ?

g.g.: Não apenas sinto que o Sr., Mr Gould ou nunca se permitiu saborear ...

G.G.: A gratificação do ego ?

g.g.: Ia dizer o privilégio de comunicar com uma audiência ...

G.G: Numa base de poder ?

g.g.: de um proscênio no qual a sua humanidade está completamente visível, não editada e não adornada.

G.G.: Podia pelo menos ter a vantagem do fraque, talvez?

g.g.: Mr. Gould, penso que não deveríamos deixar que este diálogo degenerasse numa simples brincadeira ociosa. É óbvio que nunca saboreou a alegria de uma relação um-para-um com um ouvinte.

G.G.: Sempre pensei que, do ponto de vista de gestão, uma relação de dois mil e oitecentos para um era o ideal numa sala de concertos.

g.g.: Não quero discutir estatísticas consigo. Tentei colocar candidamente a questão e ...

G.G: então pronto. Tentarei responder com igual candura. Parece-me que se vamos ser alvo de uma guerra de números então vou ter que argumentar pela relação de zero-para-um entre audiência e artista e é aí que a objecção moral entra.

g.g: Receio que não tenha entendido, Mr. Gould. Importa-se de explicar de novo?

G.G.: Penso simplesmente que ao artista deve ser concedido tanto para o seu bem como para o do seu público (deixe-me que lhe diga desde já que não estou nada satisfeito com palavras como público e artista: Não estou de acordo com a hierarquia subjacente a essa terminologia) que lhe deveria ser dado o direito ao anonimato. deveria poder operar em segredo como se não estivesse relacionado ou melhor como se não estivesse consciente das necessidades presumidas do mercado necessidades essas que dada suficiente indiferença por um suficiente número de artistas simplesmente desapareceriam. E tendo desaparecido o artista abandonaria então o seu falso sentido de responsabilidade pública e o seu público prescindiria do seu papel de servil dependência.

g.g.: E atrevo-me a dizer para nunca mais se encontrarem!

G.G.: Não, encontrar-se-ão mas num nível diferente, com muito mais significado do que seria possível num palco.

Fim da primeira parte.
Podem ler a segunda parte aqui .

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