terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

António Fragoso (1897 -1918)

António Fragoso morreu tão jovem que na verdade poderíamos dizer que apenas lhe advinharíamos o enorme talento. Seria no entanto injusto dizê-lo dado que embora  a sua obra seja na verdade diminuta em quantidade não deixa margem para dúvida quanto ao génio imenso que revela.

Lembro-me que a primeira vez que ouvi falar deste compositor foi quando uma das suas obras fez parte do reportório de um concurso de Violino a que assisti no Fundão, ainda vou tentar colocar aqui a peça em questão.

António Fragoso nasceu em Pocariça (Cantanhede) a 17 de Junho de 1897 . Muito cedo o seu gosto pela música se revelou tendo começado com lições de piano aos 8 anos. Aos 16 deu a sua primeira audiência de peças por si compostas e um ano mais tarde com 17 anos ruma a Lisboa onde se inscreve no Conservatório Nacional tendo então aulas entre outros com Luís de Freitas Branco e Tomás Borba (este grande pedagogo será o próximo compositor a ser abordado nesta nossa viagem pelos compositores portugueses do século XX).

Termina o curso do Conservatório um ano mais tarde em 1918 então com 21 anos com a classificação máxima.  Infelizmente nesse mesmo ano a gripe pneumónica ceifa-lhe a vida a 3 de Julho de 1918.

Da obra deste compositor o que vos posso dizer? Bem em primeiro lugar que há uma das suas obras que está na minha lista de obras preferidas: O Nocturno para Orquestra é simplesmente fantástico e chegaria possivelmente para definir a sua genialidade.

Há  no entanto outras obras que vos recomendo que oiçam com atenção. Em particular não deixem de ouvir este belíssimo Nocturno em Ré Bemol Maior que nada fica a dever a Chopin ou a Franck ou Debussy se quisermos uma comparação mais da sua época.

Claro que não poderia deixar de vos falar da Petite Suite que podem ouvir numa soberba interpretação do Miguel Henriques: Petite Suite (Parte 1), Petite Suite (Parte 2), Petite Suite (Parte 3).

Pessoalmente a minha costela francesa leva-me a ter uma grande curiosidade pelos Poemas Saturnianos de que infelizmente não consigo encontrar reproduções na Internet, talvez tenham mais sorte e me possam recomendar uma interpretação?

Para mais informações não deixem de visitar a página da Associação António Fragoso no Facebook e também o seu podcast . A propósito amanhã 8 de Fevereiro de 2011 no São Luís poderão ouvir um pouco de António Fragoso ao vivo (18:45).

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Para os amantes de registos históricos

Conforme provavelmente já sabem o blog "The Rest is Noise" do Alex Ross é uma fantástica fonte de ideias e também de informação. Desta vez a propósito do anuncio do programa da próxima época da Filarmónica de Nova Iorque Alex Ross descreve-nos algumas das coisas que descobriu no Arquivo Digital da respectiva Filarmónica que foi recentemente aberto ao público.

Entre as várias sugestões que Alex Ross nos faz podemos realçar a troca de correspondência com Schostakovich para o convidarem a dirigir a Filarmónica de Nova Iorque num ciclo dedicado a compositores Russos contemporâneos que o compositor declina graciosamente por várias vezes (existe inclusivamente uma nota sobre a intervenção negativa de Stalin no assunto - não são só as Wikileaks que nos revelam dados chocantes) ou ainda agora no campo musical e para os especialistas as partituras completas da Nona de Mahler apontada por Leonard Bernstein ou ainda a Primeira de Mahler desta vez numa partitura utilizada pelo próprio compositor e que Alex Ross crê mesmo ter sido apontada por ele (Mahler). Na partitura de Bernstein encontramos uma nota engraçada na ultima página escrita em Viena em 1985 em que Bernstein nos conta ter tido poucas queixas a fazer na vida sendo que uma delas (a primeira) são lenços mal dobrados acrescentando que essa queixa muito possivelmente também estaria na lista da sua mulher (much missed wife nas palavras de Bernstein).

Não deixem de visitar os arquivos e deliciem-se com os tesouros que por lá encontrarem e se quiserem contem-nos !

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Deolinda - Que parvo que sou

Nas nossas conversas musicais (nem sempre são sobre música clássica dado que ambos gostamos de outras coisas) o meu filho chamou-me a atenção para esta nova canção original cantada nos recentes espectáculos nos Coliseus de Lisboa e do Porto.

Esta gravação da canção Que Parva que eu Sou foi efectuada no Coliseu do Porto conforme diz a Blitz no seu artigo de que transcrevo a letra da canção:

Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "casinha dos pais"
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "vou queixar-me pra quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração "eu já não posso mais!"
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Ora bem, antes de mais deixem-me dizer-vos que acho que este grupo é um daqueles que tem verdadeiramente inovado na música popular portuguesa tanto do ponto de vista musical como no ponto de vista da lírica, normalmente inteligente e de grande qualidade tal como a componente instrumental sempre excelente. Esta canção em particular considero-a mais uma vez extraordinariamente lúcida. Acredito mesmo que a geração de que falam veja a vida desta forma. Porém deixa-me uma enorme vontade de responder e para que não destoe aqui vai uma resposta à desgarrada que podem cantar sobre o mesmo fundo musical. Perdoem desde já os mais novos a utilização da palavra "parvos" foi apenas para manter o mesmo adjectivo, não creio que se trate de "parvoíce" ...

Sois da geração sem remuneração
mas com educação
que parvos que sois
Porque isto está mal e deixais continuar,
não é o azar
que vos impede de mudar,
E deveriam pensar
Que o mundo não pode esperar,
Porque não basta estudar é preciso lutar.

Se não vos agrada a casinha dos pais
Se achais que já tendes tudo, porque não dais aos demais?
Que parvos que sois,
Família e filhos adiais
por causa de bens materiais?
O amor deveria chegar!

E deverias pensar
Que o mundo não pode esperar,
Porque não basta estudar é preciso lutar.

Em vez de aos piores comparar 
Em vez de ver parvoíces (essas sim) na TV
Se já não podeis mais
Que esperais ?
A situação dura mesmo à tempo demais!
Parvos não sois,
Mas tendes de mudar
porque na verdade não basta estudar,
é preciso lutar !

Ah e antes que apontem defeitos nas rimas bem sei que não se deve rimar com tempos verbais mas foi o que se conseguiu hoje com o café da manhã (as rimas vinham no pacote de açúcar no caso de estarem com dúvidas). Por outro lado "lutar" não é para ser tomado sobre a forma da violência, mas antes do não conformismo, sempre pela paz, sempre pela paz que é a melhor (a única diria) forma de mudar.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Milton Babbitt (1916 - 2011)

Como sabem os nossos leitores mais atentos um dos blogs que seguimos com mais atenção é o The Rest is Noise onde ficamos a saber que Milton Babbit faleceu ontem a 29 de Janeiro. Milton Babbit foi um compositor contemporâneo adepto do serialismo e autor de sofisticadas e complexas orquestrações. Babbitt foi professor da Juillard e membro da Academia America de Artes e Letras desde 1965.

As sua composições podem ser divididas em três grande períodos. Do ultimo período escolhemos Concerto Piccolino for Vibraphone. Philomel do segundo período (1964) é outro exemplo relevante (poema de John Hollander).

Quem me conhece sabe que esta não é definitivamente "a minha chávena de chá" mas há um artigo deste compositor editado na High Fidelity de 1958 que vale a pena lerem. Chama-se esse polémico artigo "O Compositor enquanto especialista" embora o editor tenha alterado o título (sem o consentimento ou sequer o conhecimento do autor) para "Que importa se alguém ouve". Mudança que tornou o titulo obviamente muito mais polémico e se não garantiu mais adeptos para a música de Babbitt pelo menos garantiu muito mais leitores para o referido artigo. Em resumo neste artigo defende que o compositor contemporâneo não se deve preocupar com quem ouvirá dado que se o fizer deixará de poder inovar livremente e estará limitado ao que pode ser facilmente apreendido, que resultará possivelmente no igual e por consequência na morte da inovação. É um tema que já abordamos aqui várias vezes e que por isso vai merecer a tradução integral e comentada deste provocador artigo.

Além do artigo de Alex Ross consultamos o Jornal da Juilliard e o dicionário Grove Music Online (sem link porque requere subscrição - sorry).

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