domingo, 15 de janeiro de 2012

Lavoisier

Dizia Lavoisier que na natureza nada se perde tudo se transforma. Neste blog acreditamos que pelo menos nada se deve perder e como tal vamos abrir aqui uma das nossas excepções para falar de música que não é "clássica".

Fomos ontem à noite ouvir na Fábrica da Pólvora (a propósito um local que se recomenda em absoluto) um grupo composto por dois jovens músicos precisamente chamados Lavoisier e precisamente pela razão que apresentamos, o que desde logo nos encantou. Gostamos ainda mais de os ouvir falar da recolha de música popular de Fernando Lopes Graça e a partir daí o nosso coração estava conquistado.

Na verdade a recuperação que estes jovens fazem de temas populares portugueses (de cantos de trabalho e outros) é verdadeiramente notável. Notável não só pela originalidade, pela qualidade vocal e instrumental mas sobretudo (e é o mais importante) pela emoção que conseguem transmitir à audiência. Mesmo a "vulgar" Machadinha (sim é mesmo o que estão a pensar e sim tiveram a "coragem" de a interpretar) ganha uma dimensão diferente que não consigo qualificar: Que nos leva directamente para uma Portugalidade profunda mas sem ser pela porta do passado ou da saudade; é para o futuro que se dirigem.

E é para futuro porque como também nos confessaram bebem (ou comem como referiram) em outras culturas. E fazem-no bem porque ouvi uma versão de uma canção do Milton Nascimento que já ouvi centenas de vezes cantada pela Elis Regina e digo-vos que o que ouvi não ficou nada a dever a essa interpretação.

Como sempre neste blog (ou quase sempre) tem que existir música para ilustrar o que vos digo e por isso neste caso vos proponho uma das minhas preferida da noite: Senhora do Almurtão (da outra infelizmente não encontro gravação mas a versão que ouvi de Vala, Vala, Vala é simplesmente transcendental).

Apontem assim o vosso browser para aqui e oiçam logo a primeira faixa ...

Ainda a propósito destes jovens deixem-me só repetir-vos o que vem escrito no booklet do disco (ainda artesanal infelizmente - infelizmente note-se não pela produção mas porque mereciam ser editados ... ). O que vos vou repetir é o texto de Fernando Lopes Graça

"Porque amamos nós a nossa canção popular e porque entendemos que a devem amar os portugueses?  Em primeiro lugar porque é bela. No entanto forçoso reconhecê-lo, a sua beleza, a sua indiscutível qualidade estética está ainda a bem dizer por descobrir, e não é nos espécimes correntemente tidos e apreciados na cidade como típicos e representativos do nosso folclore que podemos descobrir essa beleza essa qualidade estética".

Pois bem sabe bem dizer que está agora  Lopes Graça "enganado", pois agora é possível descobri-lo mesmo na cidade ...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As 4 Estações de Vivaldi - Lista de 100 Obras

Temos vindo a actualizar a nossa lista das 100 composições de música clássica que recomendamos para quem quiser começar a ouvir este género de música. É bom frisar que esse tem sido sempre o objectivo deste blog e que por essa razão as nossas selecções são muitas vezes motivadas por critérios de "acessibilidade" que são obviamente subjectivos.

Já acusaram estas minhas listas de serem ridículas, banais ou outras coisas piores. Na realidade isso importa-me pouco porque respeitando o critério que me fixei acho que fazem sentido - passe a falta de modéstia.

No que diz respeito às Quatro Estações de Vivaldi já falamos abundantemente delas ao longo dos 4 anos e alguns meses deste blog.

No entanto como estes posts não estavam referenciados na respectiva lista aqui fica a indexação feita que espero ser útil para quem queira ouvir esta obra de referência do período barroco. Uma obra que de tantas vezes interpretada nos parece por vezes banal ... mas tal como o Estro Armónico de que falamos antes também aqui a inovação está presente sobre a forma da primeira música programática. Bem não será a primeira mas será sem dúvida a primeira vez que uma música abstracta foi concebida com a pretensão de representação de fenómenos ou sentimentos concretos.

Aproveitei também a ocasião para substituir alguns dos links de obras que entretanto foram retiradas do You Tube (possivelmente por restrições relativas ao copyright - um disparate mas enfim ...).

Por fim no fim deste post farei uma sugestão de algumas interpretações de referência desta obra que passarão também a estar disponíveis na caixa de sugestões da Amazon para quem as desejar adquirir.

Falamos então das várias estações nestes posts: Primavera, Verão, Outono, Inverno.

Para quem quiser ler os poemas em português também os traduzimos: Aqui .

Por fim como prometido quanto a interpretações de referência enfim nem sei como vos explicar a escolha é tanta entre interpretações de época mais ou menos "fieis" (como já explicamos não ligamos muito a isso) e outras com orquestras mais "poderosas" que ficamos bastante indecisos. Pensamos que devemos escolher uma Orquestra de Época simplesmente porque é mais provável que já tenham ouvido ou venham a ouvir uma interpretação mais "convencional". Entre essas depois de alguma consulta resolvemos propor a Orquestra Concerto Italiano dirigida por Rinaldi Allesandrini.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

L´ Estro Armonico (Vivaldi)

Embora já tivéssemos abordado esta obra aqui na verdade foi na altura um mero apontamento sem grande explicação da importância da obra.

Esta obra, a terceira obra publicada de Vivaldi (Op. 3) é considerada uma das mais relevantes publicações do século XVIII (a obra foi publicada em 1711). É relevante sabermos que dos concertos de Vivaldi que Bach transcreveu para piano seis são desta série. A tradução do titulo da obra não é fácil ficando algo entre Inspiração Harmónica ou Inspiração Harmoniosa não sei qual das duas formas será melhor

Foi uma obra que no século XVIII surpreendeu o publico pela sua inovação. Claro que hoje habituados que estamos às Quatro Estações (cronologicamente posteriores a estes concertos) esse efeito de surpresa já não se consegue registar. Convém no entanto notar e registar a inovação sobretudo num compositor como Vivaldi tantas e tantas vezes injustamente diminuído na sua importância nomeadamente relativamente a Bach. Este trabalho na altura inspirou literalmente centenas de imitações.

Os 12 concertos têm formas relativamente homogéneas a maioria deles sendo no formato que se viria a tornar canónico com três andamentos na sucessão rápido-lento-rápida (há apenas três que seguem uma forma mais tradicional e mais próxima do concerto grosso). No seu conjunto são obras curtas com cerca de 10 minutos cada uma. Procurei na lista dos concertos dar-vos várias interpretações possíveis umas mais modernas outras procurando preservar o "espírito da época". No fim recomendarei duas mas para já oiçam os vários concertos porque estes merecem.
  • Concerto Nº 1 (Três Andamentos) : Concerto para 4 violinos em Ré.
  • Concerto Nº 2 (Quatro Andamentos) : Concerto para 2 Violinos e Violoncelos em Sol. Interpretação de Il Concerto Italiano dirigido por Rinaldo Alessandrini
  • Concerto Nº 3 (Três Andamentos): Concerto para violino em Sol.  Interpretação da Academy of Ancient Music dirigida por Christopher Hogwood
  • Concerto Nº 4 (Quatro Andamentos) : Concerto para 4 Violinos em Mi. Interpretação Europa Galante dirigida por Fábio Biondi
  • Concerto Nº 5 (Três Andamentos) : Duplo Concerto para Violino em Lá. Interpretação da Academy of St. Martin in the Fields dirigida por Neville Marriner
  • Concerto Nº 6 (Três Andamentos): Concerto para Violino em Lá. Interpretação da Tafelmusik dirigida por Jeanne Lamon. Este concerto confesso-vos que é para mim especial. Particularmente porque como todos os familiares de quem teve alguém na família que aprendeu violino devo ter ouvido este concerto mais de uma centena de vezes (pelo menos o primeiro andamento). Mais ainda na altura era capaz de seguir na pauta o dito. Escolhi esta interpretação porque pela sua diferença consegue devolver a este concerto toda a sua frescura. O problema canónico das peças que fazem parte do reportório de aprendizagem :-).
  • Concerto Nº 7 (5 Andamentos) : Concerto para 4 violinos e Violoncelo em Fá. Neste caso um Ensemble de que não conheço o nome.
  • Concerto Nº8 (3 Andamentos) : Duplo Concerto para Violino. Voltamos à Europa Galante e Fábio Biondi. Este também é um daqueles que já ouvi uma centena de vezes.
  • Concerto Nº 9 (3 Andamentos) : Concerto para Violino em Ré. Agora a interpretação é de um grupo de música de câmara Polaco: A Orquestra de Câmara da Academia de Cracóvia.
  • Concerto Nº 10 (3 Andamentos): Concerto para 4 violinos e Violoncelo. Possivelmente o meu preferido mesmo sendo também um dos tais que já quase conheço de cor. Il Giardino Armonico dirigido por Giovanni Antonini. 
  • Concerto Nº11 (3 Andamentos) : Concerto para dois violinos e violoncelo. Interpretação pela Accademia Bizantina dirigida por Octavio Dantone.
  • Concerto Nº 12 (3 Andamentos) : Concerto para Violino em Mi. Interpretação pela Orchestra CONCERTO dirigida por Roberto Gini, solista Cinzia Barbagelata (violino).

Proponho-vos ainda antes da minha recomendação que oiçam a Filarmónica de Berlin dirigida por Karajan para perceberem como o efeito da interpretação e mesmo da dimensão da Orquestra pode mudar uma obra (mudar não significa destruir mas antes recriar, nada de errado nisso).

Confesso que para estes concertos prefiro uma orquestra mais pequena, penso que o diálogo resulta mais claro e espontâneo dessa forma. Dos vários agrupamentos que vos mostrei nesta lista há vários excelentes exemplos. Embora goste muito do Il Giardini Armonico a escolha que vos proponho para esta obra é a Academy of Ancient Music dirigida por Christopher Hogwood mas não deixem que este vos prenda a apenas essa visão, explorem porque porventura poderão encontrar uma outra que prefiram. A música de Época tem piada na sua Época ... Fora de brincadeira obviamente é interessante a reconstrução histórica e é uma das formas em que faz sentido ouvir mas não é a única, por isso reitero: Explorem !




sábado, 7 de janeiro de 2012

Faleceu Pedro Osório (1939-2012)

Pedro Osório faleceu ontem vitima de doença prolongada, não foi por isso surpresa o triste evento. Esse facto não deixa no entanto que uma notícia como esta nos provoque um enorme sentimento de perda.

Alguns de vós poderão estranhar neste blog falar-se aqui de um maestro que normalmente não é associado à música clássica.

Porém a verdade é que mesmo que o anterior facto fosse baseado em factos (que não é) Pedro Osório só pela intervenção que teve na música popular portuguesa mereceria sem dúvida esta nota.

Sucederam-se (e justamente) na net e na Blogosfera homenagens ao músico nascido na invicta cidade do Porto em 1939. Este post será assim apenas mais uma dessas inúmeras homenagens que como é costume não poderia deixar de ser com música.

Escolhi para o efeito do seu ultimo disco, Canções da Babilónia  "Beijo do Sol"



De resto aprendemos que o Maestro admirava muito Bach e Carlos Seixas e que estava a transcrever as Sonatas deste ultimo compositor para cordas tendo infelizmente deixado esse trabalho incompleto. Esperemos ouvir um dia o que já estava completo, creio que seria uma das mais justas homenagens.

Para quem quer recordar o Maestro posso recomendar o site pessoal em particular (pode parecer desadequado neste momento mas pelo que sei da pessoa acredito que seria assim que gostaria de ser relembrado) a secção de anedotas que como diz "As anedotas de músicos são uma saudável demonstração de espírito de classe". Como se diz nessa compilação numa das anedotas:

Uma criança diz para a mãe: “Mamã, quando crescer quero ser músico”. Responde a mãe: “Querido, tens de escolher entre as duas coisas”.

 Pedro Osório felizmente escolheu permanecer criança. Quando chegar ao céu estou certo que no diálogo com Bernstein, Karajan e Furtwangler terá alguma coisa para acrescentar (referência a uma das outras anedotas que não vou contar, quero mesmo que vão ao site).

Que descanse em paz.

Oportunidades na Amazon