Caros leitores hoje permitam-me fazer um parênteses neste blog e falar um pouco menos de música (embora tenha um pouco disso no fim deste post). Hoje vou falar-vos de gargalhadas ou pelo menos do sorriso da minha adolescência. Vou falar-vos do regresso das bandas desenhadas da Disney a Portugal pela mão da editora onde trabalho.
É uma estreia neste blog falar-vos disso mas estamos a precisar neste país de umas sólidas gargalhadas, e na falta de outras perspectivas pelo menos o Tio Patinhas sempre é um ministro das Finanças mais divertido que o outro.
Partilho convosco a capa da primeira edição publicada após um longo interregno certo que não vão ter dificuldade em encontrá-la. Um post interesseiro dirão. É verdade reconheço-o! Sem nenhuma causa nobre a não ser a de honestamente achar que vos trará a dose certa de felicidade para o dia de hoje.
Dizia que haveria música. E vai haver porque coincidência do destino Walt Disney faria hoje 111 anos - uma feliz coincidência. E no que diz respeito a música aí retomamos mesmo a musica clássica naquele que é um dos meus filmes preferidos e provavelmente uma das melhores formas de propaganda à música clássica jamais feita. Deixo-vos com Fantasia, mais concretamente com Debussy - Clair de Lune, a minha homenagem a Walt Disney como se diz no comentário deste vídeo muito à frente (muito à frente mesmo) do seu tempo.
Ás vezes parece-nos que determinados autores determinados artistas esperam o momento certo para nos encontrarem ou reencontrarem. Passam-se anos sem que lhes tenhamos prestado muita atenção (a atenção que mereciam) e de repente no espaço de uns dias tudo parece girar à volta deles.
Estou a dizer-vos isto não por causa da obra musical da qual hoje vos vou falar mas mais por causa do poema e do poeta que estão na origem do libretto. Na verdade Ruy Belo de repente cruzou-se por várias vezes no espaço de dias no espaço da minha atenção. Primeiro precisamente por ser com base num seu poema que António Carlos Cortês escreveu o libretto para a ópera de Tiago Cabrita "A Vida Inteira" depois porque curiosamente na Cinemateca, onde fui ver o filme "In a Lonely Place" comentado por Abílio Hernandez Cardoso se voltou a falar de um outro poema de Ruy Belo a propósito de Boggart e do seu olhar de água, pura água.
Confesso que não pude deixar de fazer um paralelo entre as duas obras não porque sejam tematicamente idênticas mas porque em ambos os casos estamos perante existências a beira de um abismo e que jogam com a ideia da morte. Diz o poema de Ruy Belo
Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto
e vagamente absorto
não muito perto
desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
Diz um dos diálogos do filme de Boggart, uma espécie de micro-poema por duas vezes repetido pelo guionista e depois por uma das personagens, o filme dentro do filme um pouco como na vida, um pouco como na nossa vida inteira.
I was born when she kissed me
I died when she left me
I lived a few weeks
While she loved me
Não sei se conseguirão ver este filme e depois só depois ouvir a obra do Tiago Cabrita. Não sei mesmo se ainda assim como eu farão este paralelo ou um outro. O que vos garanto é que em ambas as obras se sente a mesma intensidade dramática, o voltar ao mesmo ponto numa espécie de ciclo dentro de ciclo, de filme dentro de filme, de música dentro de música e sim ouvi-te Marilyn.
Como diz o outro poeta o Amor é uma doença se nele quisermos ver a nossa cura.
O video que partilho foi filmado no Teatro Nacional de S.Carlos Março em 2012 Música: Tiago Cabrita Libreto: António Carlos Cortez, a partir de um poema de Ruy Belo Encenação: Luís Miguel Cintra
Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por João Paulo Santos
Marco Alves dos Santos (tenor) e Mário Redondo (barítono)
Quatro semanas de votação 218 votos (+46 que a semana passada - só mais 46 caros leitores? ). Não se esqueçam que temos um guia de audição para poderem votar em consciência, o nosso Guia das 25 Obras Preferidas.
Continuamos com os nocturnos de Chopin muito destacados, a bem dizer com mais do dobro dos votos o que começa a ser uma vantagem significativa pese embora o tempo que ainda falta para o final da votação. Nas surpresa negativas Mozart em 18º parece-me um pouco injusto demais (subiu um lugar relativamente à semana passada). Beethoven sai da terceira posição para entrar Satié que com Debussy secundam Chopin no Top 3. Uma surpresa positiva sem dúvida.
Estamos agora a metade do período de votação e gostava mesmo de poder contar com muito mais votos! Consultem o Guia de Votação e votem!
O ano passado escrevia-te assim, dizia-te o que gostaria de te ter dito o que gostaria de ter mudado. Haveria (há) certamente muito a acrescentar. Passado um ano, o tempo que parece mudar tudo mas que pouco toca à substância das coisas, faz-me ter vontade de voltar a escrever-te. Tinha é verdade este texto em rascunho desde de manhã mas não sabendo ao certo explicar porquê não me decidia a carregar no botão publicar.
Agora depois da nossa missa, do momento em que todos os meses me sinto ao mesmo tempo mais perto e mais longe de ti, desse momento de paz é verdade mas em simultâneo de saudade, tanta saudade, percebo a razão pela qual não conseguia publicar o texto.
Faltava-me dizer-te duas coisas que sempre foram tão importantes para nós. Em primeiro lugar a nossa vontade de viver no presente. Por isso mudei o tempo verbal deste post. Fazes hoje 49 anos. Para mim, para o Miguel - o nosso filho - o teu grande amor. Para todos nós. Fazes e farás sempre anos neste dia não porque pretenda viver na memória do passado, isso também me ensinaste, mas porque precisamente percebi que estarás sempre comigo.
Percebi-o hoje quando me fizeram uma pergunta sobre este projecto de post. A tua luz, a tua alma se passou um pouco (muito pouco) para mim está integra na alma do Miguel; incondicional e pura. Encontro conforto em saber que isso tu sabias porque disso falamos tantas vezes.
Partilhamos os três muitos momentos juntos e desses muitos envolviam música claro. Clássica em alguns casos noutros nem tanto. Porque neste blog há quase sempre música pareceu-me que fazia sentido partilhar contigo, convosco uma canção que nos uniu musicalmente. Não deverias ter mais de 10/11 anos quando começamos a ouvir contigo Sérgio Godinho. E lembro-me do sorriso da tua mãe quando percebeu o quanto gostavas de algumas canções. Uma delas lembro-me em particular porque rindo nos interrogamos se entenderias totalmente. Como ainda por cima se aplicaria à nossa história ficamos por aqui ...