Na timeline de uma amiga no Facebook pude ver e ouvir recentemente um video de uma pessoa de idade a tocar uma piano na rua de uma cidade. Interpretava uma música de sua autoria dizia-se; daquele piano eram mais que notas que saiam, saía o reflexo de uma alma sofrida certamente mas uma alma que se queria também dar a todos.
Aqui fica o video "original" (o que despertou a vontade de escrever esta história).
Não pude obviamente deixar de tentar descobrir mais e felizmente nos comentários dos vídeos encontrei a informação que necessitava. A pianista e compositora chama-se Natalie Trayling e a cidade é Melbourne. Neste artigo poderão ler a história completa da sua dramática vida. Mãe de quatro filhos dos quais dois faleceram ainda jovens, divorciada do marido acabou por viver algumas temporadas na rua. Vive hoje num quarto de um hotel desde 2004 onde toca regularmente para os hóspedes.
Foi ideia do seu ex-marido comprar-lhe o piano com que a ouvimos tocar no primeiro vídeo. Dizia ele que seria melhor para ela tocar para mais pessoas. E nós concordamos e subscrevemos inteiramente as suas palavras quando diz:
"As crianças vêm ter comigo e pessoas de todos os extractos sociais e formas de vida. Amo estar na rua e sentir que eles devem ouvir a minha música. O que eu sinto quando toco e o que sinto quando estou no meio deles faz-me sentir bem. É algo que não teria numa sala de concertos porque apenas algumas pessoas podem ir até lá. Esta música é para todos".
E é mesmo. A música, clássica ou não, é mesmo para todos. Sem limites. E por isso hoje só posso deixar-vos com um outro amador, um qualquer escolhido ao acaso no You Tube. Um das várias centenas que interpreta uma música de que gosto, de que provavelmente muitos de nós gostamos.
Comptine d´un autre été
Porque a música é para todos, de todos para todos, sem fronteiras e sem limites. Sem embalagens, e sem plástico. Sem industria e sem mediação obrigatória. Ali. Nas ruas de Melbourne, nas nossas ruas mas sobretudo nas nossas almas.
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
De volta à música clássica ... escrita
Bom, faz quase um ano que deixei de escrever neste blog. Uma espécie de sabática motivada não pelo cansaço da música - essa nunca deixou de fazer parte da minha vida - mas porque este blog me lembrava demasiado um tempo a que precisava dar um pouco de distância.
Distância obtida estou de volta para vos continuar a falar da música de que gosto. Porque para todos os recomeços deve existir um símbolo, porque melhor símbolo de distância não haverá certamente, porque tão pouco poderemos encontrar mais perfeita metáfora do reencontro e ainda porque este tema junta duas paixões: a música e a astronomia retomo este blog com um post que vos vai falar do objecto humano mais distante da Terra e o único que homem já fez sair da pequenez do nosso sistema solar: As naves Voyager e em particular o seu disco dourado.
Já por várias vezes vos falei delas (das naves) e muitas vezes (quase tantas) vos mostrei a Gavotte en Rondeau de Bach interpretada por Arthur Grumiaux mas hoje, naquilo que é um recomeço, creio ser mais oportuno mencionar uma outra escolha, o primeiro andamento da Quinta Sinfonia de Beethoven, apelidada "do destino". Do destino porque diz-se se batesse à porta (o dito) assim bateria. Quando assim se fala claro que estamos a pensar naqueles primeiros compassos ...
Do destino é bom mas terminar como começamos - com amor - é provavelmente ainda melhor. E se muitas vezes falamos destes discos dourados e da sua música nunca vos revelamos que estes discos encerram (pelo menos) uma grande história de amor. Na verdade Carl Sagan responsável pela mensagem apaixonou-se durante a gravação dos mesmos por aquela que viria a ser a sua mulher Ann Druyan. Até à gravação Ann e Carl conheciam-se profissionalmente mas um dia Ann que era a directora criativa do projecto descobre excitada a obra que faltava para os discos. Uma canção chinesa com mais de 2.500 anos chamada "Flowing Stream".
Pois foi ao contar ao telefone a Carl Sagan a descoberta que tinha feito que ambos se aperceberam que ... A história poderia ficar por aqui que já seria uma bela história. Porém facto é que ela está agora imortalizada para além do sistema solar. Na verdade alguns dias depois Carl Sagan tem a ideia de gravar as ondas cerebrais de um ser humano na esperança que daqui a uns milhões de anos, se porventura alguma espécie inteligente vier a tomar posse dos discos, essa mesma espécie consiga reformular os pensamentos a partir dessas mesmas ondas.
Ora o que foi gravado foram as ondas cerebrais de Ann Druyan que meditou durante umas horas sobre a natureza humana. Diz Ann que no entanto no final se permitiu uma mensagem pessoal sobre o significado de estar apaixonada. É ou não é uma linda história de amor - a única que verdadeiramente terá neste momento atravessado tempo e espaço ...
Nas palavras de Ann Druyan "Sempre que estou deprimida penso que eles ainda se deslocam a 35.000 milhas por hora, fora do sistema solar no grande mar infinito do espaço interestelar".
Podem ler a história completa aqui
Distância obtida estou de volta para vos continuar a falar da música de que gosto. Porque para todos os recomeços deve existir um símbolo, porque melhor símbolo de distância não haverá certamente, porque tão pouco poderemos encontrar mais perfeita metáfora do reencontro e ainda porque este tema junta duas paixões: a música e a astronomia retomo este blog com um post que vos vai falar do objecto humano mais distante da Terra e o único que homem já fez sair da pequenez do nosso sistema solar: As naves Voyager e em particular o seu disco dourado.
Já por várias vezes vos falei delas (das naves) e muitas vezes (quase tantas) vos mostrei a Gavotte en Rondeau de Bach interpretada por Arthur Grumiaux mas hoje, naquilo que é um recomeço, creio ser mais oportuno mencionar uma outra escolha, o primeiro andamento da Quinta Sinfonia de Beethoven, apelidada "do destino". Do destino porque diz-se se batesse à porta (o dito) assim bateria. Quando assim se fala claro que estamos a pensar naqueles primeiros compassos ...
Do destino é bom mas terminar como começamos - com amor - é provavelmente ainda melhor. E se muitas vezes falamos destes discos dourados e da sua música nunca vos revelamos que estes discos encerram (pelo menos) uma grande história de amor. Na verdade Carl Sagan responsável pela mensagem apaixonou-se durante a gravação dos mesmos por aquela que viria a ser a sua mulher Ann Druyan. Até à gravação Ann e Carl conheciam-se profissionalmente mas um dia Ann que era a directora criativa do projecto descobre excitada a obra que faltava para os discos. Uma canção chinesa com mais de 2.500 anos chamada "Flowing Stream".
Pois foi ao contar ao telefone a Carl Sagan a descoberta que tinha feito que ambos se aperceberam que ... A história poderia ficar por aqui que já seria uma bela história. Porém facto é que ela está agora imortalizada para além do sistema solar. Na verdade alguns dias depois Carl Sagan tem a ideia de gravar as ondas cerebrais de um ser humano na esperança que daqui a uns milhões de anos, se porventura alguma espécie inteligente vier a tomar posse dos discos, essa mesma espécie consiga reformular os pensamentos a partir dessas mesmas ondas.
Ora o que foi gravado foram as ondas cerebrais de Ann Druyan que meditou durante umas horas sobre a natureza humana. Diz Ann que no entanto no final se permitiu uma mensagem pessoal sobre o significado de estar apaixonada. É ou não é uma linda história de amor - a única que verdadeiramente terá neste momento atravessado tempo e espaço ...
Nas palavras de Ann Druyan "Sempre que estou deprimida penso que eles ainda se deslocam a 35.000 milhas por hora, fora do sistema solar no grande mar infinito do espaço interestelar".
Podem ler a história completa aqui
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Vinicius de Moraes (1913-1980)
faria amanhã 100 anos o poeta brasileiro Vinicius de Moraes. Perguntarão porque razão neste blog sobre música clássica falamos do poeta ou do poetinha como carinhosamente Tom Jobim lhe teria chamado -a alcunha que perduraria para sempre.
É uma questão legitima e que tem uma resposta subjectiva e prepotente. Porque posso e porque para mim Vinicius, Jobim e tantos outros da MPB são tão "clássicos" como os demais que por aqui falamos. Para escolher um poema do Vinicius nem sei por onde começaria.
No fim de semana passado fui ouvir Stacey Kent. Cantora americana de Jazz fanática de Brasil e de Bossa Nova; tal como eu. Cantou algumas canções do Vinicius e do Jobim e logo para começar uma canção com música do parceirinho 100% Tom e letra de Vinicius - Chega de Saudade (numa aula de português nos Estados Unidos de que Stacey falou - que grande atmosfera e como é lindo o português).
(A Stacey Kent para quem não conhece é a rapariga que está de cinzento a seguir aos dois rapazes de verde na imagem inicial). By the way obrigado mana pelo presente ... que grande presente. E que saudades tu sabes de quem ...
Para viver um grande amor, Vinicius deverá saber bem, por nove vezes casado, sagrado cavalheiro. Não basta ser bom sujeito é sempre necessário um crédito na florista. E que tal passarmos a ganhar dinheiro com a poesia eu que já só ando mesmo em boa companhia ...
Mas a felicidade é mesmo uma coisa louca mas delicada de todas as cores e é por ela ser assim que dela devemos tratar com cuidado: tristeza não tem fim, felicidade sim ... ao vivo agora em 1978 dois anos apenas antes da sua morte.
Vinicius está sempre comigo na secretária do meu escritório num poema que tinhas na tua carteira. O amor dizias é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos de outrora vagam no nascimento do dia. E eu me lembro de quando a luz dos olhos teus ...
E oiçam até ao fim Elis Regina em Formosa ... até ao fim do vídeo mas não da canção que Elis não consegue ... porque como diz se fosse só isto não fazia mesmo sentido.
É uma questão legitima e que tem uma resposta subjectiva e prepotente. Porque posso e porque para mim Vinicius, Jobim e tantos outros da MPB são tão "clássicos" como os demais que por aqui falamos. Para escolher um poema do Vinicius nem sei por onde começaria.
No fim de semana passado fui ouvir Stacey Kent. Cantora americana de Jazz fanática de Brasil e de Bossa Nova; tal como eu. Cantou algumas canções do Vinicius e do Jobim e logo para começar uma canção com música do parceirinho 100% Tom e letra de Vinicius - Chega de Saudade (numa aula de português nos Estados Unidos de que Stacey falou - que grande atmosfera e como é lindo o português).
(A Stacey Kent para quem não conhece é a rapariga que está de cinzento a seguir aos dois rapazes de verde na imagem inicial). By the way obrigado mana pelo presente ... que grande presente. E que saudades tu sabes de quem ...
Para viver um grande amor, Vinicius deverá saber bem, por nove vezes casado, sagrado cavalheiro. Não basta ser bom sujeito é sempre necessário um crédito na florista. E que tal passarmos a ganhar dinheiro com a poesia eu que já só ando mesmo em boa companhia ...
Mas a felicidade é mesmo uma coisa louca mas delicada de todas as cores e é por ela ser assim que dela devemos tratar com cuidado: tristeza não tem fim, felicidade sim ... ao vivo agora em 1978 dois anos apenas antes da sua morte.
Vinicius está sempre comigo na secretária do meu escritório num poema que tinhas na tua carteira. O amor dizias é o murmúrio da terra quando as estrelas se apagam e os ventos de outrora vagam no nascimento do dia. E eu me lembro de quando a luz dos olhos teus ...
E oiçam até ao fim Elis Regina em Formosa ... até ao fim do vídeo mas não da canção que Elis não consegue ... porque como diz se fosse só isto não fazia mesmo sentido.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Aniversários
Este blog fez no Domingo a bonita idade de 6 anos. Consta que em idade de blog como na idade de alguns animais nossos amigos de quem hoje foi o dia (parabéns a eles também) esta é uma idade considerável. Não sei se deva como nos cães multiplicar por 7 para ter uma idade equivalente mas se assim for a boa noticia é que para o ano este blog terá a idade do seu autor hoje e que também fez anos no passado Domingo.
Tenho festejado este aniversário de várias formas ao longo destes anos mas sinceramente este ano o que tinha previsto realizar não me foi simplesmente possível. Gostaria de vos ter presenteado com uma lista de 100 compositores indispensáveis para juntarmos à nossa lista de 101 composições ... Fica prometido que faremos esse post até ao final do ano.
Por agora e para terminar com música vou neste dia relembrar como comecei numa sexta-feira já tarde, ou melhor numa madrugada de Sábado - mais ou menos por volta desta hora, cerca das duas da manhã. Comecei depois de um preâmbulo sobre o âmbito do blog com um post sobre Vivaldi. Dizia eu na altura que Vivaldi era muito mais do que as Quatro Estações. Proponho-vos uma parte do belíssimo Stabat Matter pela Orquestra de Época Europa Galante dirigida por Fábio Biondi.
Tenho festejado este aniversário de várias formas ao longo destes anos mas sinceramente este ano o que tinha previsto realizar não me foi simplesmente possível. Gostaria de vos ter presenteado com uma lista de 100 compositores indispensáveis para juntarmos à nossa lista de 101 composições ... Fica prometido que faremos esse post até ao final do ano.
Por agora e para terminar com música vou neste dia relembrar como comecei numa sexta-feira já tarde, ou melhor numa madrugada de Sábado - mais ou menos por volta desta hora, cerca das duas da manhã. Comecei depois de um preâmbulo sobre o âmbito do blog com um post sobre Vivaldi. Dizia eu na altura que Vivaldi era muito mais do que as Quatro Estações. Proponho-vos uma parte do belíssimo Stabat Matter pela Orquestra de Época Europa Galante dirigida por Fábio Biondi.
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