segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Festival da Canção - Uma (forte) sugestão de votação

Sim, eu sei que não é música clássica, mas trata-se de um amigo e isso para mim supera a diferença de género musical.

Ser músico, compor como o Rui Videira apresentar-se a concurso, chegar aos 24 últimos merece já só por si respeito.

Para além disso a canção (e admito com franqueza que possa ser suspeito e muito parcial) é excelente.

Assim convido-vos a visitarem o site da votação que decorre entre os dias 19 e 30 de Janeiro, ouvirem a canção do Rui e se gostarem (como eu) votem (bem) ! A canção chama-se "Amar mais forte que o vento", a intérprete é Eva Danin o autor e compositor, claro Rui Videira.

Apontem o vosso browser para aqui e votem bem !

domingo, 18 de janeiro de 2009

Pesquisas Interessantes da Semana (#20)

o que é um duplo concerto? : Um concerto duplo é um concerto que é composto para dois instrumentos solistas. Por exemplo o Duplo Concerto para Violino e Violoncelo de Brahms de que falámos aqui.

wilhelm backhaus : Pianista e pedagogo alemão, também conhecido como o leão do teclado pelo que merece toda a nossa simpatia :-), de que falámos aqui .

violinista sarah chang: É uma questão bastante frequente. Publicamos uma pequena biografia aqui.

canções de edit piaf: Em tempos escrevemos um post sobre os compositores de Edith Piaf neste blog, aqui . Ainda o mantemos por cá mas agora tem um poiso mais natural, um novo blog ainda na sua tenra infância aqui.

bibliografia de henry purcell : Bibliografia não temos ainda. Escrevemos uma pequena nota biográfica aqui.

ultimas musicas que chopin escreveu: É sempre uma questão que nos interessa. Conhecer a ultima obra em que um compositor pensou antes de falecer, como se nessa obra se fosse encerrar um qualquer segredo. E se há obras em que, pelo facto do compositor saber que está para breve a sua hora (por exemplo "Four Last Songs" de Richard Strauss) em outros casos apesar disso o compositor procura exactamente o inverso libertando-se dessa forma do fardo opressor da morte. No caso de Chopin a sua ultima obra (apenas publicada postumamente) foi uma Mazurka a Nº4 do Op. 68. A ultima obra publicada em vida foi uma Sonata para Piano e Violoncelo (Op. 65)

sonetos em portugues das quatro estações vivaldi: Efectivamente já os traduzimos estão aqui. Trata-se de Sonetos que eram lidos antes das interpretações das peças. Podem ler aqui uma tradução minha desses sonetos.

quantas, foram, as, obras, de, vivaldi, : É dificil dizer exactamente quantas foram. Na verdade não só Vivaldi foi um autor extraordinariamente prolífico como também naquele tempo o cuidado em registar as obras, todas as obras era bastante menor do que é nos nossos dias. Assim se considerarmos apenas as obras que chegaram até nós e se admitirmos que o catálogo de Peter Ryom está completo então estamos a falar de 791 obras (algumas chegaram incompletas ao nosso tempo). Quando por exemplo virem a seguinte linha num programa de concerto:

Concerto No. 1 em Mi Maior, Op. 8, RV 269 - "A Primavera"

Isto significa que é a oitava obra de Vivaldi e a obra número 269 no tal catálogo de Peter Ryom que conta 791 entradas.

lista melhores música erudita : Bom por enquanto temos apenas as "melhores" do período barroco que pode ler aqui.

importância da musica clássica nos nossos dias: A música clássica representa séculos de evolução estética. É por natureza uma forma quase totalmente abstracta de arte e como tal ideal para unir povos em torno do simplesmente belo. Leiam este post porque na verdade Daniel Barenboim explica muito melhor. E quando pensamos em paz pensemos em toda a paz em todos os tipos de paz.

musica clássica cansa? : Cansa ? Sim se estivermos a dançar a valsa cansa e muito !

Tchaikovsky - Duas obras para Orquestra

Antes de falarmos dos concertos para piano e Orquestra e do concerto para Violino e Orquestra, sem duvidas duas das obras mais conhecidas de Tchaikovsky não podemos deixar de falar de algumas obras dispersas compostas para Orquestra até porque entre essas se encontram também algumas das melodias que mais vezes ouvimos sem sabermos que estamos a ouvir uma obra de Tchaikovsky.

A primeira dessas duas obras é a Abertura 1812 (Op. 49) que foi encomendada a Tchaikovsky para festejar o aniversário da derrota das forças Napoleónicas quando da invasão da Russia. É uma obra muitas vezes executada e que coloca alguns problemas de execução dado que o compositor incluiu a utilização de canhões. É uma composição fortemente programática (por exemplo os canhões marcam momentos específicos nessa guerra) e com base em melodias russas. Podem ouvir esta obra aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte).

A segunda dessas duas obras é a Fantasia Romeo e Julieta (esta peça não tem numeração) que contém uma das mais conhecidas melodias clássicas, o tema de amor tantas vezes repetido em inúmeros filmes. Curiosamente esta é uma obra que teve uma génese bastante complicada e dedicada a Balakirev, tendo começado numa obra apelidada Fatum que Tchaikovsky viria a destruir. Podem ouvir aqui esta obra (primeira parte) e aqui a segunda parte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Glenn Gould (1932-1982) - O Escritor (Parte VI)

Esta é a sexta parte de um artigo que Glenn Gould escreveu para a revista High Fidelity em 1974. A entrevista que traduzo aqui a partir da versão original que podem encontrar aqui é do próprio Gould que desempenha o papel de entrevistado e entrevistador. A entrevista claro é também sobre o próprio Gould.

As cinco primeiras partes deste artigo estão aqui (primeira parte), aqui (segunda parte), aqui (terceira parte), aqui (quarta parte) e aqui (quinta parte)


Glenn Gould entrevista Glenn Gould sobre Glenn Gould High Fidelity, Fevereiro 1974.(Quinta Parte). g.g é Glenn Gould entrevistador, G.G. é glenn Gould pianista/compositor

g.g: Mr. Gould existe uma certa consistência no que disse mas parece-me que percorremos um longo caminho desde o concerto-vs-gravação com o qual começamos.

G.G.: Pelo contrário penso que andamos a fazer uma série de variações sobre esse tema e na verdade demos a volta ao circulo.

g.g.: Em todo o caso tenho apenas mais umas quantas perguntas para lhe colocar de que, provavelmente a mais pertinente agora é: Sem ser um membro frustrado da censura existe alguma outra carreira que lhe interesse?

G.G.: Pensei muitas vezes que gostaria de ser um prisioneiro.

g.g.: E acha que isso é uma carreira ?

G.G.: Oh certamente. Claro que no pressuposto que seria totalmente inocente de todas as acusações.

g.g.: Alguma vez lhe sugeriram que poderia sofrer do complexo de Myshkin?

G.G: Não e não posso aceitar o elogio. Simplesmente como disse nunca percebi a preocupação pela liberdade tal como é conceptualizada pelo mundo ocidental. Tanto quanto posso entender a liberdade de movimento tem apenas a ver com mobilidade e a liberdade de expressão está relacionada com a agressão verbal socialmente sancionada. Assim ser preso seria o teste perfeito da nossa mobilidade interior e da força que nos permitiria saír criativamente da situação humana.

g.g.: Mr. Gould embora esteja cansado noto aí uma contradição em termos.

G.G.: Não penso que realmente o seja. Penso também que existe uma geração mais nova que a nossa - tem a minha idade não tem?

g.g.: Assumiria que sim.

G.G.: Uma geração mais nova que não tem que lutar com esse conceito, para quem o factor competitivo não é uma componente inevitável da vida e que programam a sua vida sem tomarem isso em consideração.

g.g.: Está a tentar vender-me o neo-tribalismo ?

G.G: Não, na realidade não. Suspeito que as tribios competitivas foram as que nos puseram primeiro nesta barafunda mas como eu disse não mereço a designação de complexo de Myshkin.

g.g.: Bem a sua modéstia é lendária Mr. Gould mas o que o fez chegar a essa conclusão?

G.G.: O facto de que faria inevitavelmente pedidos aos meus captores - pedidos que um espirito verdadeiramente livre poderia evitar fazer.

g.g.: Tais como ?

G.G.: A cela teria de ser pintada em cinzento-marinha

g.g.: Acho que isso não seria um problema.

G.G.: Bem ouvi dizer que a reforma da lei penal envolve pintar as celas em cores primárias.

g.g.: Ah estou a ver.

G.G.: E claro teria de existir algum tipo de acordo relativo ao ar condicionado. Ventilação superior estaria fora de questão - tenho propensão para inflamações na traqueia - e claro assumindo que algum tipo de ventilação forçada fosse utilizada o regulador de humidade teria --

g.g.: Mr. Gould peço perdão pela interrupção mas acabou de me ocorrer que dado que nos disse já várias vezes hoje que sofreu uma experiência traumática no Salzburg Festspielhaus --

G.G.: Oh ! Não pretendia ter dado a impressão de uma experiência traumática bem pelo contrário. A minha infecção foi tão grave que consegui cancelar um mês inteiro de concertos retirar-me para os Alpes e viver a mais idílica e isolada experiência de vida.

g.g: Estou a ver. Posso agora fazer uma sugestão?

G.G.: Claro !

g.g.: Como sabe o velho Festspielhaus foi originalmente uma academia de equitação.

G.G.: Certo. Tinha esquecido isso.

g.g: E claro a parte de trás do edíficio está encostada a uma montanha.

G.G: Sim isso é verdade.

g.g.: E dado que é obviamente um homem viciado em simbolos - estou certo que essa sua fantasia do prisioneiro - pareceria-me que o Festspielhaus - a Felsenreitschule - com a sua ambiência Kafkiana montada na base de um penhasco com a memória da mobilidade equestre assombrando o seu passado e localizada ainda por cima na cidade onde nasceu o compositor cujos trabalhos tem tão frequentemente criticado, e dessa forma compromentendo o sua própria opinião sobre julgamentos estéticos --

G.G.: Ah mas eu critiquei-os sobretudo como provas de uma vida hedonistica.

g.g.: Como queira. O Festspielhaus, Mr. Gould é o local onde um homem com as suas ideias, um homem à procura do martirio deveria voltar.

G.G.: Martírio ? O que lhe deu esa impressão ? Não poderia de forma nenhuma voltar !

g.g: Por favro Mr. Gould tente perceber. Não poderia haver uma forma mais significativa de purificar a carne, de fazer ascender o espírito e certamente nenhuma forma com mais significado metafórico de exprimir o seu estilo de vida hermético, através do qual definir a sua procura pelo martirio autobiograficamente, tal como estou certo que um dia virá a fazer.

G.G: Tem de acreditar no que lhe digo. Não tenho tal demanda na mente.

g.g.: Sim tenho a certeza que deverá voltar Mr. Gould. Deverá mais uma vez pisar o palco do Festspielhaus, deverá voluntariamente, com felicidade mesmo submeter-se aos ventos gélidos que atravessam o palco porque só então e apenas então terá atingido o martirio que tão obviamente deseja.

G.G: Por favor não me interprete mal; estou sensibilizado pela sua preocupação. É apenas que nas palavras imortais de Mr. Vonnegut's Billy Pilgrim : "Ainda não estou pronto.

g.g. Nesse caso nas também imortais palavras do mesmo Mr. Vonnegut : "então aqui vai."

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