sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Jean Sibelius (1865 - 1957)

Sibelius é um daqueles compositores que me provocam uma grande dose de tristeza por terem sido tão maltratados durante o seu período de vida. No caso de Sibelius porque insistia, graças a Deus :-), em escrever música neo-romântica quando a linguagem do século já era outra ...

Jean Sibelius nasceu em Hämeenlinna no Grão Ducado da Finlândia no dia 8 de Dezembro de 1865  no que era então uma dependência do Império Russo numa família de língua sueca. Porém apesar de toda esta mistura (ou se calhar por causa dela) foi o primeiro dos grandes expoentes (e de certa forma consolidadores) da identidade nacional finlandesa.

No seu livro "The Rest is Noise" Alex Ross dedica um dos seus capítulos intitulando-o Apparition from the Woods: The loneliness of Jean Sibelius. Neste capítulo além da análise das princiipais obras do compositor Finlandês Alex Ross explica-nos uma parte do drama de Sibelius citando um trabalho de Kundera em que ele fala das "Pequenas nações da europa" e do sentimento de isolamento que os heróis nacionais dessas pequenas nações podem sentir. todos sabem de tudo dos seus heróis, não há espaço para o erro. Isto pode ser uma pressão insuportável. Para Sibelius atormentado que estava pela recepção do seu trabalho nos meios intelectuais  europeus, recepção altamente negativa ao ponto de terem apelidado Sibelius "o pior compositor de sempre" pode ter sido um pouco demais ...

Claro que a solidão não provém apenas do facto anterior. ser considerado um elemento "fora de tempo", um compositor sem nada de novo a dizer foi certamente a outra parte do problema de Sibelius. Problema amenizado (ou talvez não, paradoxo resultante do facto anterior) da enorme popularidade de que gozava na Finlândia e nos Estados Unidos onde era considerado nem mais nem menos que o novo Beethoven. Na verdade terá sido necessário chegarmos ao fim do século XX para que alguns musicólogos tenham por fim entendido que estar "a la page" nem sempre é sinónimo de inovação e que por vezes trabalhar em modelos aparentemente do passado pode ser precisamente a expressão de uma voz interior que não liga a épocas ou modas. No que me diz respeito já sabem para onde vão as minhas simpatias. Um dia destes ainda me v~em com calças de sino de novo ...

Há dois tipos de composição onde Sibelius focou o seu talento: O poema sinfónico e a sinfonia. Existem para além destas formas duas outras obras de que estão de certa forma isoladas na obra do compositor mas de que teremos de falar pela sua enorme relevância no trabalho do compositor e sobretudo - pelo menos em um dos casos - na sua relevância no reportório actual. Estamos a falar claro da Valse Triste (Op. 44) composta em 1903 e o famoso concerto para violino e orquestra  Op. 47 (1903-1905).

No que diz respeito ao Poema Sinfónico foi neste tipo de composição que podemos dizer sem exagerar em demasia que uma boa parte da identidade finlandesa se fixou. Não só porque Sibelius soube capturar musicalmente a alma finlandesa (por exemplo indo buscar elementos ao folclore, técnica em que aliás precedeu tanto Bartok como Stranvinsky) como também soube encontrar a poética adequada de base tradicional finlandesa que o fixou definitivamente como um representante nacional ao ponto de hoje se perguntarem a um finlandês o que é próprio à Finlandia possivelmente para além da famosa marca de telemóveis a referência mais frequente será "o nosso Sibelius".  Dessas composições a primeira Kullervo (Op. 7) é baseada no poema épico Kalevala tendo sido o primeiro grande sucesso do compositor. Seguiram-se vários outros dos quais En Saga (Op. 9), Karelia Suite (Op. 10) e  Finlandia (Op. 26).

No que diz respeito às sinfonias Sibelius tal como Beethoven procurou em cada uma das sinfonias basear-se na anterior melhorando-a ou complementando-a na busca da perfeição. Essa procura foi uma das causas adicionais para que Sibelius tenha muito cedo terminado a sua produção enquanto compositor. É conhecido hoje o facto de Sibelius ter destruído a sua oitava sinfonia - aquela que deveria sumarizar tudo o anterior - depois de anos e anos de tentativas (e de ter por várias vezes prometido-a aos seus fãs americanos). Simplesmente Sibelius não se sentia capaz de tal tarefa quer pela tarefa em si quer pela pressão auto-induzida ou induzida pelo exterior. Facto é que essa oitava ficará para sempre apenas como memória do que poderia ter sido.

Das várias sinfonias a ultima (a sétima) composta em 1926 marca o fim do período de produtividade de Sibelius. Depois disso ainda compôs mais algumas obras de música para teatro (para a peça de Shakespeare - A Tempestade) e o poema sinfónico Tapiola mas na realidade nada que tenha o relevo da sua produção passada e sobretudo nada de comparável quanto à quantidade do período anterior.

Sibelius faleceu a 20 de Setembro 1957 no meio da natureza de que tanto gostava.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mensagem de Ano Novo

Depois do nosso post de ontem a noite o post de hoje só poderia incluir algumas sugestões para ouvirem música ao vivo neste próximo fim de semana. Para além destas sugestões fica o voto de um excelente 2011 com muita música. Antes das recomendações que vou tentar que incluam o país inteiro quero deixar-vos com uma citação de Leonard Bernstein ...

This will be our response to violence: to make music more intensely, more beautifully and more devotedly than ever before.
Esta será a nossa resposta à violência: Fazer música mais intensamente, com mais beleza e com mais devoção que anteriormente. 


Para começar e para quem tenha a Mezzo claro que podem iniciar os festejos com o Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Berlim. Hoje pelas 17:00 com um programa francês (curioso - Berlioz, Saint Saens, ) e com a direcção de orquestra de Dudamel - definitivamente a não perder. Ainda na televisão e para quem goste da música vienense de Strauss o habitual concerto de Ano Novo é este ano transmitido na RTP1 às 14:15 do dia 1.

No que diz respeito a música ao vivo aqui ficam algumas recomendações que cobrem o país de sul a norte
e também as regiões autónoma dos Açores e da Madeira.

Começando pelo Sul do país mais precisamente no Algarve teremos o "Concerto de Ano Novo" com a Orquestra do Algarve dirigida por Osvaldo Ferreira no Casino de Vilamoura no dia 1 de Janeiro pelas 17:30. Será solista a soprano Ana Paula Russo que interpretará árias de Mozart, Bach e Lehár. Serão também interpretados temas de Strauss, Brahms e John Barry. Este concerto repete no dia seguinte pelas 16:00 no Auditório Municipal de Lagoa. Podem ver o programa completo no Site da Orquestra.

Em Lisboa no CCB teremos a Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Cesário Costa no dia 1 de Janeiro Sábado. O programa é composto por obras de Johann Strauss (Valsas e Polkas).

Na invicta cidade do Porto teremos um concerto intitulado "Ano Novo, Novo Mundo" com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música dirigida por Edwin Outwater. será no domingo dia 2 de Janeiro às 18h num programa em que serão solistas a meio-soprano Nora Sourouzian e o barítono Jason Howard num programa variado e ligeiro próprio de um dia de ano novo. Salientamos porque dele falamos ontem uma obra de John Philip Sousa a "Liberty Bell March".

Um pouco mais a Norte teremos o Mezza Voce Ensemble na Igreja de São Mamede de Ribatua em Alijó no dia 2 de Janeiro pelas 16h. O Concerto está integrado no ciclo "Temporada de Música Antiga no Douro".

O Coral Magistrói de Carapeços dará no Auditório da Câmara Municipal de Barcelos um concerto de Ano Novo às 17h do Domingo 2 de Janeiro.

Em Vila Real no seu teatro teremos o "Concerto de Ano Novo" pela Orquestra Filarmónica Mediterrânea no Sábado às 17h integrado no Festival de Ano Novo 2011 num programa que inclui sobretudo Strauss mas também por Puccini, Bizet e Verdi.

Na Madeira teremos hoje às 21h a Orquestra de Bandolins da Madeira dirigida por Eurico Martins na Igreja Inglesa.

Para os Açores infelizmente apenas conseguimos encontrar uma recomendação para o dia 5 mas vale a pena a espera já que nesse dia poderão ouvir Diana Vieira num recital de Piano no Teatro Micaelense - Centro Cultural e de Congressos. Será às 21:30 e no programa teremos obras de F. Martin, Copland, Schubert e Balakirev.

Boa música e bom ano de 2011 para todos. Até lá muito juízo ou bastante falta dele conforme vos aprouver.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Listen to This - Capitulo 3 : Infernal Machines : How Recording changed Music

Este capitulo apesar de curto promete, acredito gerar alguma polémica ou pelo menos alguma discussão entre os leitores deste blog. Digo-vos desde já que é um tema com que me identifico bastante o que está expresso regularmente na expressão "ao vivo é outra coisa" que adoptei de outras instâncias e também no subtítulo deste blog, mas lá iremos ...

Os outros capítulos deste livro já analisados:
Capitulo 2
Capitulo 1

Aproveito também para vos lembrar que já tínhamos falado deste tema quando abordamos o pianista e compositor Canadiano Glenn Gould que considerava a gravação a verdadeira forma de transmitir música. No link que aqui coloquei traduzi uma entrevista que deu à High Fidelity e em que aborda este assunto (a entrevista é muito sui-generis dado que Glenn Gould é simultâneamente o entrevistador e o entrevistado).

Tenho noção que para os dias de hoje - de consumo imediato - este post será porventura longo demais, mas lá está eu acredito no poder da palavra e acreditem que vale a pena ler até ao fim ...

O capítulo começa com uma citação de Philip Sousa (1854 - 1932) que dizia a propósito dos gira-discos (não sei na altura seriam exactamente chamados assim ou sequer se era esse o formato prevalecente já que  existiam também os rolos de Edison) "Estas máquinas falantes vão arruinar o desenvolvimento artístico da música neste país. Quando era rapaz ouvia grupos de pessoas à frente de suas casas cantando as canções do dia ou canções antigas. Hoje ouvimos estas máquinas infernais noite e dia. Em breve não teremos uma única corda vocal. Há-de chegar um dia em que ninguém estará disposto a aceitar a nobre disciplina de aprender música. Todos teremos a música já feita nos nossos armários. Algo é irremediavelmente perdido quando não estamos na presença de pessoas fazendo música. O canto do rouxinol é delicioso porque é o próprio rouxinol a fazê-lo".

Sei que parece um tanto reaccionário mas como diz Alex Ross no seu livro antes de enviarmos este senhor para o esquecimento no que diz respeito a esta opinião (saberíamos sempre separar a sua obra enquanto compositor :-)) é bom reflectir um pouco sobre as profundas mudanças que a música sofreu em menos de um século.

Como diz Alex Ross uma coisa é facto - a música é hoje algo que raramente somos nós a fazer ou mesmo que ouvimos ao vivo alguém a fazer. Outra coisa também é um facto é que desde Sousa tem havido o clã dos adeptos da catástrofe e o clã dos adeptos da gravação enquanto libertadora tanto em termos conceptuais como em termos da democratização do acesso. Para que fique claro estou a escrever isto a ouvir o presente de anos que o meu filho me ofereceu ... um conjunto de 3 DVD com as integrais de Beethoven por Karajan e a sua filarmónica de Berlim. Para que fique claro sem gravação não vos poderia ter mostrado neste blogue tantas e tantas gravações históricas e sem dúvida que esse é uma oportunidade e um valor inestimável. Não teria idade nem ocasião de ver Karajan ao vivo mas posso agora fazê-lo. Mediado por uma gravação é certo mas posso. E posso também ouvir Casals, Jaqueline du Pré e lamentar que Suggia tenha gravado tão pouco.

Mas como propõe Alex Ross vejamos pelo trabalho dos teóricos que têm acompanhado as modificações sofridas pela música quais são as alterações que a gravação veio introduzir para além da democratização já referida. Em primeiro lugar as gravações em estúdio permitem correcções que hoje vão até á correcção das notas desafinadas criando assim uma realidade virtual de perfeição. Este efeito de virtualização foi ainda amplificado pela digitalização do processo que torna estas correcções/alterações praticamente ilimitadas nas suas possibilidades. Contrariamente ao que pensamos esta tecnologia pode ser e é utilizada nas gravações de música clássica que são tudo menos "reproduções fieis de uma realidade". São isso sim criações artificiais de uma realidade perfeita. Isto é de certa forma pernicioso se não nos apercebermos dessa diferença por quanto  são essas gravações que servem de referência para as comparações que efectuamos: Há literalmente pessoas que hoje em dia não conseguem ir a uma sala de concerto porque nunca vão encontrar aquele som perfeito que ouviram na sua sala de estar. Alex Ross vai mais longe dizendo que o nosso comportamento na sala de espectáculo é modelado pelo que acontece na sala de estar. Que o silêncio entre andamentos se impôs com mais facilidade porque é isso que acontece ao ouvirmos uma gravação em que claramente não aplaudimos nem exteriorizamos o nosso prazer (ou desprazer).

Alex Ross faz então o paralelo com o principio da incerteza de Heisenberg (um principio que diz que é impossível observar determinados eventos físicos sem os alterar) para nos dizer que não só a gravação alterou a forma como ouvimos como também alterou a forma como os interpretes fazem música. Essa alteração foi essencialmente no sentido da uniformização não só por imitação dos modelos considerados superiores mas também e sobretudo porque os próprios músicos ao ouvirem-se gravados passaram a detectar falhas (ou maneirismos ou outros "defeitos" de interpretação) e procuravam corrigi-los. Por outras palavras a gravação veio introduzir de forma muito mais ditatorial uma "forma" correcta e o culto do tecnicamente perfeito mesmo que no prejuízo da espontaneidade e da paixão.

Neste ponto deixo momentaneamente o livro de Alex Ross para falar então um pouco da relação deste tema com o nosso "ao vivo é outra coisa" e com o subtítulo deste blog "a única música que precisa de embalagem é a música de plástico" até porque curiosamente as duas ultimas páginas do capitulo do livro abordam precisamente este assunto embora numa ordem diferente, num ângulo ligeiramente diferente e certamente com mais qualidade mas enfim alguma coisa tem que ficar para quando comprarem o livro do Alex Ross :-)

Quando vos digo que "ao vivo é outra coisa" é porque efectivamente é outra coisa. A expectativa do inicio da música (não há botão de play numa sala de concertos), as vozes de outros seres humanos, a respiração dos artistas - se estivermos suficientemente perto - as suas expressões únicas, as suas falhas, a forma única como tocaram naquela ocasião, o comportamento da audiência nada disto passa numa gravação. E convenha-se que contrariamente a outros tipos de música que nasceram já na época da gravação e que foram concebidos essencialmente para ela a "música clássica" foi feita para ser ouvida ao vivo. Significa então que não há espaço para as gravações? Que devemos já correr e deitar fora todos os dvds e cds e LPs que tenhamos? Não claro que não. As gravações permanecem um óptimo meio para democratizar o acesso e para registar para a posteridade o que de outra forma se perderia. Aliás essa é a diferença fundamental entre o evento ao vivo. É que a gravação exige, é feita "para sempre". A música ao vivo é a música daquele instante. Alex Ross termina o seu capítulo com a história de uma gravação da Filarmónica de Viena no dia 16 de Janeiro de 1938  dirigida então por Bruno Walter e interpretando a Nona Sinfonia de Mahler. Este foi o ultimo concerto antes dos Nazis esmagarem a Áustria. Alex Ross conta que na assistência nesse dia estava Hans Fantel (critico do New York Times) com o seu pai longe de imaginar que essa seria a ultima vez que ouviria a Filarmónica em companhia do seu pai que haveria de desaparecer enquanto "inimigo do reich" diz Hans Fattel ao ouvir esta gravação recentemente tornada pública "Tive oportunidade de reconhecer e apreciar a aura diferente desse Domingo. Pude sentir a sua intensidade não pré-fabricada um turbilhão emocional muito diferente de muitas outras gravações da Nona de Mahler que tenho ouvido desde então". Obviamente no mundo de hoje ouvir esta gravação é tão fácil quanto ir ao site da Naxos e ... ouvir ... Sim é pago mas vale os Euros se estivermos interessados no documento histórico ou em experimentar a emoção da gravação agora que conhecemos o seu contexto. De certa forma esta liberdade de se procurar e de encontrar abre o espaço ao segundo ponto.

Quanto à "música de plástico que precisa de embalagem" a questão é que na verdade a música já existia sempre existiu, muito antes de uma "industria" a ter formato em pacotes e embalagens. Estes pacotes e embalagens serviram o seu fim, tiveram e têm um papel mas esse papel possivelmente acabou ou sendo menos dramático reduziu-se. A própria tecnologia de gravação que os criou acabou por criar também o instrumento para a sua renovação. Acredito que com as formas de acesso que  hoje temos à música vamos incentivar de novo a criatividade, não mais terão artistas de "inventar" músicas para perfazer a duração de um LP ou de um CD e nós enquanto consumidores também poderemos comodamente ouvir mais, ouvir antes de comprar, comparar, receber recomendações e sobretudo estar muito mais abertos a vários tipos de música a que de outras forma dificilmente teríamos acesso porque escondidos atrás das super-produções que recebiam o peso promocional da referida industria. É a liberdade de escolha sem embalagem. Acredito que neste universo mais livre a música clássica irá encontrar o seu lugar entre as outras formas sem torres de marfim, sem complexos de superioridade mas sobretudo sem ser uma "música do passado" mas antes uma música do presente ...

Dois livros citados por Alex Ross neste capitulo e que penso merecem a vossa atenção futura. Um bastante recente: Performing Music in the Age of Recording de Robert Philip e o histórico (porque inevitavelmente citado e o fundamento para bastantes reflexões posteriores: The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction (Penguin Great Ideas) de Walter Benjamin.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fernando Lopes Graça (1906 - 1994)

Um país que conte num século com músicos da qualidade de Vianna da Motta, Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos e Fernando Lopes Graça entre outros só poderia estar feliz e considerar-se certamente um dos marcos culturais da Europa. Aparentemente poucos entre nós se apercebem da dimensão destes vultos.

Fernando Lopes graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906 onde iniciou os seus estudos de piano. Ingressa depois no Conservatório Nacional onde viria a ser aluno de Vianna da Motta (piano) e o Padre Tomás Borba (outro dos grandes vultos musicais portugueses do século XX e praticamente desconhecido a não ser de uma minoria) e Luís de Freitas Branco (composição e Ciências Musicais). Viria a terminar o curso do Conservatório em 1931 com a classificação máxima tendo obtido em 1934 uma bolsa de estudo para estudar em Paris com Charles Koechlin.

Porém tal como tinha sido anteriormente proibido de exercer no conservatório Nacional por razões politicas exactamente pelas mesmas razões vê-se impedido de aproveitar essa bolsa deslocando-se no entanto para Paris (1937) a custas próprias para estudar com o referido professor.  Volta a Portugal em 1940 sendo então convidado por Tomás Borba para leccionar na Academia de Amadores de Música lugar que guardaria até 1954 altura em que a ditadura lhe retira a licença para leccionar sendo portanto privado de meios de subsistência.

Inspirando-se em Bela Bartok de que era confesso admirador inicia também nessa altura  (1940) com Michel Giacometti (há algumas biografias que indicam que este trabalho se iniciou em 1961 - não sei como dirimir entre as duas versões) uma recolha da música popular portuguesa trabalho absolutamente notável e que irá infelizmente em conjunção com um outro facto que relataremos de seguida diminuir a visibilidade da sua obra enquanto compositor. Porém contrariamente a Bartok Lopes Graça muito mais raramente incorporou nas suas obras sinfónicas elementos estilizados desse folclore (a influência existe mas a construção é diferente). Excepção deve-se fazer claro às harmonizações de canções populares que escreveu para vários coros (e outras obras para piano solo como por exemplo As Glosas)

Este ultimo facto leva-nos directamente à segunda razão pela qual muitas vezes se reduz Lopes Graça a um compositor "de intervenção" que sem dúvida foi mas que na minha opinião (e de muitos outros certamente mais relevantes como por exemplo o Maestro António Vitorino d´Almeida)  está longe de ser a parte mais relevante da sua obra. É certo que Acordai por exemplo é um marco relevante mas o que dizer então do concerto para Violoncelo obligatto (1969).  Na verdade se antes da revolução de 25 de Abril de 1974 se procurava ignorar a obra do compositor por razões politicas depois dessa data a faceta de resistente acabou por diminuir o crédito ao compositor de obras que não possuíam essa faceta.

É que para além do já referido concerto existem uma boa dezena de outras obras absolutamente notáveis. Dessas obras podemos salientar o conjunto de seis sonatas para piano (1931-1984recentemente interpretadas por António Rosado e editadas pela Numérica em colaboração com a câmara Municipal de Matosinhos pela ocasião do aniversário do falecimento do compositor (Ref.: NUM 1124 [Cd Duplo]) ou ainda no que diz respeito a obras para piano "In Memorian Bela Bartok" também interpretadas por António Rosado recentemente e igualmente registadas pela Numérica (Ref.: NUM_1145).

A titulo de curiosidade note-se que esta predilecção por Bartok lhe valeu (para além do óbvio mérito artístico que tinha) a honra de ser convidado pelo governo húngaro para participar no 100º aniversário do nascimento de Bela Bartok (1981). Ainda neste registo António Vitorino d´Almeida faz-nos notar que na sua obra "Requiem pelas vitimas do Fascismo em Portugal" Fernando Lopes Graça começa a obra com exactamente as mesmas notas com que o compositor Húngaro inicia uma das suas obras primas: A Música para Cordas, Percussão e Celesta . António Vitorino d´Almeida não acredita que seja uma coincidência ...

Continuando o registo de obras notáveis (e havíamos prometido uma dezena fácil) claramente não podemos esquecer o Quarteto para Cordas nº 1 com o qual vence o prémio Rainier III do Mónaco de composição que também não consegui localizar (ainda).

Canto de Amor e de Morte, Sinfonia Per Orquestra, Quatorze anotações para quarteto de cordas, sete Lembranças para Vieira da Silva seriam outras obras que recomendamos (entre outras) para quem deseje conhecer melhor o génio deste compositor português.

Não esquecendo claro está toda a sua vasta produção para crianças desde o Álbum do Jovem Pianista até às canções de embalar.

Recomenda-se para quem deseje saber mais sobre a obra do compositor uma visita ao Museu da Música Portuguesa onde se encontra todo o espólio do compositor. No próprio site também se encontram fotografias e documentos online bastante interessantes como por exemplo alguns recortes de imprensa recolhidos pelo próprio Fernando Lopes Graça sobre as várias estreias das suas obras e outras actividades. entre estes documentos escolhemos um artigo de João de Freitas Branco escrito a propósito de uma conferência que Lopes Graça proferiu na "sua" Academia dos Amadores de Música.

Dizia Lopes Graça acerca da música: "«Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance?» pergunta Lopes-Graça nos anos trinta. A resposta será o seu caminhar resistente reflectido nestas palavras: « Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia». - citado de Vidas Lusófonas - Lopes Graça.

Fernando Lopes Graça faleceu na Parede (perto de Lisboa) a 27 de Novembro de 1994.

Outras obras consultadas:

Oportunidades na Amazon