segunda-feira, 23 de abril de 2012

Erik Satie - Vexations e as eleições em França

Erik Satie foi um músico muito difícil de definir. Se tivéssemos de escolher uma única palavra para o definir escolheríamos revolução. E em homenagem à França, em homenagem às promessas que alguns reputam de impossíveis ou irrealizáveis deitando por terra 80 anos de evolução ao abrigo de um liberalismo de que por vezes não entendem totalmente as consequências, em homenagem a Satie habitante sempre de uma "banlieue" pobre de Paris, em homenagem ao revolucionário membro do Partido Socialista Radical e sobretudo em homenagem a quem em 1903 sem ter praticamente nada empregava uma boa parte do seu tempo no auxilio dos menos afortunados do que ele, em homenagem a tudo isso deixo-vos:

Vexations de Erik Satie

Com algumas pequenas explicações:
1) Não sou (infelizmente?) revolucionário como Satie mas não posso deixar de protestar publicamente contra a destruição de um estado social só porque dá jeito a quem já não sabe muito bem como resolver um problema que criaram, não com o estado social mas com a destruição de alguns valores que precisamente o suportam (o estado social).
2) A homenagem com esta obra que consiste em 180 notas repetidas 840 vezes é uma dupla metáfora para que fique claro a minha intenção. Em primeiro lugar esta obra faz a o papel daquilo que nos dizem nos jornais como se pela repetição infindável se tornasse mais verdade. Um pouco como Blaise Pascal defendia para a fé mas também nesse particular como aqui é uma má solução. A repetição é apenas isso mesmo repetição. Torna as coisas familiares aos nossos ouvidos, é um óptimo happening mas não se torna verdade. Espero que tenhamos a sensatez para ouvir para além dos soundbytes com que nos bombardeiam diariamente.
3) Mas dizia é uma dupla metáfora porque sendo das obras mais longas que conheço (a execução total das 840 repetições pode durar de 16 a mais de 24 horas) essa duração é a melhor expressão relativa da nossa capacidade de memória e de nos relembrarmos ou estudarmos como era a sociedade antes desse "horrível" edifício que é o estado social. Porque não tenhamos dúvidas que é para aí que se caminha se persistirmos ...

domingo, 22 de abril de 2012

Gnossiennes de Erik Satie

Continuando a mostrar-vos o conjunto de 100 obras que escolhemos para quem quer conhecer e começar a gostar de música clássica (são um pouco mais de 100, fizemos alguma batota :-)) hoje proponho-vos, na sequência do post de ontem, as Gnossiennes também de Erik Satie.

Dizer que Erik Satie era excêntrico peca talvez por ser um eufemismo. Satie sempre viveu nos extremos de forma pouco convencional. Na verdade sempre foi um revolucionário em todas as dimensões em que procurarmos.Na música foi certamente onde esta forma de estar produziu os seus frutos mais perenes.

As Gnossienes foram compostas cerca de dois anos após as Gymnopédies sendo publicadas pela primeira vez num jornal "Figaro Musical" - as três primeiras Gnossienes isto é - dado que as ultimas três apenas foram publicadas em 1968 sendo discutível que Satie sequer as tivesse considerado como fazendo parte deste conjunto.

O nome deste conjunto de peças é também ele sujeito a várias interpretações. Há quem pense que deve ser entendido como uma derivação de uma palavra Grega que remeteria assim para a mitologia Grega do Minotauro explicação que dada a ligação de Satie ao surrealismo poderia fazer algum sentido. Há também quem defenda que ao contrário que este nome se deveu às ligações de Satie à religião Gnostica (Satie chegou a fundar uma "Igreja" de que era o único fiel - ao mesmo tempo uma contradição e uma afirmação desse carácter Gnóstico paradoxo tão fiel ao seu humor e ao gosto pelos paradoxos também eles característicos dos surrealistas franceses da época.

Pessoalmente penso que Saite inventou a palavra sem pensar muito em outra referência que não fosse tratar-se de um conceito totalmente novo. Na verdade na altura escrever música sem barras de compasso e sem uma verdadeira indicação de tempo, a não ser indicações "poéticas" que muitos pensam ser gozo aos impressionistas (em particular Debussy) - "avec étonnement" diríamos poder ser assim ou talvez não.

Embora sejam cronologicamente posteriores às Gymnopédies (1888) alguns musicólogos pensam que na verdade estas obras estão mais directamente ligadas às Trois Sarabandes de 1887.

Optamos por vos mostrar as 7 composições hoje em dia classificadas e interpretadas segundo esta classificação embora como vos referi apenas as três primeiras tenham sido efectivamente publicadas por Satie segundo esta designação.

Gnossiene nº1
Gnossiene nº2 - Avec étonnement
Gnossiene nº3 - Lent

Gnossiene nº4 - Lent
Gnossiene nº 5 - Moderé
Gnossiene nº 6 - Avec conviction et avec une tristesse rigoureuse
Gnossiene nº 7 - Allez. Calme.

sábado, 21 de abril de 2012

Gymnopédies de Erik Satie

Injustamente proclama-se que começou aqui a música de elevador. Injusto porque embora seja verdade que Satie compôs obras que ele considerava como "musica de ambiente" estas peças não faziam parte desse conjunto.

Injusto numa dimensão oposta para outros compositores que já antes haviam composto obras para funcionarem com música ambiental (uma delas aliás está na nossa Lista das 100 obras de Música Clássica - Taffelmusik de Telemann).

Compostas e editadas em 1888 - a primeira e a terceira já que aparentemente a terceira apenas foi editada cerca de sete anos mais tarde - estas obras não tendo para mim a dimensão emocional das Gnossiennes de que falaremos de seguida não deixam de ser obras notáveis e muito mais do que simples música ambiente sem desprimor para esta ultima porque em doses reduzidas também há espaço para ela no Mundo ...

Estas obras foram orquestradas por Debussy quase imediatamente de forma que é possível que conheçam também a versão orquestral (a primeira e terceira já que Debussy considerava a segunda inadequada para esse fim).

Quanto ao nome destas peças embora se tenham tentado encontrar várias explicações o mais provável é Satie ter escolhido o nome apenas pelo seu toque de exotismo. Na altura da edição as partituras incluíam um poema do seu amigo, companheiro e poeta Contamine de Latour em que este termo é utilizado. Porém não é claro se o poema precedeu a composição ou vice-versa.


Tendo em conta o carácter de Satie e o seu gosto pela sonoridade das palavras inclinamo-nos para uma explicação simplesmente "fonética". Estas peças pela simplicidade que demonstram foram na verdade uma verdadeira revolução na escrita para piano solo. As Gnossiennes de que falaremos de seguida exploram e expandem estas ideias.

Gymnopédie nº 1 - Interpretação de Aldo Ciccolini
Gymnopédie nº2 - Interpretação de Maria Aloupi
Gymnopédie nº 3 - Interpretação de Aldo Ciccolini

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Richard Strauss escreve a Hitler

Naquele dia 13 de Julho de 1935 conta-nos a Diapason Richard Strauss escreve a Hitler assegurando o ignóbil ditador da sua "profunda veneração".  Tinha acabado de ser despedido do cargo de Director Artístico da Música de Câmara do Reich e nessa carta ajoelhava-se e apelava ao sentido de justiça do ditador.



É verdade que a razão do despedimento esteve directamente ligada à exigência de manter no programa da sua ópera o nome do libretista (judeu) Stefan Weig. É esta atitude dual que é tão difícil de entender em Strauss. Por um lado tem a coragem de resistir e não ceder mas por outro reconhece a autoridade do ditador mesmo quando os seus "pedidos" são inaceitáveis.

Será difícil de entender mas devemos compreender que Richard Strauss na verdade tinha um ego do tamanho do mundo. Não acreditava estar em perigo e pensava genuinamente que salvaria a música alemã. Não dos "perigos" do judaísmo mas eventualmente de si própria. O choque do despedimento é mais a incredulidade perante aquilo que pensava ser impossível do que qualquer outra coisa.

Strauss sempre teve uma atitude ambígua, bivalente porque aceitava mas também criticava e defendia na prática quem era injustamente oprimido ou pior. Terá assim salvo muitos músicos ...

Goebels que interceptou uma carta de Richard Strauss para Stefan Weig achava o músico perigoso. acreditamos que não forçosamente pelas suas ideias resolutas mas mais pelo facto de nada recear. Essa independência que provinha do seu enorme ego era perigosa. Mais perigosa do que uma qualquer militância. E essa carta em que Richard Wagner perguntava se alguém achava que Mozart escreveu conscientemente enquanto "ariano" foi sabiamente utilizada para o afastar.

Richard Strauss não foi corajoso porque a coragem pressupõe a noção do perigo e Strauss julgava estar acima dele, mas é verdade que com família judia tinha muito em risco e por isso talvez não seja justo vê-lo desta forma. Facto é que nunca foi na verdade nazi e que salvou muitos seres humanos de uma morte trágica. Coragem e resolução? Talvez não, essa estava guardada para a sua música.

Um ano mais tarde em 1936 comporia e dirigiria o seu Hino Olímpico que em parte vos mostramos neste vídeo.

Hino Olímpico em Berlim dirigido por Richard Strauss.

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