terça-feira, 24 de junho de 2008

Schubert - "Winterreise" - "Auf dem Fluße" - No Rio


A tradução original do poema é de Eduardo Gabarra que poderão encontrar aqui. Fizemos ligeiras alterações à tradução que apontamos em azul. A ilustração é da grande voz Lotte Lehmann. Também são dela as principais indicações que damos quanto a esta canção provenientes do livro "Eightheen Song Cycles - Studies in Their Interpretation". Não deixem também de ler o artigo sobre este conjunto de canções aqui.

Esta canção começa com uma introdução de uma clareza cristalina de grande quietude mas com a impressão que a qualquer momento a torrente de sentimentos que tentamos dominar pode voltar à superfície e quebrar o gelo. É esse ressurgir que ouvimos no crescendo final.

Para ouvirmos esta peça tranquilamente recomendamos o nosso barítono de serviço Dietrich Fischer Diskau aqui.


Sobre o Rio

Rio que corrias tão alegre,
rio tão claro e solto,
tornaste-te silencioso,
sem te despedires de mim.

Cobriste-te
com uma crosta dura e imóvel
esticando-te frio e parado
sobre a terra.

Na tua superfície gravei
com uma pedra pontiaguda
o nome de minha amada,
a hora e o dia.

O dia de nosso primeiro encontro,
o dia da minha partida:
em torno do nome e das figuras
está traçado um anel partido.

Meu coração, não reconheces nesse rio
a tua imagem ?
Não há também uma torrente furiosa
sob tua superfície ?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

As pesquisas interessantes da semana

Esta semana voltamos às pesquisas interessantes. Desta vez encontramos tantas perguntas interessantes que agrupamos algumas e tivemos de criar alguma categorias para haver alguma ordem.

Perguntas Inspiradoras

músicas interpretadas pela orquestra criança cidadã
Não fazia ideia que este projecto existia. Gostei tanto da ideia que me merece um post individual. Não sei se o conseguirei fazer hoje mas para já vejam este post no YouTube.

Perguntas sobre teoria da música (ou biográficas ou históricas)

"música :transição para o barroco ; da música antiga ao barroco"
"que tipo de musica Claudio Monteverdi compôs?"
Agrupei estas duas pesquisas já que a resposta pode ser dada de forma conjunta. Na verdade a forma musical antes do Barroco . Claudio Monteverdi um dos grandes representantes do início do período barroco é particularmente ilustrativo desta ruptura por ter escrito obras nos dois estilos. Compôs todo o tipo de obras desde música sacra até música instrumental passando pela ópera onde foi responsável pela recriação da ópera clássica.

"musica francesa tocada na época de Molière"
No período de Molière há três músicos fundamentais: Couperin, Lully e Rameau. era a música destes a mais ouvida no tempo de Molière. Inclusivamente Lully compôs variadíssimas peças para musicar peças de Molière.

"quero saber se as quatro estações de Vivaldi foram compostas para serem cantadas?"
Não. Não foram. No inicio de cada um dos concerto que compõem as quatro estações era costume ler um poema que de certa forma contextualizava a peça. Mas era tudo em termos de voz.

diferença entre ópera romântica e ópera clássica
A ópera clássica é aquela que se inicia (ou melhor que se reinicia dado que esta foi criada á imagem do modelo grego-romano) com o inicio do Barroco com Monteverdi. esta forma tal como a música para orquestra sofreu uma evolução que se traduziu essencialmente numa instrumentação orquestral e vocal muito menos contida, muito mais expansiva e directa.

existia violino no período do romantismo
Minha nossa estão certamente a dizer os nossos leitores brasileiros. Se existia? O reportório actual do violino - pelo menos o mais exigente do ponto de vista técnico provém exactamente deste período. A título de exemplo oiçam o concerto para violino e orquestra de Tchaikovsky ...

compositores do período contemporâneo
Ora bem, ainda não chegamos lá. Confesso que é um período de que me vai ser dificil falar porque não gosto muito, aliás para ser franco gosto mesmo muito pouco ou nada. Vou assim tentar aprender convosco à medida que for pesquisando. Mas ainda não estou preparado para essa aventura e por isso vão ter de esperar. As minhas desculpas ...

Perguntas utilitárias

"sercultur"
Empresa que actualiza o portal cultura.sapo.pt e que nos proporciona o widget da coluna da direita com sugestões "clássicas" para os nossos tempos livres. São também das sugestões da Sercultur que retiro alguns dos destaques para as recomendações da quinta.

aprender violino em carnaxide
Bom, admito que uma das recomendações que vou fazer não é completamente independente. Eu diria que em Carnaxide pela proximidade e porque é na verdade uma excelente escola - o meu filho já esteve em vários workshops com alunos deste conservatório e pelo seu nível posso atestar isso - poderia recomendar o Conservatório de Linda-a-Velha. Uma outra escola que certamente vos recomendaria é precisamente a escola onde o meu filho está a aprender: A Academia de Música de Lisboa de que eventualmente conhecem a Orquestra "Os Violinhos". Saiba mais aqui.

órgãos de portugal
Se querem saber sobre os orgãos existentes em Portugal voltamos a recomendar a visita ao nosso blog de referência sobre o assunto. Veja aqui os Orgãos de Portugal.

Perguntas metafisicas ou insondáveis

para que serve um concerto de uma orquestra
para que serve a musica
Perguntas metafisicas sobre a utilidade das coisas abstractas são recorrentes. A música ou um concerto de uma orquestra para mim serve para nos assegurarmos da nossa capacidade de transcendência. Celebramos a forma de dizer o indizível, de exprimir o que não sabemos explicar, de atingir o inatingível - o amor absoluto, a poesia absoluta. Bach por exemplo compunha para comungar com Deus. Eu oiço música para comungar com a alma dos homens.

musica clássica começa violino tensão
Confesso que se tivesse aqui uma sequência dos hieróglifos das pirâmides de gizé não estaria menos baralhado. Será que o cibernauta procurava saber de uma música clássica que começa com um solo de violino e serve para criar tensão? Será que o cibernauta não gosta de virgulas ? Será que o cibernauta é o Saramago ? O que acha Maria do Carmo. Umas virgulas aqui ajudavam, lá isso ajudavam.

musica não para não para
Bom confesso que não entendo o motivo desta pesquisa. Em todo o caso ficou como registo a persistência. Não para, Não para ... duas vezes. Para mim nunca para mesmo.

homens que gostam de musica clássica
Por oposição a ? Aos homens de que não gostam? Será que são assim tão poucos que se possa fazer uma lista ? Com entrada na Wikipédia e tudo ?

como entender musica clássica
É uma boa pergunta. Atrevo-me a dizer que primeiro seria melhor aprender a gostar. Mas para gostar não precisa de entender? Não existe uma resposta fácil. Ou melhor a minha recomendação é: Vá visitando este blog. Vai primeiro aprender a gostar. Aos poucos vai descobrir que até já percebe bastante. Ao ponto de me colocar perguntas realmente difíceis ...

Fiquem bem e continuem a aproveitar toda a música que é a vida.

domingo, 22 de junho de 2008

Schubert - "Winterreise" - Wasserflut (A Enchente)


A tradução original do poema é de Eduardo Gabarra que poderão encontrar aqui. Fizemos ligeiras alterações à tradução que apontamos em azul. A ilustração é da grande voz Lotte Lehmann. Também são dela as principais indicações que damos quanto a esta canção provenientes do livro "Eightheen Song Cycles - Studies in Their Interpretation". Não deixem também de ler o artigo sobre este conjunto de canções aqui.

Nesta canção segundo Lotte Lehmann nos conselhos que dá para a sua interpretação o importante é ser capaz de trazer a paixão da vida para o esqueleto de uma melodia muito austera. Diz também que dar demasiados detalhes seria a sua destruição. Nós não queremos discordar da nossa referência por isso sem mais demoras leiam o poema ao mesmo tempo que ouvem uma interpretação do barítono aqui.


A Enchente

Tantas lágrimas dos meus olhos
caíram na neve;
os seus flocos gelados embebem-se
sedentos, da minha dor ardente.

Quando a relva estiver para crescer
um vento morno soprará
e o gelo vai quebrar-se em pedaços
e a neve desfeita derreter-se-à

Neve, conheces o meu anseio,
diz-me , para onde corre o teu curso ?
Se apenas seguires as minhas lágrimas
logo irás dar ao ribeiro.

Passarás com ele através da cidade,
entrando e saindo de ruas alegres;
quando sentires arder as minhas lágrimas
aí estará a casa de minha amada.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Schubert - "Winterreise" - Der Lindenbaum (A Tília)


A tradução original do poema é de Eduardo Gabarra que poderão encontrar aqui. Fizemos ligeiras alterações à tradução que apontamos em azul. A ilustração é da grande voz Lotte Lehmann. Também são dela as principais indicações que damos quanto a esta canção provenientes do livro "Eightheen Song Cycles - Studies in Their Interpretation". Não deixem também de ler o artigo sobre este conjunto de canções aqui.

Na verdade por mais que nos esforcemos andamos sempre em círculos. A memória da bem amada que nos traiu traz-nos de volta ao portão e à tília à sombra da qual tantas vezes nos sentamos e namoramos. Sentamo-nos então e uma espécie de paz acolhe os nossos pensamentos por um momento. Mas de novo a angústia da separação nos invade e voltamos a prometer que partiremos para sempre.


A Tília


Junto ao poço do portão
ergue-se uma tília;
quantos sonhos doces
embalei à sua sombra.

Em seu tronco gravei
muitas palavras de amor;
na dor e na alegria
para ela sempre corri.

Hoje passei por ela
no meio da noite profunda
e mesmo na escuridão
tive que fechar os olhos.

E seus galhos sussurravam
como se me chamassem:
"Venha para cá, amigo,
aqui encontrará a paz".

Os ventos frios sopravam
na minha face,
o chapéu voou-me da cabeça,
mas não me voltei para trás.

Agora estou a muitas horas
de distância daquele lugar
mas continuo a ouvir o sussurro:
"Aqui você encontrará a paz !"

Neste caso temos uma interpretação convencional e uma interpretação "alternativa" que escolhi porque apesar de existirem variações sensíveis à melodia composta por Schubert a voz de Nana Mouskouri é tão doce que eu simplesmente não resisti. Oiçam assim Nana Mouskouri a interpretar aqui Der Lindenbaum. No que diz respeito à interpretação clássica sugerimos o habitual Dietrich Fischer-Dieskau aqui.

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