terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Robert Schumann - Concerto para Violino (uma história com violinistas videntes)

Se a história do Concerto para Violoncelo de Schumann é bastante original com vários maestros e interpretes a acharem que podiam melhorar a obra do compositor a história que rodeia o concerto para violino então é absolutamente esoterica.

O concerto foi composto em 1853 apenas meses (Outubro) antes do compositor ter tentado o suicídio atirando-se ao rio (Fevereiro de 1854). Este período coincidiu com o aparecimento de Brahms na vida do compositor. Este facto viria a estar ligado à história do concerto. Este foi escrito para o grande violinista Joseph Joachim de que já falamos muitas vezes neste blog. Na realidade nesta altura todos os grandes compositores românticos ao escreverem um concerto para violino não poderiam deixar de pensar neste instrumentista. O facto é que Schumann entregou o manuscrito ao interprete e este depois de o ter ensaiado uma vez na corte de Hanover não mais lhe tocou (como aliás fez a muitas outras obras) tendo depositado o manuscrito do mesmo na Biblioteca do Estado da Prússia. Joseph Joachim considerava que a obra era mórbida e o produto já não do génio do compositor mas sim da sua loucura. A história na verdade e um pouco mais complicada dado que Clara Schumann que no inicio pensava que a obra merecia ser publicada acabou por concordar com Joachim atribuindo-lhe a guarda do manuscrito e dando-lhe  instruções para que este não fosse publicado (apesar da opinião contrária de Brahms e note-se que Brahms tinha conhecido Schumann precisamente graças a Joachim). Joachim limitou-se assim a cumprir escrupulosamente os desejos da viúva de Schumann.

O facto é que o manuscrito ficou assim arrumado e não fosse uma brilhante violinista Jelly d'Aranyi (1895-1966) - por acaso amiga de Elgar (o grande compositor britânico que considerava Schumann "o seu ideal") ser também espirita (pronto aqui vendo-vos a história como ela é contada :-)). Facto é que o manuscrito foi re-descoberto em 1933.

Até 1937 nada mais aconteceu altura em que o editor enviou a Menuhin a partitura para obter uma opinião. Menuhin interpretou o concerto e respondeu dizendo que era o "elo" que faltava na história dos concertos para violino e preparando-se para a sua estreia. Porém foi interrompido no processo precisamente por Jelly d'Aranyi que reclamava o direito de estrear o concerto.

Se acham que esta história é curiosa esperem porque não acaba aqui. Lembremos que estávamos nessa altura em pleno Nazismo na Alemanha e que o concerto para violino de Mendelssohn ( que era judeu) tinha acabado de entrar na lista das obras proibidas. Logo este concerto de Schumann era ideal para a necessária substituição e respectiva proclamação da superioridade ariana. Sendo assim obviamente não poderia nunca ser estreado por um outro judeu (Menuhin - seria uma desgraça). Tinha de ser estreado na Alemanha por um solista alemão uma orquestra alemã e um maestro alemão: tudo na mais pura tradição ariana.

Foi assim que a obra finalmente viu a luz do dia a 26 de Novembro de 1937 sendo solista Georg Kulenkampff com a Filarmónica de Berlim dirigida por Karl Böhm. Claro que este começo como obra de propaganda, de que obviamente não tinha culpa absolutamente nenhuma, também não ajudou ao seu reconhecimento uma vez a guerra terminada.

Felizmente Menuhin acabou por conseguir ultrapassar o boicote tendo estreado a obra duas semanas após a estreia na Alemanha o que contribuiu certamente para evitar que a obra ficasse tristemente associada a um estupidificante regime com o qual obviamente não tinha nada a ver.

O concerto em si segue a estrutura clássica em três andamentos. Fiquem aqui com a interpretação e gravação de 1937 de Menuhin, precisamente a segunda como acabei de vos contar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As 10 mais interessantes pesquisas da semana (2010 - #01)

As 10 pesquisas da semana (2010 - #01)


1. "seit ich ihn gesehen" traducao : Este título pode ser do Op. 42 de Schumann. Na altura tínhamos publicado uma parte do poema traduzido em Inglês. Em português (sem me preocupar com a musicalidade ou a métrica) fica:

Desde que o vi
Acredito que estou cego
Para onde quer que olhe
apenas a ele o vejo
Como se sonhasse acordado
a sua imagem flutua à minha frente
emerge do negro mais profundo
e eleva-se na luz


Tudo o resto é escuro e sem cor

por todo o lado à minha volta
já não desejo partilhar 
os jogos das minhas irmãs
Preferiria chorar
em silêncio no meu quarto
desde que o vi 
acredito ser cego

2. a nona sinfonia de schubert : Falamos desta obra curiosamente descoberta em Viena por Schumann, o compositor que tem ocupado os nossos últimos dias, aqui.
3. baquianas : Obviamente este leitor procurava informação sobre a obra de Villa-Lobos que infelizmente ainda não temos aqui no nosso site. Cronologicamente ainda não chegamos a esta época. Num curto resumo diremos que esta obra (a ortografia mais comum seria Bachianas) é constituída por nove suites para vários tipos de agrupamentos instrumentais e voz sendo o seu elemento comum a miscigenação entre a música popular brasileira e o estilo de Johann Sebastian Bach. Oiçam por exemplo esta interpretação do Prelúdio da Bachiana nº1 (interpretação fabulosa dedicada à memória do grande Rostropovich). De todas as Bachianas a mais conhecida é a Cantilena da nº5 (composta para 8 violoncelos e soprano). Para vos ilustrar esta pequena maravilha proponho (só podia não é?) uma interpretação de Bidu Sayão. Tenho de vos confessar que esta obra me emociona sempre que a oiço.
4. biografia domenico scarlatti: Sim falamos deste compositor nesta biografia resumida.
5. charpentier biografia : Escrevemos uma curta biografia deste compositor especialmente conhecido pelo "hino" da eurovisão que tantas e tantas vezes ouvimos.
6. dvorak valsa: É dificil adivinhar o que este leitor procura dado que na lista das obras de Dvorack há pelo menos três obras que podem ser o objecto da pesquisa. Duas Valsas (Op. 54) para Orquestra de cordas, B99 - Valsas de Praga (para Orquestra) e finalmente B101 - Oito Valsas para piano. Podem ouvir as Valsas de Praga por exemplo. Isto para já não dizer que o nosso estimado leitor poderia estar à procura do "Tempo de Valsa" do Op. 44 por exemplo aliás uma parte absolutamente fantástica desta obra
7. fidelio" quatro versões: Na verdade conforme foi referido aqui existem quatro versões da abertura
8. ivan vsevolozhsky : Director dos Teatros Imperiais no tempo de Tchaikovsky. Há muitos que defendem que é graças a ele que temos hoje obras como o Quebra Nozes ou o Lago dos Cisnes. Não posso garantir em absoluto que assim seja mas que o seu papel tem sido muito injustamente subalternizado ao talento do compositor.
9. qual é a melhor musica do paganini: É sempre dificil de dizer qual a "melhor" música mesmo quando se trata de um compositor como Paganini cujas obras são relativamente homogéneas quanto ao seu género. Em minha opinião Paganini tem duas obras mais interessantes. Os Caprichos (24) e o primeiro concerto para violino e Orquestra. Podem comparar por exemplo o ultimo Capricho por Heifetz ou nº2 por Vengerov. do Concerto para Violino e Orquestra podem ouvir o início do primeiro andamento.
10. you tube david oistrak : Felizmente há muitos muitos vídeos de David Oistrakh no You Tube. Para cima de 1000 para ser exacto muitos com imagem outros apenas com som. A qualidade de som dos mesmos não é sempre brilhante (aliás normalmente não é) entre a relativa pouca qualidade da gravação da altura, a deterioração do meio e sobretudo a compressão a que alguns dos vídeos foram submetidos por vezes o resultado não é muito bom mas há alguns momentos históricos que de qualquer forma valem por si. Para ilustrar isso escolhi a estreia de Oistrack na televisão americana num video em que toca o duplo de Bach com o seu filho Igor Oistrack ele também um violinista (e violetista) notável - sim nessa altura a música clássica passava na televisão americana EM PRIME TIME e estamos a falar de 1963 não fez ainda 50 anos. O segundo extracto que vos vou recomendar é outra ocasião histórica por acaso (ou não) também Bach e precisamente o primeiro (e segundo) andamento do concerto de que ouviram há pouco o segundo e terceiro andamento. Trata-se de uma interpretação de Menuhin e Oistrack (não foi fácil que este concerto acontecesse - Menuhin conta a esta história em vários outros videos no You Tube) não nos esqueçamos que estavamos nessa altura em plena guerra fria e que a música era uma forma das formas de demonstração da superioridade relativa dos sistemas ... Se quiserem ouvir mais Oistrack podem por exemplo ouvir esta Playlist no Youtube que tem 47 obras fantásticas e que curiosamente termina com os dois duos que vos mostrei ... 
Extra: "o fim": Há muito tempo que não tínhamos uma questão do tipo metafisico. Não o blog não vai encerrar, quanto às obras de música sim elas têm um principio, um meio e um fim embora se diga que por vezes sejam ou devam ser continuadas pelo silêncio ... 

Pesquisas Recorrentes
  • Biografia de Cláudio Monteverdi: Leiam aqui uma curta biografia.
  • Biografia de Henry Purcell : Temos efectivamente uma biografia de Henry Purcell no nosso blog. Podem ler aqui.
  • Biografia de Vivaldi : Leia aqui uma biografia com aspectos principais da vida deste compositor do período barroco.
  • Biografia de Jean-Pierre Rampal : Leia aqui uma biografia deste flautista do século 20 que devolveu à flauta o estatuto perdido de instrumento solista.
  • O que é a música clássica: Leia aqui uma resposta possível.
  • O que é um concerto grosso : Leiam aqui uma curta definição com links para alguns exemplos.
  • Sinfonias de Beethoven : Efectivamente analisamos as nove sinfonias de Beethoven recorrendo em parte aos textos de Berlioz. Neste post fizemos uma lista de todos os posts relativos a essas obras.
  • Sonata Appassionata: Esta obra de que falámos neste post foi na altura uma autêntica revolução na composição para piano tirando o máximo partido da versatilidade e capacidade sonora dos novos instrumentos. O nome não foi escolhido por Beethoven
  • Grandes Maestros : Vejam aqui a lista
  • Grandes Violinistas: Vejam aqui a lista
Estatísticas

Tivemos esta semana 345 visitas de 12 países diferentes das quais 239 de Portugal, 80 do Brasil e 5 de três países em ex-aequo no terceiro lugar: Alemanha, Luxemburgo e Espanha (creio que estes dois últimos são estreias no podium) . Lisboa com 89 visitas foi a cidade com maior número de visitas em segundo lugar ficou o Porto com 42 visitas e finalmente em terceiro Botucatu no Brasil com 15 visitas (este cidade do estado de São Paulo não é estreia neste top).

Destas 55 foram directas, 106 foram através de sites de referência enquanto 156 foram de motores de pesquisa. 28 visitas vieram do feedburner enquanto nesta semana temos tido em média 19 leitores por dia que nos lêem através de feeds (de um total médio de 237 subscritores). Isto significa que o número total de leitores deverá ter sido 478 (feeds + visitas "normais").

domingo, 10 de janeiro de 2010

Rober Schumann - Os Concertos para instrumento solista e Orquestra

Robert Schumann compôs três concertos para um instrumento solista e Orquestra. Um concerto para piano de que falamos quando da votação do nosso concerto de piano preferido, um concerto para violino (woo 23) que ficou durante muito tempo desconhecido e que está envolto em histórias rocambolescas que envolvem inclusivamente videntes e aparições do espírito do compositor (esta história fica para amanhã) e o Concerto para Violoncelo Op. 129 em Lá Menor composto em 1850 logo após Schumann ter sido nomeado Director Musical em Dusseldorf de que vos vamos falar hoje.

A obra nunca foi estreada durante a vida de Schumann e muito embora não tendo sessões espíritas pelo meio não deixa de ter uma história musical muito pouco ortodoxa após o falecimento do compositor. Uma grande parte do que vos vou contar de seguida é inspirado pela excelente análise do violoncelista filandês Anssi Karttunen. Este violoncelista escreveu este texto curiosamente motivado pelo convite para vir interpretar na Casa da Música do Porto uma versão deste concerto re-orquestrada por Schostakovich a pedido do grande violoncelista Rostropovich. Podem ler este texto em Inglês aqui (se tiver tempo talvez o traduza e nessa altura o link para a tradução ficará aqui :-) ).

Este facto leva-nos desde logo ao primeiro comentário que aliás já encontramos nos textos que escrevemos sobre as obras Orquestrais de Schumann. Segundo Anssi Karttunen (e eu tendo a concordar) existe um pré-concebido muito forte quanto às capacidades orquestrais de Schumann sendo que este pré-concebido nos leva muitas vezes a simplesmente ignorar a orquestração original sem lhe dar a devida atenção. O violoncelista finlandês aponta três razões para este pré-concebidos: Primeiro a maior dimensão das orquestras que poderá levar a um som menos claro que segundo este violoncelista contribui para esconder as subtilezas da orquestração de Schumann. Em segundo lugar o desrespeito pelos tempos indicados que tornam as variações baseadas na velocidade de execução imperceptíveis (fazendo assim por vezes parecer que existem repetições dispensáveis). Finalmente em terceiro lugar a utilização de rubatto (especialmente nos concertos) reforça o anterior problema.

Por outras palavras a música de Schumann apresenta características que são bastante pouco ortodoxas e que não se coadunando bem com os arquétipos correntes da música clássica levam muitas vezes os interpretes a procurar soluções convencionais que modificam sem verdadeira necessidade o que Schumann pretendia.

O Concerto apresenta-se numa forma aparentemente "clássica" em três andamentos . Dizemos numa forma aparentemente clássica dado que é óbvio pelas notas de Schumann que ele pretendia também nos concertos reformular a sua concepção dando-lhes uma maior unidade. Essa é uma das razões porque  que tal como na quarta sinfonia de que vos falamos ontem os três andamentos são tocados sem interrupção entre eles.

O concerto foi estreado no dia 23 de Abril de 1860 ou seja quase quatro anos após o falecimento do compositor. O solista foi Ludwig Ebert que interpretou a obra com a Großherzolighen Hofkapelle Oldenburg dirigida por Karl Franze.

Os três andamentos são:
  1. Não muito rápido (Lá Menor)
  2. Lentamente (Fá Maior)
  3. Muito Vivo (Lá Menor – Lá Maior)

Para vos ilustrar este concerto encontrei três grandes mestres do violoncelo em intepretações completas no You Tube. Em primeiro lugar Pablo Casals Pau Casals, com a Orquestra do Festival de Prades dirigida por Eugene Ormandy (uma gravação de 1953). Primeira Parte, Segunda Parte, Terceira Parte.

Depois Jacqueline Dupré (uma das professora do violoncelista finlandês de quem temos vindo a utilizar a análise), orquestra dirigida por Barenboim : Primeira Parte, Segunda Parte, Terceira Parte

E finalmente uma interpretação de Rostropovich com a Orquestra Nacional de França dirigida por Leonard Bernstein. Primeira Parte, Segunda Parte, Terceira Parte, Quarta Parte.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Robert Schumann - 4ª Sinfonia Op. 120 em Ré Menor

A quarta sinfonia de Schumann em realidade pela ordem de composição foi a segunda tendo sido composta em 1841 tendo sido inclusivamente interpretada em Dezembro desse mesmo ano em Leipzig. Porém a obra sofreu uma revisão profunda em 1851 razão pela qual Schumann sempre a considerou a sua quarta sinfonia apenas pensando ser válida a revisão que executou. Clara Schumann ela própria, provavelmente procurando defender a opinião do marido, também defendia a revisão indo até ao ponto de dizer que a primeira versão tinha apenas sido um esboço (o que manifestamente era falso como o demonstra a estreia que se verificou) mas também a publicação por Brahms (que preferia a primeira versão) desse primeiro suposto "esboço".

Na realidade a polémica não terminou nessa altura dado que muitos maestros preferem como Brahms a primeira versão sendo esta interpretada algumas vezes. A grande diferença para além da orquestração esta na estrutura da obra que Schumann na sua revisão tentou fazer mais "unificada",  mais continua. Passou assim de uma estrutura relativamente clássica em quatro andamentos da primeira versão para uma estrutura em cinco andamentos interpretados sempre em attaca (ou seja interrupção entre os mesmos) precisamente para criar uma sensação de unicidade.

Felizmente podemos ouvir as duas versões e tirar as conclusões por nós próprios. Assim para ouvirem a versão de 1851 (a que Karajan por exemplo intepretava sempre) podem ouvir no You Tube aqui:

Primeira parte, Segunda Parte, Terceira Parte (há também uma versão completa de Furtwangler para quem prefira).

A versão de 1841 podem-na ouvir em parte aqui numa interpretação da Filarmónica de Berlim conduzida por Simon Rattle. Se quiserem ouvir a interpretação toda como se estivessem em Berlim na altura podem fazer como eu e comprar o bilhete para ver o concerto online. Podem escolher ouvir o programa todo desse dia ou apenas esta sinfonia - neste ultimo caso são "apenas" €4 mas que em minha opinião valem a pena. Apontem nesse caso o vosso browser para aqui e sigam a instruções de registo e de compra.

Confesso-vos que estou a escrever este post e a ouvir esta versão da sinfonia e que estou a dar por muito bem empregues os meus €4. O problema vai ser agora resistir à tentação de ver outros que estão no arquivo ... Sim também dá para verem os concertos desta época (um concerto inteiro custa €9,90). Agora que já fiz o papel do diabo vou sair para outra música verde e branca ... esta época bastante desafinada :-)

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