Os instrumentos de sopro e as obras que lhe são destinadas têm sido um pouco sub-representadas neste blog. Os seus interpretes de excelência também pese embora a nossa biografia de Jean Pierre Rampal ou James Galway ou ainda a eleição do nosso Concerto para instrumentos de Sopro.
A Diapason deste mês felizmente ao recordar-me Maurice André vai permitir equilibrar um pouco a situação.
Maurice André nasceu em Alés a 21 de Maio de 1923 numa modesta família de mineiros. O seu pai no entanto sendo trompetista nas horas vagas cedo iniciou o jovem no instrumento sendo que o seu talento não deixou de se mostrar desde a mais tenra idade. Isso não evitou que quase falecesse num acidente nas minas onde teve de trabalhar desde os 14 anos até aos 18 anos.
O seu primeiro contrato profissional enquanto músico é num regimento de comunicações isto ainda antes de se inscrever no Conservatório de Paris onde é aluno de Raymond Sabarich. Rapidamente consegue estabelecer-se como um grande instrumentista sendo contratado pelas Orquestras Lamoureux, ORTF entre outras. Mas porque é preciso ganhar a vida (e também porque gosta de vários tipos musicais) não deixa de tocar com Trenet numa incursão na música popular que repetirá várias vezes ao longo da sua vida como inclusivamente toca em circos (sucedendo nesse particular ao seu professor).
A partir de 1955 com o Grande Prémio no Concurso de Geneve começa a estabelecer a sua carreira internacional enquanto concertista que viria a consolidar definitivamente com o prémio no concurso de Munique em 1963. Interpreta praticamente todas as obras do reportório sendo o responsável por restabelecer o instrumento enquanto instrumento para solista, tradição que se tinha perdido praticamente desde o século XVIII.
Faz-nos redescobrir uma grande parte do reportório barroco sendo que nesse particular há algumas obras como por exemplo o 2º Concerto de Brandenburgo (Bach) que se tornam quase "icons" do grande mestre (outros exemplos Telemann - Sonata em Ré ou o Concerto para Trompete e Cordas de Vivaldi).
A sua influência é de tal forma marcante que provoca literalmente a produção de uma quantidade apreciável de obras para os vários instrumentos de sopro que utilizava com maestria. Trabalhador incansável gravou com todos os grandes maestros do século XX numa discografia tão extensa que não é fácil encontrar discos que se possam destacar até porque abordava todos os seus compromissos com a mesma seriedade.
Talvez possamos recomendar o conjunto de 6 discos editados pela EMI que para além de todos os standards do barroco contém também algumas das transcrições que Maurice André gostava de interpretar como por exemplo Avé Maria ou Uma Lágrima Furtiva (da opera Elixir de Amor de Donizetti) assim como as suas incursões na música popular (La Vie em Rose ou Les Feuilles Mortes). Embora o disco esteja esgotado podem adquirir as músicas individualmente na Amazon em formato digital.
Maurice André guardou dos seus tempos de infância o valor do trabalho e da solidariedade. Guardou também a abertura de espírito que lhe fazia adorar outros tipos de música das quais a incursão pelo Jazz ficou para ultimo porque o extracto que vos mostro Manhã de Carnaval com Dizzy Gillespie demonstra uma das outras grandes características de Maurice André. O seu enorme sentido de humor e de humanidade.
Professor no Conservatório de Paris formou literalmente centenas de instrumentistas entre os quais Guy Touvron ele também concertista de renome internacional e autor da biografia de Maurice André intitulada "Une Trompette pour la renommée"
Desde 1990 retirado no País Basco francês (perto do porto de Bayonne) Maurice André deu o seu ultimo concerto em 9 de Outubro de 2008 na catedral de Beziers. Faleceu no passado dia 25 de Fevereiro de 2012.
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
domingo, 15 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Arturo Michelangeli - O Eterno Poeta do Piano e Scarlatti
Quando há uns dias publiquei este post sobre algumas das peças de Scarlatti estava longe de imaginar que a edição deste mês da Diapason me iria proporcionar uma interpretação de algumas das obras desse compositor pelo eterno poeta do Piano Arturo Michelangeli; uma das figuras mais enigmáticas da música do século XX.
Concertos raríssimos, gravações também não muito frequentes, um perfeccionista tão absoluto como Glenn Gould ou Richter com a diferença destes últimos que se o primeiro preferia as gravações aos concertos e o segundo os concertos às gravações Michelangeli tinha uma relação com o publico ainda mais difícil não gostando nem de uma forma nem de outra de exposição.
É famosa a frequência com que cancelava os seus concertos ao ponto de alguém ter um dia publicado num jornal especializado um anúncio dizendo: "Michelangeli e Horowitz disponíveis para um número ilimitado de cancelamentos". É famosa também a sua relação tempestuosa com os seus instrumentos - por vezes revestida de caracter rocambolesco como a apreensão dos mesmo por um cancelamento ou dividas de uma sua sociedade ou ainda o seu "afogamento" numa cave algures em Lyon entretanto inundada. As suas visitas à sede da Steinway em Berlim eram temidas pelos engenheiros pela sua capacidade em facilmente notar a menor falha na concepção dos instrumentos.
Todas estas histórias não eram mais do que o espelho de um maníaco da perfeição e contribuíram largamente para a construção de uma imagem mítica que ainda hoje perdura.
Mas dizia que no Disco deste mês a Diapason presenteia-nos com Chopin, Liszt, Bach, Albenitz e Scarlatti interpretados pelo grande pianista. Uma lista curiosa dado que Chopin foi um compositor que nem sempre foi interpretado por Michelangeli e de Bach escolheu-se uma transcrição da Chaconne. Essa escolha é aliás excelente dado que Michelangeli gostava de piano mas foi também um especialista em trazer para este instrumento algumas peças escritas originalmente para outros instrumentos. Esta Chaconne assim interpretada fica algo de notável (na transcrição de Busoni).
Quanto a Scarlatti podemos ouvir neste disco as obras K9, K11, K27 e K322.
Deixo-vos com a K27 em Si Menor ficando desde já prometida para breve uma incursão em Debussy o compositor preferido do pianista.
Concertos raríssimos, gravações também não muito frequentes, um perfeccionista tão absoluto como Glenn Gould ou Richter com a diferença destes últimos que se o primeiro preferia as gravações aos concertos e o segundo os concertos às gravações Michelangeli tinha uma relação com o publico ainda mais difícil não gostando nem de uma forma nem de outra de exposição.
É famosa a frequência com que cancelava os seus concertos ao ponto de alguém ter um dia publicado num jornal especializado um anúncio dizendo: "Michelangeli e Horowitz disponíveis para um número ilimitado de cancelamentos". É famosa também a sua relação tempestuosa com os seus instrumentos - por vezes revestida de caracter rocambolesco como a apreensão dos mesmo por um cancelamento ou dividas de uma sua sociedade ou ainda o seu "afogamento" numa cave algures em Lyon entretanto inundada. As suas visitas à sede da Steinway em Berlim eram temidas pelos engenheiros pela sua capacidade em facilmente notar a menor falha na concepção dos instrumentos.
Todas estas histórias não eram mais do que o espelho de um maníaco da perfeição e contribuíram largamente para a construção de uma imagem mítica que ainda hoje perdura.
Mas dizia que no Disco deste mês a Diapason presenteia-nos com Chopin, Liszt, Bach, Albenitz e Scarlatti interpretados pelo grande pianista. Uma lista curiosa dado que Chopin foi um compositor que nem sempre foi interpretado por Michelangeli e de Bach escolheu-se uma transcrição da Chaconne. Essa escolha é aliás excelente dado que Michelangeli gostava de piano mas foi também um especialista em trazer para este instrumento algumas peças escritas originalmente para outros instrumentos. Esta Chaconne assim interpretada fica algo de notável (na transcrição de Busoni).
Quanto a Scarlatti podemos ouvir neste disco as obras K9, K11, K27 e K322.
Deixo-vos com a K27 em Si Menor ficando desde já prometida para breve uma incursão em Debussy o compositor preferido do pianista.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Concerto e Passatempo
No próximo Sábado às 18:30 irei assistir a este concerto no São Luís. Como este blog praticamente nunca realizou qualquer passatempo e como parece que isso é uma espécie de prova de maioridade nesta blogosfera em que mesmo a interactividade se rende ao materialismo das prendas (digo isto meio a sério meio a brincar até porque sei que os fieis leitores deste blog não são assim :-)) subjugamos-nos hoje a esse rito iniciático e materialista e vamos oferecer dois bilhetes ao melhor comentário a este post. As submissões poderão ser feitas até à meia-noite de Sexta-Feira. Os resultados serão dados na manhã de Sábado. Os bilhetes serão entregues ao vencedor às 18h à frente do São Luís (protocolo a acordar com o vencedor).
O tema dos comentários é livre mas serão preferidos aqueles que façam referência ao programa do concerto ou aos seus interpretes. Para vos facilitar a vida (não deveria mas não resisto) posso dizer-vos que o programa inclui o 2º Concerto para Violoncelo de Haydn (Solista Paulo Gaia Lima) e ainda os Divertimentos de Mozart. Desvaloriza-se a lisonja ao autor do blog mas aprecia-se o enaltecer dos artistas e compositores ou das suas obras. Admite-se o humor e a critica da actualidade desde que relacionada com o tema que nos faz escrever por aqui.
Não se admirem se o comentário não aparecer de imediato (são moderados) . Todos os comentários que forem submetidos até às 24h de Sexta serão devidamente considerados.
E pronto agora dêem largas à imaginação e para isso obviamente nada melhor que um pouco de música! Para catalisar a vossa inspiração escolhi Jacqueline du Pré precisamente no primeiro andamento do referido concerto para Violoncelo.
O tema dos comentários é livre mas serão preferidos aqueles que façam referência ao programa do concerto ou aos seus interpretes. Para vos facilitar a vida (não deveria mas não resisto) posso dizer-vos que o programa inclui o 2º Concerto para Violoncelo de Haydn (Solista Paulo Gaia Lima) e ainda os Divertimentos de Mozart. Desvaloriza-se a lisonja ao autor do blog mas aprecia-se o enaltecer dos artistas e compositores ou das suas obras. Admite-se o humor e a critica da actualidade desde que relacionada com o tema que nos faz escrever por aqui.
Não se admirem se o comentário não aparecer de imediato (são moderados) . Todos os comentários que forem submetidos até às 24h de Sexta serão devidamente considerados.
E pronto agora dêem largas à imaginação e para isso obviamente nada melhor que um pouco de música! Para catalisar a vossa inspiração escolhi Jacqueline du Pré precisamente no primeiro andamento do referido concerto para Violoncelo.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Das Liede von der Erde - Mahler
Há determinados eventos na vida - verdadeiros acasos - que quase parecem mensagens do destino. Ontem ao ver a lista das 100 Obras por várias vezes olhei para a linha que dizia: Mahler - Das Liede von der Erde e pensei que dificilmente conseguiria uma obra mais adequada para este período Pascoal.
Hoje recebi da Filarmónica de Berlim o anuncio que uma versão desta obra adaptada para Orquestra de Câmara, mais intimista estava disponível no arquivo e podia ser ouvida pelo valor já acostumado de €10. A Orquestra é a da Academia da Filarmónica de Berlim criada por Karajan e que permite a jovens profissionais aprenderem e tocarem sobre a direcção dos melhores, neste caso a direcção é de Simon Rattle. Os solistas são Magdalena Kozena (Mezzo-Soprano) e Andrew Staples (Tenor).
Claro que assim era impossível resistir à tentação de ouvir esta interpretação e também de vos falar desta obra magnifica. Posso dizer-vos que enquanto escrevo estas poucas linhas estou precisamente a ouvir essa versão - um arranjo de Glenn Cortese.
A obra está dividida em 6 andamentos ou canções. Na verdade esta obra inaugura um novo estilo a fusão entre o ciclo de canções e a Sinfonia. Cronologicamente esta seria a nona Sinfonia de Mahler porém Mahler com receio da "maldição da nona" prefere não a numerar dessa forma tanto mais que do ponto de vista pessoal esta obra segue um período particularmente nefasto na vida do compositor que tinha acabado de perder uma filha e tido conhecimento de uma condição cardíaca congénita.
Nesse ano de 1907 Mahler lê o livro "A Flauta Chinesa" uma recolha de poesia chinesa traduzida para alemão por Hans Bethge e considera ter encontrado nessa obra o eco da sua mortalidade e do seu desajustamento com o universo, como se não pertencesse nem à Austria, nem à Alemanha, como se não fosse nem cristão nem judeu, nem maestro nem compositor, sempre rejeitado por todos os campos por não ser nem de um nem dos outros.
Mahler considerava esta obra como a mais pessoal de todas as que já tinha escrito até então. Tinha fortes dúvidas quanto à sua execução em público dado que a considerava talvez demasiado depressiva (o que para os padrões de Mahler era um feito). O compositor confessou estas dúvidas ao seu amigo Bruno Walter tendo nomeadamente perguntado-lhe como dirigiria o dificílimo ultimo andamento, dizendo em tom de anedota: "Tens de me dizer porque eu não sei ..." Na verdade a obra nunca foi interpretada em vida de Mahler tendo sido precisamente estreada por Bruno Walter em Munique em 1911. Aliás Bruno Walter está fortemente ligado a esta obra (para além da relação de amizade que tinha com o compositor) dado que também dirigiu a primeira gravação da mesma de 1936 com a Filarmónica de Viena numa Áustria prestes a ser engolida pelo Anchluss (gravação efectuada por altura da comemoração do 25º aniversário do falecimento do compositor). Penso que dizer "pessoal" era dizer pouco ...
As interpretações que utilizamos para ilustrar esta pungente obra não são da gravação de 1936 mas também são igualmente históricas não só porque mantêm a direcção de Bruno Walter mas também porque se tratam de gravações de 1952 também com a Filarmónica de Viena e com Kathleen Ferrier na altura fatalmente doente e que por essa razão empresta a toda a obra em especial ao ultimo andamento uma característica pessoal tão própria da obra.
O Primeiro Andamento - Das Trinklied vom Jammer der Erde - (A canção para beber à miséria da Terra). O poema é de Li Bai um poeta da dinastia Tang (que é alias o autor dos poemas de três outros andamentos) como veremos. Uma canção sobre a eliminação das dúvidas e do medo pelo alcool, nem que seja de forma temporária, facto claramente marcado pela consecutiva volta ao refrão: Negra é a Vida, é morte
O Segundo Andamento - Der Einsame in Herbst - (O solitário no Outono) é baseado no poema de Tchang-Tsi falando-nos na constante degradação da condição humana durante a vida.
[...]
O meu coração está cansado
e chegado a este belo local de descanso
Pois necessito repouso: Choro muito na minha solidão
O Outono dura há tempo demais no meu coração
Filho do amor, Nunca brilharás e secarás as minhas lágrimas amargas?
[...]
Das Liede von der Erde (Segundo Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952)
O Terceiro Andamento Von der Jugend ("da Juventude") é claramente falsamente chinês (ou seja pretende imitar a forma da música chinesa mas fá-lo voluntariamente num esquema ocidentalizado. Do poeta Li-Tai-Po quase que podemos imaginar a China ocidentalizada ...
Das Liede von der Erde (Terceiro Movimento) - Bruno Walter - Patzak (1952)
O quarto andamento Von der Schönheit ("da Beleza)
Das Liede von der Erde (Quarto Movimento) - Bruno Walter - Kathleen Ferrier (1952)
O quinto andamento Der Trukene im Frühling ("O bebado na Primavera)
Das Liede von der Erde (Quinto Movimento) - Bruno Walter - Patzak
O ultimo andamento Der Abschied (A despedida) dos poetas Mong-Koo-Yen and Wang-Wei é o mais longo dos seis e tem uma duração de 30 minutos aproximadamente (quase metade da obra). Na verdade este poema é uma longa despedida terminando com um diminuendo que se volatilisa na atmosfera com o solista repetindo "para sempre", "para sempre", "para sempre" ...
[...]
Não mais procurarei o horizonte longínquo
Meu coração está parado e aguarda a sua hora,
A bela Terra renasce e renova-se.
Em todos os lugares e para sempre o azul acende o horizonte
Para sempre, para sempre, para sempre, para sempre ...
[...]
Das Lied von der Erde (Sexto Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952) Primeira Parte
Das Lied von der Erde (Sexto Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952) Segunda Parte
Hoje recebi da Filarmónica de Berlim o anuncio que uma versão desta obra adaptada para Orquestra de Câmara, mais intimista estava disponível no arquivo e podia ser ouvida pelo valor já acostumado de €10. A Orquestra é a da Academia da Filarmónica de Berlim criada por Karajan e que permite a jovens profissionais aprenderem e tocarem sobre a direcção dos melhores, neste caso a direcção é de Simon Rattle. Os solistas são Magdalena Kozena (Mezzo-Soprano) e Andrew Staples (Tenor).
Claro que assim era impossível resistir à tentação de ouvir esta interpretação e também de vos falar desta obra magnifica. Posso dizer-vos que enquanto escrevo estas poucas linhas estou precisamente a ouvir essa versão - um arranjo de Glenn Cortese.
A obra está dividida em 6 andamentos ou canções. Na verdade esta obra inaugura um novo estilo a fusão entre o ciclo de canções e a Sinfonia. Cronologicamente esta seria a nona Sinfonia de Mahler porém Mahler com receio da "maldição da nona" prefere não a numerar dessa forma tanto mais que do ponto de vista pessoal esta obra segue um período particularmente nefasto na vida do compositor que tinha acabado de perder uma filha e tido conhecimento de uma condição cardíaca congénita.
Nesse ano de 1907 Mahler lê o livro "A Flauta Chinesa" uma recolha de poesia chinesa traduzida para alemão por Hans Bethge e considera ter encontrado nessa obra o eco da sua mortalidade e do seu desajustamento com o universo, como se não pertencesse nem à Austria, nem à Alemanha, como se não fosse nem cristão nem judeu, nem maestro nem compositor, sempre rejeitado por todos os campos por não ser nem de um nem dos outros.Mahler considerava esta obra como a mais pessoal de todas as que já tinha escrito até então. Tinha fortes dúvidas quanto à sua execução em público dado que a considerava talvez demasiado depressiva (o que para os padrões de Mahler era um feito). O compositor confessou estas dúvidas ao seu amigo Bruno Walter tendo nomeadamente perguntado-lhe como dirigiria o dificílimo ultimo andamento, dizendo em tom de anedota: "Tens de me dizer porque eu não sei ..." Na verdade a obra nunca foi interpretada em vida de Mahler tendo sido precisamente estreada por Bruno Walter em Munique em 1911. Aliás Bruno Walter está fortemente ligado a esta obra (para além da relação de amizade que tinha com o compositor) dado que também dirigiu a primeira gravação da mesma de 1936 com a Filarmónica de Viena numa Áustria prestes a ser engolida pelo Anchluss (gravação efectuada por altura da comemoração do 25º aniversário do falecimento do compositor). Penso que dizer "pessoal" era dizer pouco ...
As interpretações que utilizamos para ilustrar esta pungente obra não são da gravação de 1936 mas também são igualmente históricas não só porque mantêm a direcção de Bruno Walter mas também porque se tratam de gravações de 1952 também com a Filarmónica de Viena e com Kathleen Ferrier na altura fatalmente doente e que por essa razão empresta a toda a obra em especial ao ultimo andamento uma característica pessoal tão própria da obra.
O Primeiro Andamento - Das Trinklied vom Jammer der Erde - (A canção para beber à miséria da Terra). O poema é de Li Bai um poeta da dinastia Tang (que é alias o autor dos poemas de três outros andamentos) como veremos. Uma canção sobre a eliminação das dúvidas e do medo pelo alcool, nem que seja de forma temporária, facto claramente marcado pela consecutiva volta ao refrão: Negra é a Vida, é morte
O Segundo Andamento - Der Einsame in Herbst - (O solitário no Outono) é baseado no poema de Tchang-Tsi falando-nos na constante degradação da condição humana durante a vida.
[...]
O meu coração está cansado
e chegado a este belo local de descanso
Pois necessito repouso: Choro muito na minha solidão
O Outono dura há tempo demais no meu coração
Filho do amor, Nunca brilharás e secarás as minhas lágrimas amargas?
[...]
Das Liede von der Erde (Segundo Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952)
O Terceiro Andamento Von der Jugend ("da Juventude") é claramente falsamente chinês (ou seja pretende imitar a forma da música chinesa mas fá-lo voluntariamente num esquema ocidentalizado. Do poeta Li-Tai-Po quase que podemos imaginar a China ocidentalizada ...
Das Liede von der Erde (Terceiro Movimento) - Bruno Walter - Patzak (1952)
O quarto andamento Von der Schönheit ("da Beleza)
Das Liede von der Erde (Quarto Movimento) - Bruno Walter - Kathleen Ferrier (1952)
O quinto andamento Der Trukene im Frühling ("O bebado na Primavera)
Das Liede von der Erde (Quinto Movimento) - Bruno Walter - Patzak
O ultimo andamento Der Abschied (A despedida) dos poetas Mong-Koo-Yen and Wang-Wei é o mais longo dos seis e tem uma duração de 30 minutos aproximadamente (quase metade da obra). Na verdade este poema é uma longa despedida terminando com um diminuendo que se volatilisa na atmosfera com o solista repetindo "para sempre", "para sempre", "para sempre" ...
[...]
Não mais procurarei o horizonte longínquo
Meu coração está parado e aguarda a sua hora,
A bela Terra renasce e renova-se.
Em todos os lugares e para sempre o azul acende o horizonte
Para sempre, para sempre, para sempre, para sempre ...
[...]
Das Lied von der Erde (Sexto Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952) Primeira Parte
Das Lied von der Erde (Sexto Movimento) - Bruno Walter, Kathleen Ferrier (1952) Segunda Parte
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