domingo, 27 de maio de 2012

A música e o cinema

Já por várias vezes neste blog vos falei da importância da música no cinema. É aliás um dos temas preferidos de conversa com o meu filho como saberão os mais atentos. É curioso que muitas vezes a primeira coisa de que nós os dois falamos ao ver um filme é precisamente da sua banda sonora.

Vem isto a propósito de um ciclo na Cinemateca Portuguesa num tema escolhido, comentado e apreciado por Carlos Ponte Leça e que versa Vicente Minelli e a que certamente irei assistir. O ciclo inicia-se na próxima segunda-feira e decorre até sexta. Irei assistir com excepção da Segunda-Feira dado que por ser dia 28 tenho outros compromissos.

Sobre Carlos Ponte Leça e o próprio ciclo mais informações no site da Cinemateca Portuguesa. A não perder mesmo!

sábado, 26 de maio de 2012

Para acabar de vez com a cultura

Daniel Oliveira escreveu no publico desta semana um artigo intitulado Para acabar de vez com a cultura. Nada a ver com o livro homónimo de Woody Allen. Na verdade este artigo coloca o problema sério do desinvestimento na cultura no contexto de uma crise económica com as pseudo-soluções que nos têm sido repetidas ad-infinitum como se a sua repetição as tornasse verdadeiras. Há, creio, muitos admiradores de Pascal nos vários desgovernos por essa Europa fora.

Como sabem os leitores mais atentos deste blog tenho algumas dúvidas sobre a forma como deve o estado financiar a cultura. Essas dúvidas provêm da constatação que se por um lado como o autor afirma são fundamentais para assegurar a inovação (aliás consagrada na nossa constituição no artigo 73 da mesma como relembrei neste post) por outro lado a história mostra que o resultado do financiamento do estado não tem sido isento de resultados menos positivos precisamente naquilo que pretende assegurar. O acesso de todos à cultura, uma cultura diversificada e em que todos encontrem a sua forma de expressão.

No post em que exprimi as minhas dúvidas (que mantenho) perguntava se não haveria outra forma do estado assegurar essa liberdade? Em vez de o fazer pela oferta fazê-lo pela procura. Ou seja em vez de apostar simplesmente na produção investir também na educação e na criação de público. Porque não tenhamos dúvidas que se o cinema português, a música em Portugal, o teatro, etc ... mais fora do "comercial" tem pouco público isso se deve essencialmente a total inexistência de educação artística nas nossas escolas. Trata-se a cultura (com a eventual excepção da literatura e mesmo assim poderia discutir-se) como algo que não é essencial à formação do individuo.

Senão vejam, existe uma "cadeira" de música durante 2 anos com uma hora por semana, uma cadeira de artes visuais durante quanto tempo? E com que conteúdos? E depois disso? E como são essas matérias valorizadas no plano escolar? Começamos logo na escola a tratar da arte como algo secundário e dispensável face à matemática ou outras coisas mais sérias. Erro profundo. Não porque não seja importante a matemática mas porque na formação de um individuo a ausência do ensino da sua herança cultural conduz à ausência da identidade e a ausência de identidade conduz por sua vez à aceitação que tudo é igualmente relevante e bom.

Notem não peço que se faça um juízo de valor entre várias formas de expressão. A escolha do que "é bom" é uma escolha individual - tem de ser uma escolha individual. É precisamente essa liberdade de escolha que penso se queria consagrar na nossa constituição. Mas para existir liberdade tem de existir informação e conhecimento. E quando a maioria dos nossos cidadãos não sabe sequer quem foi, sei lá por exemplo Carlos Seixas, não posso dizer em consciência que essa liberdade está assegurada pelo lado da procura ... Seriam precisas décadas de investimento na educação para que os júris dos financiamentos pudessem ser dispensados e substituídos pelo juízo de um publico educado. Tenho dúvidas se funcionaria mas creio que é por aí que se poderá encontrar um justo equilíbrio.

Em resumo e por agora não haverá outro remédio senão exigir ao estado que assegure essa diversidade mesmo que seja para poucos. Há no tempo da internet uma forma de pelo menos começarmos a medir a nossa educação colectiva e sermos cada um de nós à nossa escala, pequenos mecenas privados. Não se esqueçam por isso precisamente a propósito deste tema de apoiarem a edição do novo disco de Luís Tinoco num excelente esquema de crowd founding. Já !!!! Do alvo de €3000 ainda só foram angariados €875 e só faltam 16 dias ...

domingo, 20 de maio de 2012

Giulio Caccini (1551-1618)


É um pouco aborrecido um compositor ser conhecido por aquilo que essencialmente não compôs. Esse é o caso de Caccini desde há uns anos sobretudo falado pelo "seu" Avé Maria que não passa de uma mistificação de Vladimir Vavilov compositor e interprete Russo que se especializou nesse tipo de actividade. Só para vossa referência aqui fica esse Avé Maria. Bonito mas não de Caccini embora curiosamente muitos interpretes, mesmo alguns que deveriam saber mais, continuem a persistir nessa atribuição.



Quanto a Caccini propriamente dito nasceu a 8 de Outubro de 1551 em Roma tendo falecido a 10 de Dezembro de 1618 em Florença. Foi uma das bases da passagem da Renascença para o período barroco tendo participado na consolidação do estilo monódico. Tal como Emilio de Cavalieri reclamava para si essa invenção (como veremos procurou mesmo demonstrá-lo).

A sua obra mais significativa terá sido uma colecção de madrigais que intitulou "Le nuove musiche" publicada em 1602 e dedicada a Lorenzo Salviati. Na tentativa de reclamar a invenção deste novo estilo de música Giulio Caccini datou esta dedicatória com a data de 1601 porém não é certo que esta data esteja efectivamente correcta.

Deste conjunto de madrigais fazem parte Amarilli mia bella porventura o mais conhecido (não percam a interpretação de Cecilia Bartoli que seleccionei) ou ainda Amor Io Parto (neste caso interpretado por Montserrat Figueras).







Polémicas à parte Caccini faz parte com Peri, Cavalieri de um conjunto de compositores que contribuíram para a "invenção" da música como hoje a entendemos. Em todo o caso os exemplos que vos deixo devem ser suficientes para vos convencer da excelência do compositor porque são efectivamente belíssimas.

Dick Horowitz a Met Opera Orchestra a percussão e os percussionistas

Muitas vezes brincamos de forma carinhosa claro com o papel dos percussionistas numa orquestra. Dizemos que "aquilo" também nós saberíamos fazer ou então contamos o número de notas que tocam. Brincadeiras injustas claro porque sabemos que não só são elementos indispensáveis como são na maioria dos casos instrumentistas extraordinariamente versáteis.

Vem este post restabelecer alguma justiça e remeter as brincadeiras anteriores para a categoria das brincadeiras parvas (são boas mas são parvas, não pretendo que terminem apenas que tenham noção que são efectivamente isso mesmo - brincadeiras).

Foi através do blog de Alex Ross que tivemos conhecimento que Dick Horowitz o percussionista da Met Opera Orchestra se iria retirar no final desta época após 66 anos de carreira. Sim leram bem, 66 anos! Começou em 1946 com Lakmé e se ouvirem e virem o video vão perceber que poderão ter sido mais de 10.000 espectáculos nestes 66 anos. Não sei se terão sido tantos, esse número pode ser também uma brincadeira, o que é sem dúvida verdade é a linda homenagem que a Direcção da Metropolitan Opera Orchestra fez.

Chamou o músico ao palco e explicou qual o seu papel enquanto instrumentista ao longo destes 66 anos. Contou que instrumentos tinha ajudado a aperfeiçoar e realçou o seu papel enquanto fabricante de batutas (uma das quais a propósito foi enterrada com Bernstein). Grande homenagem e é lindo ouvir o aplauso do público.

Este exemplo é relevante não só pelo respeito que demonstra por um naipe de instrumentos normalmente negligenciado e alvo das nossas brincadeiras mas também pelo enorme sentimento de apreço pela experiência que revela. Essa valorização da experiência e da respectiva idade associada é algo que deveriamos interiorizar na nossa actual escala de valores com a excessivo e desproporcionada beatificação da juventude e do talento estilo farinha amparo, perdoem a expressão.

Celebremos assim os percussionistas e a experiência e sugiro que sigamos este exemplo. Na importância que devemos dar aos que nos parecem (injustamente) acessórios e aos que nos parecem (estupidamente) velhos demais para entender ou serem relevantes. E sim, antes que me perguntem isto é uma indirecta a algumas outras áreas.

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