segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Um procedimento artístico num aeroporto perto de si !

Num post no Facebook hoje o violinista João Andrade deu-nos conta de um procedimento que vamos qualificar como artístico pelos seguranças do aeroporto. Nota de rodapé prévia: Não na fotografia não é o João é outro violinista em outro aeroporto noutro continente. Neste caso pedia casamento à namorada (a rapariga de costas em amarelo) ... enfim um caso diferente de segurança a avaliar em outro post.

Em resumo ao passar pelos seguranças que fazem a verificação da bagagem que se leva na cabine pediram ao João que tocasse alguma coisa. Este procedimento leva-nos de imediato a uma série de conjunturas que talvez fosse prudente averiguar para nos precavermos quanto à segurança nos aeroportos.

Primeira conjuntura: O João escolheu tocar Bach e apesar de (segundo confissão própria) ter apenas interpretado três compassos seguidos de notas aleatórias o processo foi dado por terminado e o João pode seguir com o seu instrumento. Terá sido a escolha do compositor relevante? Vamos supor que em vez de Bach o João tivesse escolhido. sei lá Ysaÿe ou ainda "pior" um compositor claramente revolucionário e não germânico ? Teria sido o resultado idêntico? Existirá nos seguranças uma competência estética ou uma lista do tipo : Bach ou Vivaldi (com excepção do concerto em Lá Menor :-)) sim mas por exemplo Beethoven (perigoso revolucionário) não? E se o João tivesse tocado como lhe sugeriram num dos comentários "Grandola" ? Teria recebido um convite imediato por telefone para ser o próximo ministro da cultura em Portugal?

Segunda conjuntura: Será que os seguranças têm noção que um violino mal tocado é efectivamente uma arma perigosa? Estou a ver o terror dos passageiros a receberem a noticia de um dos passageiros já em pleno voo : "Bem aproveitando este longo voo de três horas vou dar-vos o prazer de poderem ouvir a minha primeira tentativa de interpretação consecutiva do Moto Perpetuo que acabei de aprender. Vão ver como é bom". Palpita-me que após 15 minutos contrariando todas as normas internacionais o "instrumentista" conseguiria provavelmente desviar o avião para onde lhe aprouvesse. Enfim não tão letal como a famosa anedota mortal dos Monty Phyton mas fica lá perto,

Terceira Conjectura: Será que após este incidente as aulas de violino em territórios potencialmente perigosos estão a ser devidamente monitorizadas? É que estão a ver os narcotraficantes e terroristas a aprenderem este truque? Eu bem que achei esquisito alguns anúncios que tenho visto recentemente oferecendo palácios a professores de violino. Achei que eram obras beneméritas agora está tudo explicado. Será que os satélites espiões têm agora na sua lista de alvos as escolas de violino? Será que a NSA agora também ouve os posts colocados no You Tube por supostos alunos de violino?

Quarta Conjectura: Três compassos João? A tua sorte é que em três compassos de Bach pode estar o mundo inteiro.

E pronto com esta conversa toda - que vos escrevi ao som de Bach claro - só vos posso deixar com o dito cujo. Fosse este um post de culinária e diria algo do tipo: Bach com Arroz do mesmo, não sendo ficará ainda assim numa pequena liberdade poética: Posta de Bach com Partita do mesmo!

Shinichi Suzuki - Verdade ou mentira ? A única certeza é o mau jornalismo

Em Janeiro de 2009 contava-vos a história do homem que democratizou o ensino de um instrumento e provavelmente inspirou dezenas de outros a fazerem o mesmo, neste artigo sobre Shinichi Suzuki (1898-1998).

Esta semana leio no dia 25 de Outubro este artigo do teoricamente insuspeito Telegraph. O meu primeiro comentário relativamente a esta noticia é que fica provado que o problema do mau jornalismo não se encontra limitado a Portugal. E explico a razão deste meu comentário que me perdoem os meus amigos jornalistas (e são alguns).

O problema com este artigo é que se coloca ao serviço dos que sempre atacaram o método desta vez colocando em causa o passado do Suzuki como se isso justificasse de alguma forma o mérito ou demérito do método quando nada no que é ensinado hoje em dia depende efectivamente desse passado. Ou seja nem sequer quero por em causa a veracidade ou falsidade da fonte citada, o facto é que se se utiliza esse argumento para colocar em causa a validade do método então diria eu que já que o infeliz japonês já não se pode defender caberia ao jornalista tentar perceber se realmente o facto relatado influi ou não no que é ensinado. Não o fazendo está a prestar um péssimo serviço.

Deixem-me assim resolver o problema por ele (Telegraph desde já fica concedida a autorização para utilizarem este texto se assim desejarem).

Como dizia em 2009 a polémica relativamente ao método sempre existiu. Sempre os puristas acusaram o mesmo de produzir autómatos sem sensibilidade musical nenhuma e sempre existiram várias teorias sobre os danos futuros do mesmo - ou seja quem por ele aprendesse seria incapaz de mais tarde interpretar correctamente e seguir profissionalmente uma qualquer carreira enquanto violinista.

O método baseia-se na repetição mas não é verdade que seja necessário começar aos 5 anos ou menos. Pode-se começar mais tarde e até pode ser utilizado em adultos. É um método que se foi aperfeiçoando e que nas suas versões mais recentes incorpora muitas das técnicas clássicas sobretudo a partir de um nível em que efectivamente isso faz sentido. É um método que essencialmente elimina as dificuldades dos primeiros passos tornando a aprendizagem menos solitária (através de aulas de grupo regulares) e menos competitiva (incentivando a colaboração entre alunos). É um método que procura resolver no caso do Violino a relação com o instrumento numa posição pouco natural. Não é a única forma de começar? Não, não é. Será a melhor? Não sei. Mas sei que, por ter experimentado a forma clássica, pelo menos pior não será.

Sei também que todas as afirmações quanto aos vícios introduzidos são falsas. E sei-o por vários exemplos que conheço. E note-se que o método não tem por pretensão criar profissionais e que muitas vezes as crianças ou adolescentes que o querem fazer após a fase de iniciação passam a utilizar métodos mais clássicos - sem qualquer problema.

Em resumo a história de vida de Shinichi Suzuki pode até ter sido diferente da que ele contou. Não é por isso que não deixou de verdadeiramente ter inventado uma forma diferente e eficaz de democratizar o ensino do violino. Colocar num titulo de um artigo "Violin teacher Suzuki is the biggest fraud in music history, says expert" é simplesmente péssimo jornalismo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Shostakovich - Concerto para Violino nº1 em Lá Menor (Op. 77)

Pode hoje parecer estranho de uma obra abstracta (e voltamos ao tema de ontem) mas a verdade é que este concerto não foi interpretado durante mais de 10 anos devido ao receio do compositor que o mesmo fosse julgado revisionista pelo regime de Estaline e literalmente condenasse o compositor à morte (e literalmente é mesmo literalmente).

A verdade é que o concerto foi composto pouco após a segunda guerra mundial entre 1947 e 1948 tendo apenas sido estreado a 29 de Outubro de 1955 tendo por solista David Oistrakh a quem a obra tinha sido dedicada e que colaborou intensamente com o compositor em várias alterações e revisões. A honra da direcção de Orquestra coube a Yevgeny Mravinsky que dirigiu a Filarmónica de Leninegrado. O concerto foi muito bem recebido sendo que a história ainda lhe haveria de conceder mais um papel.

As relações entre os Estados Unidos e a Russia estavam a conhecer em 1953 (consequência eventual da morte de Estaline em 1953) um bom período tanto que Oistrakh foi autorizado a fazer uma tournée aos Estados Unidos onde iria tocar com algumas orquestras americanas que se disputaram o privilégio de estrear - precisamente este concerto para Violino. Essa interpretação foi transmitida pela rádio e gravada sendo neste momento possível ouvir um extracto de cerca de 4 minutos no site dos Arquivos da Filarmónica de Nova Iorque (o final e o inicio do aplauso final). Orquestra dirigida por Dimitri Mitropoulos. O programa dessa série de concertos está disponível sendo interessante a dscrição que faz da obra e que seguimos de seguida. Notem em primeiro lugar que tanto neste programa como em muitas outras referências este concerto é numerado como sendo o Opus 99. Isto tem por causa obviamente o tempo decorrente entre a composição e a publicação e interpretação. Shostakovich em vida preferiu não arriscar e conservadoramente manteve essa numeração. Musicalmente faz muito mais sentido incluir este concerto com uma numeração mais próxima da original.

O concerto rompe com a tradição clássica do concerto ao ter sido concebido em quatro andamentos (em vez dos tradicionais três).


1º Andamento Nocturne: Moderato – Um discurso baseado em dois temas, um lamento em que por vezes paira Beethoven por outras Mahler. Um andamento numa forma de Sonata muito modificada quase livre. Um andamento que cresce de um lamento para um "grito"dramático num crescendo que não vos deixará indiferentes. Aliás posso dizer-vos que foi exactamente este concerto e este andamento que um dia na Gulbenkian há uns anos me fez mudar de opinião de forma radical relativamente a Schostakovich.

2º Andamento Scherzo: Allegro – Neste andamento pela primeira vez podemos ouvir o motivo DSCH embora de forma quase ocasional. Esta parte da composição caracteriza-se por um ritmo verdadeiramente frenético sendo muitas vezes apelidado de "diabólico".

3º Andamento Passacaglia: Andante – Cadenza (attacca) – Talvez o andamento mais conhecido do concerto e aquele que permite ao solista uma maior expressividade. O andamento termina com uma condução directa ao ultimo andamento (é esse o significado da expressão "attacca" mecanismo utilizado para manter o ambiente criado).

4º Andamento Burlesque: Allegro con brio – Presto – Um andamento também muito rítmico como aliás uma grande parte do concerto uma verdadeira dança campestre porém com o acido tipico de Schostakovich.

Sendo a obra dedicada a David Oistrakh obviamente apenas poderíamos recomendar uma interpretação deste violinista. A que vos mostramos de 1956 não está disponível da sua totalidade (embora exista uma gravação em disco da mesma e uma gravação feita em estúdio no dia seguinte) mas felizmente podemos encontrar um magnifico vídeo de um concerto em Berlim (1967) com Oistrakh e a Staatskapelle Berlin dirigida por Heinz Fricke.




sábado, 25 de outubro de 2014

A melhor pesquisa da semana - nº1 de 2014 - "Os sentimentos expressos nas sinfonias de Beethoven"

"Os sentimentos expressos nas sinfonias de Beethoven"

Esta é uma boa pesquisa e uma boa questão porque a sua resposta pode ser dada de muitas formas diferentes. Uma das características de uma boa pergunta !

A primeira resposta que pode ser dada é que as Sinfonias de Beethoven são tão grandes quanto a vida. Os sentimentos expressos são nem mais nem menos que todos os que passam por todos e cada um dos seres humanos que existem ou existiram.

Ou então pelo menos eles exprimem os sentimentos de quem as ouve. Serão uma espécie de camaleões reflexivos à anteriori ou à posteriori. Em cada uma das obras de Beethoven poderemos ouvir um reflexo, uma imagem dos nossos sentimentos.

Ora bolas estarão a resmungar. Não é nada disso que o leitor está a perguntar. O que o leitor está a perguntar é "Que significado quis o compositor dar a cada uma das suas sinfonias ou aos andamentos que as compõem". Curiosamente apesar das aparências era essa a questão a que estava a responder.

Para vos explicar porquê terei que relembrar a velha questão sobre a música programática versus musica abstracta. A maioria das obras de música clássica são puramente abstractas ou então têm intenções enunciadas pelos compositores mas que são na maioria dos casos intenções expressas de forma abstracta e portanto susceptíveis de serem lidas de outra forma.

A música programática explicita com excepção das obras onde existe uma componente cantada com lírica é rara. Existem excepções como a Sinfonia Fantástica de Berlioz ou as Quatro Estações de Vivaldi porém mesmo estas na verdade fossem as notas programáticas perdidas e poderíamos muito bem achar que se tratam de obras com intenções totalmente diversas.

Por outras palavras, claro que é útil lerem os textos explicativos que vos entregam no inicio dos concertos ou que publico aqui. Dão à obra um contexto que vos permite uma interpretação diferente mas mais importante do que o conhecimento é sem dúvida é a vontade de ouvirem música. Qualquer música que vos agrade sem grande preocupação pelo que é "suposto" sentir ou exprimir. Seja o que for que sentirem estará correcto.

Tomem como exemplo o Adagio da Sétima Sinfonia de Beethoven com o qual vos deixo. Dificilmente encontrarão um excerto mais pungente e que mais facilmente desperta as mais diferentes emoções: alegria, tristeza, saudade e os mais opostos sentimentos: amor, ódio, calma ou paixão. Pouco importa. O que importa mesmo são os 9 minutos sublimes que podemos repetir tantas vezes quantas quisermos porque nunca são iguais. Como um camaleão reflexivo a obra exprime o que não conseguimos dizer ou apurar.

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