Passaram-se dois anos entre a estreia da ópera Lady Macbeth of the Mtsensk District em 1934 (aliás com considerável sucesso) até ao ano de 1936 em que surgem vários ataques a Schostakovich em particular um artigo intitulado "caos em vez de música".
Quando o Politburo vem ver a estreia da obra no Bolschoi (incluindo o próprio Stalin) Schostakovich também está na assistência tendo sido avisado por amigos de que o deveria fazer. Horrorizado o compositor percebe que Stalin detesta a obra. Note-se que estes dois factos correspondiam na altura a uma pena de morte (e isto não é uma metáfora artística, estamos a falar da efectiva eliminação física do compositor). Não admira assim que Schostakovich receie a partir desse momento Stalin e recear será certamente um eufemismo, pavor ou terror seria possivelmente mais adequado.
Facto é que os críticos que tinham aplaudido a ópera rapidamente se retractaram dizendo que não tinham reparado nas óbvias falhas da ópera sendo igualmente facto que o rendimento de Schostakovich desceu consideravelmente. As poucas oportunidades que apareciam eram para obras de propaganda ...
Schostakovich aplicava-se a sério nestas obras e de certa forma isso poderá ter-lhe literalmente salvo a vida. A resposta oficial do compositor deu-se com a Quinta Sinfonia que por isso é por vezes também apelidada "A Resposta Criativa de um artista soviético justamente criticado". A sinceridade como que Schostakovich se terá retractado e respectiva polémica associado merecerá obviamente um post. Por agora ficamos apenas com a música.
A Quinta Sinfonia representou uma reabilitação parcial e permitiu a Schostakovich respirar um pouco mais tranquilamente tendo igualmente iniciado a compor música de câmara de forma mais sistemática forma que também lhe permitia explorar outras ideias, como dizer mais "formalistas" ... Um bom exemplo desse trabalho é o Quarteto nº1 em Dó Maior (Op. 49 de 1938).
Outro bom exemplo é o Op. 57 - Quinteto para Piano em Sol Menor (1940) (este extracto vale a pena ser ouvido dado que no Piano está Marta Argerich, no primeiro violino Joshua Bell e no violoncelo Maisky). Aliás este quinteto vale-lhe o seu primeiro prémio Lenine consolidando de certa forma a reabilitação. Dizemos de certa forma porque pelo meio houve uma Sexta Sinfonia recebida friamente.
Pouco depois a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas vê-se envolvida na segunda guerra mundial apesar do pacto Germano-Soviético. Começa então em Leninegrado a composição da Sétima Sinfonia e o próximo post desta série ...
A única música que precisa de embalagem é a música de plástico.
sábado, 17 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Tiago Cabrita - Duas Peças
Os que conhecem este blog sabem que a música contemporânea não é de forma geral "my cup of tea" mas ultimamente tenho estado aos poucos a mudar de percepção embora existam coisas que continuo sem conseguir ouvir ...
Serve este preâmbulo para vos propor (porque gostei) duas obras de um jovem compositor português, Tiago Cabrita, ambas interpretadas por músicos portugueses. Não consigo definir com total certeza qual das duas prefiro embora caso tivesse mesmo que escolher talvez me inclinasse para AntiClockwise interpretada por Artur Mouradian na Eliminatória do Prémio Jovens Músicos, Violino Nível Superior (aliás sobre este prémio voltaremos a falar em breve com uma proposta de uns dias bem passados).
A outra obra Rasgo de Melodia que vos proponho é interpretada por um quarteto composto por Isa Antunes (Piano), Mariana Pinto (Violino), Bárbara Pires (Viola) e Mariana Lobo Fernandes (Violoncelo).
Fiquem portanto com música portuguesa, feita por músicos portugueses neste regresso do vosso escriba que se pretende regular daqui em diante.
Serve este preâmbulo para vos propor (porque gostei) duas obras de um jovem compositor português, Tiago Cabrita, ambas interpretadas por músicos portugueses. Não consigo definir com total certeza qual das duas prefiro embora caso tivesse mesmo que escolher talvez me inclinasse para AntiClockwise interpretada por Artur Mouradian na Eliminatória do Prémio Jovens Músicos, Violino Nível Superior (aliás sobre este prémio voltaremos a falar em breve com uma proposta de uns dias bem passados).
A outra obra Rasgo de Melodia que vos proponho é interpretada por um quarteto composto por Isa Antunes (Piano), Mariana Pinto (Violino), Bárbara Pires (Viola) e Mariana Lobo Fernandes (Violoncelo).
Fiquem portanto com música portuguesa, feita por músicos portugueses neste regresso do vosso escriba que se pretende regular daqui em diante.
domingo, 4 de setembro de 2011
Protestos no Concerto da Filarmónica de Israel nas Proms
O concerto da Orquestra Filarmónica de Israel nas Proms que teve lugar no passado dia 1 de Setembro foi interrompido por protestos de membros da audiência simpatizantes da causa Palestiniana. Podem ver um extracto desses protestos aqui.
Embora considere perfeitamente legitimo que essas pessoas protestem fora da sala - a Orquestra Filarmónica de Israel podendo ser tomada como uma bandeira, um símbolo do referido estado - já a manifestação dentro da sala me parece ir contra o principio democrático de que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros, e todos os outros escolheram ouvir a Orquestra ...
Não se trata de defender uma espécie de "santidade" da música apenas o simples respeito pela escolha individual dos milhares de pessoas que tinham adquirido um bilhete para ouvir aquele concerto.
A este propósito não posso obviamente deixar de lembrar Barenboim e o seu discurso no Knesset que vos repetirei sem dúvida mais vezes e que subscrevo inteiramente. Apenas a paz e a não violência podem ser respostas válidas às tentativas de solução pela força.
É verdade que a história também nos ensinou que quando alguém diz que nos quer eliminar é bom que acreditemos no que diz, mas a mesma história também nos ensina que a força deve ser dirigida apenas e unicamente contra quem verdadeiramente nos ameaça e não contra moinhos de vento e inocentes ... sobre o risco de gerar ainda mais violência ...
domingo, 28 de agosto de 2011
Luis de Freitas Branco - Concerto para Violino
Como vos tinha recomendado ontem fui ouvir pela primeira vez ao vivo o Concerto para Violino de Luís de Freitas Branco (embora na sua adaptação para Violino e Piano). Em primeiro lugar tenho de vos dizer que gostei da interpretação do jovem violinista, não se trata de uma obra fácil de interpretar quer tecnicamente quer musicalmente e o Artur soube transmitir a intensidade dramática da obra.
Este concerto foi composto em 1916 numa altura de grande instabilidade no país - note-se que apenas 6 anos antes tinha caído a monarquia e nesse mesmo ano se decidia a entrada do país na primeira guerra mundial. Curiosamente este concerto viria a ser estreado apenas em 1940 mais precisamente no dia 25 de Abril desse ano sendo solista Francisco Benetó e Pedro de Freitas Branco dirigindo a Orquestra da RDP.
Sobre a obra propriamente dita quem conhece César Frank não deixará de reconhecer fortes influências do compositor tanto na forma como no tipo de melodia que lembra um pouco a Sonata para Violino e Piano do referido compositor. Na forma porque tal como em Frank existe uma construção cíclica com temas que voltam transformados transmitindo uma sensação de unidade de que gosto particularmente. Há na verdade temas que são utilizados em todos os 3 andamentos que seguem uma estrutura clássica rápido-lento-rápido.
Não encontrei nenhuma interpretação completa no You Tube no entanto proponho-vos uma interpretação do primeiro andamento numa das gravações que conheço da Numérica com Vasco Barbosa como solista e a Orquestra da RDP dirigida por Silva Pereira. O Segundo Andamento fica a cargo da Orquestra Sinfónica UANL dirigida por José Ferrreira Lobo sendo solista Emanuel Salvador. A outra gravação que conheço é da Orquestra da Extremadura dirigida por Jesús Amigo sendo solista Alexandre da Costa.
Este concerto foi composto em 1916 numa altura de grande instabilidade no país - note-se que apenas 6 anos antes tinha caído a monarquia e nesse mesmo ano se decidia a entrada do país na primeira guerra mundial. Curiosamente este concerto viria a ser estreado apenas em 1940 mais precisamente no dia 25 de Abril desse ano sendo solista Francisco Benetó e Pedro de Freitas Branco dirigindo a Orquestra da RDP.
Sobre a obra propriamente dita quem conhece César Frank não deixará de reconhecer fortes influências do compositor tanto na forma como no tipo de melodia que lembra um pouco a Sonata para Violino e Piano do referido compositor. Na forma porque tal como em Frank existe uma construção cíclica com temas que voltam transformados transmitindo uma sensação de unidade de que gosto particularmente. Há na verdade temas que são utilizados em todos os 3 andamentos que seguem uma estrutura clássica rápido-lento-rápido.
Não encontrei nenhuma interpretação completa no You Tube no entanto proponho-vos uma interpretação do primeiro andamento numa das gravações que conheço da Numérica com Vasco Barbosa como solista e a Orquestra da RDP dirigida por Silva Pereira. O Segundo Andamento fica a cargo da Orquestra Sinfónica UANL dirigida por José Ferrreira Lobo sendo solista Emanuel Salvador. A outra gravação que conheço é da Orquestra da Extremadura dirigida por Jesús Amigo sendo solista Alexandre da Costa.
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